segunda-feira, 15 de abril de 2013

Rápidögraphia: Christopher Hitchens



“It was a cold bright day in April and all the clocks were striking thirteen.”

Esta entrada tem um duplo objectivo. Celebrar o aniversário de um recém-caído "guerreiro" das liberdades humanas, um verdadeiro amante da sabedoria, ao mesmo tempo que, dessa forma, inauguro uma nova rubrica aqui no N.I.N.J.A. Samurai. Esta última chama-se Rápidögraphia, e tem como propósito dar-vos um vislumbre de pessoas da esfera pública, nacional e internacional, que admiro.
Introduzamos a primeira dessas figuras, por meio duma entrevista levada a cabo no Brasil:


O seu nome era Christopher Hitchens.
Os seus inimigos, os teocratas e os totalitários de todas as espécies. A sua vida eram as palavras e a luta pelos direitos humanos e pela emancipação da Humanidade de todas as formas de totalitarismo, sendo a original a Religião.
A citação acima não é dele, mas sim de George Orwell. É a primeira frase do poderoso 1984. O Christopher achava-a particularmente importante e suspeitava que ela era uma espécie de homenagem velada à revolução norte-americana. Um dos pais dessa revolução, eu não me lembro qual, mas o Hitch saber-vos-ia de imediato indicá-lo, terá dito que para se conseguir levar a cabo a revolução era preciso fazer os relógios dos 13 estados baterem em uníssono! Para aqueles de vós que não o sabem, antes de serem 50 estados, eram 13. Mas por outro lado, 13 de Abril era a data de nascimento de Thomas Jefferson, outro grande presidente dos EUA, que ajudou a escrever as emendas à constituição, com particular preponderância naquela que separa o estado da Igreja. O próprio Christopher nasceu a 13 de Abril de 1949. Abril deve ser mesmo o mês dos revolucionários!
Na sua visão de mundo, não existia qualquer divindade. Apenas homens que se auto-nomeavam enviados ou agentes endossados de/por um imaginário poder celestial, obtendo dessa forma um terreno e muito real poder sobre os seus pares. Ele atacava a religião e não os fiéis, embora muitos fiéis por ele se sentissem insultados. Mas era também um amante das artes e da boémia. Johnny Walker Black, era o seu veneno de eleição, e dizia que uma refeição sem vinho, tinto de preferência, não tinha sabor. Ao morrer de Cancro do Esófago, não arranjou para si nenhuma desculpa, sabendo que tinha abusado bem durante toda a sua vida, com álcool e cigarros. Como ele próprio disse, e traduzo livremente, queimou a vela nas duas pontas e esta deu uma bela luz.
Era um cidadão do mundo, anglo-americano, que percorreu o planeta a testemunhar a opressão e libertação de vários povos, incluindo o nosso. Esteve cá em ’74, para cobrir a revolução dos Cravos, que o veio a roubar das últimas ilusões de um movimento socialista internacional, o qual deu então por morto. Emancipando-se de dogmas partidários, tornou-se num marxista independente, sem afiliações, completamente entregue à perseguição dos hipócritas, dos corruptos e das fraudes, enquanto lutava por justiça e pela liberdade, e buscava a verdade. Uma vez disse, parafraseio, mesmo que a verdade seja inalcançável, isso não é desculpa para não a buscarmos.
Era um homem de contradições, um aluno esforçado da dialéctica.
Tendo falado contra a primeira guerra do Iraque, foi a favor da segunda, sendo que as suas recém criadas amizades entre os resistentes seculares curdos o tenham convencido da prioridade que era varrer Saddam Husseim do mapa. Daí em diante, enquanto defendia a justeza da Guerra do Iraque dos seus ex-aliados da Esquerda britânica e americana, depressa tornados  opositores, Hitch usou a bandeira do Curdistão na lapela. E ao contrário dos outros defensores da Intervenção no Iraque, não escondia a importância do petróleo naquela guerra. Perguntava ele se achávamos mesmo que deveríamos ficar impávidos enquanto um tirano sádico e a sua família mafiosa continuava secretamente armar-se (e sim, foram encontradas não armas de destruição em massa, mas enterrados em lugares chave, os seus ingredientes, bem como planos de um vasto plano para esconder um arsenal inteiro dos inspectores da Nações Unidas); enquanto este último queimava, para que os outros não os pudessem usar, poços de petróleo, enchendo a atmosfera de carbono, subjugando o seu povo com punho de ferro (famílias eram obrigadas a assistir à morte de um familiar preso pelo regime e até tinham de aplaudir!!); enquanto conhecidos terroristas eram detidos na Europa, mas tinham de ser libertados por gozarem de imunidade diplomática concedida por um passaporte iraquiano? E embora admitisse que a Libertação do ou a Intervenção no Iraque, pelas forças da Coligação dos Voluntariosos, tivesse sido mal planeada e pessimamente executada, contava no seu balanço alguns sucessos:
- a entrega de Kadafi de todo o seu arsenal de destruição maciça aos EUA (arsenal esse que reside agora em Oak Ridge, Tennessee);
- a investigação feita à origem dessas armas, que se apurou terem vindo da Coreia do Norte e do Paquistão, levando a que se fechassem essas vias de proliferação;
- o estabelecimento de eleições democráticas no Iraque e de tribunais;
- o estabelecimento da região autónoma no norte do Iraque, onde os curdos fizeram um governo secular e democrático;
- o ter-se terminado com um país que dava protecção diplomática e abrigo a conhecidos terroristas;
- o afastamento da família Hussein do poder.
Afirmava sem hesitação que a cura para a pobreza era a emancipação da Mulher, mas acreditando ainda assim que a Mrs Hitchens não devia ter a obrigatoriedade, mas apenas o direito, de ter um emprego. "Se ela quiser, que trabalhe, mas não deve ser obrigada."
Acreditava na legalização das drogas para terminar a Guerra contra as Drogas, na solução dos dois estados para o conflito da Palestina, tinha reservas contra o aborto (embora reconhecesse casos em que este era imperativo e outros em que era permissível moralmente), era a favor do Euro e do federalismo europeu, e dizia que a homossexualidade não era apenas uma forma de sexo, mas também de amor. Nas suas Memórias, Hitch 22, escreveu sobre (para além dum tórrido encontro do seu rabo com um jornal enrolado e empunhado pela Dama de Ferro em pessoa, a Sra Tatcher) as suas experiências homossexuais durante a sua estadia num colégio interno britânico, estendendo dessa forma a sua solidariedade para com a comunidade gay. Falou também da morte bizarra da sua mãe e da personalidade estranha do seu pai. Teve 3 filhos de duas mulheres e dizia que quando se tem filhos com alguém nunca se fica realmente divorciado dessa pessoa.
Atacou as reputações de poderosos e de santos, como Kissinger, Clinton e Madre Teresa, revelando-lhes o lado negro e obscuro, que campanhas bem orquestradas de propaganda tão maravilhosamente ocultaram. Ao mesmo tempo, escreveu livros sobre o Parthenon, sobre Jefferson, Thomas Pane e Orwell, entre outros, e produziu milhares de artigos em várias publicações internacionais. Foi durante muito tempo, se é que não o é ainda, o único escritor a ter estado nos 3 países do Eixo do Mal de George W Bush, o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte. De facto, Hitch (como era tratado pelos seus amigos) passou, depois de ter estado na Coreia do Norte, a retratar o Paraíso Celestial como uma Coreia do Norte Celestial. Experimentou depilação e tortura por waterboarding, apenas para sobre isso escrever em primeira-mão. Quase foi espancado por fascistas árabes em Beirute, por destruir um grafitti duma suástica, mas foi salvo por uma multidão de árabes não fascistas que o removeram da cena. Quando recebeu uma ameaça de morte, que o Departamento de Estado norte-americano achava credível, aconselhando-o a mudar de residência, Hitchens não o fez, nem pediu protecção. Dizia abertamente na televisão, que o nome e morada dele estavam na lista telefónica em Washington. Era um homem de grande integridade moral e coragem verdadeira (ou talvez fosse falta de medo?!), sem nunca ter receio de ofender quando falava o que pensava, sem medo de pedir desculpa quando se revelava que tinha errado. Ou de admitir em público quando não sabia o suficiente para se pronunciar num dado tópico. O sábio é aquele que sabe quando remeter-se ao silêncio.
Filósofo com aspirações a político, que acabou por encontrar-se como jornalista, comentador político, e profícuo autor. Declarado ateu e anti-teísta resoluto. O próprio Vaticano o convidou para assumir funções de Advogado do Diabo, falando contra a beatificação da Madre Teresa em Roma, levando Hitchens a dizer mais tarde que foi o único homem a defender o diabo pró bono! Quando lhe perguntaram se era possível acreditar em Deus e ainda assim ser um anti-teísta, Hitch disse que sim e foi mais longe dizendo que se deus existisse, ele (Christopher) seria “… of the Devil’s party”, como Milton, que escreveu: "Better to reign in Hell, than to serve in Heaven!"
Inventou o que eu chamo o Desafio do Hitch:
"Nomeia-me uma afirmação moral ou acção moral, executada por um crente que não possa ser executada por um descrente."
E o seu corolário, bem mais fácil:
"Nomeia uma acção terrível ou declaração imoral, feita por alguém por causa da sua religião."
E como ele costumava dizer: do corolário pensaram logo em várias com facilidade. Eheheh.
Criou também o que eu chamo o Hitchslogan:
"Mr Jefferson build up that wall!"
Este slogan, alude à Muralha de separação entre o estado e a igreja, consagrada na 1ª Emenda à Constituição dos EUA, enquanto goza com a célebre frase de Reagan: "Mr Gorbachev, tear down this wall!" pedindo a queda do Muro de Berlim
Grande defensor de Salman Rushdie aquando da fatuah que lhe foi lançada pelo Ayatolla Khomeini, começou aí a sua verdadeira guerra contra os partidos de Deus. Tendo esta sido intensificada após os ataques de 11 de Setembro, acontecimento que o levou finalmente a pedir nacionalidade americana, sentido-se moralmente obrigado a isso por solidariedade com os USA, nos quais já vivia há imensos anos com um visto perpétuo. Os seus filhos são americanos. No ano em que publicou o seu primeiro livro, teve o seu primogénito (a quem chamou Alexandre, by the by), e plantou uma árvore. Ainda não tinha 33.
Eu só o descobri em inícios de 2012, após ter lido o livro de José Rodrigues dos Santos, “O Último Segredo”, que desenha o Jesus Histórico em oposição ao Jesus Mitológico. Querendo saber mais, meti-me a pesquisar na net e deparei com os vídeos dos debates do Hitch, quando em tournée do seu livro “God is Not Great”. Identifiquei-me de imediato com ele, devido ao gosto pela escrita, ao cepticismos, ao ateísmo, ao gosto pelo debate e pela retórica.
Naveguei avidamente pelos seus debates e entrevistas no youtube, aprendendo imenso sobre História, literatura da língua inglesa, apanhando alguns títulos de cinema que doutra forma dificilmente descobriria, até que por fim descobrindo, com incrédulo pesar, que ele tinha morrido de cancro. Porque é que as pessoas que valem a pena morrem cedo? A resposta é simples. O Universo é caótico, impiedoso na sua inconsciência e não nos deve nada. Os genes e os abusos de Hitch deram aos seus inimigos o prazer de ver o seu corpo flutuar rio abaixo, parafraseando Sun Tsu. Mas enquanto estes últimos morrerão e serão esquecidos, a obra que Hitchens nos deixou dar-lhe-á, espero eu, a única medida de imortalidade aberta a seres mortais.
Mudou-me a opinião quanto à Guerra do Iraque; discordo com ele quanto ao Euro e ao Aborto; concordo sobre a homossexualidade, sobre a necessidade de nos emanciparmos da Religião e, embora seja mais igualitário que ele (sou a favor de direitos e deveres iguais entre géneros), ambos acreditamos na justeza e necessidade da emancipação da Mulher.
Amigo de Martin Amis, Salman Rushdie, (estes últimos, sempre discordaram publicamente com o Hitch sobre o Iraque e a sua amizade durou até ao fim) Stephen Fry, Ayaan Hirsi Ali, Lawrence Krause, entre muitos outros ilustres, nos últimos anos da sua vida tornou-se num dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, a vanguarda e os porta-estandartes do crescente movimento ateu internacional (imagem acima).
Perdi, na ignorância, a minha hipótese de ouvir ao vivo este grande orador, quando nos visitou em 2004:

Mas deixo-vos ainda assim com as suas palavras (nada melhor para o definirem pois muito mais teria que escrever para lhe fazer justiça), por mim legendadas para terminar em beleza, demonstrando este post também que o N.I.N.J.A. Samurai honra tanto a ortografia brasileira como a portuguesa, sempre em aberto desafio ao Acordês do AO90.
Para terminar direi que o Hitch foi um homem que sim soube morrer, mas mais que isso, foi um homem que soube viver.
Esta minha pequena mas esforçada homenagem, é o mínimo que posso fazer por alguém que não só muito enriqueceu a minha cultura pessoal, como é a quem muitas vezes recorro na minha argumentação ou escrita aqui no blog, por meio de vídeos e citações. Por isso mesmo, mais das suas palavras traduzirei para de futuro as usar para dar às minhas alguma ênfase, como já o tenho feito no passado. O Hitch também constatou que plágio é inevitável, mas que não é negativo se nós nomearmos o autor original. Ele foi um daqueles intelectuais que, mesmo quando discordamos com ele, vale sempre a pena ouvir o que ele tem para dizer.
Hasta la vista, camarada!

NOTA: é possível que este post venha a ser editado, se entretanto eu tiver tempo de legendar mais uns quantos de vídeos. ;)



segunda-feira, 4 de março de 2013

Genpatsu, Kissinger, Portugal


Não é fácil definir o conceito de Energia, mesmo em termos formais da ciência. Podemos dizer que é uma das componentes existentes quando há interacção entre dois entes ou sistemas físicos. Podemos ainda dizer que é uma componente essencial à realização de trabalho. Em termos metafísicos, esotéricos ou sobrenaturais ainda mais nos perdemos num labirinto de retórica que, desastradamente, procura parecer sábia mas é vã. Concentremo-nos na ordem natural das coisas, que é mais que suficiente para este nosso Verso. Queria um kanji para título deste post, mas a verdade é que, pelo que eu encontrei, o termo japonês para energia (homólogo deste nosso) é um japonesismo da palavra Enerugï, que se escreve em kanji:エネルギー. Existem outras duas palavras japonesas que descobri para energia, mas ambas são específicas: o Ki = 気 (energia espiritual) e o Denki = 電気 (energia eléctrica). Mas até compreendo os japoneses. Reflectindo sobre o assunto, é um pouco estranho termos uma palavra que sozinha não tem definição directa. Se falarmos energia mecânica, eléctrica ou cinética (por exemplo), sabemos instintivamente o que são. Mas se dizemos apenas energia é um tudo que é nada. E contudo, sabemos que é algo. Como a própria energia, o conceito em si é algo não palpável. Muitas vezes me sento em frente à minha lareira a olhar as chamas bruxuleantes no seu interior, como se nelas pudesse estar a resposta à minha pergunta, o que é o fogo? É sem dúvida um dos resultados duma combustão. É energia. É luz. É calor. É tudo isso. Mas o que é? Fogo.
Num filme, que eu não desgostei, chamado “The Celestine Prophecy”, que eu vi originalmente porque nele entra o ilustre Joaquim de Almeida, é dito a certa altura que todas as interacções humanas são resultado de interacções de campos energéticos gerados pelos seres vivos, os quais nós nem nos apercebemos que existem. Na mitologia do filme, a tomada de consciência desses campos e a realização de que não nos devemos procurar dominar uns aos outros (ou, neste contexto, sugar energia ao próximo), leva a um mais elevado plano espiritual. Mas isto tudo para chegar ao ponto de que nesse filme é dito que todas as guerras ou disputas humanas são essencialmente por energia. De facto, acaba sempre por ser, em última análise. Se na Pré-História guerreávamos por territórios de caça, era porque necessitávamos dessa caça para fornecer energia aos nossos corpos. Hoje lutamos por petróleo, por gás natural, por metais radioactivos, etc… mas essencialmente, lutamos por energia em qualquer que seja a sua forma. De facto, nós somos energia. Como diria o Yoda: “Seres luminosos somos nós, não esta rude matéria.” E como adorava Christopher Hitchens relembrar, parafraseando outro autor: “Esqueçam lá a morte de Cristo, estrelas tiveram de morrer para nós estarmos aqui hoje. Não é isso mais glorioso que o Arbusto Flamejante?”




Por falar em Mitologias… Na minha infância, antes de ler romances, policiais e ficção científica, lia Banda Desenhada. Entre as muitas que lia, como não podia deixar de ser para alguém da minha geração, estava a das Tartarugas Ninja. Estranhamente, a saga que eu mais gostei dessa BD, foi uma na qual não entravam os intervenientes do costumo. O Destruidor (The Shredder), o Krang, o Beebop e o Rocksteady, e o seu exército de Ninjas Foot, foram trocados por um clã de ninjas tradicional e místico, um samurai feiticeiro que odeia a Humanidade e uma ninja raposa, lacaia deste último. Em vez de Casey Jones como aliados, temos um rapaz que se consegue transformar num dragão gigante. Nova Iorque aparece substituída por Hiroshima. Mas o que me apaixonou nessas edições que nem vinham seguidas mas de forma intercalada, eram as introduções. Um mito de criação do Japão (acima), uma cena contextualizada no dia fatídico da queda das bombas nucleares (abaixo), dando-nos um vislumbre sobre a vida anterior do Mestre Lascas (Sensei Splinter).
Depois a história essencialmente, era que o Samurai Feiticeiro queria usar o Dragão Guerreiro, para destruir uma uzina nuclear, cuja energia iria soltar um Demónio para destruir a Humanidade. Com uma ajudinha dos Deuses do Yin Yang, os Tartas conseguem furtar tais planos, que são afinal uma ameaça terrorista hoje em dia tão passível de ser tornada realidade, mesmo sem a existência de dragões e demónios ou deuses.

 
Queria apenas partilhar esta parte da minha infância convosco, pois foi um pouco dela e da actualidade, que me surgiu a inspiração para este post e para a imagem a que chamei Mushroom Yin Yang. Mas digresso…


O Japão está, muito como Portugal, ou mesmo como toda esta nossa Aldeia Global, num momento de mudanças impostas pela inevitabilidade das consequências das decisões do passado. Fantasmas de outrora influenciam o momento presente. A Crise, que no grego antigo quer dizer Momento de Mudança, é diferente para Japão e Portugal, mas inevitável para ambos. A crise em Portugal foi criada pela ganância desmesurada dos homens, aliada a uma grande dose de credulidade e ignorância. A crise japonesa foi criada pelos esbirros de Gaia, se quisermos empregar uma linguagem mais poética, mas também pelo uso descuidado duma tecnologia que é na melhor das hipóteses um pau de dois bicos.
O Super Terramoto de 2011 que atacou o Japão fez com que o Estado Japonês tivesse de confrontar o verdadeiro perigo de ter Centrais Nucleares numa zona geográfica de alto risco do ponto de vista da sismologia, como é aquela em que se encontra o seu país. O já existente movimento verde anti-nuclear ganhou momento com este terrível acontecimento e o desastre proveniente da destruição da Central Nuclear de Fukushima.
Onde antes me centrei nas lições aprendidas (vide os dois links abaixo) em termos de prevenção e preparação para este tipo de situações (sismos e tsunamis), venho agora nesta nova entrada abordar em profundidade o controverso tópico do nuclear e a questão energética que cada vez mais vai apoquentar as sociedades modernas, servindo-lhes também de travão evolutivo a nível tecnológico. É certo que cada vez nos tornamos mais dependentes de energia, pois tornámo-nos uma civilização altamente tecnológica. Contudo, o próximo nível de avanços científicos, hologramas, sabres de luz, motores iónicos, teletransporte, motores anti-gravidade, tudo depende essencialmente de quanta energia conseguimos gerar, logo essa quantidade de energia acaba por ser o nosso limite tecnológico!
Novas, Actualidades e Trabalho de Campo

Mega Sismo: Quanto o Infinito Encontra o Zero

Ora, dos meus outros posts, nota-se o meu óbvio interesse nestas áreas. A sismologia porque foi o sismo de Março de 2011 que comprovou os dados recolhidos pelo astúcia e visão governativa do Marquês de Pombal em 1755 e que até 2011 se julgavam exageros de uma sociedade retrógrada. Portanto, no que diz respeito à sismologia, vivemos uma altura interessante em Portugal, embora acho que no meio de tanta coisa em que pensar com a Crise e a Austeridade, isto passou completamente ao lado do povo. Supostamente, no último trimestre de 2013, vai entrar em funcionamento um sistema de alerta de Tsunami em Portugal. Se forem ao post que escrevia (acima “linkado”) intitulado “Mega Sismo: Quando o Infinito Encontra o Zero”, poderão perceber que muitas vidas podem ser salvas pela implementação de um tal sistema.
Vejamos se o sistema é implementado e se fica a funcionar em pleno, incluindo apps de telemóvel para que os cidadãos possam ser avisados no momento, tal como existe no Japão, hoje em dia.
Outra coisa que mais cedo ou mais tarde terá de nos preocupar é a preparação de edifícios antigos para um terramoto.
http://www.publico.pt/mundo/noticia/intervencao-antisismo-em-edificios-antigos-nao-e-tao-comum-como-isso-1493840

Com o estado actual da construção pública em Portugal e a falta de emprego, seria uma lufada de ar fresco para muitos, se o Governo cagar para os bancos, if you pardon my French, fechando-lhes as torneiras e antes investir nessas obras de interesse público, particularmente em zonas de muito risco, como o Algarve e a Baixa Lisboeta. Erguer muralhas defensivas também não fazia mal nenhum. Mas eu sei… eu sei… não há dinheiro (no futuro post na rubrica “Os Meus Versículos Satânicos”, para o qual ainda me digladio com um subtítulo, hei-de oferecer ideias e alternativas para superarmos a nossa Crise). Mas imaginem no que esse investimento poupará quando vier o tsunami e o sismo. Eles hão-de vir, descansem. Mas são como a Morte, inesperada e impiedosa! Mas não se iludam, pois é certo que a Construção (movida a capitais estatais), embora faça surgir emprego momentaneamente podendo aliviar o sofrimento e a fome (não poupemos palavras) de alguns, em termos de resolver crises económicas não é solução, uma vez que é um investimento que não é exportável, logo não aumenta a nossa produtividade, mas sim a despesa de estado e a dívida. Quero com isto dizer que só espero que as probabilidades estejam connosco e que o Tsunami só retorno a terras lusas muito após termos superado os nossos problemas socio-económicos.
Voltando à questão energética, Portugal nunca aderiu à tecnologia nuclear e com efeito um dos vários problemas que contribuem para a nossa falta de auto-suficiência nacional e, consequentemente, para a nossa actual crise económica, é a incapacidade de gerar internamente energia suficiente para as necessidades de todo o país, sendo portanto forçados a importá-la. Duma forma ou de outra, uma vez que importamos energia da Espanha e da França, também nós dependemos do nuclear. Por outro lado, somos um dos países da União Europeia que mais energia verde produz, através de barragens, painéis solares, geradores eólicos e de energia de ondas marítimas. Hey, não podíamos fechar a tabela em tudo. Contudo, essa energia representa cerca de 30% da energia total que precisamos actualmente no país. E é preciso reparar que actualmente Portugal tem muito pouca indústria, logo no futuro, se conseguirmos escapar à mediocridade da nossa classe política governante e realmente semearmos as bases para uma retoma económica em larga escala no país, emergiremos a necessitar de ainda mais energia. Just some food for thought…
Já o Japão tem uma longa e estranha, para não dizer infeliz, história com a tecnologia nuclear. Já antes abordei o tópico do único ataque nuclear alguma vez levado a cabo na História escrita da Humanidade, com as bombas de Nagasaki e Hiroshima, e todo o horror que daí surgiu, bem como certos traços subculturais, nos posts abaixo “linkados”:

Mas e o que aconteceu ao Japão depois desse trágico final da Segunda Guerra Mundial?
Bem, menos de uma década após o final dessa Guerra, em Agosto de 1945, o Japão já estava a executar planos para poder gerar energia eléctrica através de uma central nuclear, para satisfazer as suas crescentes necessidades eléctricas. Uma campanha de propaganda muito inteligente, que usou a combinação do desejo dos japoneses por uma vida melhor e o medo de perder esse futuro brilhante devido a falta de electricidade, fez com que a opinião pública esquecesse ou pusesse de parte o terror das bombas nucleares. O Japão, localizado numa das zonas mais instáveis a nível sísmico do planeta, tornou-se na plenitude dos tempos numa país com 50 centrais nucleares e o terceiro maior produtor eléctrico a nível mundial. Ora, se eu fosse Jung falaria do Sincronismo necessário para que tal se tenha passado.
A estrada para o Japão nuclear que conhecemos é uma de esforços secretos durante a guerra por parte de cientistas nucleares japoneses, de um nacionalista de direita que dominou a política japonesa durante quase 50 anos, de um magnata dos media que trabalhava com a CIA, de um espalhafatoso piloto com jeito para a auto-promoção, do mais popular e corrupto primeiro-ministro japonês pós-guerra, e dum colectivo de orgulho desmesurado que ficaria conhecido como a aldeia de energia eléctrica.
Em 1945, a bordo do USS Missouri na Baía de Tóquio, foi assinado o acordo que deu por terminada a guerra, passando o controlo do Japão para a Ocupação Norte-Americana, que procurou refazer o Japão à imagem dos E.U.A., ou o mais próximo disso possível, no intuito de impedir uma nova guerra catastrófica. Os gestores americanos que foram para o Japão administrar a Ocupação, da escola do New Deal de Franklin Roosevelt, vinham cheios de optimismo e de uma ingenuidade popularizada anos mais tarde por Graham Greene, no romance “The Quiet American” (que hoje em dia já conta com pelo menos uma adaptação cinematográfica). Ainda assim, de boas intenções está o inferno cheio, e foram essas alegadas boas intenções que chegaram aos jornais e revistas norte-americanos, enquanto que a verdadeira história da Ocupação é uma bem mais sórdida e que permaneceu durante muitos anos secreta. Esta, trazida à luz do dia, destrói a cuidadosamente guionizada versão oficial da transição pacífica do Japão para uma nação democrática.
Nenhum segredo terá dado mais causa de reflexão à América que o facto do programa atómico japonês durante a guerra estar bem mais avançado que alguém pudesse conceber em Whashington D.C. Apenas semanas após a rendição é que foi descoberto que cientistas japoneses em Tóquio, Quioto, e na Coreia ocupada pelo Japão, tinham estado a trabalhar para chegar à Bomba. À medida que os anos ‘40 deram lugar aos anos ‘50, e a Guerra Fria começou, muitos dos japoneses presos como criminosos de guerra, deram por si a serem libertados, para se tornarem em aliados de Whashington contra o Comunismo. A necessidade de os EUA de terem um aliado no Oriente contra a então já nuclear União Soviética e uma China Comunista, intersectou o antigo sonho do Japão para ter uma fonte de energia segura, limpa e estável. O momento da energia nuclear no Japão havia chegado.
Em 1953, com a guerra da Coreia a terminar numas tréguas instáveis, Yasuhiro Nakasone, um nacionalista japonês em ascensão, foi convidado a estudar na universidade de Harvard. Ao frequentar essa universidade, conheceu um ambicioso académico de Harvard: Henry Kissinger.

Quero só acrescentar antes de prosseguir que Kissinger nunca se atreveu a processar Hitchens pelo livro que o acusa de ser um mentiroso, um criminoso de guerra, presumidamente porque para isso teria de o enfrentar em tribunal. Aliás, o Hitchens ainda o processou ou tal ameaçou via advogados por todos os insultos que Kissinger lhe fez. Mas os advogados de Kissinger acabaram por emitir um comunicado em que pediam desculpa a Christopher Hitchens pelos insultos prestados. Kissinger é vil, mais que maquiavélico, um doido por poder em toda a acepção da expressão. Infelizmente este livro não se encontra traduzido para Português e eu também não disponho do tempo para traduzir os vídeos ou o resumo. Contudo, deixo-vos 6 pequenos vídeos, retirados de outros mais longos vídeos de palestras e entrevistas do Hitch sobre a sua batalha com Kissinger, só para terem uma breve noção do que esta foi. Estes foram traduzidos por mim. De seguida continuo a explanação histórica.


Kissinger contou ao jovem Nakasone, que viria a tornar-se primeiro-ministro três décadas mais tarde, um segredo. Muito em breve, os EUA iriam partilhar o seu conhecimento nuclear com países interessados não em fazer bombas, mas sim em criar centrais nucleares. Em Dezembro de 1953, o presidente Eisenhower anunciou a sua iniciativa “Átomos pela Paz”. Nakasone tinha já avisado os seus amigos no Japão, incluindo cientistas do antigo programa nuclear japonês, que muito em breve teriam acesso a tecnologia nuclear norte-americana para construir reactores nucleares. Mas havia um obstáculo. A população japonesa ainda não esquecera que “nuclear” queria dizer, antes de mais nada, a devastação de Hiroshima e Nagasaki. O que Nakasone e companhia precisavam então era de uma mente que pensasse como eles nos Media, que trabalhasse afincadamente para veicular a mensagem deles. Eis que surge Matsutaro Shoriki. Aprisionado como um criminoso de guerra classe A mas libertado antes de ser julgado, Shoriki era uma figura imponente que dirigia o jornal Yomiuri  Shimbun (que com a circulação reportada de 10 milhões de cópias por dia, afirma ser o maior jornal do mundo). Por 1954, as suas raivosas visões anti-comunistas eram projectadas não só no Yomiuri como na Nippon TV, uma das primeiras estações televisivas japonesas, que ele também dirigia. Como o jornalista freelancer Tetsuo Arima detalha no seu livro “Genpatsu, Shoriki, CIA” (Energia Nuclear, Shoriki, CIA), Shoriki era também um amigo da CIA e um ardente defensor do nuclear. Com a ajuda de Nakasone, Shoriki usou o seu jornal como um organismo virtual de relações públicas para a energia nuclear. A manchete do Yomiuri no dia de Ano Novo de 1954 era “Finalmente o Sol foi Capturado”. Era o primeiro de muitos artigos a argumentar o abraçar desta nova forma de energia e o começo de uma longa e entusiástica campanha daquele jornal que, de uma forma menos berrante, continua até aos dias de hoje.
Contudo, mesmo quando este pequeno mas influente lobby composto por Nakasone e Shoriki, com o seu altifalante Yomiuri, começava a ganhar momento, a tragédia atacou. A 1 de Março de 1954, 23 pescadores japoneses, a bordo do seu barco o Daigo Fukuryu Maru (tradução: Dragão Sortudo Cinco), foram expostos a precipitação ou poeiras radioactivas provenientes duma explosão nuclear levada a cabo pelos americanos no Atol Bikini. Ainda assim, dias depois e embrulhado em segredo, o parlamento do Japão (sob orientação de Nakasone) aprovou o primeiro orçamento destinado à pesquisa nuclear, um orçamento de 235 milhões de yen. O primeiro passo para as centrais nucleares fora tomado.
Sem se deixar demover pela preocupação do público sobre o caso do Daigo Fukuryu Maru, O jornal Yomiuri continuou a sua campanha de propaganda. Shoriki ajudou a patrocinar uma exibição em Tóquio no ano de 1955, que apresentava as maravilhas do poder nuclear, e, por esta altura, uma das personalidade mais mediáticas do Japão juntou-se ao lado Pró-Nuclear.
Zensaku Azuma era conhecido pelo público japonês como um espalhafatoso piloto que voo sozinho sobre a Europa, os Estados Unidos e a Ásia em 1930. Em meados dos anos ‘50, ele era uma bem conhecida celebridade que se sentia intrigada pela energia nuclear. Em 1955, ele encontrou depósitos de Urânio na fronteira entre as prefeituras de Okinawa e Tottori. Ele andou em digressão pelo Japão a comer comida carregada de Urânio antes de morrer de cancro 10 anos depois, aos 74. (provavelmente, se não fosse parvo teria chegado aos 100 :). Contudo, após a descoberta de que o Japão tinha depósitos nacionais de Urânio, o país ganhou uma febre por Urânio. As pessoas compravam contadores Geiger e escavavam os quintais em busca do minério. Quintas anunciavam que vegetais nascidos em campos que tivessem traços de urânio eram melhores para a saúde. Uma mulher da prefeitura de Gifu, vendia vinho de arroz japonês com traços de urânio. Mas como todas as modas, esta depressa acabou por esmorecer e desaparecer (para bem dos japoneses e da sua saúde diria eu).
Contudo, pela altura em que a maluqueira pelo urânio desapareceu, Shoriki já tinha sido nomeado, em 1956, para a primeira Comissão Japonesa de Energia Atómica, independentemente de ele não ter quaisquer conhecimentos de física nuclear (hein?, é igual em todo o mundo… a merda rola monte a cima na puta da política!). De qualquer forma, a aceitação pelo público japonês da energia atómica enquanto fonte energética pacífica estava a espalhar-se. Contudo, o governo tinha outros obstáculos à construção das centrais nucleares, um dos quais podia levar o país à bancarrota!
Em 1960, o Fórum Industrial Atómico Japonês, um lobby industrial, foi secretamente comissionado pela Agência da Ciência e Tecnologia para desenvolver uma estimativa do custo, baseada numa pergunta a qual não se queria dar a conhecer ao público: “Quanto teria a administração japonesa de pagar em compensações face a queixas derivadas a acidentes nucleares?” (eu não vos digo? Merda é merda em todo o lado, só eventualmente muda a cor. E antes que me chamem racista, refiro-me a cores político partidárias, ok? ) O Fórum apresentou uma série de cenários possíveis, mas no pior dos casos o governo teria de pagar 3.7 triliões de yen em compensações. Isto numa altura em que o orçamento nacional japonês era de 1.7 triliões de yen!
O governo escondeu o relatório durante 40 anos, até este vir à luz em 1999 (Estranhamente, este foi o ano em que estreou o The Matrix. Espero não precisar de explicar a gigantesca metáfora sócio-política que esse filme é). Mas o Fórum foi claramente a razão que levou o governo passar em 1960, o decreto-lei sobre Compensação para Danos Nucleares, que isentava os operadores de centrais nucleares do pagamento de compensações “no caso do dano ser causado por uma catástrofe natural de carácter excepcional”. Com isso, um dos últimos obstáculos à construção de centrais nucleares havia sido superado. Esta lei viria a permanecer mera teoria até o desastre de Fukushima em Março de 2011 forçar o governo e o público a tomar consciência das suas reais ramificações.
O primeiro reactor nuclear japonês foi construído perto de Tóquio em 1961 e entrou em operação apenas 5 anos mais tarde em 1966. Mas a verdadeira alvorada da era nuclear no Japão, surgiria a 14 de Março de 1970, na abertura da Expo de Osaka. Nesse dia, os visitantes eram recebidos com sinais que proclamavam orgulhosamente que a central Nª1 de Tsugura, na perfeitura de Fukui estava a auxiliar a fornecer energia para a Expo.
A Expo de Osaka tomou lugar mesmo quando as questões ambientais estavam a ganhar proeminência. Respondendo aos horrores de envenenamento por mercúrio em Minamata e a tenebrosa realidade da poluição do ar derivada do boom económico (como tem vindo recentemente a acontecer no Brasil, na China e na Índia) dos anos ‘60, combinado com a crescente tomada de consciência de que a energia nuclear nasceu das armas nucleares, nasceu um movimento político Anti-nuclear poderoso e vocalizado. Ao mesmo tempo, a política do Governo era construir centrais nucleares próximas de pequenas vilas, que tinham o direito democrático de as rejeitar se assim quisessem. Para o governo, tornou-se uma alta prioridade garantir que tal não acontecesse, especialmente depois de o processo legal movido em Ikata (prefeitura de Ehime) contra uma proposta central ter dado o tiro de aviso. Mas o que fazer? Felizmente para o lobby pró-nuclear o primeiro-ministro da altura tinha um plano.
Kahuei Tanaka elevou-se de origens humildes na longínqua prefeitura de Niigata, na zona costeira do Japão, para se tornar no mais popular e controverso primeiro-ministro Japonês. Nos anos 1970, ele governou o país como poucos fizeram desde essa altura, primariamente porque assegurou que as províncias japonesas, extremamente subdesenvolvidas, receberam pelo menos alguma parte da riqueza nacional.
Reconhecendo que o que muitas das vilas piscatórias da costa japonesa precisavam, e queriam, eram projectos de obras públicas, Tanaka fez aprovar 3 leis em 1974 garantindo fundos de Tóquio aos governos locais caso estes concordassem em hospedar uma centrar nuclear na sua zona. Durante as décadas que se seguiram, as prefeituras de Ishikawa, Fukui, Shimane, e, claro está, a própria terra de Tanaka, Niigata, entre outras, abriram as portas a centrais nucleares em troca de dinheiro para construir estradas, pontes, centros comunitários, estações de comboio, e sistemas de esgotos modernos. E assim que a central nuclear estava construída, havia mais dinheiro a ser ganho localmente, trabalhando partime na central nuclear durante os períodos de inspecção, ou a providenciar comida, abrigo e transporte às hordas visitantes de técnicos especializados e agentes governamentais.
Contudo, nem toda a gente estava convencida de que o nuclear era a solução. Em 1975, o Centro de Informação Nuclear dos Cidadãos foi fundado pelo professor de Química Jinzaburo Takagi, como uma forma para educar o povo sobe aquele tópico. Ambos o acidente de Three Mile Island(1979) e de Chernobyl (1986) fizeram com que subitamente um grande número de japoneses compreendesse que a energia nuclear não era assim tão segura como lhes havia sido publicitado.
Isto levou ao rebentar de um esforço por parte dos cidadãos para afastar o Japão do caminho do nuclear. Em 1988, reuniram 3.6 milhões de assinaturas que apoiava uma nova lei para fechar todas as centrais nucleares. Mas o governo Japonês, sobretudo Yasuhiro Nakasone, ignorou a campanha, tal como fez o partido do governo de então, o Partido Liberal Democrático(Lá liberal até pode ser, deu-se à liberdade de os ignorar, já democrático… eh! Afinal, não houve um único fascista que não se dissesse amante da liberdade. “Palavras são vento”, diz-nos George R R Martin). Entretanto, foi dito ao povo que havia poucas opções (a história é sempre a mesma). As energias renováveis diziam-se ser ainda demasiado dispendiosas e de pouca confiança (um argumento ainda usado nos dias de hoje pelo lobby pró nuclear), enquanto medos de outra crise de petróleo como a de 1973 permitiu que o lobby pró nuclear argumentasse contra uma mudança de energia nuclear para energia baseada no petróleo, dizendo ser uma má ideia (realmente, venha o diabo e escolha. Se bem que a do petróleo acaba por ser menos problemática em termos de segurança).
Outros esforços para libertar o Japão do Poder Nuclear, foram desenvolvidos ao longo dos anos ’90. Por essa altura, décadas de energia nuclear haviam criado um vício a essa forma de energia nas cidades que consumiam electricidade por ela providenciada (a custos baixos, era dito ao povo), e também nas vilas, onde as centrais nucleares se haviam tornado nas galinhas dos ovos de ouro locais e lhes providenciavam as mesmas, se não melhores, infra-estruturas e transportes que os dos primos das cidades.
Sinais de perigo, tais como uma fuga de sódio em 1995, um fogo no reactor de plutónio no monte Monju, foram ignorados, tal como o foi um acidente na central de Tokai-mura, perto de Tóquio, em 1999, que matou 2 trabalhadores e expôs medidas de segurança defeituosas. Seguiram-se outros incidentes: em Agosto de 2004, a tragédia surgiu quando uma tubagem de vapor corroída, que nunca fora inspeccionada em 28 anos de utilização, explodiu matando quatro trabalhadores; no início de 2007, foi revelado que a Companhia de Energia Eléctrica de Tóquio (TEPCO, sigla em inglês) falsificara dados de segurança nas suas centrais nucleares em cerca de 200 inconformidades. Nesse verão, a central Kashiwazaki-Kariwa, em Niigata, da TEPCO foi danificada após um terramoto de magnitude 6.6, com epicentro a 19 quilómetros de distância. Não houve fatalidades, mas a TEPCO admitiu que 3 dos 7 reactores abanaram a ritmos muito acima dos valores especificados em projecto.
Ainda assim, a TEPCO e a aldeia nuclear negaram a possibilidade de um incidente de grande porte. Ao invés, concluíram que o terramoto de 2007 provara que as centrais eléctricas japonesas eram de facto à prova de sismo e de que a tecnologia japonesa de energia nuclear e a sua gestão era a melhor do mundo.
A História, estavam eles confiantes, havia comprovado que a decisão tomado nos anos ’50, para abraçar a energia nuclear fora a correcta, para uma nação pobre em combustíveis fosseis como o Japão. A TEPCO afirmou, após o susto trémulo de 2007, que eventualmente as centrais de Kashiwazaki-Kariwa iriam ser tornadas ainda mais seguras face a tremores de terra. Assim como também aconteceria com 4 reactores que operavam numa prefeitura chamada Fukushima. Mas entretanto, a aldeia nuclear do Japão assegurava com confiança a nação e o Mundo de que nada havia com que se preocupar.
Coloquei esta perspectiva histórica em itálico pois foi praticamente toda traduzida de um documento, cujo pdf debate a questão do nuclear no Japão:
Fresh Currents
Quanto a Fukushima, quando vi o documentário Children of the Tsunami, que muito me impressionou, tanto pela positiva como pela negativa (e sobre o qual é provável que venha a fazer uma crítica alongada e análise aprofundada num futuro post), onde as crianças viviam em zonas radioactivas, em que os pais estão constantemente a medir os níveis de radiação para as deixar brincar na rua, fiquei de imediato com a impressão de que nada de bom ia sair daquilo. O próprio governo parece estar a usá-las como os proverbiais ou históricos “canários na mina de cobre”. Posso estar a ser injusto, mas foi a impressão com que fiquei e então permaneci atento às notícias. Eis as manchetes (links) que vieram a confirmar o meu medo:



Ora, a evolução genética da Borboleta há-de ser mais rápida que a do homem, são criaturas efémeras, vidas inteiras em apenas 24 horas nalgumas espécies, logo é normal que evoluam de acordo com o seu ambiente mais rapidamente, daí já estarem a mutar. Uma criança humana poderá demorar muito tempo até demonstrar problemas ou deformações geradas pela radioactividade a que é exposta. Pode até só saber de que há algum problema, quando o seu primeiro filho nascer com alguma deficiência genética ou quando descobrir que afinal é estéril pela radiação ter deformado o seu aparelho reprodutivo. Por isso, é de loucos deixar aquele pessoal continuar a viver naquela zona, pelo menos até a descontaminarem minimamente, o que pode levar muitos anos.
Agora, retornando à questão energética. A catástrofe social, não menor que a natural que a causou, que se abateu sobre Fukushima, empurrou uma bola de neve de médio tamanho pela montanha abaixo e criou uma avalanche de sentimento anti-nuclear.


Ora, que tenho eu a dizer sobre isto?
Bem, primeiro sejamos historicamente justos. Embora deteste como a energia nuclear foi “vendida” ao povo japonês, mediante propaganda e lobbies, não posso ter a certeza, mas duvido com grande convicção de que o Japão se tivesse tornado na quarta economia mundial hoje em dia sem ter tido a sua era atómica como teve. A independência energética é essencial para gerar um país tecnologicamente avançado e rico.
Dito isto, eu nunca fui defensor das centrais nucleares. Para além de criarem lixos radioactivos, dos quais muitos barris acabam no fundo dos nossos oceanos ou em aterros secretos e nada seguros, que podem ser geradores de toda uma quantidade de problemas no nosso futuro enquanto Humanidade, considero-as demasiado perigosas no presente. É claro que o risco pode ser diminuído consideravelmente através de correctas medidas de segurança, da contínua execução de vistorias e fiscalizações sérias e independentes, de uma contínua actualização da tecnologia de segurança utilizada, e particularmente dos locais onde são construídas. Ora, o caso geográfico do Japão é terrivelmente mau para albergar centrais nucleares, como de resto já se pôde ver, graças ao terramoto.
Tendo em conta o quanto o nuclear caiu em desfavor na opinião pública japonesa, ou o quanto parecem a sociedade e mesmo algum do tecido empresarial japonês estarem ansiosos por uma evolução para as energias renováveis e limpas, eu diria que a melhor opção para o Japão é começar uma substituição gradual das suas fontes energéticas. E óbvio que não pode ser drástico, pois há que garantir a economia japonesa, bem como as necessidades energéticas do povo japonês. Mas podem ir substituindo gradualmente as centrais mais antigas e/ou em zonas de maior risco sísmico.
Estranhamente, Portugal e Japão, mais uma vez poderiam ajudar-se mutuamente. Portugal precisa drasticamente de aumentar a sua produtividade. Nada tem a ver com trabalharmos mais, não somos mandriões como os idiotas dos nossos governantes (e não a Troika) parecem pelas suas atitudes achar, mas sim em conseguirmos produzir bem valiosos para os mercados externos que façam entrar investimento e lucros no país mediante exportações. Ora, nós somos o país europeu com mais produção energética via energias renováveis, temos projectos e/ou parcerias pioneiras de sistemas que aproveitam as ondas do mar (algo que o Japão também tem em abundância) e também em geradores eólicos.




Seria óptimo para os nossos estaleiros e mesmo para novas empresas que desse novo nicho de mercado surgissem, que conseguíssemos ajudar os nossos amigos de há muito no seu processo de adaptação energética, ao mesmo tempo que nos tornávamos mais produtivos. Este seria um excelente sentido a dar à nossa política externa e política de economia interna, sendo que talvez pudéssemos também servir de mediadores na rixa das ilhas Senkaku, dadas as nossas amizades tanto com o Japão como com a China. Uma guerra daí proveniente não favorece nada nem Portugal nem o Mundo. Ainda assim, creio estar a sonhar alto, considerando o actual Ministro de Negócios Estrangeiros português.
Mas disso (das ilhas Senkaku) falarei no próximo post, pois como sempre já me alonguei demasiado por hora...

Sayonara, tomodachi! ;)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Desacordos e Cultura

Boas!
Esta é apenas uma daquelas entradas que faço ocasionalmente para veicular informação sobre eventos e cultura, essencialmente promovida pela Embaixada do Japão, mas não só. Exemplo de algo que nada tem a ver com o Japão mas antes com a cultura Portuguesa, é esta peça sobre a qual vos aviso no banner abaixo. Para quem viver em Lisboa, é de aproveitar. Produto nacional. É preciso apoiar e estimular a cultura, já que o governo só a desgoverna como tudo o resto.
De seguida, abordemos então o último boletim informativo da Embaixada do Japão. Ao invés de me mandarem um email com as informações, mandaram-me apenas o link para o pdf informativo do site oficial da Embaixada. Normalmente, o que eu faço em qualquer dos casos é copiar as novidades, corrigir o Português Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) para o Português Europeu e deixar-vos a informação aqui na página. Desta volta contudo, vou deixar-vos uma imagem e o link em questão. Porquê? Bem, precisamente por causa duma das batalhas culturais nas quais estou inserido, a guerra contra o AO90.
Na imagem acima, vêem um print screen da minha caixa de correio. Se olharem com olhos de ver, percebem, como eu percebi, que não vem escrito segundo o AO90, que a Embaixada Japonesa tem já vindo a usar. Isso percebe-se pelo simples facto de Fevereiro não começar com “f”, mas sim com “F”. O “Sector” em “Sector Cultural” nunca perder o “c”, embora os anúncios de eventos e actividades já viessem segundo o AO90 e as datas também. Pelo menos, nos últimos emails:
Mas não neste. Agradado mas desconfiado, cliquei no link e avancei para o pdf. Peço-vos que façam o mesmo, vai abrir numa outra janela:


Ora, vendo o primeiro anúncio do pdf, nota-se distintamente uma “expectativa” com “c”, mas também um “refletido” sem “c”. Tal poderia dever-se ao autor do texto ter aprendido português brasileiro, mas ainda assim a construção frásica é mais próxima do português europeu. Isto leva-me a crer que o problema aqui é que as pessoas já não sabem a quantas andam a nível ortográfico. Este Desacordo Ortográfico não unificou a ortografia portuguesa, tornou-a sem regra e caótica. Quando um jornal se dá ao luxo de criar a sua própria versão do Acordo Ortográfico (acordado por mais ninguém que pelo jornal, e ainda assim tão válido quanto o AO90) como fez o Correio da Manhã, vale tudo.
Voltando ao pdf, no segundo anúncio, temos novamente os meses com iniciais maiúsculas, que é contrário ao AO90, mas no terceiro parágrafo já temos Janeiro com inicial minúscula. No quarto parágrafo, temos Fevereiro com maiúsculas. Avançando para o anúncio “Estás a Mangar comigo?”, temos uma “actividade” com “c” e os meses com maiúsculas. Depois no anúncio da Conferência sobre o desenvolvimento do Brasil, já aparece Fevereiro com inicial minúscula e “Diretor”. Nos dois anúncios seguintes, temos os meses com iniciais maiúsculas e no anúncio que se segue a esses dois voltamos às iniciais minúsculas nos meses. Que canseira, que (des)regra!!
O que eu espero, desejo, é que a Embaixada do Japão tenha visto a luz, com a recente recusa do Brasil quanto ao AO90, e pare de tentar implementá-lo. Esta hesitação agrada-me. É um recuo por parte duma entidade política, ao mesmo tempo que cada vez mais vozes se erguem contra o AO90 nos três continentes intervenientes deste acordo. No mínimo dos mínimos, essa mesmo entidade dá a entender que é sabido que embora o governo português pareça resoluto na imposição do dito (des)acordo, que ainda há em Portugal (já nem falo no resto da Lusofonia) pelo menos duas ortografias correntes.
Ainda recentemente numa audição parlamentar sobre o AO90 (vidé vídeo acima, onde são apresentados também argumentos mais que suficientes dos pontos de vista formal, técnico e prático contra este AO90), ouve-se uma deputada dizer que já lhe foi dada a indicação de que cerca de 63% dos portugueses não querem o AO90. Como é isto compatível com o Ministro dos Negócios Estrangeiros de um governo de maioria absoluta, que como tal pretende-se ser o reflexo da maioria dos portugueses, venha depois dizer que não há divergências quanto ao Acordo Ortográfico e que ele entrará em vigor em 2015??? Estão a Mangar Comigo???? (private joke para quem leu o boletim da Embaixada do Japão lá em cima)



Isto é patético, mesquinho e abertamente anti-democrático! Uma piada de mau gosto e sem graça, é o que é o AO90!

Eu por mim contentava-me com um referendo nacional e caso o meu lado perca, eu aceito a voz da maioria. Venha ele! Buga lá! Também já ouvi o argumento de que nenhum Acordo Ortográfico alguma vez foi discutido com o povo. E isso é lá razão para que este não o seja? Dantes também havia escravos. Dantes as mulheres não votavam. A ideia é aprimorar e aumentar a democracia e não asfixiá-la.
Há ainda um outro argumento, fraco na melhor das hipóteses, em defesa do acordo ortográfico, que eu li esta semana. Disse (não cito, parafraseio) então um apologista do AO90 cujo nome agora me falha: “O acordo ortográfico tem incongruências? E depois? A ortografia anterior também as tem. Há sempre hipótese de melhoria.” Até é verdade, o problema é que para melhorarmos, para evoluirmos, nada melhor que o método científico, o rigor lógico, e acima de tudo só mudarmos se for para melhor. O problema é que o AO90 apenas torna a ortografia portuguesa mais ambígua, as novas regras não têm base científica mas antes noções ultrapassadas como a “pronúncia culta” (isto sim, do tempo do senhor do Encarnado que tinha medo dos Vermelhos) e são feitas por capricho, como vos pode confirmar o testemunho do vídeo acima, etc… Não admira que Portugal esteja com uma perspectiva de futuro tão negra, quando se predispõe a aceitar que a sua cultura, ciência, educação e governo sejam ditadas por homens (e mulheres), e aqui parafraseio Tolkien (e/ou José Hermano Saraiva), "menores"!
Mais uma vez apelo junto de vós, senhores e senhoras, amigos e amigas, irmãos e irmãs, camaradas, conterrâneos e pessoal D’além Mar, ergam as vossas vozes e as vossas canetas e/ou teclados contra esta farsa, que ameaça a verdadeira riqueza, encontrada na sua diversidade, da língua Portuguesa. Há 18 ortografias da língua inglesa na Internet. Podia, devia, haver 8 da língua Portuguesa, mas só havia 2 e agora querem que só haja 1 e que tenha esta forma anedótica? Isto é progresso ou suicídio cultural?
Assinem a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990 (links abaixo)










E se quiserem também subscrever à carta enviada ao ministro da Educação, link abaixo, onde podem ler e subscrever a dita carta:
https://docs.google.com/spreadsheet/viewform?formkey=dG13TnlWRk10UXd0cDJvZTViS0picWc6MQ&fb_source=message#gid=0 


Obrigado por me lerem e voltamos a encontrar-nos em breve!
Sayonara, people! ;)

P.S.: Ah e mais uma vez… bão ao Teatro, carago! É a ciiiinnnccco (5) aéreos! Olh’ó Teatro fresquinho!