sexta-feira, 3 de maio de 2013

Os Meus Versículos Satânicos: mAO90ismo




Em vésperas do Dia da Língua Portuguesa, que ao que parece será dia 5 de Maio, que este ano, também é dia da Mãe, venho falar-vos das semelhanças em pensamento entre o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) e uma qualquer Religião. Porquê religião? É simples. Depois de tanto argumento lógico e racional, ou mesmo técnico, contra o AO90, e mesmo perante a evidência de que entre 60% a 70% dos portugueses estão em desacordo com o alegado acordo, é preciso ter muita fé nos dogmas do AO90 para continuar a insistir na sua validade (seja de que perspectiva for) e persistir no erro da sua implementação! Apenas uma fé cega e dogmática pode levar a tamanha arrogância e inconsciência. Qual o seu deus? Dou-vos uma pista: “In God we trust”. Dou o nome de mAO90ismo (leia-se mau-noventa-ismo) a esta nova e interesseira crendice, que como sempre muitos, mesmo entre os cultos e inteligentes, ilude. Tal é também próprio das religiões.
Para os que não me lêem regularmente, uma pequena introdução aos prós e contras deste acordo é imperativa. Deixo aqui também, caso queiram ler ou reler, os meus posts prévios sobre o Acordês:





Todos os argumentos a favor são facilmente destruídos (como procurarei demonstrar de seguida e de forma resumida):

- há que uniformizar o Português para o podermos usar como língua de trabalho internacional e obter esse reconhecimento das Nações Unidas (NU). Falso, o inglês é efectivamente língua de trabalho internacional e nunca teve de se sujeitar a isso. Por outro lado, é facilmente provado que o AO90 não uniformiza a língua, apenas a torna mais pequena, mais restringida e mais ambígua. Reparem nestes dois exemplos que os brasileiros continuarão, segundo o AO90, a escrever como nós escrevíamos antes do AO90 mas nós temos que remover consoantes alegadamente mudas… isto é uniformizar?
Por outro lado, o inglês impõe-se como língua de trabalho internacional essencialmente por duas razões: é fácil de aprender e é a língua de algumas das maiores potências e economias do mundo industrializado;

- temos de tornar a língua mais ágil e fácil, aproximando a escrita da oralidade. Impossível em termos práticos, visto que só em Portugal há uma enorme disparidade de pronúncias e sotaques, quanto mais em todos os PALOPs. Por outro lado, o AO90 vem afastar-nos desse objectivo. Sendo que os brasileiros fecham vogais enquanto nós abrimos (exampli gratia: yóga em Portugal, yôga no Brasil), em geral, é impossível termos a mesma acentuação nas palavras que os nossos irmãos de Além Mar, se o objectivo for mesmo aproximar a oralidade da escrita. Quanto à questão de o AO90 aproximar a pronúncia da escrita, reparem neste excerto, proveniente desta fonte (http://networkedblogs.com/KhcrK):
«Assim, não é por má vontade ou deficiência que um português lerá “ef”tivo” quando lhe põem à frente a palavra “efetivo”, palavra que um brasileiro lerá como “êfétjivo”. Isto é simples, muito simples, e qualquer criança percebe. Já“efectivo” obriga um português, pela presença do C antes do T, a abrir o E mesmo que o C não se “ouça” na fala. Não é uma regra arbitrária: é, além do respeito pela etimologia, pela raiz da palavra (do latim ‘effectívu’, ou “activo que produz”), o respeito pelo sistema vocálico próprio do português europeu.»
Quanto a tornar a língua mais ágil e fácil de aprender, a língua inglesa deve ser a língua mais fácil de aprender como segunda língua e tem os “p” e “c” na sua ortografia. Quando nós também os tínhamos, eu ainda tenho, era mais fácil dominarmos a ortografia inglesa. Pelos vistos, a mania da modernice apressada e às cegas já começa a dar problemas, como constata aqui um professor que diz que os alunos já começam a escrever em inglês sem “c” e “p”, id est projet em vez de Project.
Não só não nos deu facilidade em aprender a nossa própria língua, pois fica ambígua e não há regras que não estejam cheias de excepções absurdas neste AO90, ou seja não há lógica para as crianças seguirem, como ainda conseguiu tirar-nos a nossa facilidade em migrar para a ortografia inglesa cuja raiz etimológica é muito próxima da nossa.

- precisamos que a língua evolua e tal evolução só se pode fazer via acordos ortográficos. Falso, até agora a língua estava a evoluir a 8 frentes, sendo que agora está em ampla repressão (ou quiçá mesmo regressão) evolutiva. A evolução, comprova-se pela mera observação da natureza, beneficia da diversidade e não da falta dela. O Acordo Ortográfico não é Selecção Natural (que seria a evolução ortográfica por força da oral) nem Artificial (a influência de outras línguas e termos novos no vocabulário da língua, como linkar ou googlelar), é uma adaptação para as Letras das absurdas leis da Eugenia. Se olharmos para os exemplos históricos, tipo o latim, percebemos que a evolução natural duma língua falada por povos diferentes é desaparecer, convertendo-se nos seus muitos descendentes. Exempli gratia, o Latim, que originou o inglês, o francês, o português, o castelhano, o italiano, o romeno, etc… e desapareceu enquanto língua viva;


- o argumento dos números: os brasileiros são às centenas de milhões pelo que temos de nos juntarmos a eles ou cair. Falso, por vários motivos: 1) o povo brasileiro também não quer este acordo para nada, nem o pediu ou foi chamado a debater sobre a sua implementação:
TAMBÉM HÁ REVOLTA PURA CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO:

TAMBÉM SE DÚVIDA DAS MOTIVAÇÕES OCULTAS POR DETRÁS DESTE ACORDO:
E FINALMENTE TAMBÉM HÁ QUEM ACHE QUE NADA SE GANHA COM O AO90, QUE É UMA MÁ IDEIA, QUE SABE OS ARGUMENTOS CONTRA, MAS QUE POR ACHAR QUE NADA HÁ A FAZER BAIXA OS BRAÇOS E NÃO LHE RESISTE:
Só mais uma, desta volta só áudio (link abaixo):
E LÁ PELA ÁFRICA TAMBÉM NÃO ESTÃO MUITO PELOS AJUSTES COM O AO90, NÃO SENHOR:


Bem como cá, desd’as ruas até aos poleiros políticos se resiste, como ilustra a seguinte imagem:

E o debate, o confronto, é mantido vivo:
Cidadãos da Língua Portuguesa sentem-se assaltados pelo Acordo Ortográfico(link)
É preciso, portanto, diferenciar a vontade dos povos da vontade dos políticos que os representam e que, por vezes, quando têm essa possibilidade, procuram usar essa ilusão de números para fazer pender a balança da argumentação a seu favor. É como a Igreja Católica dizer que tem N milhões de fiéis, mas quantos desses foram baptizados à nascença sem terem voto na matéria, fazem parte das estatísticas da Igreja, e/ou nunca acreditaram ou abandonaram a igreja? Os meus pais contam-se entre eles e como eles outros tantos…

2) mesmo que fossemos só 10 milhões a escrever o Português Europeu, este manter-se-ia sempre válido, desde que os bananas que nos lideram assim o permitissem; 3) o AO90 não nos obriga à ortografia brasileira, tendo antes mutilado tanto a ortografia brasileira como a portuguesa; 4) ainda recentemente postei aqui um link em que o governo chinês pediu expressamente a Portugal, professores de Português. Se formos nós a ensiná-los, lá se vão os números dos brasileiros;
(também argumentado no post nº 3 linkado acima)



- o argumento de que se formos contra o AO90, somos retrógrados reaccionários da direita conservadora. Ideia sem dúvida popularizada por ter sido o Governo de José Sócrates (cujo o partido finge ser de esquerda e não de centro) a levar a resolução ao plenário nacional, e potenciada pela acérrima defesa do Bloco de Esquerda deste tão patético projecto… sim, o mesmo bando (este último) que quer desfazer as forças armadas nacionais… enfin! Estranho, contudo, que o único partido na Assembleia da República (AR) Portuguesa de teor ideológico revolucionário, o PCP, se tenha abstido na sua totalidade quando o AO90 foi aprovado na AR, por ter sérias dúvidas do que neste último era advogado (como demonstra a imagem acima), e que mantém a ortografia portuguesa europeia pré-AO90 no seu jornal, o Avante. Quanto a sermos retrógrados, nós que não nos abstemos nem somos neutros mas que atacamos o AO90 em consciência e com paixão, como disse Saramago (deste senhor mais será dito, já lá iremos), nem tudo o que é novidade é necessariamente bom e devemos suspeitar sempre das modernices, até que seja factualmente comprovado o seu maior valor face ao que já havia;


- os acordos ortográficos nunca foram discutidos com a população em geral, com já ouvi dizer em defesa do AO90 quando se diz que este é anti-democrático. Belo dogma, argumento da treta e, como diz um colega meu, “que desculpa de merda, pá”. Se formos a pensar assim, então também as mulheres nunca viriam a votar, ainda haveria escravatura legal e bem-vista pela sociedade, etc… Já para não falar que era normal antigamente não ser discutido um acordo ortográfico na praça pública, visto que uma vasta maioria de pessoas era analfabeta e nada teria a contribuir para o debate. O objectivo deve ser aprimorar a democracia. Para tal, aumenta-se a taxa de cidadãos letrados e dá-se ouvidos à sua opinião nos tópicos importantes. Especialmente quando se trata da sua própria cultura!



Os argumentos contra são simples:

- a língua pertence ao povo que a fala e escreve. A sua evolução deriva da cultura desse próprio povo. Se mais que um povo fala a dada altura uma mesma língua, é apenas natural que essa língua evolua por caminhos distintos mediante as culturas que reflecte. Eu pessoalmente não tenho nenhum problema com o Português deixar de ser a 5ª ou a 7ª língua mais falada, e que passe a haver um Brasileiro e/ou um Angolano, seus descendentes. Na plenitude dos tempos, se a espécie humana não se auto-destruir entretanto, será isso que acontecerá. A História assim nos ensina;

- devemos sempre construir a língua com lógica e racionalidade. Devemos dar ouvidos aos especialistas (terminante e comprovadamente ignorados neste assunto pelos poderes vigentes) e não pisar assuntos sérios como a etimologia, por exemplo. Devemos esforçar-nos para tornar a língua cada vez menos ambígua e não o contrário (para, para = pára, para??);

- a evolução, ensina-nos a Teoria da Evolução, carece de e/ou implica diversidade, logo haver 8 versões do português será sempre melhor para o engrandecimento e enriquecimento cultural da língua do que só haver 1 ortografia (o que desde logo não acontece com o AO90, que a tal se propôs, pois continua a haver diferenças ortográficas entre ortografia brasileira e portuguesa, por exemplo);

- mesmo que o AO90 uniformizasse a 100% as ortografias (coisa que está longe de fazer), ainda restam as palavras sinónimas mas que só são usadas correntemente num país (exemplo: talho (pt-pt) e açougue(pt-br)) e a construção frásica que é completamente diferente e que não podem ser uniformizadas pois decorre directamente da cultura diferente dos povos em questão, que vão continuar a manter as quaisquer dificuldades que possam existir na compreensão universal dum texto português entre os diferentes povos que usam a língua. Logo a uniformização não é conseguida. Um projecto que falha no seu principal objectivo não merece continuação e deve ser abortado;


 - o dito acordo é rejeitado pela maioria da população e dos pareceres técnicos. Em democracia, onde o valor da ciência é tido em conta e não ignorado, esta seria razão suficiente para que um governo de maioria absoluta, que deve representar a vontade da maioria portuguesa e não de lobbies que lhes engordam as carteiras, suprimir o dito acordo. O acordo e especialmente a sua aplicação são portanto anti-democráticos. Reparem nas alegadas ameaças feitas à Academia de Ciências de Lisboa, por ter ousado blasfemar contra o AO90, e mesmo o que os aplicam, como o editor-chefe da Porto Editora (a notícia no Público só está disponível para assinantes), fazem-no sob uma espécie de auto-infligida coacção governamental. É claro que as editoras poderiam ter sido mais corajosas, particularmente aquelas em que os seus editores discordam do AO90, e ter tido a atitude simétrica à que adoptaram: só aplicar AO90 quando expressamente exigido pelos autores ou clientes!!

No vídeo da audição na Comissão Parlamentar de Vasco Graça Moura et all, a própria representante do PSD, partido de maioria relativa que lidera o actual governo de coligação, admite que as informações que tem são que mais de 60% dos portugueses são contra. Algo que terá justificado a formação da comissão. Pergunta, se eles representam a maioria votante nacional, porque raio não botam fora o acordo de imediato e perante tal informação?? Isto é democracia?
A acrescentar a isto ainda vêm as editoras, embora ninguém nisto acredite, nem cá nem no Brasil, dizer que nada lucraram com o AO90, que só lhes trouxe custos acrescidos. Sendo assim, quem lucra com este desacordo que falha em todos os seus propósitos, tão seguramente como o Relvas não ter tirado o curso? Bem, sendo verdade o que as editoras clamam, ninguém ganhou com o AO90.
Contudo, o nosso governo, mesmo após o adiamento brasileiro, mesmo após a rejeição por parte da Angola, mesmo após ter em sua posse em variados blogues, escritos tanto por meros plebeus com aqui o vosso esforçado escriba ou pelas opiniões de doutos das ciências e ilustres dos media, insiste em implementar o AO90, doa a quem doer. Este dogmatismo, é próprio da religião, pois escolhe ignorar todas as provas e argumentos lógicos em prole da fé cega na sua doutrina.
Ainda há mais uma comparação a fazer entre a religião e o AO90. Christopher Hitchens disse que, parafraseio, “é fácil que uma pessoa má faça coisas maléficas, mas para levar uma pessoa boa a fazer coisas más é preciso a religião”. E quem diz “fazer”, também pode estender a “dizer”. Ora eu tenho José Saramago em boa conta, como uma pessoa racional e de uma mente analítica e sagaz, um defensor acérrimo dos direitos humanos e da liberdade. Porque raio então foi José Saramago apologista desta neo-religião? Especialmente sendo ele um confesso ateu, um céptico!!

Primeiro vejamos, pela voz do próprio, vinda não do além mas sim do youtube (onde já li a frase: “Youtube, where religion comes to die!” loool if only), como é que ele defendia o AO90:

Convenhamos que não o defendia, apenas não lhe resistia. Saramago já havia passado por outras reformas ortográficas e pouco lhe interessava como se escrevia, desde que se escrevesse com liberdade. Esqueçam lá o pensamento céptico que ele próprio advoga no primeiro minuto do vídeo seguinte, quando diz que é preciso termos presente que uma coisa não é boa só por ser nova. Será ele também um reaccionário? Um retrógrado? Atrever-se-ão a tanto?

Porque não pensou ele assim quanto ao AO90? Quem me dera ter tido tempo e oportunidade de debater com ele o assunto, pois a mim o que me faz lembrar esta resignação intelectual perante o AO90 é a cláusula de não resistência ao mal do Cristianismo, tipicamente chamada “dar a outra face”. Uma doutrina imoral mascarada de alta moralidade, que deixa uma pessoa boa à mercê duma pessoa maléfica, e que só aumenta a hipocrisia dessa religião, pois houveram ou não inquisições e cruzadas? Onde deram eles a outra face e se tivessem dado teriam sobrevivido ou seríamos todos muçulmanos forçados à submissão de Alá?? Esta abateu-se sobre Saramago da mesma forma que atacou aquele amigo brasileiro do vídeo acima que chega a acusar os defensores do AO90 de mentirem para argumentarem a favor, mas depois diz: “Bom, já que não podemos fazer nada o melhor é aprendermos já as regras novas…”
Pois eu, tal como Saramago, sou ateu, mas ao contrário de Saramago estudo ciência e como tal estou programado, se quiserem, para esperar lógica e rigor nos sistemas que criamos para comunicar e para melhorar a nossa vida. Não estou disposto a encarar a ortografia como uma pseudo-ciência ao serviço de lobbies económicos iludidos, políticos facilmente subornáveis (note-se como o Sócrates escolheu ignorar os pareceres da Academia de Ciências de Lisboa [imagem acima] e de qualquer outro parecer que não o prestado pelo próprio criador do Acordo, tal como nas primeiras semanas deste governo sucessor ao de Sócrates e que se auto-nomeia como uma alternativa a este último, primeiro era contra e uma semana depois já estava a favor) e pseudo-intelectuais, que querem umas viagens à borla ou mais umas 30 peças de prata para traírem a pátria que deviam servir, a seu belo interesse e com desprezível irresponsabilidade e despego.



 
A imagem acima está com péssima resolução e infelizmente o público só deixa ver este artigo online a quem subscrever a sua edição electrónica... Com muito custo, lê-se que além da desesperada tentativa de entrar para a História de alguns fracos (pseudo)intelectuais, estes também o fizeram a fim de ter umas viagens pelo globo pagas pelos nossos impostos, para bem supremo da Lusofonia, claro está... -_-

Como diria o Hitch, se falasse português, não lhes vou dar nem um centímetro. Vou combatê-los até à última. Não vou converter a minha espada num arado, mas antes fiz da minha caneta e/ou teclado, as minhas proverbiais espadas, nesta guerra.
Uma das formas como luta é precisamente os vídeos que vou traduzindo para usar aqui e colocando no youtube. Traduzo-os sem infecções "acordistas"!

Pois eu contraponho que o Acordo Ortográfico fez isso mesmo, transformou a Língua Portuguesa num monstro disforme, sobre o qual reina o caos por força da ambiguidade e pela falta de rigor lógico. Uma quimera literária foi o que criaram. Como já outro disse noutro blogue, um autêntico monstro de Frankenstein com partes deste e daquele e daqueloutro corpos. Mas por muito poderosa que possa ser esta criatura e os seus interesseiros seguidores zelotas, impõe-se que a destruamos.
Para tal, talvez seja necessário este espírito do "never say die" ou "no retreat, no surrender", a via dos Espartanos, a via dos Samurai:
E muita paciência para que depois possamos chegar aqui:
E finalmente à vitória final contra a Besta:

Juntem-se a mim…


... a nós, que resistimos.

As nossas armas?
Para resistir a uma religião, que pelo seu carácter dogmático nunca cede à argumentação lógica ou às provas analíticas ou factuais, só o podemos fazer pela sátira, pelo gozo, pelo ridículo, pela blasfémia:

E finalmente, para aqueles que como eu, apesar de tudo, talvez não sem uma pouco de fé também, acreditam na Democracia, assinem sem demora a ILC contra o AO90 se ainda não o fizeram. Para tal usem os links abaixo:

Não acreditas que podemos vencer? Bem, 70% dos leitores do DN não são da tua opinião:
Para terminar, vou deixar-vos com o copy paste do PDF informativo que a Embaixada do Japão me enviou este mês, perdoem-me por estar a postá-lo tão tarde mas a vida interveio. De realçar que, não sei se pelo meu contínuo criticar dessas ocorrências aqui no N.I.N.J.A. Samurai, se por auto recriação, este último PDF oficial da Embaixada já vem com os Meses todos com inicial Maiúscula, com vários “objeCtivos” e “aCtividades”, e apenas 2 ou 3 erros de acordês, que vou postar para vocês descobrirem tipo “Onde está o Wally?”. Não sei se tive peso nesta inversão, mas se tive, como disse o Sócrates, não o filósofo mas o pseudo-engenheiro cujo governo nos enrrabou com o AO90 [entre outras patranhas, que vos sugiro não se esquecerem delas quando este ilustre se candidatar à presidência da república], “Porreiro, pá!” ;)
Aproveito para me despedir desde já, senhoras e senhores, irmãos e irmãs, amigos, camaradas, de Aquém e Além-Mar, em particular aqueles que se unam a esta causa, esta guerra contra a teocracia ortográfica, um grande bem haja!

 
» Jardins de Pedra – exposição de escultura
De 30 de Março a 29 de Setembro, realiza-se uma exposição de esculturas de Mário Lopes (ex-bolseiro do Governo do Japão), de trabalhos realizados no Japão e inspirados pela sua cultura e arte. Realizar-se-á no Claustro Real do Mosteiro da Batalha, antigo lugar de contemplação e meditação, onde se pretende evidenciar aspectos espirituais e estéticos comuns à cultura japonesa e portuguesa.
Local: Mosteiro da Batalha, Lg. Infante D. Henrique, Batalha.
Organização: Direção-Geral do Património Cultural/Mosteiro da Batalha
+ info: Tel.: 244765497

» Exposição de fotografias e de azulejos
No próximo dia 10 de Abril terá lugar a inauguração da exposição de fotografias “paisagem da primavera e outono no Japão” e da exposição de azulejos, pela artista japonesa Shihoko Gouveia, no Espaço Cultural das Mercês. Exposição patente até ao dia 27 de Abril.
Horário: de quarta a sábado, das 16h00 às 20h00
Local: Rua Cecílio de Sousa, nº 94, Lisboa (junto ao Príncipe Real)
Mais informações: Sra. Yamasuga Gouveia – Telm.: 919650381

» Origami Tradicional - Workshop de Origami no Museu do Oriente
Nos próximos dias 11 ou 23 de Abril, o Museu do Oriente promove um workshop de Origami – dobragens de papel. Pensado para um público adulto, este workshop tem como objectivo contextualizar histórica e simbolicamente alguns dos origami tradicionais e dar espaço à sua realização prática.
Local: Museu do Oriente, Av. Brasília - Doca de Alcântara (Norte), Lisboa
Organização: Fundação Oriente/Museu
Para mais informações e inscrições: Museu do Oriente, tel.: 213 585 200


» Iberanime
O IberAnimeLx 2013, nos próximos dias 13 e 14 de Abril, será um fim-de-semana divertidíssimo para miúdos e graúdos fãs de Anime, Manga e Cultura Pop Japonesa. É também uma oportunidade fantástica para os pais passarem um fim-de-semana diferente com os seus filhos.
Este é o evento certo para os admiradores de séries como DragonBall, Naruto, One Piece, Sailor Moon, Cavaleiros do Zodíaco e muitas outras!
Shows de Cosplay com convidadas internacionais e concertos com os Gaijin Sentai, para além de atividades no espaço de feira, videojogos, demonstrações e concursos são alguns dos muitos momentos que ficarão na memória de todos os presentes neste mundo fantástico de anime, manga e videojogos.
Participação da Embaixada do Japão neste evento dedicado a todos os fãs e curiosos pela cultura pop japonesa.
Local: Pavilhão Atlântico – Sala Tejo, Rossio dos Olivais, Lt 2.13.01A, Lisboa
Organização: Manz Produções
Mais Informações: http://www.iberanime.com/2013/


» Mizuhiki - Nós Japoneses - Workshop

O Museu do Oriente promove, no próximo dia 2 de Maio, um workshop de ‘mizuhiki’, corda feita de papel de arroz que depois de levar uma cama de goma é passada a ferro e, por último, tingida. Este workshop pretende levá-lo a conhecer um pouco mais a história desta arte e a elaborar depois algumas formas com o ‘mizuhiki. Necessária marcação até 24 de Abril.

Local: Museu do Oriente, Av. Brasília - Doca de Alcântara (Norte), Lisboa

Organização: Fundação Oriente/Museu
Para mais informações e inscrições: Museu do Oriente, tel.: 213 585 200,

» Festival do Japão – Haruhi 2013
Este evento, a realizar no próximo dia 4 de Maio, tem por objectivo proporcionar ao público o contacto com a cultura japonesa, abordando temas diversos, sendo o culminar das actividades do clube Haruhi, da Escola Secundária Inês de Castro, em Vila Nova de Gaia.
Organizador: Haruhi – Clube de Japonês da Escola Secundária Inês de Castro
Local do evento: Escola Secundária Inês de Castro, Rua Quinta do Fojo, Vila Nova de Gaia
Mais informações: Tel.: 227727200, Email: info@esic.pt, http://www.esic.pt

» Caixas, Contentores e Sólidos – workshop de Origami
O Museu do Oriente desenvolve esta iniciativa, no dia 14 de Maio, num convite para fazer um percurso entre os primeiros contentores de papel e o início do origami modular no qual se realizam construções a partir de vários módulos de papel.
Pensado para um público adulto, este workshop tem como objectivo contextualizar histórica e simbolicamente alguns dos diagramas tradicionais e dar espaço à sua realização prática.
Museu do Oriente, Av. Brasília - Doca de Alcântara (Norte), Lisboa
Fundação Oriente/Museu
Para mais informações e inscrições
Museu do Oriente, tel.: 213 585 200,

» Festa do Japão em Lisboa 2013
A Embaixada do Japão tem o enorme prazer de informar que a 3ª edição da Festa do Japão em Lisboa irá decorrer no próximo dia 15 de Junho, inserida nas Festas de Lisboa, com a co-organização da Câmara Municipal de Lisboa, EGEAC e Associação de Amizade Portugal-Japão, entre outros.
Pretendemos mais uma vez retratar o ambiente de “Matsuri” (festival), no Japão através da apresentação da cultura japonesa, no Jardim do Japão, em Belém. Também este ano estão previstas demonstrações das várias áreas da cultura japonesa, tais como Ikebana, Origami,Caligrafia, Haiku, Cosplay, Artes Marciais, bem como música e ritmos do Japão (com o presença de um Grupo de Jovens Japoneses de Taiko e Dança Folclórica).
Mais informações: Sector Cultural da Embaixada do Japão
Email: cultural@lb.mofa.go.jp // Tel: 213110560


P.P.S.: Quero apenas agradecer a acção contínua das páginas do Facebook do Desacordo Técnico (Movimento anti-AO90 dos alunos do IST), dos Tradutores contra o Acordo Ortográfico e da página da própria Iniciativa Legislativa contra o Acordo Ortográfico de 1990. Sem vocês, e o material que me fazem chegar e que criam, este post teria sido quasi-impossível! Continuem a luta por todos nós e pelo bem da tão violada Lusofonia! E parabéns à Maxim por ter saído do armário, nesta guerra. Não imaginam o prazer que deu ler aquela simples frase que finalmente surgiu sobre o vosso belo nome na última edição:

ADENDA (06/05/2013 - 2H59 TMG): Cada vez o AO90 nos aproxima mais, já repararam??

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Rápidögraphia: Christopher Hitchens



“It was a cold bright day in April and all the clocks were striking thirteen.”

Esta entrada tem um duplo objectivo. Celebrar o aniversário de um recém-caído "guerreiro" das liberdades humanas, um verdadeiro amante da sabedoria, ao mesmo tempo que, dessa forma, inauguro uma nova rubrica aqui no N.I.N.J.A. Samurai. Esta última chama-se Rápidögraphia, e tem como propósito dar-vos um vislumbre de pessoas da esfera pública, nacional e internacional, que admiro.
Introduzamos a primeira dessas figuras, por meio duma entrevista levada a cabo no Brasil:


O seu nome era Christopher Hitchens.
Os seus inimigos, os teocratas e os totalitários de todas as espécies. A sua vida eram as palavras e a luta pelos direitos humanos e pela emancipação da Humanidade de todas as formas de totalitarismo, sendo a original a Religião.
A citação acima não é dele, mas sim de George Orwell. É a primeira frase do poderoso 1984. O Christopher achava-a particularmente importante e suspeitava que ela era uma espécie de homenagem velada à revolução norte-americana. Um dos pais dessa revolução, eu não me lembro qual, mas o Hitch saber-vos-ia de imediato indicá-lo, terá dito que para se conseguir levar a cabo a revolução era preciso fazer os relógios dos 13 estados baterem em uníssono! Para aqueles de vós que não o sabem, antes de serem 50 estados, eram 13. Mas por outro lado, 13 de Abril era a data de nascimento de Thomas Jefferson, outro grande presidente dos EUA, que ajudou a escrever as emendas à constituição, com particular preponderância naquela que separa o estado da Igreja. O próprio Christopher nasceu a 13 de Abril de 1949. Abril deve ser mesmo o mês dos revolucionários!
Na sua visão de mundo, não existia qualquer divindade. Apenas homens que se auto-nomeavam enviados ou agentes endossados de/por um imaginário poder celestial, obtendo dessa forma um terreno e muito real poder sobre os seus pares. Ele atacava a religião e não os fiéis, embora muitos fiéis por ele se sentissem insultados. Mas era também um amante das artes e da boémia. Johnny Walker Black, era o seu veneno de eleição, e dizia que uma refeição sem vinho, tinto de preferência, não tinha sabor. Ao morrer de Cancro do Esófago, não arranjou para si nenhuma desculpa, sabendo que tinha abusado bem durante toda a sua vida, com álcool e cigarros. Como ele próprio disse, e traduzo livremente, queimou a vela nas duas pontas e esta deu uma bela luz.
Era um cidadão do mundo, anglo-americano, que percorreu o planeta a testemunhar a opressão e libertação de vários povos, incluindo o nosso. Esteve cá em ’74, para cobrir a revolução dos Cravos, que o veio a roubar das últimas ilusões de um movimento socialista internacional, o qual deu então por morto. Emancipando-se de dogmas partidários, tornou-se num marxista independente, sem afiliações, completamente entregue à perseguição dos hipócritas, dos corruptos e das fraudes, enquanto lutava por justiça e pela liberdade, e buscava a verdade. Uma vez disse, parafraseio, mesmo que a verdade seja inalcançável, isso não é desculpa para não a buscarmos.
Era um homem de contradições, um aluno esforçado da dialéctica.
Tendo falado contra a primeira guerra do Iraque, foi a favor da segunda, sendo que as suas recém criadas amizades entre os resistentes seculares curdos o tenham convencido da prioridade que era varrer Saddam Husseim do mapa. Daí em diante, enquanto defendia a justeza da Guerra do Iraque dos seus ex-aliados da Esquerda britânica e americana, depressa tornados  opositores, Hitch usou a bandeira do Curdistão na lapela. E ao contrário dos outros defensores da Intervenção no Iraque, não escondia a importância do petróleo naquela guerra. Perguntava ele se achávamos mesmo que deveríamos ficar impávidos enquanto um tirano sádico e a sua família mafiosa continuava secretamente armar-se (e sim, foram encontradas não armas de destruição em massa, mas enterrados em lugares chave, os seus ingredientes, bem como planos de um vasto plano para esconder um arsenal inteiro dos inspectores da Nações Unidas); enquanto este último queimava, para que os outros não os pudessem usar, poços de petróleo, enchendo a atmosfera de carbono, subjugando o seu povo com punho de ferro (famílias eram obrigadas a assistir à morte de um familiar preso pelo regime e até tinham de aplaudir!!); enquanto conhecidos terroristas eram detidos na Europa, mas tinham de ser libertados por gozarem de imunidade diplomática concedida por um passaporte iraquiano? E embora admitisse que a Libertação do ou a Intervenção no Iraque, pelas forças da Coligação dos Voluntariosos, tivesse sido mal planeada e pessimamente executada, contava no seu balanço alguns sucessos:
- a entrega de Kadafi de todo o seu arsenal de destruição maciça aos EUA (arsenal esse que reside agora em Oak Ridge, Tennessee);
- a investigação feita à origem dessas armas, que se apurou terem vindo da Coreia do Norte e do Paquistão, levando a que se fechassem essas vias de proliferação;
- o estabelecimento de eleições democráticas no Iraque e de tribunais;
- o estabelecimento da região autónoma no norte do Iraque, onde os curdos fizeram um governo secular e democrático;
- o ter-se terminado com um país que dava protecção diplomática e abrigo a conhecidos terroristas;
- o afastamento da família Hussein do poder.
Afirmava sem hesitação que a cura para a pobreza era a emancipação da Mulher, mas acreditando ainda assim que a Mrs Hitchens não devia ter a obrigatoriedade, mas apenas o direito, de ter um emprego. "Se ela quiser, que trabalhe, mas não deve ser obrigada."
Acreditava na legalização das drogas para terminar a Guerra contra as Drogas, na solução dos dois estados para o conflito da Palestina, tinha reservas contra o aborto (embora reconhecesse casos em que este era imperativo e outros em que era permissível moralmente), era a favor do Euro e do federalismo europeu, e dizia que a homossexualidade não era apenas uma forma de sexo, mas também de amor. Nas suas Memórias, Hitch 22, escreveu sobre (para além dum tórrido encontro do seu rabo com um jornal enrolado e empunhado pela Dama de Ferro em pessoa, a Sra Tatcher) as suas experiências homossexuais durante a sua estadia num colégio interno britânico, estendendo dessa forma a sua solidariedade para com a comunidade gay. Falou também da morte bizarra da sua mãe e da personalidade estranha do seu pai. Teve 3 filhos de duas mulheres e dizia que quando se tem filhos com alguém nunca se fica realmente divorciado dessa pessoa.
Atacou as reputações de poderosos e de santos, como Kissinger, Clinton e Madre Teresa, revelando-lhes o lado negro e obscuro, que campanhas bem orquestradas de propaganda tão maravilhosamente ocultaram. Ao mesmo tempo, escreveu livros sobre o Parthenon, sobre Jefferson, Thomas Pane e Orwell, entre outros, e produziu milhares de artigos em várias publicações internacionais. Foi durante muito tempo, se é que não o é ainda, o único escritor a ter estado nos 3 países do Eixo do Mal de George W Bush, o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte. De facto, Hitch (como era tratado pelos seus amigos) passou, depois de ter estado na Coreia do Norte, a retratar o Paraíso Celestial como uma Coreia do Norte Celestial. Experimentou depilação e tortura por waterboarding, apenas para sobre isso escrever em primeira-mão. Quase foi espancado por fascistas árabes em Beirute, por destruir um grafitti duma suástica, mas foi salvo por uma multidão de árabes não fascistas que o removeram da cena. Quando recebeu uma ameaça de morte, que o Departamento de Estado norte-americano achava credível, aconselhando-o a mudar de residência, Hitchens não o fez, nem pediu protecção. Dizia abertamente na televisão, que o nome e morada dele estavam na lista telefónica em Washington. Era um homem de grande integridade moral e coragem verdadeira (ou talvez fosse falta de medo?!), sem nunca ter receio de ofender quando falava o que pensava, sem medo de pedir desculpa quando se revelava que tinha errado. Ou de admitir em público quando não sabia o suficiente para se pronunciar num dado tópico. O sábio é aquele que sabe quando remeter-se ao silêncio.
Filósofo com aspirações a político, que acabou por encontrar-se como jornalista, comentador político, e profícuo autor. Declarado ateu e anti-teísta resoluto. O próprio Vaticano o convidou para assumir funções de Advogado do Diabo, falando contra a beatificação da Madre Teresa em Roma, levando Hitchens a dizer mais tarde que foi o único homem a defender o diabo pró bono! Quando lhe perguntaram se era possível acreditar em Deus e ainda assim ser um anti-teísta, Hitch disse que sim e foi mais longe dizendo que se deus existisse, ele (Christopher) seria “… of the Devil’s party”, como Milton, que escreveu: "Better to reign in Hell, than to serve in Heaven!"
Inventou o que eu chamo o Desafio do Hitch:
"Nomeia-me uma afirmação moral ou acção moral, executada por um crente que não possa ser executada por um descrente."
E o seu corolário, bem mais fácil:
"Nomeia uma acção terrível ou declaração imoral, feita por alguém por causa da sua religião."
E como ele costumava dizer: do corolário pensaram logo em várias com facilidade. Eheheh.
Criou também o que eu chamo o Hitchslogan:
"Mr Jefferson build up that wall!"
Este slogan, alude à Muralha de separação entre o estado e a igreja, consagrada na 1ª Emenda à Constituição dos EUA, enquanto goza com a célebre frase de Reagan: "Mr Gorbachev, tear down this wall!" pedindo a queda do Muro de Berlim
Grande defensor de Salman Rushdie aquando da fatuah que lhe foi lançada pelo Ayatolla Khomeini, começou aí a sua verdadeira guerra contra os partidos de Deus. Tendo esta sido intensificada após os ataques de 11 de Setembro, acontecimento que o levou finalmente a pedir nacionalidade americana, sentido-se moralmente obrigado a isso por solidariedade com os USA, nos quais já vivia há imensos anos com um visto perpétuo. Os seus filhos são americanos. No ano em que publicou o seu primeiro livro, teve o seu primogénito (a quem chamou Alexandre, by the by), e plantou uma árvore. Ainda não tinha 33.
Eu só o descobri em inícios de 2012, após ter lido o livro de José Rodrigues dos Santos, “O Último Segredo”, que desenha o Jesus Histórico em oposição ao Jesus Mitológico. Querendo saber mais, meti-me a pesquisar na net e deparei com os vídeos dos debates do Hitch, quando em tournée do seu livro “God is Not Great”. Identifiquei-me de imediato com ele, devido ao gosto pela escrita, ao cepticismos, ao ateísmo, ao gosto pelo debate e pela retórica.
Naveguei avidamente pelos seus debates e entrevistas no youtube, aprendendo imenso sobre História, literatura da língua inglesa, apanhando alguns títulos de cinema que doutra forma dificilmente descobriria, até que por fim descobrindo, com incrédulo pesar, que ele tinha morrido de cancro. Porque é que as pessoas que valem a pena morrem cedo? A resposta é simples. O Universo é caótico, impiedoso na sua inconsciência e não nos deve nada. Os genes e os abusos de Hitch deram aos seus inimigos o prazer de ver o seu corpo flutuar rio abaixo, parafraseando Sun Tsu. Mas enquanto estes últimos morrerão e serão esquecidos, a obra que Hitchens nos deixou dar-lhe-á, espero eu, a única medida de imortalidade aberta a seres mortais.
Mudou-me a opinião quanto à Guerra do Iraque; discordo com ele quanto ao Euro e ao Aborto; concordo sobre a homossexualidade, sobre a necessidade de nos emanciparmos da Religião e, embora seja mais igualitário que ele (sou a favor de direitos e deveres iguais entre géneros), ambos acreditamos na justeza e necessidade da emancipação da Mulher.
Amigo de Martin Amis, Salman Rushdie, (estes últimos, sempre discordaram publicamente com o Hitch sobre o Iraque e a sua amizade durou até ao fim) Stephen Fry, Ayaan Hirsi Ali, Lawrence Krause, entre muitos outros ilustres, nos últimos anos da sua vida tornou-se num dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, a vanguarda e os porta-estandartes do crescente movimento ateu internacional (imagem acima).
Perdi, na ignorância, a minha hipótese de ouvir ao vivo este grande orador, quando nos visitou em 2004:

Mas deixo-vos ainda assim com as suas palavras (nada melhor para o definirem pois muito mais teria que escrever para lhe fazer justiça), por mim legendadas para terminar em beleza, demonstrando este post também que o N.I.N.J.A. Samurai honra tanto a ortografia brasileira como a portuguesa, sempre em aberto desafio ao Acordês do AO90.
Para terminar direi que o Hitch foi um homem que sim soube morrer, mas mais que isso, foi um homem que soube viver.
Esta minha pequena mas esforçada homenagem, é o mínimo que posso fazer por alguém que não só muito enriqueceu a minha cultura pessoal, como é a quem muitas vezes recorro na minha argumentação ou escrita aqui no blog, por meio de vídeos e citações. Por isso mesmo, mais das suas palavras traduzirei para de futuro as usar para dar às minhas alguma ênfase, como já o tenho feito no passado. O Hitch também constatou que plágio é inevitável, mas que não é negativo se nós nomearmos o autor original. Ele foi um daqueles intelectuais que, mesmo quando discordamos com ele, vale sempre a pena ouvir o que ele tem para dizer.
Hasta la vista, camarada!

NOTA: é possível que este post venha a ser editado, se entretanto eu tiver tempo de legendar mais uns quantos de vídeos. ;)



segunda-feira, 4 de março de 2013

Genpatsu, Kissinger, Portugal


Não é fácil definir o conceito de Energia, mesmo em termos formais da ciência. Podemos dizer que é uma das componentes existentes quando há interacção entre dois entes ou sistemas físicos. Podemos ainda dizer que é uma componente essencial à realização de trabalho. Em termos metafísicos, esotéricos ou sobrenaturais ainda mais nos perdemos num labirinto de retórica que, desastradamente, procura parecer sábia mas é vã. Concentremo-nos na ordem natural das coisas, que é mais que suficiente para este nosso Verso. Queria um kanji para título deste post, mas a verdade é que, pelo que eu encontrei, o termo japonês para energia (homólogo deste nosso) é um japonesismo da palavra Enerugï, que se escreve em kanji:エネルギー. Existem outras duas palavras japonesas que descobri para energia, mas ambas são específicas: o Ki = 気 (energia espiritual) e o Denki = 電気 (energia eléctrica). Mas até compreendo os japoneses. Reflectindo sobre o assunto, é um pouco estranho termos uma palavra que sozinha não tem definição directa. Se falarmos energia mecânica, eléctrica ou cinética (por exemplo), sabemos instintivamente o que são. Mas se dizemos apenas energia é um tudo que é nada. E contudo, sabemos que é algo. Como a própria energia, o conceito em si é algo não palpável. Muitas vezes me sento em frente à minha lareira a olhar as chamas bruxuleantes no seu interior, como se nelas pudesse estar a resposta à minha pergunta, o que é o fogo? É sem dúvida um dos resultados duma combustão. É energia. É luz. É calor. É tudo isso. Mas o que é? Fogo.
Num filme, que eu não desgostei, chamado “The Celestine Prophecy”, que eu vi originalmente porque nele entra o ilustre Joaquim de Almeida, é dito a certa altura que todas as interacções humanas são resultado de interacções de campos energéticos gerados pelos seres vivos, os quais nós nem nos apercebemos que existem. Na mitologia do filme, a tomada de consciência desses campos e a realização de que não nos devemos procurar dominar uns aos outros (ou, neste contexto, sugar energia ao próximo), leva a um mais elevado plano espiritual. Mas isto tudo para chegar ao ponto de que nesse filme é dito que todas as guerras ou disputas humanas são essencialmente por energia. De facto, acaba sempre por ser, em última análise. Se na Pré-História guerreávamos por territórios de caça, era porque necessitávamos dessa caça para fornecer energia aos nossos corpos. Hoje lutamos por petróleo, por gás natural, por metais radioactivos, etc… mas essencialmente, lutamos por energia em qualquer que seja a sua forma. De facto, nós somos energia. Como diria o Yoda: “Seres luminosos somos nós, não esta rude matéria.” E como adorava Christopher Hitchens relembrar, parafraseando outro autor: “Esqueçam lá a morte de Cristo, estrelas tiveram de morrer para nós estarmos aqui hoje. Não é isso mais glorioso que o Arbusto Flamejante?”




Por falar em Mitologias… Na minha infância, antes de ler romances, policiais e ficção científica, lia Banda Desenhada. Entre as muitas que lia, como não podia deixar de ser para alguém da minha geração, estava a das Tartarugas Ninja. Estranhamente, a saga que eu mais gostei dessa BD, foi uma na qual não entravam os intervenientes do costumo. O Destruidor (The Shredder), o Krang, o Beebop e o Rocksteady, e o seu exército de Ninjas Foot, foram trocados por um clã de ninjas tradicional e místico, um samurai feiticeiro que odeia a Humanidade e uma ninja raposa, lacaia deste último. Em vez de Casey Jones como aliados, temos um rapaz que se consegue transformar num dragão gigante. Nova Iorque aparece substituída por Hiroshima. Mas o que me apaixonou nessas edições que nem vinham seguidas mas de forma intercalada, eram as introduções. Um mito de criação do Japão (acima), uma cena contextualizada no dia fatídico da queda das bombas nucleares (abaixo), dando-nos um vislumbre sobre a vida anterior do Mestre Lascas (Sensei Splinter).
Depois a história essencialmente, era que o Samurai Feiticeiro queria usar o Dragão Guerreiro, para destruir uma uzina nuclear, cuja energia iria soltar um Demónio para destruir a Humanidade. Com uma ajudinha dos Deuses do Yin Yang, os Tartas conseguem furtar tais planos, que são afinal uma ameaça terrorista hoje em dia tão passível de ser tornada realidade, mesmo sem a existência de dragões e demónios ou deuses.

 
Queria apenas partilhar esta parte da minha infância convosco, pois foi um pouco dela e da actualidade, que me surgiu a inspiração para este post e para a imagem a que chamei Mushroom Yin Yang. Mas digresso…


O Japão está, muito como Portugal, ou mesmo como toda esta nossa Aldeia Global, num momento de mudanças impostas pela inevitabilidade das consequências das decisões do passado. Fantasmas de outrora influenciam o momento presente. A Crise, que no grego antigo quer dizer Momento de Mudança, é diferente para Japão e Portugal, mas inevitável para ambos. A crise em Portugal foi criada pela ganância desmesurada dos homens, aliada a uma grande dose de credulidade e ignorância. A crise japonesa foi criada pelos esbirros de Gaia, se quisermos empregar uma linguagem mais poética, mas também pelo uso descuidado duma tecnologia que é na melhor das hipóteses um pau de dois bicos.
O Super Terramoto de 2011 que atacou o Japão fez com que o Estado Japonês tivesse de confrontar o verdadeiro perigo de ter Centrais Nucleares numa zona geográfica de alto risco do ponto de vista da sismologia, como é aquela em que se encontra o seu país. O já existente movimento verde anti-nuclear ganhou momento com este terrível acontecimento e o desastre proveniente da destruição da Central Nuclear de Fukushima.
Onde antes me centrei nas lições aprendidas (vide os dois links abaixo) em termos de prevenção e preparação para este tipo de situações (sismos e tsunamis), venho agora nesta nova entrada abordar em profundidade o controverso tópico do nuclear e a questão energética que cada vez mais vai apoquentar as sociedades modernas, servindo-lhes também de travão evolutivo a nível tecnológico. É certo que cada vez nos tornamos mais dependentes de energia, pois tornámo-nos uma civilização altamente tecnológica. Contudo, o próximo nível de avanços científicos, hologramas, sabres de luz, motores iónicos, teletransporte, motores anti-gravidade, tudo depende essencialmente de quanta energia conseguimos gerar, logo essa quantidade de energia acaba por ser o nosso limite tecnológico!
Novas, Actualidades e Trabalho de Campo

Mega Sismo: Quanto o Infinito Encontra o Zero

Ora, dos meus outros posts, nota-se o meu óbvio interesse nestas áreas. A sismologia porque foi o sismo de Março de 2011 que comprovou os dados recolhidos pelo astúcia e visão governativa do Marquês de Pombal em 1755 e que até 2011 se julgavam exageros de uma sociedade retrógrada. Portanto, no que diz respeito à sismologia, vivemos uma altura interessante em Portugal, embora acho que no meio de tanta coisa em que pensar com a Crise e a Austeridade, isto passou completamente ao lado do povo. Supostamente, no último trimestre de 2013, vai entrar em funcionamento um sistema de alerta de Tsunami em Portugal. Se forem ao post que escrevia (acima “linkado”) intitulado “Mega Sismo: Quando o Infinito Encontra o Zero”, poderão perceber que muitas vidas podem ser salvas pela implementação de um tal sistema.
Vejamos se o sistema é implementado e se fica a funcionar em pleno, incluindo apps de telemóvel para que os cidadãos possam ser avisados no momento, tal como existe no Japão, hoje em dia.
Outra coisa que mais cedo ou mais tarde terá de nos preocupar é a preparação de edifícios antigos para um terramoto.
http://www.publico.pt/mundo/noticia/intervencao-antisismo-em-edificios-antigos-nao-e-tao-comum-como-isso-1493840

Com o estado actual da construção pública em Portugal e a falta de emprego, seria uma lufada de ar fresco para muitos, se o Governo cagar para os bancos, if you pardon my French, fechando-lhes as torneiras e antes investir nessas obras de interesse público, particularmente em zonas de muito risco, como o Algarve e a Baixa Lisboeta. Erguer muralhas defensivas também não fazia mal nenhum. Mas eu sei… eu sei… não há dinheiro (no futuro post na rubrica “Os Meus Versículos Satânicos”, para o qual ainda me digladio com um subtítulo, hei-de oferecer ideias e alternativas para superarmos a nossa Crise). Mas imaginem no que esse investimento poupará quando vier o tsunami e o sismo. Eles hão-de vir, descansem. Mas são como a Morte, inesperada e impiedosa! Mas não se iludam, pois é certo que a Construção (movida a capitais estatais), embora faça surgir emprego momentaneamente podendo aliviar o sofrimento e a fome (não poupemos palavras) de alguns, em termos de resolver crises económicas não é solução, uma vez que é um investimento que não é exportável, logo não aumenta a nossa produtividade, mas sim a despesa de estado e a dívida. Quero com isto dizer que só espero que as probabilidades estejam connosco e que o Tsunami só retorno a terras lusas muito após termos superado os nossos problemas socio-económicos.
Voltando à questão energética, Portugal nunca aderiu à tecnologia nuclear e com efeito um dos vários problemas que contribuem para a nossa falta de auto-suficiência nacional e, consequentemente, para a nossa actual crise económica, é a incapacidade de gerar internamente energia suficiente para as necessidades de todo o país, sendo portanto forçados a importá-la. Duma forma ou de outra, uma vez que importamos energia da Espanha e da França, também nós dependemos do nuclear. Por outro lado, somos um dos países da União Europeia que mais energia verde produz, através de barragens, painéis solares, geradores eólicos e de energia de ondas marítimas. Hey, não podíamos fechar a tabela em tudo. Contudo, essa energia representa cerca de 30% da energia total que precisamos actualmente no país. E é preciso reparar que actualmente Portugal tem muito pouca indústria, logo no futuro, se conseguirmos escapar à mediocridade da nossa classe política governante e realmente semearmos as bases para uma retoma económica em larga escala no país, emergiremos a necessitar de ainda mais energia. Just some food for thought…
Já o Japão tem uma longa e estranha, para não dizer infeliz, história com a tecnologia nuclear. Já antes abordei o tópico do único ataque nuclear alguma vez levado a cabo na História escrita da Humanidade, com as bombas de Nagasaki e Hiroshima, e todo o horror que daí surgiu, bem como certos traços subculturais, nos posts abaixo “linkados”:

Mas e o que aconteceu ao Japão depois desse trágico final da Segunda Guerra Mundial?
Bem, menos de uma década após o final dessa Guerra, em Agosto de 1945, o Japão já estava a executar planos para poder gerar energia eléctrica através de uma central nuclear, para satisfazer as suas crescentes necessidades eléctricas. Uma campanha de propaganda muito inteligente, que usou a combinação do desejo dos japoneses por uma vida melhor e o medo de perder esse futuro brilhante devido a falta de electricidade, fez com que a opinião pública esquecesse ou pusesse de parte o terror das bombas nucleares. O Japão, localizado numa das zonas mais instáveis a nível sísmico do planeta, tornou-se na plenitude dos tempos numa país com 50 centrais nucleares e o terceiro maior produtor eléctrico a nível mundial. Ora, se eu fosse Jung falaria do Sincronismo necessário para que tal se tenha passado.
A estrada para o Japão nuclear que conhecemos é uma de esforços secretos durante a guerra por parte de cientistas nucleares japoneses, de um nacionalista de direita que dominou a política japonesa durante quase 50 anos, de um magnata dos media que trabalhava com a CIA, de um espalhafatoso piloto com jeito para a auto-promoção, do mais popular e corrupto primeiro-ministro japonês pós-guerra, e dum colectivo de orgulho desmesurado que ficaria conhecido como a aldeia de energia eléctrica.
Em 1945, a bordo do USS Missouri na Baía de Tóquio, foi assinado o acordo que deu por terminada a guerra, passando o controlo do Japão para a Ocupação Norte-Americana, que procurou refazer o Japão à imagem dos E.U.A., ou o mais próximo disso possível, no intuito de impedir uma nova guerra catastrófica. Os gestores americanos que foram para o Japão administrar a Ocupação, da escola do New Deal de Franklin Roosevelt, vinham cheios de optimismo e de uma ingenuidade popularizada anos mais tarde por Graham Greene, no romance “The Quiet American” (que hoje em dia já conta com pelo menos uma adaptação cinematográfica). Ainda assim, de boas intenções está o inferno cheio, e foram essas alegadas boas intenções que chegaram aos jornais e revistas norte-americanos, enquanto que a verdadeira história da Ocupação é uma bem mais sórdida e que permaneceu durante muitos anos secreta. Esta, trazida à luz do dia, destrói a cuidadosamente guionizada versão oficial da transição pacífica do Japão para uma nação democrática.
Nenhum segredo terá dado mais causa de reflexão à América que o facto do programa atómico japonês durante a guerra estar bem mais avançado que alguém pudesse conceber em Whashington D.C. Apenas semanas após a rendição é que foi descoberto que cientistas japoneses em Tóquio, Quioto, e na Coreia ocupada pelo Japão, tinham estado a trabalhar para chegar à Bomba. À medida que os anos ‘40 deram lugar aos anos ‘50, e a Guerra Fria começou, muitos dos japoneses presos como criminosos de guerra, deram por si a serem libertados, para se tornarem em aliados de Whashington contra o Comunismo. A necessidade de os EUA de terem um aliado no Oriente contra a então já nuclear União Soviética e uma China Comunista, intersectou o antigo sonho do Japão para ter uma fonte de energia segura, limpa e estável. O momento da energia nuclear no Japão havia chegado.
Em 1953, com a guerra da Coreia a terminar numas tréguas instáveis, Yasuhiro Nakasone, um nacionalista japonês em ascensão, foi convidado a estudar na universidade de Harvard. Ao frequentar essa universidade, conheceu um ambicioso académico de Harvard: Henry Kissinger.

Quero só acrescentar antes de prosseguir que Kissinger nunca se atreveu a processar Hitchens pelo livro que o acusa de ser um mentiroso, um criminoso de guerra, presumidamente porque para isso teria de o enfrentar em tribunal. Aliás, o Hitchens ainda o processou ou tal ameaçou via advogados por todos os insultos que Kissinger lhe fez. Mas os advogados de Kissinger acabaram por emitir um comunicado em que pediam desculpa a Christopher Hitchens pelos insultos prestados. Kissinger é vil, mais que maquiavélico, um doido por poder em toda a acepção da expressão. Infelizmente este livro não se encontra traduzido para Português e eu também não disponho do tempo para traduzir os vídeos ou o resumo. Contudo, deixo-vos 6 pequenos vídeos, retirados de outros mais longos vídeos de palestras e entrevistas do Hitch sobre a sua batalha com Kissinger, só para terem uma breve noção do que esta foi. Estes foram traduzidos por mim. De seguida continuo a explanação histórica.


Kissinger contou ao jovem Nakasone, que viria a tornar-se primeiro-ministro três décadas mais tarde, um segredo. Muito em breve, os EUA iriam partilhar o seu conhecimento nuclear com países interessados não em fazer bombas, mas sim em criar centrais nucleares. Em Dezembro de 1953, o presidente Eisenhower anunciou a sua iniciativa “Átomos pela Paz”. Nakasone tinha já avisado os seus amigos no Japão, incluindo cientistas do antigo programa nuclear japonês, que muito em breve teriam acesso a tecnologia nuclear norte-americana para construir reactores nucleares. Mas havia um obstáculo. A população japonesa ainda não esquecera que “nuclear” queria dizer, antes de mais nada, a devastação de Hiroshima e Nagasaki. O que Nakasone e companhia precisavam então era de uma mente que pensasse como eles nos Media, que trabalhasse afincadamente para veicular a mensagem deles. Eis que surge Matsutaro Shoriki. Aprisionado como um criminoso de guerra classe A mas libertado antes de ser julgado, Shoriki era uma figura imponente que dirigia o jornal Yomiuri  Shimbun (que com a circulação reportada de 10 milhões de cópias por dia, afirma ser o maior jornal do mundo). Por 1954, as suas raivosas visões anti-comunistas eram projectadas não só no Yomiuri como na Nippon TV, uma das primeiras estações televisivas japonesas, que ele também dirigia. Como o jornalista freelancer Tetsuo Arima detalha no seu livro “Genpatsu, Shoriki, CIA” (Energia Nuclear, Shoriki, CIA), Shoriki era também um amigo da CIA e um ardente defensor do nuclear. Com a ajuda de Nakasone, Shoriki usou o seu jornal como um organismo virtual de relações públicas para a energia nuclear. A manchete do Yomiuri no dia de Ano Novo de 1954 era “Finalmente o Sol foi Capturado”. Era o primeiro de muitos artigos a argumentar o abraçar desta nova forma de energia e o começo de uma longa e entusiástica campanha daquele jornal que, de uma forma menos berrante, continua até aos dias de hoje.
Contudo, mesmo quando este pequeno mas influente lobby composto por Nakasone e Shoriki, com o seu altifalante Yomiuri, começava a ganhar momento, a tragédia atacou. A 1 de Março de 1954, 23 pescadores japoneses, a bordo do seu barco o Daigo Fukuryu Maru (tradução: Dragão Sortudo Cinco), foram expostos a precipitação ou poeiras radioactivas provenientes duma explosão nuclear levada a cabo pelos americanos no Atol Bikini. Ainda assim, dias depois e embrulhado em segredo, o parlamento do Japão (sob orientação de Nakasone) aprovou o primeiro orçamento destinado à pesquisa nuclear, um orçamento de 235 milhões de yen. O primeiro passo para as centrais nucleares fora tomado.
Sem se deixar demover pela preocupação do público sobre o caso do Daigo Fukuryu Maru, O jornal Yomiuri continuou a sua campanha de propaganda. Shoriki ajudou a patrocinar uma exibição em Tóquio no ano de 1955, que apresentava as maravilhas do poder nuclear, e, por esta altura, uma das personalidade mais mediáticas do Japão juntou-se ao lado Pró-Nuclear.
Zensaku Azuma era conhecido pelo público japonês como um espalhafatoso piloto que voo sozinho sobre a Europa, os Estados Unidos e a Ásia em 1930. Em meados dos anos ‘50, ele era uma bem conhecida celebridade que se sentia intrigada pela energia nuclear. Em 1955, ele encontrou depósitos de Urânio na fronteira entre as prefeituras de Okinawa e Tottori. Ele andou em digressão pelo Japão a comer comida carregada de Urânio antes de morrer de cancro 10 anos depois, aos 74. (provavelmente, se não fosse parvo teria chegado aos 100 :). Contudo, após a descoberta de que o Japão tinha depósitos nacionais de Urânio, o país ganhou uma febre por Urânio. As pessoas compravam contadores Geiger e escavavam os quintais em busca do minério. Quintas anunciavam que vegetais nascidos em campos que tivessem traços de urânio eram melhores para a saúde. Uma mulher da prefeitura de Gifu, vendia vinho de arroz japonês com traços de urânio. Mas como todas as modas, esta depressa acabou por esmorecer e desaparecer (para bem dos japoneses e da sua saúde diria eu).
Contudo, pela altura em que a maluqueira pelo urânio desapareceu, Shoriki já tinha sido nomeado, em 1956, para a primeira Comissão Japonesa de Energia Atómica, independentemente de ele não ter quaisquer conhecimentos de física nuclear (hein?, é igual em todo o mundo… a merda rola monte a cima na puta da política!). De qualquer forma, a aceitação pelo público japonês da energia atómica enquanto fonte energética pacífica estava a espalhar-se. Contudo, o governo tinha outros obstáculos à construção das centrais nucleares, um dos quais podia levar o país à bancarrota!
Em 1960, o Fórum Industrial Atómico Japonês, um lobby industrial, foi secretamente comissionado pela Agência da Ciência e Tecnologia para desenvolver uma estimativa do custo, baseada numa pergunta a qual não se queria dar a conhecer ao público: “Quanto teria a administração japonesa de pagar em compensações face a queixas derivadas a acidentes nucleares?” (eu não vos digo? Merda é merda em todo o lado, só eventualmente muda a cor. E antes que me chamem racista, refiro-me a cores político partidárias, ok? ) O Fórum apresentou uma série de cenários possíveis, mas no pior dos casos o governo teria de pagar 3.7 triliões de yen em compensações. Isto numa altura em que o orçamento nacional japonês era de 1.7 triliões de yen!
O governo escondeu o relatório durante 40 anos, até este vir à luz em 1999 (Estranhamente, este foi o ano em que estreou o The Matrix. Espero não precisar de explicar a gigantesca metáfora sócio-política que esse filme é). Mas o Fórum foi claramente a razão que levou o governo passar em 1960, o decreto-lei sobre Compensação para Danos Nucleares, que isentava os operadores de centrais nucleares do pagamento de compensações “no caso do dano ser causado por uma catástrofe natural de carácter excepcional”. Com isso, um dos últimos obstáculos à construção de centrais nucleares havia sido superado. Esta lei viria a permanecer mera teoria até o desastre de Fukushima em Março de 2011 forçar o governo e o público a tomar consciência das suas reais ramificações.
O primeiro reactor nuclear japonês foi construído perto de Tóquio em 1961 e entrou em operação apenas 5 anos mais tarde em 1966. Mas a verdadeira alvorada da era nuclear no Japão, surgiria a 14 de Março de 1970, na abertura da Expo de Osaka. Nesse dia, os visitantes eram recebidos com sinais que proclamavam orgulhosamente que a central Nª1 de Tsugura, na perfeitura de Fukui estava a auxiliar a fornecer energia para a Expo.
A Expo de Osaka tomou lugar mesmo quando as questões ambientais estavam a ganhar proeminência. Respondendo aos horrores de envenenamento por mercúrio em Minamata e a tenebrosa realidade da poluição do ar derivada do boom económico (como tem vindo recentemente a acontecer no Brasil, na China e na Índia) dos anos ‘60, combinado com a crescente tomada de consciência de que a energia nuclear nasceu das armas nucleares, nasceu um movimento político Anti-nuclear poderoso e vocalizado. Ao mesmo tempo, a política do Governo era construir centrais nucleares próximas de pequenas vilas, que tinham o direito democrático de as rejeitar se assim quisessem. Para o governo, tornou-se uma alta prioridade garantir que tal não acontecesse, especialmente depois de o processo legal movido em Ikata (prefeitura de Ehime) contra uma proposta central ter dado o tiro de aviso. Mas o que fazer? Felizmente para o lobby pró-nuclear o primeiro-ministro da altura tinha um plano.
Kahuei Tanaka elevou-se de origens humildes na longínqua prefeitura de Niigata, na zona costeira do Japão, para se tornar no mais popular e controverso primeiro-ministro Japonês. Nos anos 1970, ele governou o país como poucos fizeram desde essa altura, primariamente porque assegurou que as províncias japonesas, extremamente subdesenvolvidas, receberam pelo menos alguma parte da riqueza nacional.
Reconhecendo que o que muitas das vilas piscatórias da costa japonesa precisavam, e queriam, eram projectos de obras públicas, Tanaka fez aprovar 3 leis em 1974 garantindo fundos de Tóquio aos governos locais caso estes concordassem em hospedar uma centrar nuclear na sua zona. Durante as décadas que se seguiram, as prefeituras de Ishikawa, Fukui, Shimane, e, claro está, a própria terra de Tanaka, Niigata, entre outras, abriram as portas a centrais nucleares em troca de dinheiro para construir estradas, pontes, centros comunitários, estações de comboio, e sistemas de esgotos modernos. E assim que a central nuclear estava construída, havia mais dinheiro a ser ganho localmente, trabalhando partime na central nuclear durante os períodos de inspecção, ou a providenciar comida, abrigo e transporte às hordas visitantes de técnicos especializados e agentes governamentais.
Contudo, nem toda a gente estava convencida de que o nuclear era a solução. Em 1975, o Centro de Informação Nuclear dos Cidadãos foi fundado pelo professor de Química Jinzaburo Takagi, como uma forma para educar o povo sobe aquele tópico. Ambos o acidente de Three Mile Island(1979) e de Chernobyl (1986) fizeram com que subitamente um grande número de japoneses compreendesse que a energia nuclear não era assim tão segura como lhes havia sido publicitado.
Isto levou ao rebentar de um esforço por parte dos cidadãos para afastar o Japão do caminho do nuclear. Em 1988, reuniram 3.6 milhões de assinaturas que apoiava uma nova lei para fechar todas as centrais nucleares. Mas o governo Japonês, sobretudo Yasuhiro Nakasone, ignorou a campanha, tal como fez o partido do governo de então, o Partido Liberal Democrático(Lá liberal até pode ser, deu-se à liberdade de os ignorar, já democrático… eh! Afinal, não houve um único fascista que não se dissesse amante da liberdade. “Palavras são vento”, diz-nos George R R Martin). Entretanto, foi dito ao povo que havia poucas opções (a história é sempre a mesma). As energias renováveis diziam-se ser ainda demasiado dispendiosas e de pouca confiança (um argumento ainda usado nos dias de hoje pelo lobby pró nuclear), enquanto medos de outra crise de petróleo como a de 1973 permitiu que o lobby pró nuclear argumentasse contra uma mudança de energia nuclear para energia baseada no petróleo, dizendo ser uma má ideia (realmente, venha o diabo e escolha. Se bem que a do petróleo acaba por ser menos problemática em termos de segurança).
Outros esforços para libertar o Japão do Poder Nuclear, foram desenvolvidos ao longo dos anos ’90. Por essa altura, décadas de energia nuclear haviam criado um vício a essa forma de energia nas cidades que consumiam electricidade por ela providenciada (a custos baixos, era dito ao povo), e também nas vilas, onde as centrais nucleares se haviam tornado nas galinhas dos ovos de ouro locais e lhes providenciavam as mesmas, se não melhores, infra-estruturas e transportes que os dos primos das cidades.
Sinais de perigo, tais como uma fuga de sódio em 1995, um fogo no reactor de plutónio no monte Monju, foram ignorados, tal como o foi um acidente na central de Tokai-mura, perto de Tóquio, em 1999, que matou 2 trabalhadores e expôs medidas de segurança defeituosas. Seguiram-se outros incidentes: em Agosto de 2004, a tragédia surgiu quando uma tubagem de vapor corroída, que nunca fora inspeccionada em 28 anos de utilização, explodiu matando quatro trabalhadores; no início de 2007, foi revelado que a Companhia de Energia Eléctrica de Tóquio (TEPCO, sigla em inglês) falsificara dados de segurança nas suas centrais nucleares em cerca de 200 inconformidades. Nesse verão, a central Kashiwazaki-Kariwa, em Niigata, da TEPCO foi danificada após um terramoto de magnitude 6.6, com epicentro a 19 quilómetros de distância. Não houve fatalidades, mas a TEPCO admitiu que 3 dos 7 reactores abanaram a ritmos muito acima dos valores especificados em projecto.
Ainda assim, a TEPCO e a aldeia nuclear negaram a possibilidade de um incidente de grande porte. Ao invés, concluíram que o terramoto de 2007 provara que as centrais eléctricas japonesas eram de facto à prova de sismo e de que a tecnologia japonesa de energia nuclear e a sua gestão era a melhor do mundo.
A História, estavam eles confiantes, havia comprovado que a decisão tomado nos anos ’50, para abraçar a energia nuclear fora a correcta, para uma nação pobre em combustíveis fosseis como o Japão. A TEPCO afirmou, após o susto trémulo de 2007, que eventualmente as centrais de Kashiwazaki-Kariwa iriam ser tornadas ainda mais seguras face a tremores de terra. Assim como também aconteceria com 4 reactores que operavam numa prefeitura chamada Fukushima. Mas entretanto, a aldeia nuclear do Japão assegurava com confiança a nação e o Mundo de que nada havia com que se preocupar.
Coloquei esta perspectiva histórica em itálico pois foi praticamente toda traduzida de um documento, cujo pdf debate a questão do nuclear no Japão:
Fresh Currents
Quanto a Fukushima, quando vi o documentário Children of the Tsunami, que muito me impressionou, tanto pela positiva como pela negativa (e sobre o qual é provável que venha a fazer uma crítica alongada e análise aprofundada num futuro post), onde as crianças viviam em zonas radioactivas, em que os pais estão constantemente a medir os níveis de radiação para as deixar brincar na rua, fiquei de imediato com a impressão de que nada de bom ia sair daquilo. O próprio governo parece estar a usá-las como os proverbiais ou históricos “canários na mina de cobre”. Posso estar a ser injusto, mas foi a impressão com que fiquei e então permaneci atento às notícias. Eis as manchetes (links) que vieram a confirmar o meu medo:



Ora, a evolução genética da Borboleta há-de ser mais rápida que a do homem, são criaturas efémeras, vidas inteiras em apenas 24 horas nalgumas espécies, logo é normal que evoluam de acordo com o seu ambiente mais rapidamente, daí já estarem a mutar. Uma criança humana poderá demorar muito tempo até demonstrar problemas ou deformações geradas pela radioactividade a que é exposta. Pode até só saber de que há algum problema, quando o seu primeiro filho nascer com alguma deficiência genética ou quando descobrir que afinal é estéril pela radiação ter deformado o seu aparelho reprodutivo. Por isso, é de loucos deixar aquele pessoal continuar a viver naquela zona, pelo menos até a descontaminarem minimamente, o que pode levar muitos anos.
Agora, retornando à questão energética. A catástrofe social, não menor que a natural que a causou, que se abateu sobre Fukushima, empurrou uma bola de neve de médio tamanho pela montanha abaixo e criou uma avalanche de sentimento anti-nuclear.


Ora, que tenho eu a dizer sobre isto?
Bem, primeiro sejamos historicamente justos. Embora deteste como a energia nuclear foi “vendida” ao povo japonês, mediante propaganda e lobbies, não posso ter a certeza, mas duvido com grande convicção de que o Japão se tivesse tornado na quarta economia mundial hoje em dia sem ter tido a sua era atómica como teve. A independência energética é essencial para gerar um país tecnologicamente avançado e rico.
Dito isto, eu nunca fui defensor das centrais nucleares. Para além de criarem lixos radioactivos, dos quais muitos barris acabam no fundo dos nossos oceanos ou em aterros secretos e nada seguros, que podem ser geradores de toda uma quantidade de problemas no nosso futuro enquanto Humanidade, considero-as demasiado perigosas no presente. É claro que o risco pode ser diminuído consideravelmente através de correctas medidas de segurança, da contínua execução de vistorias e fiscalizações sérias e independentes, de uma contínua actualização da tecnologia de segurança utilizada, e particularmente dos locais onde são construídas. Ora, o caso geográfico do Japão é terrivelmente mau para albergar centrais nucleares, como de resto já se pôde ver, graças ao terramoto.
Tendo em conta o quanto o nuclear caiu em desfavor na opinião pública japonesa, ou o quanto parecem a sociedade e mesmo algum do tecido empresarial japonês estarem ansiosos por uma evolução para as energias renováveis e limpas, eu diria que a melhor opção para o Japão é começar uma substituição gradual das suas fontes energéticas. E óbvio que não pode ser drástico, pois há que garantir a economia japonesa, bem como as necessidades energéticas do povo japonês. Mas podem ir substituindo gradualmente as centrais mais antigas e/ou em zonas de maior risco sísmico.
Estranhamente, Portugal e Japão, mais uma vez poderiam ajudar-se mutuamente. Portugal precisa drasticamente de aumentar a sua produtividade. Nada tem a ver com trabalharmos mais, não somos mandriões como os idiotas dos nossos governantes (e não a Troika) parecem pelas suas atitudes achar, mas sim em conseguirmos produzir bem valiosos para os mercados externos que façam entrar investimento e lucros no país mediante exportações. Ora, nós somos o país europeu com mais produção energética via energias renováveis, temos projectos e/ou parcerias pioneiras de sistemas que aproveitam as ondas do mar (algo que o Japão também tem em abundância) e também em geradores eólicos.




Seria óptimo para os nossos estaleiros e mesmo para novas empresas que desse novo nicho de mercado surgissem, que conseguíssemos ajudar os nossos amigos de há muito no seu processo de adaptação energética, ao mesmo tempo que nos tornávamos mais produtivos. Este seria um excelente sentido a dar à nossa política externa e política de economia interna, sendo que talvez pudéssemos também servir de mediadores na rixa das ilhas Senkaku, dadas as nossas amizades tanto com o Japão como com a China. Uma guerra daí proveniente não favorece nada nem Portugal nem o Mundo. Ainda assim, creio estar a sonhar alto, considerando o actual Ministro de Negócios Estrangeiros português.
Mas disso (das ilhas Senkaku) falarei no próximo post, pois como sempre já me alonguei demasiado por hora...

Sayonara, tomodachi! ;)