sexta-feira, 27 de julho de 2012

Hôshasen


Pelo video acima, já devem ter percebido o tópico da entrada de hoje. Hôshasen quer dizer "radiação" em japonês. Vem no seguimento de outros tópicos anteriores, como os posts sobre hibakushas e o post sobre o terramoto de 11 de Março de 2011, mas também porque estamos a meio do Verão e um dos objectivos primordiais do NINJA Samurai é dar conhecimento, sempre que possível, prático aos seus leitores!
Por isso, comecemos por um aviso menos alarmante talvez, mas também mais presente e banal, que como tal corre o risco de não ser levado a sério pela maioria dos humanos.
 
No Japão, há uma tribo social e urbana que se intitula Ganguro (http://en.wikipedia.org/wiki/Ganguro), que significa “rostos negros”. Vestem-se de forma exuberante, pintam e descoloram os cabelos e têm a pele excessivamente bronzeada. Esse bronzeado conseguem-no através dos frequentes banhos de sol e/ou idas frequentes a solários. Para as jovens japonesas que pertencem a esta tribo urbana, não há nada mais fixe que uma pele excessivamente bronzeada. Em Portugal, como país à beira mar plantado que é, também temos uma cultura do “trabalhar do bronze”. Como vemos nas notícias, as pessoas desempregadas que vivem ao pé de praias, depois de enviar currículos em resposta a ofertas de emprego, pegam no telemóvel e vão para a praia. E quem não gosta de ver aquele bronze bonito e saudável na pele? Cada vez mais vemos as nossas actrizes e apresentadoras de TV bronzeadas durante todo o ano, graças à utilização de solários com regularidade.
Mas tudo o que é em demasia faz mal e, como se diz na minha família, “Por causa dos abusos é que o meu bisavô matou o corvo”. Já existe, de facto, um nome técnico para as pessoas que não conseguem viver sem uma pele bronzeada e que por mais bronzeadas que estejam sentem-se sempre pálidos: são os tanoréxicos. Pessoas cuja obsessão pelo bronze perfeito coloca em risco a sua saúde física e mental. O termo foi cunhado por dermatologistas norte-americanos e é indicativo de uma doença do fórum psicológico, embora possa ser acompanhada de lesões e queimaduras cutâneas. As pessoas que sofrem desta patalogia, foram primeiro descobertas pelo comportamento anormal de irem a um dermatologista com lesões cutâneas geradas pelos raios UV e mesmo assim continuarem a expor-se à radiação UV. “A tanorexia surge frequentemente associada a um distúrbio depressivo, à fobia social, ao distúrbio obsessivo-compulsivo ou, nos casos mais graves, ao distúrbio delirante do tipo somático. Neste último, o paciente manifesta a convicção absoluta e inabalável de que possui um tom de pele muitíssimo mais claro do que é na realidade.”, in Super Interessante. É semelhante à anorexia, no sentido de que um anoréxico nunca se acha suficientemente magro, os tanoréxicos acham-se sempre pálidos. E para suprir essa deficiência imaginária vão abusando dos banhos de sol, na praia ou na piscina, conjugados com visitas ao solário.
Ora bem, claro que podemos (e devemos, porque necessitamos de vitamina D) banhar-nos na luz solar. Contudo, devemos fazê-lo, como em tudo na vida, de forma consciente e cautelosa. Sabendo que temos hoje, não um mas, dois buracos do ozono na atmosfera terrestre torna-se imperativo que nos protejamos. E a protecção é simples de se fazer. A aplicação correcta de um protector solar factor 50 e sairmos do Sol nas horas de maior intensidade (das 11h às 16h), é o suficiente. Sim, é uma grande parte do dia, mas infelizmente a raça humana tem de pagar pelo que anda a fazer ao globo desde a Revolução Industrial. Pá, durante essas horas, vão beber umas cervejas para a sombra duma esplanada, vão comer um gelado, ou beber café. Vão a um cinema, se houver essa oportunidade. Depois, voltem à praia. Até tornará o dia de praia menos rotineiro.
Quanto aos solários, bem, isso é logo outra história:

"Os utilizadores de solários têm 20% mais probabilidade  de apanhar cancro de pele do que as pessoas que nunca os usaram e o risco  duplica quando a utilização começa antes dos 35 anos, revela um estudo hoje  divulgado.
O estudo, publicado no British Medical Journal, resulta do trabalho  de investigadores do Instituto Internacional de Investigação Preventiva,  em França, e do Instituto Europeu de Oncologia, em Itália, que analisaram  os resultados de 27 estudos diferentes sobre cancro de pele realizados na  Europa ocidental entre 1981 e 2012. 
Os cientistas concluem que dos 63.942 novos casos de melanoma (a forma  mais grave do cancro de pele) diagnosticados anualmente na Europa ocidental,  3.438 (5,4%) - e 794 mortes associadas - estão relacionados com a utilização  de solários. 
A exposição solar é a causa ambiental mais significativa do cancro de  pele e os solários tornaram-se a principal fonte de exposição não solar  aos raios ultravioleta na Europa Ocidental. Após analisarem 11.428 casos de cancro de pele, os cientistas concluíram  que o risco de melanoma decorrente da utilização de solários é de 20%, mas  o perigo duplica quando a exposição começa antes dos 35 anos. Além disso,  o risco aumenta 1,8% por cada sessão adicional de solário por ano. 
Os autores admitem que os primeiros estudos sobre solários subestimaram  o risco porque a utilização daqueles equipamentos era relativamente recente,  mas sublinham que entre 2005 e 2011 o risco foi aumentando, pelo que estudos  futuros poderão demonstrar um risco ainda mais elevado. 
Os investigadores citam dados provenientes da Islândia, onde os dias  de sol são poucos e onde a incidência de cancro de pele aumentou fortemente  após 1990 entre as raparigas jovens e diminuiu depois de 2000, quando as  autoridades impuseram maior controlo sobre a actividade dos solários. Defendem por isso que são necessárias "acções mais duras" para reduzir  a utilização destes equipamentos, já que a indústria tem sido incapaz de  se auto-regular, tendendo, pelo contrário, a distribuir informação não comprovada  que visa enganar os consumidores. 
Advogam que a utilização de solários por menores de 18 anos deve ser  restringida e que devem ser proibidos os espaços onde se faz solário sem  supervisão, medidas implementadas em Portugal desde 2005. 


Lusa", fonte (http://sicnoticias.sapo.pt/vida/2012/07/24/utilizadores-de-solarios-tem-risco-acrescido-em20-de-apanhar-cancro-de-pele). (NOTA: transcrevi o texto para aqui, em vez de apenas dar o link por duas razões: 1) porque é mesmo para lerem :D ; 2) porque quis emendar o AO usado pela SIC, sendo que as palavras reescritas estão a negrito.)


A radiação UV bem utilizada é boa e essencial ao nosso bem-estar, mas é uma radiação e como tal a resposta do nosso organismo à estimulação por ela causada é directamente proporcional aos níveis de exposição a que este último é sujeite.
Segundo a tira de jornal que aqui coloco, “scannada” pelo yours truly, existem 10 mil novos casos de cancro de pele todos os anos em Portugal. Este dado, se virem na imagem foi reportado no Correio da Manhã em 2011 e é feito um aviso que indica que a maioria dos cancros de pele surgem da exposição episódica fora da época balnear (id est, solários). É também aconselhado o auto-diagnóstico que consiste em detectar feridas que não cicatrizam ou sinais com formas irregulares e que aumentam de tamanho. Se forem avistadas quaisquer destas situações, devem de imediato recorrer a um dermatologista. O aviso e conselhos deste artigo são feitos pelo então secretário-geral da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo, Osvaldo Correia.
Logo, tenham juízo e cuidado. Melanina e vitamina D são fixes, mas cancro não!





Passando agora a outro tipo de radiação que nada traz de positivo, a radiação nuclear. Recentemente vi um documentário, julgo que na TVI 24, intitulado Crianças do Tsunami (título original Children of the Tsunami, da BBC). É um documentário que todos devem ver. Reparte-se entre relatar uma situação de uma escola durante o tsunami, e de algumas mortes que ocorreram nessa escola devido a má decisões por parte dos professores, que (sejamos justos) como todos os restantes nunca esperaram um tsunami com as proporções deste e como tal não souberam reagir adequadamente (ver o post http://150anosportugaljapao.blogspot.pt/2012/05/mega-sismo-quando-o-infinito-encontra-o.html para mais explicações). Vê-se também a revolta dos pais que perderam os filhos e os vários processos de enfrentar essa dor pelos quais eles passam ainda hoje. E finalmente, é mostrado como toda a experiência afectou a vida e a mentalidade das crianças que sobreviveram à calamidade. Ainda é cedo para se poder determinar quaisquer efeitos físicos. Nesta última parte, não pude deixar de ficar mais uma vez espantado com a capacidade de encaixe, de adaptação, e mesmo de estoicismo das crianças. E sobretudo de aproveitarem o melhor duma situação muito má.
Por exemplo, há entre estas crianças uma grande quantidade que quer vir a trabalhar na pesquisa científica de várias áreas de forma a desenvolver formas de combater a radiação ou de a tornar mais segura. Outras desejam vir a trabalhar em algo que as permita salvar outras pessoas de futuras calamidades deste género, como elas próprias têm consciência de ter sido salvas. E o mais estonteante, as crianças sabem que não precisam de procurar respostas no sobrenatural para o que lhes acontecem, não esperam mais de deuses que não conhecem nem se perguntam “Porquê eu?”, chegando mesmo a dizer uma delas, e parafraseio: “A natureza umas vezes é boa para nós, outras vezes é má. A vida é mesmo assim e não há nada a fazer quanto a isso.” E dizem isto de uma forma realista e sem raiva. O conforto do ateu é saber que o caos é parte da natureza e que às vezes, como se diz nos filmes do Predator, “Shit happens.” Nunca é pessoal, é apenas aleatório.
Eu pensei em aqui descrever ou resumir em maior pormenor o que é relatado pelo documentário, mas prefiro que o vejam directamente, pois tem toda a qualidade da BBC e aquelas crianças são um prazer de conhecer :) (aqui entre nós, que nunguém nos ouve, encontra-se na net…). Eis um gostinho:


E assim me despeço, mais uma vez. Perdoem-me por ter estado tão ausente este mês e no anterior, mas o Sol faz-me “preguicite aguda”, if you catch my drift! ;)
Sayonara… 4 now!

Alex


Fontes: Correio da Manhã, SIC Notícias, TVI 24, Wikipedia, Super Interessante.


segunda-feira, 25 de junho de 2012

Haiku - Poemas Japoneses




WE ARE ALL JAPAN, by Gary Gach

all the hands of the clocks
are pointing to Now
as I watch the black rain
silently falling all around the world

staining the hands that skinned the fish
that ate the kelp fed by four nuclear reactors

when I sleep at night you can see my dreams
they glow in the dark
dreams of being trapped in the tunnel
at the end of no light
and dreams of the saving spark

a mere two-foot span
yet the longest gap from our head
to our heart

bridged by just one teardrop
or crossed swift as an earthquake
or fresh currents

we don't need to understand the words
just say them with our ears
we are all Japan

 Olá, pessoal, este post é muito pequeno e serve apenas para vos avisar duma oportunidade. A Embaixada do Japão avisou-me via email da ocorrência do 3º concurso Japão - União Europeia de Haiku, em língua inglesa. O poema acima e a imagem vieram da página de Facebook do Kyoto Journal. Achei a imagem engraçada e inspiradora, a frase que dá título ao poema muito actual (faz lembrar a "Somos todos gregos" que teve a sua origem na crise económica e está mais verdadeira hoje que nunca, com o que aconteceu recentemente no Chipre e na Espanha), e o poema será um bom exemplo de um poema, se bem que talvez não um haiku formalmente. ( http://en.wikipedia.org/wiki/Haiku ) Prefiro deixar-vos com o link da página da wikipédia sobre este tópico do que o abordar directamente porque sinceramente não tive ainda oportunidade de o estudar de forma satisfatória, nem sou muito conhecedor de poesia em geral, mas espero que depois de concorrer a este concurso isso mude e depois poderei fazer um post mais profundo sobre a forma poética do Haiku.
Por agora, deixo-vos só com os pormenores do concurso, ao qual penso concorrer embora duvide que tenha qualquer possibilidade de vencer. Mas "vale sempre a pena, quando a alma não é pequena" como diz o meu povo! ;)

«
3º Concurso de Haiku (poesia japonesa) Japão-UE, em língua inglesa.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Japão e a União Europeia promovem o Terceiro Concurso de Haiku Japão-UE, em língua inglesa, subordinado ao tema ‘Dawn’. A data limite de inscrições é o dia 30 de Julho de 2012.
Este concurso está aberto a cidadãos europeus e japoneses, que residem num dos Estados membros da União Europeia ou no Japão.
Serão premiados 2 vencedores: 1 do Japão e o outro da União Europeia. Ao vencedor da União Europeia será atribuída uma viagem de ida e volta para a cidade de Matsuyama, considerada o berço do ‘haiku’ moderno, no Japão. Ao vencedor do Japão será atribuída uma viagem de ida e volta à Bélgica, a cidade natal do Presidente do Conselho Europeu, Senhor Herman Van Rompuy.
Página do Facebook:  www.facebook.com/haikucontest
Para mais informações e obtenção do formulário de candidatura, queira contactar o sector cultural desta Embaixada.
Com os melhores cumprimentos.

Maria José Martins
Sector Cultural // Embaixada do Japão
Av. da Liberdade, nº 245-6º
1269-033 Lisboa
Tel.: 213110560 // Fax: 213543975
Email: cultural@embjapao.pt
http://www.pt.emb-japan.go.jp/
  »

Este é um copy paste directo do email que recebi da Embaixada do Japão, daí estar entre aspas e em itálico. Concorram também, nada temos a perder e os prémios, pelo menos para mim, são muito interessantes! Além disso, a pesquisa que terei de fazer sobre Haikus para concorrer só de si já será um prémio. Além disso, Dawn é uma das minhas palavras preferidas na língua inglesa.
Como sempre, Alex, signing off!


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Os Meus Versículos Satânicos - Ressurreição

Um recente post por parte do ilustre crítico de cinema britânico Mark Kermode, fez-me pensar sobre zombies.
Estive indeciso entre chamar a esta entrada “Os Meus Versículos Satânicos: Ressurreição”, ou em deixar os dois tópicos separados e optar por citar uma frase do filme Land of the Dead. Essa deixa pertence ao vilão da história, um político demagogo e ditatorial num mundo pós apocalíptico, encarnado por Dennis Hopper (aos 18 segundos):

Mas a estrutura deste post é tão parecida com a do "Os Meus Versículos Satânicos", post este que poderão encontrar de imediato simplesmente clicando com o cursor sobre a imagem da lapela do site (ver acima), que não resisti em torná-la numa adenda a esse post.
O que são afinal zombies? Mitos e lendas? Histórias de terror? Matéria para filmes passíveis de serem feitos com baixos orçamentos e pequeníssimos guiões? Metáfora social mascarada de filme de terror? Ou, como muitas vezes surge na escolha múltipla, todas as respostas anteriores?
Procuremos, como talvez diriam uns quantos de gatos fedorentos, esmiuçar o assunto.
Começo por apresentar-vos o post do Dr Kay, que me meteu a pensar nisto:

Portanto, será seguro, tendo em conta a lógica deste videoblog, assumirmos que um zombie pode ser, e é, usado como metáfora para crítica social. Mas quais as suas origens?
No cinema, são apenas mais um monstro, como o vampiro, o lobisomem, e outros que tais. Criaturas que começam por ser meros humanos, com tu ou eu, mas que ao receberem uma mordidela ficam infectados com um mal, tradicionalmente sobrenatural mas recentemente virulento e pseudo-científico, que os consome e os transforma numa criatura pérfida e/ou psicologicamente desumana, que existe apenas para saciar necessidades primais. Mas será que os zombies também existem no mundo real?
Bem, convenhamos que por enquanto ainda ninguém congeminou um T-virus e esperemos que assim se mantenha. E não há maldição que nos transforme em tal besta ou se há o seu segredo foi bem escondido. Talvez, como postula George R R Martin, a magia só exista quando existem dragões vivos. Têm visto algum?? oO
Contudo, o zombie tem, como o próprio vampiro, um fundo histórico e verdadeiro. Pois tal como é dado histórico que Vlad Tepes (pronunciado tzé-pesh e querendo dizer “empalador”), bebia o sangue dos seus inimigos, é facto histórico que zombies andaram pela Terra, não por meio duma estranha virose ou maldição capaz de nos dar uma espécie muito desagradável de morte para além da vida, mas antes por uma antiga e estranha prática exercida ao mais alto nível nos meandros daquele aglomerado de superstições e crenças a que chamamos Voodoo. Nos países em que os sacerdotes voodoo controlam as mentes das pessoas pelo medo, o castigo mais alto, mais temido, é o de te tornarem num zombie. Reparem que aquelas pessoas não têm medo dos zombies em si, têm medo é que venham a ser transformados num zombie elas próprias. Estes zombies reais nunca morrem e voltam à vida, mas isso é contudo o que os crentes no Voodoo acreditam, pois o ritual leva os sacerdotes a administrarem uma certa poção, tida como mágica, feita com algumas toxinas naturais, uma tirada do peixe balão por exemplo, que deixam o condenado num estado quasi-catatónico, aparentando a morte. Ele fica incapaz de se mexer, o ritmo cardíaco baixa consideravelmente, a respiração é mínima ou inexistente, enfim o suficiente para ao primeiro e descuidado exame parecer morto. Depois, “como manda a lei”, enterram-no enquanto nesse estado. Durante a sua “morte”, o condenado sofre privação de ar no cérebro, cujo efeito é, não querendo ofender o Egas Moniz (um dos nossos poucos prémios Nobel), em tudo parecido com o duma lobotomia. Basicamente, quando o condenado é desenterrado e os sacerdotes o reanimam, ele “ressuscita” um zombie: uma pessoa sem vontade própria… o perfeito escravo. Não pensa de forma crítica ou mesmo auto-servente, não raciocina, não sente, é influenciado por qualquer pessoa que passe por ele na rua. Não tem autonomia. Eu também temeria ser transformado num zombie se vivesse num país com essa religião. É claro que este castigo, este intolerável crime contra a humanidade, é reservado para os que ousam contrariar os desígnios dos sacerdotes do Voodoo. Os criminosos a sério, que praticam todos os crimes que não esse “crime sem vítima” que é a Blasfémia, são deixados às autoridades normais. Por comparação, os outros líderes religiosos são uns meninos, uns “copinhos de leite”.
Há a possibilidade de isto ainda existir nos dias de hoje, em sítios como o Haiti ou a Jamaica, muito embora possa ser oficial e legalmente criminalizado. A primeira vez que me deparei com esta realidade foi através dum documentário que não acabei de ver, onde um actor vai falar com os representantes dum sacerdote Voodoo e lhes encomenda um zombie. Chega-se mesmo a falar de raptar uma pessoa para a “zombificar”. O actor escolhido foi o que encarnava o Mr Giles na série “Buffy, a Caçadora de Vampiros”, e a certa altura ele vira-se para a câmara e diz mesmo que não acredita que estão mesmo a discutir aquele assunto como se mais não fosse que um mero negócio do quotidiano.
Este é o retrato do zombie histórico, do zombie original, da fonte do mito. E não, ele não é perigoso por si mesmo. Qualquer pessoa o pode mandar matar-se e ele provavelmente vai, desde que o seu cérebro retenha a capacidade para perceber o que lhe é dito.
Nos dias de hoje, a palavra pode também ser usada para definir um tipo de atitude desumana levada a cabo por humanos, crédulos nas fantasias que outros lhes “venderam”. Passo a citar e traduzir Christopher Hitchens, na introdução do seu livro “Arguably”, uma colectânea de artigos que escreveu:
“Especialmente no decurso dos últimos dez anos, a palavra «mártir» tem sido completamente degradada pela imagem lupina de Mohamed Atta: um zombie frio e sem vida – um assassino suicida – que levou com ele tantos inocentes quantos conseguiu. As organizações que encontram e treinam homens como Atta foram desde então responsabilizadas por crimes inomináveis em muitos países e sociedades, desde a Inglaterra ao Iraque, na sua tentativa de criar um sistema onde o zombie frio e sem vida fosse a norma e a cultura estivesse morta. Eles clamam que irão vencer pois amam mais a morte que a vida, e porque os amantes da vida são fracos e degenerados. Praticamente todas as palavras que escrevi desde 2001, têm sido explícita ou implicitamente dedicadas a refutar e a derrotar aquelas odiosas e niilistas proposições, e todos aqueles entre nós que as tentam explicar.” Fim de citação. Assim, o zombie é passível de ser transformado numa poderosa ferramenta do mal, pois está sempre apto a seguir as ideias de outros, sem as considerar de forma crítica ou moral.
Ao preparar-me para aqui trazer este tópico, procurei, para fazer a ligação à essência geral do N.I.N.J.A. Samurai, pela forma japonesa da palavra zombie. Descobri que é muito simplesmente Zombi, embora exista também um termo japonês que indica “um morto-vivo ou um morto reanimado” e que é Kyonshi. Na busca por esta curiosidade linguística, encontrei por acaso outra definição para zombie, desta volta sendo a palavra utilizada na gíria ou no jargão técnico da Economia. Isto para mim foi ouro sobre azul. Encontrei vários links para posts de opinião e também para um artigo de ciência económica, que parecem afirmar e contra-argumentar sobre se o Japão é um país zombie ou não. “Oh Diabo!”, pensei eu de imediato “Então mas já destruíram os 7 selos? Já soou a trombeta do Gabriel? Já rasgaram os céus as montadas aladas dos cavaleiros do apocalipse? Ter-se-ão as águas do Pacífico metamorfoseado em sangue? E os céus do país do Sol Nascente terão entrado em combustão? Será que os mortos andam animados pelo Japão, como acontece na Cuba do filme Juan of the Dead? Que pasa?” Na verdade, não é tão fantasioso mas sim bem mais real. O termo é usado para definir empresas e/ou corporações, que sobrevivem apenas através de crédito, sem o qual ruiriam. Essas empresas estão constantemente a sangrar os bancos, que por pressão política (pressões no sentido de emprestarem mais dinheiro às PME’s para poder estimular crescimento económico) e mesmo popular (a perceptibilidade de que se os bancos recusam dinheiro às empresas necessitadas a economia não avança) continuam a financiá-las com juros de empréstimos que não acompanham o risco dos créditos a que estão agregados e como tal não servem de dissuasor a esse mesmo crédito nem trazem lucros aos bancos. Esta prática é tida como tendo um efeito nefasto na economia do Japão (ou assim alega o documento), sendo que o fenómeno foi de facto primeiro detectado por académicos japoneses, num artigo científico de Hoshi. Segundo o artigo, o efeito é castrador. A economia não cresce, estagna. Vou citar e traduzir só uma pequena parte do artigo cujo link vos deixarei se quiserem pesquisar mais aprofundadamente:
“Mantendo estes devedores que não dão lucro (a que chamamos zombies) vivos, os bancos permitem-lhes distorcer a competição por toda a restante economia. As distorções dos zombies surgem em várias formas, incluindo a depressão dos preços de mercado dos seus produtos, o aumento dos salários do mercado mantendo os trabalhadores cuja produtividade nas actuais firmas declinou, e, de forma mais geral, congestionando os mercados nos quais participam. Efectivamente, a crescente obrigação financeira do governo proveniente de garantir os depósitos dos bancos que suportam os zombies serve como uma muito ineficiente política de combate ao desemprego. Assim, o normal desfecho competitivo no qual os zombies despediriam os empregados e sofreriam desvalorização das acções é evitado. Mais importante, os baixos preços e altos salários reduzem os lucros e colaterais que firmas novas e mais produtivas poderiam gerar, desencorajando dessa forma a sua entrada e investimento. Assim sendo, até bancos solventes não viram boas oportunidades de empréstimo no Japão.” Fim de Citação. [Link: http://economics.mit.edu/files/3770]
Mais alguns links sobre este assunto:
Eu não sei se concordo com o artigo citado tendo em conta que, não sendo especialista em economia, mas assumindo a premissa de que a economia japonesa estagnou, tenho que me perguntar se isso é bom ou mau, ao contrário de automaticamente presumir que é mau. O facto é que sacrificando-se maiores lucros, atingiu-se um equilíbrio (uma vez que o Japão era até recentemente e salvo erro a 4ª maior economia a nível mundial) que permite aos japoneses combater o desemprego, terem altos salários e produtos a baixos preços, o que a ser verdade implica grande poder de compra e contínua circulação do capital. Quem me dera isso em Portugal e com os mesmos resultados! Contudo, o que temos em Portugal é um BPN a sugar o Estado para proveito de ninguém e para flagelo duma população cada vez mais desempregada, cada vez com menos poder de compra e uma sociedade com cada vez menos circulação de capitais, sempre a endividar-se cada vez mais para com aqueles a que chamamos de amigos. O meu pai sempre me ensinou: “Queres perder um amigo? Pede-lhe dinheiro emprestado.” Vidé Grécia! Por isso, acho que concluo que ter zombies económicos talvez não seja assim tão mau, se assumirmos a perspectiva de criar uma economia rica para muitos, mas não centralizada no lucro de poucos. Provavelmente não poderá é durar? Ou poderá? A ver vamos… De qualquer forma, cada vez mais sabemos que vivemos num mundo finito, com recursos a serem usados demasiado depressa e sem ser ao serviço do bem da Humanidade, mas antes para dar lucros ao 1%. Pois não há famintos por todo o mundo e infelizmente até mesmo em Portugal, que se diz de primeiro mundo? O consumismo e a filosofia do lucro ser riqueza são parte do que coloca em risco o futuro da Humanidade. E se os recursos são finitos, não devemos nós usá-los de forma mais sóbria do que para alimentar e fazer crescer a "máquina fazedora de lucros"? Mais uma vez corremos o risco de nos destruirmos a nós mesmos e mais uma vez por algo que é apenas conceptual e criado por mentes humanas para ganhar poder sobre outras mentes humanas. Pensem nisso.

Temos então 4 definições actuais de zombie:
1) o cinematográfico;
2) o histórico;
3) o mártir terrorista;
4) o económico.
Mas eu aventurar-me-ia a aproveitar as definições de zombie para gerar uma metáfora para um quinto tipo de zombie: o Zombie Social.
Vastos segmentos da população mundial são de facto zombies, pessoas que vivem sob a influência dos outros, dos media, dos lobbies, incapazes de pensar por si mesmas, de sentir solidariedade pelo seu congénere. Pessoas cujo único objectivo é o consumismo e/ou a satisfação das suas próprias e necessidades básicas, que não se preocupam com o que é decidido por eles pelos seus governantes ou mesmo que outras pessoas decidam quem são os seus governantes sem que eles contribuam nessa decisão. Vivem eternamente “ao sabor do vento que prevaleça”. A sua mantra colectiva incluiu tais ditados como “Se não os podes vencer, junta-te a eles.”, “A ignorância é uma bênção.” e “Ah, sempre foi assim e sempre há-de ser!”.
São aquelas massas silenciosas que esperam ser libertadas do cativeiro duma ditadura, mas que não estão dispostas a arriscar a própria vida nessa causa, por exemplo. São pessoas inundadas de apatia social, incapazes de criar o seu próprio estilo, mortinhas (full pun intended) por ingressar num grupo que as defina ou de usar as roupas que vêem outros usar na televisão, ávidos seguidores das modas que lhes impõem. Na sua maioria optam por ser neutrais a quaisquer discussões que estejam a acontecer na sua sociedade. Exempli gratia, o caso do acordo ortográfico na nossa sociedade. Já saberão que sou contra o AO90, mas que respeito, embora discorde, com a posição contrária. Os zombies são aqueles para quem pura e simplesmente o assunto não interessa, como se nada fosse com eles. Que se estão marimbando para o facto da sua identidade cultural e daquela que os seus filhos e netos, se os tiverem, irão herdar, estar a ser decidida no presente.
O zombie social é o auge do servo ao Poder, mesmo numa sociedade que respeite os direitos básicos duma democracia. É aquele que segue de olhos fechados, desde que se possa alimentar pelo caminho. E dessa forma coloca em risco a própria estrutura de um estado democrático e laico, pela mera falta de interesse, pela mera inacção, pela falta de opinião, por nada contribuir ao nível intelectual para nação. Quantas vezes não ouvi eu já “A abstenção é enorme.” na cobertura noticiosa de eleições, antes e depois de eu ter idade para votar?
O zombie social, que está no centro dos problemas das sociedades actuais, serve de marioneta dos, ou como a desculpa usada pelos, vampiros (políticos) que usam os seus cargos em proveito próprio ao invés de servirem a nação. Ou pior ainda, quando os comentadores políticos (cujo o nível de parasitismo igualo àqueles peixes que acompanham os tubarões e subsistem a comer os micróbios e parasitas das peles dos tubarões, mas sem sequer terem essa purificadora qualidade que poderia trazer alguma redenção à sua existência) dizem que os portugueses merecem os líderes que têm pois não se interessam pelos problemas da nação. E o problema é que é verdade, há muitos que não se interessam… há muito zombie por aí. Ainda recentemente li uma entrevista do Boss AC onde este dizia, e parafraseio, “O que mais me chateia é a apatia do povo português!”. Agrada-me o pensamento, se bem que há algo que me chateia ainda mais. As pessoas que não têm solidariedade para com as outras. Concretizando, aquelas pessoas que quando vêem alguém fazer greve e essa greve não lhes diz respeito nem as afecta, ignoram-na, talvez ainda pensando “Que cambada de idiotas”. Mas que quando essa greve impede a sua vidinha quotidiana, como por exemplo não ter autocarro para ir para o trabalho (necessidade básica), a pessoa não-solidária fica toda chateadinha e não só não tem essa solidariedade social para com o grevista ou manifestante, ajudando-o a conseguir uma qualquer reivindicação ou pelo menos respeitando o direito deste último de o fazer, que ainda usa todo e qualquer argumento para dizer que essa pessoa que exerce o seu direito democrático de lutar pelos seus direitos é um crápula e um vilão. Morde então na casaca daqueles que provavelmente também lutarão por ele, quando o patrão o despedir daí a uns tempos. Zombie! No seguimento, é interessante também analisar que nos países mais evoluídos do mundo, ou pelo menos assim tidos como, os da Social Democracia Nórdica, têm 60% de trabalhadores sindicalizados e níveis de desemprego abaixo dos 7%. Não admira que lá haja menos corrupção, se os políticos lá se portarem como os nossos se portam cá, descobrem que o poder está mesmo nas ruas, pois está organizado e funciona. Por cá temos 30% de trabalhadores sindicalizados, e uma grande parte destes últimos ou dessas organizações sindicais está sempre disposta a aceder às propostas do 1% governante, abandonando o protesto e fazendo uma tímida paz social, a que cobardemente chamam tréguas para parecer que ainda não se renderam.
Por outro lado, vivo num país, igual a tantos outros, onde não se gera riqueza mas sim ricos. Onde os poderosos se ajudam uns aos outros a sugar a vida dos numerosos mais fracos. http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/combate-a-corrupcao-em-portugal-esta-abaixo-do-normal-e-ha-leis-viciadas-a-partida-1544831 Onde essa corrupção intrínseca dos mais altos níveis de governo já não é nem criticada nem combatida, excepto na retórica uber inflamada mas de todo vazia dos próprios hipócritas que a suportam e criaram, mas até é tida pelos zombies como expectável… “sempre assim foi e sempre há-de ser”, lembram-se? É esta permissividade dos zombies perante a corrupção que dá poder aos Vampiros, esta falta de energia para qualquer tipo de resistência ao que está errado. E por isso mesmo o Zombie social, como o seu primo da 7ª arte, só é problemático quando em grandes números… fossem eles uma minoria e a coisa seria diferente. Mas não, são uma horda de mortos vivos, ou uma manada (como lhes chamaram na banda desenhada homóloga que originou a série televisiva “The Walking Dead”), o que é engraçado uma vez que a própria Igreja Católica chama aos seus fiéis rebanho e aos seus sacerdotes pastores.
Não admira então que os Vampiros sejam mais audazes em terras lusas inundadas de Sol do que nas latitudes onde durante 6 meses é noite! Gaita, eles cá até oram ao Grande Arquitecto! Onde o Zombie é numeroso, o Vampiro reina supremo. Logo, podemos concluir que o zombie é o perfeito escravo do, e não um problema para o, vampiro. E que ambos são maldições sociais para os Vivos.
Mas hey, aqui este ateu permite-se a ter fé na Humanidade a que pertence. Não uma fé cega, mas baseada precisamente nesses exemplos existentes de como podemos ser melhores. Na noção de que podemos, devemos, temos de exigir mais e melhor tanto de nós mesmos como dos nossos governantes.
Sempre houve os que resistem, os que lutam, e alegra-me ver que tanto em Portugal, como no Mundo, o número desses cresce. Antes que atirem a primeira pedra, aviso já que não me refiro ao crescimento do número de ateus, mas sim ao número de cidadãos, trabalhadores e desempregados, jovens e velhos, de todos os credos e cores políticas (ou sem cor política nem credo), de ambos os sexos e das várias orientações sexuais, e de qualquer etnia, que saem às ruas para manifestar o seu desagrado, que assumem posições e as defendem em debate racional, que criticam e objectam de forma visível e audível contra o que acham estar mal, que lutam para manterem direitos que outros conquistaram para eles em tempos idos, que se organizam e usam a tecnologia e sem dúvida a solidariedade civil para gerar movimentos sociais com o objectivo de obter maior justiça social, e que o fazem pela via pacífica e democrática enquanto para isso tiverem liberdade. E, junto a estes, aqueles que vivem em lugares onde lhes são negadas tais liberdades, mas que lutam por elas arriscando até a sua própria vida. Esses, espalhados por todo o mundo, que falam nas mais diversas línguas, são todos eles o meu povo, a humanidade que não só sobrevive mas que procura viver. Pertenço aos Vivos e não aos Zombies, que já morreram por dentro só que ainda ninguém lhes disse nem eles se aperceberam. Eu pertenço àqueles que dizem “eu estou cá para servir o próximo”, mas que se questionam, não sem ironia, como questionou alguém cujo nome agora não recordo, “mas para que raio está o próximo cá?” ahahaha
Nos últimos tempos, muitos cidadãos portugueses externos a partidos políticos, começaram a organizar-se espontaneamente para procurarem influenciar activamente a política em Portugal, cansados que estão de estar entregues a sanguessugas. A Geração À Rasca entrou em movimento. Uma geração da era da tecnologia e da informação, mais bem formada academicamente que qualquer geração que a precedeu, procura agora através do protesto, de petições, de iniciativas de cidadãos, melhorar o país. Por outro lado, existe o movimento dos hacktivistas, entre os quais destaco os Anonymous Portugal, que funcionam em conjunto com os Anonymous espalhados pelo mundo e que recentemente pregaram uma partida ao site do partido do governo. O seu anonimato permite-lhes levar o seu protesto um pouco mais além, mas ainda assim fazem-no pela via pacífica e por isso merecem respeito. E nota-se que os Vampiros já começaram a tremer, porque os números dos Vivos começam a crescer e os números dos Zombies a diminuir!
Recentemente vi um vídeo no Facebook, partilhado por uma amiga minha, que tenho agora de partilhar convosco. É um manual sobre como estupidificar, quiçá zombificar, uma nação. Deixo-o aqui ao vosso critério:

Relembro-vos só uma frase do senhor Franklin, aquando da construção de um estado democrático a que hoje chamamos USA: "A republic if you can keep it!".
Numa nota pessoal, já que o site é meu e tal, ainda não há pouco tempo, um dos meus melhores amigos e eu entrámos em debate, porque ele achou que eu criticava demasiado o governo. Achava ainda que me preocupava demais com coisas que não podia controlar. “Carpe diem”, disse-me ele a certa altura “foste tu que me ensinaste isso.” Eu fingi-me de parvo e disse “Não percebo a ligação.”, procurando que ele elaborasse não querendo presumir nada. E ele disse que o que queria era que os seus estivessem bem, que queria era ver o mundo e poder divertir-se e que o resto se lixasse e, aparentemente, queria que eu pensasse da mesma forma. Eu disse-lhe simplesmente que para mim o poder criticar o que considero mal numa sociedade, o poder debater todo e qualquer assunto, por vezes até reconhecendo mérito no argumento da posição que me é contrária ou mesmo aceitando que estava errado e dar razão a essa mesma posição, não é para mim um fardo mas sim uma alegria. Reconheço que sou um privilegiado, que nunca viveu sob o jugo de uma ditadura de qualquer tipo, sendo que até me foi permitido escolher qual fé, se alguma, eu seguiria quando fosse adulto. Mas esse reconhecimento dá-me ganas de me bater pelos meus direitos, ou ajudar outros a fazer o mesmo pelos seus quando posso, ou mesmo entrar em debate nestes assuntos que, sem dúvida, não posso sozinho resolver ou mesmo influenciar e ainda bem (ninguém deve ter tamanho poder). Tudo isso faz para mim parte dessa majestosa filosofia de aproveitar o momento, de viver em pleno, de viver a vida consciente e acordado, e não passá-la a dormir esperando uma fátua recompensa no Além ou simplesmente imerso em prazeres que adormeçam os sentidos para não sentir dor ou para ignorar o sofrimento que afecta tantos dos meus congéneres.
O que eu posso fazer, faço, e sem que seja necessário que me paguem para isso. Não é altruísta, mas sim na esperança que outro, um dia que eu precise, esteja lá também por mim. Essa é a essência de uma sociedade. Voto, assino as petições que com as quais concordo, participo de protestos e manifestações que ache pertinentes e, por exemplo, escrevo este blog sem assumir que alguém me lê, mas para que quem o queira fazer, que tenha net, saiba ler português, e tenha interesse nos assuntos que trato, o possa fazer. De facto, até a Google mudar os mecanismos internos do Blospot, que agora dão estatísticas sobre quantas pessoas nos lêem e de onde surge actividade online no nosso blog pelo globo terrestre, eu não fazia a mínima ideia de que mais alguém me lia além dos meus dois seguidores. Gostei de descobrir, admito, que tenho uma modesta mas continuada audiência espalhada por todo o mundo, acreditando nas estatísticas da Google, claro. Considerando que no Facebook (meu único meio de partilhar os posts) só tenho 88 pessoas adicionadas, fiquei alegremente espantado. Mas isso não me estimula nem mais nem menos a escrever, é apenas um bónus, uma alegria.
Eu convido o debate e a que me contrariem pois só assim posso eu evoluir também. É por isso que me orgulho de dizer que os meus amigos, poucos mas bons, são pessoas que têm sempre algo a ensinar-me, que têm visões de mundo diferentes da minhas e com quem posso partilhar não só copos e noitadas, mas especialmente debates políticos, filosóficos, problemas da vida quotidiana, nunca me preocupando se eles concordam comigo ou não (pois duma forma ou doutra, sei que estão lá) e sempre aberto a verdadeiramente escutar e analisar os argumentos e raciocínios deles. Orgulho-me ainda de dizer que ao longo dos tempos, mudei as minhas ideias espero que para melhor, com base em demonstrações científicas ou lógicas que superaram as mantinha anteriormente. De facto, agora que penso nisso, as pessoas que me atraem são as diferentes de mim, as que detêm outros saberes, mas que sabem expô-los de forma racional e lógica, e que estão abertos ao debate e a aprender com esse debate.
Mas sou apenas humano e confesso que nutri alegria do facto de ter descoberto recentemente tantas pessoas contra o AO90, quando eu pensava, até à mudança no CCB, que já não havia mais ninguém que se importasse como eu me importo e que quisesse lutar. Até a mim, que procuro sempre ler nas entrelinhas, os Mass Media portugueses afectaram negativamente. Não podemos baixar a guarda com estes gajos…
Outra coisa que me trouxe alegria foi o facto de os ateus estarem a crescer em número pelo mundo, provavelmente porque durante muito tempo via amigos e colegas meus na catequese, em baptizados ou a terem Religião e Moral na escola (os meus pais perguntaram-me se eu queria ter, eu disse que não), e achava-me a mim mesmo uma Ave Rara. Felizmente há mais como eu, só que nós não sentimos a necessidade de nos agregarmos para reforçar fés que testam toda a lógica.
É humano sentir a necessidade de pertencer ou pelo menos de não estarmos sozinhos na nossa visão de mundo, mas é preciso ter a coragem e talvez o estoicismo para fazer o que achamos certo mesmo quando todo o mundo parece estar contra nós, ou que simplesmente somos os únicos a pensar dessa forma, porque sem isso perdemos a Humanidade, a individualidade, e tornamo-nos em apenas mais um Zombie numa manada desmiolada e facilmente guiada pelos interesses maquiavélicos de alguns, eternamente vagueando em busca da próxima dentada.
Antes de terminar, só duas curiosidades:
Uma outra curiosidade de zombies no Japão é a torre da mina de carvão Shime, na Prefeitura de Fukuoka. A mina já não funciona desde 1964, contudo ficou recentemente conhecida na Internet como a estrutura anti-zombies preferida dos cibernautas. O governo japonês considera o local e a estrutura um monumento, mas um mero post no site Reddit, onde se partilham imagens e comentários, no qual se elaborava sobre as qualidades de abrigo anti-zombie que o edifício tem, foi o que lhe granjeou fama online. Seria interessante gravar lá um filme de zombies. Fica a ideia.


A segunda curiosidade é a curta-metragem portuguesa “I’ll see you in my dreams”, que é até à data o único filme de zombies português. Conta com participações de São José Correia (que já foi minha vizinha :), Sofia Aparício, João Didelet e Rui Unas, entre outros, tendo sido realizada por Miguel Ángel Vivas, e escrita por este último e por Filipe Melo. Deixo-vos o trailer, creio que o DVD ainda está à venda:

Não digresso mais. Termino com a música Zombie dos The Cranberries, que é, se prestarem atenção, ainda outro uso desta palavra para criticar uma determinada atitude humana… ou desumana neste caso:

Alex, signing off, hoping for a better tomorrow, where the living can live and not only survive, and the dead don’t bother them @ all!



segunda-feira, 21 de maio de 2012

Eclipse de 20 de Maio de 2012

Lembro-me de que aqui há uns anos, penso que antes de 2003 mas já neste século, ter havido um eclipse que embora parcial se viu bem de Portugal. Ainda tenho lá em casa óculos especiais e descartáveis, que se podiam na altura comprar em farmácias e que possibilitavam observar o eclipse sem que a vista corresse riscos. Nunca se deve olhar o Sol directamente, pois o Olho de Rá é demasiado potente para nós mortais e pode mesmo deixar-nos cegos. Como tal, esta série de imagens começa precisamente por mostrar os métodos usados para observar o eclipse de hoje, visível do Pacífico.
Reparem que na segunda imagem, as pessoas seguram óculos especiais para ver o eclipse sem comprometer a segurança das suas retinas. É MUITO IMPORTANTE ESSA NOÇÃO!


A girl with her mother observes a solar eclipse, focused onto a white card through a telescope, at Takayama village in Gunma prefecture, north of Tokyo on May 21, 2012.
Source:AFP/JIJI PRESS
Uma rapariga com a sua mãe, observa o eclipse solar, projectado num cartão branco através dum telescópio, na aldeia de Takayama, na perfeitura de Gunma, a Norte de Tóquio, a 21 de Maio de 2012.
Fonte: AFP/JIJI PRESS (via Facebook)



People watch annular eclipse in Grand Canyon National Park
Pessoas a ver o eclipse anular no Parque Nacional do Grand Canyon (USA).


Annular solar eclipse seen through the clouds in Kawasaki, surburban Tokyo, on May 21, 2012.
Eclipse solar anular, visto através das nuvens, em Kawasaki, subúrbio de Tóquio, a 21 de Maio de 2012.


This combination picture shows an annular solar eclipse seen from Tokyo on May 21 2012
Esta combinação de fotos mostra um eclipse solar anular visto de Tóquio, a 21 de Maio de 2012


Image of today's eclipse from Kiyomizudera in Kyoto
Imagem do eclipse de hoje de Kiyomizudera em Kyoto

Para quê procurar milagres, que por definição são a suspensão da ordem natural, quando essa mesma ordem natural é tão majestosa e bela, que nos enche de espanto e maravilha só por si?

Alex, signing off! ;)


domingo, 20 de maio de 2012

Mega Sismo: Quando o Infinito encontra o Zero!

Tróia, no dia da sua derrota, cercada pelos exércitos invasores do rei grego Agamémnon, como esteve durante dez longos anos de guerra, protegida pelas enormes muralhas que a encerravam. Sete anéis de muralhas, se a memória não me falha, mas nem esse sortudo número lhe valeu, pois a sua sorte foi madrasta. Eis que chega o Cavalo dos mitos e, contornando as suas defesas, abre as portas ao inimigo… mas que forma tem este cavalo? Há alguns anos atrás, historiadores e arqueólogos finalmente encontraram a há muito perdida cidade de Tróia, trazendo finalmente alguma luz à veracidade da grande epopeia de Homero. Havia até então quem dissesse que era tudo mito, quem dissesse que era factual, mas foram os que descortinaram uma história romanceada baseada em factos que acertaram. De facto, Tróia existiu, de facto tinha vários e impressionantes anéis defensivos que tornavam impossível a sua conquista, mesmo por um exército muito mais numeroso que o que a defendia. Os arqueólogos descobriram nos seus anéis muitas setas e corpos, sinais óbvios de batalha. Mas descobriram outra coisa também. Um vestígio geológico de ocorrência de um sismo no mesmo período de tempo em que a guerra terá acontecido. Os gregos achavam que Posídon, Deus dos Mares, Irmão de Zeus, era a divindade que controlava os terramotos e os maremotos. E por sinal, o Cavalo era o seu símbolo por excelência. Estranho, não é? Eu também não sabia, vi num documentário do canal História. Anos mais tarde, séculos até, Homero reúne as informações que existem sobre essa incrível guerra de antanho e constrói uma história, ou melhor dizendo uma estória, que lhe confere a imortalidade, tal como a via Luís Vaz de Camões: “Aqueles que por obras valorosas se vão da Lei da Morte libertando” O que se presume hoje é que, a certa altura, durante (ou antes) da guerra de Tróia ocorreu o sismo naquela região. Esse sismo foi responsável por brechas nas muralhas defensivas da cidade, o que permitiu ao exército invasor penetrar na cidade e, com a sua superioridade numérica, conquistá-la. Os gregos terão visto neste golpe de sorte a ajuda de um deus, Posídon. Homero, que a mim me parece um humanista mais que um politeísta, usou da sua liberdade poética e conjurou uma incrível figura: Ulisses. O homem que não possuindo nenhuma ligação a deuses (como Aquiles, Hércules, Perseus e outros heróis clássicos sempre tinham), não possuía nenhum poder extra ou supra humano, tendo sim um intelecto acima da norma. Ulisses ficou famoso por se ter lembrado do Cavalo de Tróia, uma artimanha que hoje todos conhecemos e que até dá nome a certo tipo de viroses informáticas. Homero tirou a glória de uma batalha ao Fado, aos Deuses, e deu-a a um homem de vasta inteligência! A ideia do cavalo, podemos hoje facilmente deduzir, surgiu da associação de conceitos: sismo => Posídon = Cavalo. Et voilá…
Depois desta introdução, vamos lá falar de sismos de um ponto de vista mais rigoroso e actual! No mês de Março, tive o gosto e o interesse de participar na Sessão Evocativa do Grande Terramoto do Leste do Japão, que ocorreu a 11 de Março de 2012, um ano depois da Calamidade. Já fiz menção destes procedimentos no mês passado e agora venho partilhar convosco o que aprendi na conferência de Sismologia que fez parte do evento. A conferência, intitulada “Sismos e Tsunamis – Experiências do Japão e de Portugal”, contou com palestras de dois ilustres, um japonês e outro português (pela ordem em que falaram na conferência).
Palestra I
A primeira palestra foi dada pelo Professor Atsushi Tanaka, da Universidade de Tóquio onde é professor. No seu currículo conta com várias publicações na área de Gestão de Catástrofes, Informação Pública e Psicologia de Comportamento Colectivo. É director do Centro de Pesquisa em Informação Integrada de Catástrofes e membro da Iniciativa Inter-Universitária para os Estudos da Informação. Quando se apresentou, o professor explicitou bem que a sua área era no campo da Psicologia e não da Sismologia, mas também que este campo tem vindo a ganhar cada vez mais proeminência na Sismologia devido às suas aplicações práticas nas alturas de ocorrência destes eventos. Como de certo saberão, o Japão está localizado numa zona muito fustigada por actividade sísmica e como tal a sua experiência, tanto prática como teórica, neste campo é mais vasta que a nossa. O objectivo desta conferência foi o de precisamente partilharmos as perspectivas de um povo e de outro sobre o assunto, de forma a fazer progredir os avanços na área.
A palestra do Professor Tanaka começou então com um modelo de computador, uma animação, que nos ia mostrando a evolução da frente de onda sísmica, desde o primeiro momento e do epicentro, e os vários momentos e áreas atingidas sequencialmente pelo sismo. Qual o interesse disto? Bem, o professor queria demonstrar a importância do Early Warning System (Sistema de Aviso Rápido. De hora em diante usarei a sigla EWS) que existe hoje no Japão. Para tal, mostrou-nos um vídeo de uma sala onde pessoas se preparavam para ver uma palestra, momentos antes de o sismo ocorrer. O EWS funciona através de telemóvel e todos os japoneses podem gratuitamente fazer download do software para o seu telemóvel. Assim que o sismo ocorre, é enviado um alerta da ocorrência. Esse alerta chega meros segundos antes da frente de onda sísmica, mas esses segundos podem ser a diferença entre a vida e a morte. Podem, por exemplo, permitir uma pessoa abrigar-se debaixo duma mesa ou na ombreira da porta, ou mesmo sair para a rua. E se nada mais, retiram a surpresa de quando a onda sísmica chega e permite à pessoa agir com menos pânico, evitando assim muitos problemas. No vídeo que vimos, as pessoas estavam sentadas, de repente manda tudo a mão ao bolso e alguns segundos depois, começa tudo a abanar. Houve gritos na mesma, como é de esperar, mas não um pânico avassalador. Estima-se que o sistema deu cerca de 16 segundos de preparação aos que estavam na sala. Mas este valor depende da localização onde se está em relação ao epicentro. Por exemplo, tendo sido o epicentro em Miyagi, a central nuclear mais próxima teve 30 segundos de aviso, mas Sendai uma cidade mais próxima teve apenas 12 segundos.
Como ao longo do século passado, o Japão foi compilando informações relativas a sismos prévios, já havia em 2011 um mapa com previsões de sismo. Baseada na informação recolhida, estimava-se que havia 99,9% de haver um sismo forte (8, na escala de Richter) na zona de Miyagi, nos próximos 30 anos. Há agora a probabilidade de 70%, segundo os mesmo cálculos, de que venha a haver um sismo em Tóquio, com magnitude a rondar os 7,2 na escala de Richter. Disse-nos o professor, que o governo ponderou se devia ou não dar esta informação ao público, pois teve medo do impacto desta a nível das bolsas e mercados internacionais. Ainda assim, acabou por decidir ser melhor avisar a população.
De seguida, na palestra, surgiu uma tabela com várias datas de eventos catastróficos no Japão ao longo dos anos. Eis alguns que consegui apanhar:
1945: Sismo em Showa Nankai
1959: Tufão Ise-Wan
1964: Sismo em Nigata
1995: Sismo
Devido à ocorrência de tantas catástrofes naquela zona, os japoneses recorrem muito, desde os anos 60, ao seguro contra catástrofes. Mas depois do sismo de 1995, foram criados mecanismos governamentais para cobrir estragos privados das pessoas atingidas por estas desastres naturais.
Nos meios técnicos, e para além do sistema EWS, existe também a funcionar no Japão um Sistema de Alerta de Maremoto. O professor Tanaka aqui fez uma breve menção ao Terramoto de Lisboa em 1755, dizendo que segundo dados históricos, se estima que o maremoto atingiu a cidade cerca de 30 minutos após o sismo. Mas como no Japão já se viu o tsunami surgir apenas 7 minutos depois do sismo abalar a terra, o alerta de tsunami é dado 3 minutos após a ocorrência, para garantir a eficácia do alerta.
De seguida, o professor apresentou o Ciclo de Gestão de Desastre:

Por exemplo, na parte da Preparação, em grandes centros urbanos, criam reservatórios de água subterrâneos que são aprovisionados para as emergências. Numa nota engraçada, o professor mostrou uma imagem duma série policial japonesa e disse (parafraseando): “Quando estão vazios, são usados para filmar séries de TV, particularmente cenas de acção.” [risos da audiência]. Na área da Mitigação, além de materiais anti-sísmicos nas construções, são construídas barreiras anti-tsunami, que no Japão atingem os 10 metros (sensivelmente 3 andares). No Japão, trabalham mais na coluna do lado esquerdo (imagem), ou seja na prevenção, procurando dessa forma minimizar os efeitos, até porque o governo só presta os serviços da coluna da direita se a intensidade do evento assim exigir. Está comprovado que esta atitude reduz muito as mortes e gastos posteriores aos desastres. O professor Tanaka mostrou um gráfico demonstrativo para o caso de Miyagi. Como já havia a previsão do sismo, os preparativos incluíram até um reforço intenso a nível da construção. Como consequência directa, nenhuma escola desabou perante o sismo brutalíssimo de 2011. Essas escolas foram depois usadas como centros de acolhimento para os sobreviventes, além de terem salvo a vida das crianças que nelas se encontravam. Por outro lado, as barreiras anti-tsunami falharam. O problema no caso do tsunami de 2011 foi que as ondas superavam em muito os 10 metros de altura, antecipados. As ondas chegaram aos 16 metros de altura (altura calculada com base na altura a que se encontraram posteriormente destroços arrastados).
E aqui chegamos a um ponto importante da palestra. É que o tsunami de 2011 foi muito além das previsões do Mapa de Previsões Japonês. Mas como este mapa era do conhecimento geral da população, houve muita gente que simplesmente não procurou sair da zona onde estava, pois SABIAM (ou pensavam saber) que as barreiras os protegeriam do tsunami. Outras simplesmente por se acharem fora da zona de perigo segundo o mapa, deixaram-se ficar, pensado-se em segurança. Assim sendo, todo o sistema teve de ser repensado. A informação que as pessoas vão recebendo nos telemóveis era deste género:

- aos 3 minutos: alerta Tsunami (ondas de 3 metros em Iwate e de 6 metros em Miyagi);
- aos 17 minutos: ******** (ondas de 6 metros em Iwate e de 10 metros em Miyagi).

Agora a informação que segue para os telemóveis, são possíveis intervalos de altura de onda, para que as pessoas “não se fiem na virgem” e fujam para zonas mais seguras, caso tenham essa possibilidade. Exemplo hipotético: ondas entre 6 e 13 metros. Ainda sobre este sistema de informação: 76% das autoridades locais, no Japão, têm ao seu dispor nas ruas sistemas de altifalantes que continuamente (desde que os sismos não os incapacitem à partida, algo que ocorre pontualmente) vão dando informações actualizadas da situação, funcionam sem fios (wireless) e mesmo em caso de falta de energia (blackout), sendo um sistema robusto o suficiente para ser eficaz; por outro lado, existe uma lei que obriga as estações televisivas a continuamente fazerem boletins informativos sobre a ocorrência. Mais uma vez see prova que informação é poder, neste caso o poder de se agir decisivamente evitando a morte. Mas basta uma má informação e…
O professor Tanaka mostrou ainda um quadro com 3 tipos de padrão de comportamento assumido pelas pessoas e os efeitos que esses comportamentos têm na sua sobrevivência aquando de um sismo desta magnitude:

Padrão A – os que fogem após o sismo: 60% sobrevivem;
Padrão B – os que fogem após o sismo, mas antes tentam fazer algo (malas, salvar pertences, etc…): 30% sobrevivem, 7% são apanhados pelo tsunami, 64% estavam fora de casa;
Padrão C – os que fogem só quando o tsunami já está a cair sobre eles: 10% escapa, 49% são apanhados (onde 30% destes estavam conscientes do tsunami).

Esta última percentagem, 30% de pessoas que estão conscientes da vinda do tsunami mas não fogem, são tipicamente pessoas que se preocupam mais com o bem-estar de outros que com o seu próprio. Pessoas que estavam fora de casa, mas assim que recebem o alerta tentaram chegar à família, ou bombeiros e outros servidores do público que estavam a actuar para salvar pessoas.
Ainda foram mostrados vídeos de maquetes à escala que procuram simular o sismo de 2011 e a resistência dos materiais ou reforço estrutural anti-sísmico, mostrando a eficácia destes últimos mesmo face ao mais destrutivo dos sismos registados. Contudo, é preciso ter noção de que nunca se consegue salvar 100% das pessoas nestas ocorrências. Estas catástrofes tendem a atacar os pontos fracos das nossas sociedades e por isso é preciso eliminar essas fraquezas, por exemplo, aumentando a robustez dos prédios antigos e zonas históricas, encontrando o equilíbrio entre manter o passado e proteger as pessoas no futuro. Mas também mantendo em contínua prontidão os serviços de emergência e ao mesmo tempo fortalecendo a educação nas escolas, para ensinar as novas gerações sobre o que podem e devem fazer individualmente nestas situações. E por último, a divulgação destes conhecimentos que é essencial!
No Japão, segundo o professor Tanaka, estuda-se também como obter a atenção das pessoas que pura e simplesmente não se interessam pela prevenção destes eventos. Não se estuda só a engenharia mitigadora, mas também nos campos da sociologia, psicologia e gestão, quis ele frisar.
Em jeitos de conclusão e finalização da palestra, o professor Tanaka indica que o maior problema deste tipo de sismo (idêntico em escala, estima-se agora, ao de 1755 em Lisboa) só acontece uma vez em cada 3 mil anos. Mas como o ser humano tem tendência a esquecer coisas más, é preciso resistirmos a esse hábito e termos consciência de que estes terríveis eventos já aconteceram e tornarão a acontecer, e como tal é preciso prepararmo-nos para os enfrentar o melhor que esteja ao nosso alcance fazê-lo.

Palestra II
A segunda palestra ficou a cargo do professor Carlos Sousa Oliveira, do Instituto Superior Técnico, onde é professor e investigador de Engenharia de Estruturas, Território e Construções. É autor de vasta publicação na área se risco sísmico e foi consultor da ANPC (Autoridade Nacional de Protecção Civil), tendo acompanhado a elaboração dos planos de risco sísmico da Área Metropolitana de Lisboa e do Algarve. O objectivo da palestra do professor Oliveira foi relacionar o sismo de 2011 em Miyagi com o sismo de 1755 em Lisboa. A palestra andou em passo acelerado devido à falta de tempo, face ao estipulado pela organização, o que para mim foi uma pena, pois ficou muita informação pelo meio por veícular.
Uma das primeiras coisas que o professor disse foi que provavelmente os japoneses levarão uma década a analisar toda a informação recolhida neste último sismo. Segundo alguns dados já apurados, o sismo tinha uma aceleração de 2G no epicentro. No Japão, os prédios estão preparados para absorver acelerações entre 30% e 40% de G, enquanto que em Portugal o intervalo é de 20% a 30% de G. Os modelos de sismos prévios a este terramoto de 2011, previam sismos com duração de 10 a 30 segundos, mas o de Miyagi foi 10 vezes maior em duração, gerando esforços de fadiga penosos nas construções. Por exemplo, edifício com 70 metros de altura, abanava 1 metro para o lado. Os dados históricos do sismo de 1755 apontam para esta duração, mas os cientistas não acreditavam que fossem dados factuais até serem corroborados pelo sismo de 2011. Deduz-se também que a topografia litoral tem uma influência imensa nos efeitos do tsunami. O professor arranjou uma maneira muito elegante de se referir a este tipo devastador de sismos: é um sismo cuja probabilidade tende para zero mas que, quando acontece, tem um poder destrutivo que tende para infinito.

0 .

Quando o Zero se encontra com o Infinito, nunca é bom como saberão decerto da matemática de 12º ano. Ora, como na Matemática esse problema é coisa que nem sábios nem governantes conseguem resolver.
Voltando aos aspectos técnicos, concluiu-se também que zonas propícias a liquefacção, terrenos arenosos, provocam problemas de resistência nos alicerces das construções. Após o terramoto de 1995, o Japão enquanto nação preparou-se a nível de construção para aguentar fisicamente muita força e mesmo assim muitos prédios foram destruídos.
O professor Oliveira mostrou então fotografias da zona atingida no Japão, 1 ano depois do evento. As infra-estruturas foram restabelecidas, mas a regeneração dos espaços (limpos de destroços mas agora vazios) ainda está por fazer. O problema prende-se com a decisão de se se reconstrói a urbe que lá existia ainda mais reforçada e reforçam-se também os diques ou barreiras de tsunami OU se pura e simplesmente não se reconstrói lá nada e as pessoas se mudam para zonas mais seguras? Esta resposta não é fácil de dar, uma vez que pode voltar a ocorrer outro sismo daqueles já amanhã ou só daqui a mil anos. Uma outra fotografia mostrava um autocarro no topo dum prédio. Uma casa inteiramente tombada para o lado, ou seja a estrutura não ruiu mas tombou como um todo. O lixo e escombros resultantes ainda estão amontoados em pilhas e também são um fardo resultante de difícil resolução.
Até ao ano de 1958, as cintas de aço nas estruturas dos prédios ainda eram feitas com demasiada distância entre os ferros. Hoje as normas de segurança exigem que essa distância seja menor e como tal mais resistente, mas o problema é que ainda há prédios muito antigos em todo o mundo. A Baixa Pombalina tem esse problema.
Outro problema no Japão, é que muita gente um ano depois ainda está em alojamento temporário.
Um outro problema importante é o das centrais nucleares. Toda a zona afectada ainda se encontra com concentrações de césio muito elevadas, que não será possível limpar nos próximos 60 anos. Na altura da conferência, o professor Oliveira deu a indicação que o Japão se preparava para fechar as cerca de 60 centrais nucleares do país, que produzem 30% da energia produzida no Japão. O fecho, hoje em dia já uma realidade (como as notícias abaixo testemunharão), é para avaliação de se devem continuar com o seu programa nuclear de produção de energia ou se o Japão deve mudar para processos mais seguros embora menos eficazes de produção de energia, como as eólicas e solares. Um outro problema económico poderá surgir daqui, uma vez que a falta de energia poderá pôr em risco alguma da indústria japonesa ou no mínimo a sua capacidade produtiva.
Em Portugal, já se está a implementar um Early Warning System para Tsunamis, que o professor Oliveira prevê entrar, ou espera que entre, em funcionamento em breve, e que aconselha também a que se prepare um EWS para sismos de seguida. Sines é uma região sobre grande risco sísmico e esforços extras devem ser lá feitos para a proteger. Considerando o que aconteceu em Lisboa em 1755, é importante erguer barreiras nas zonas de risco, pois estima-se que os estragos não foram maiores na Lisboa do século XVIII por causa da Muralha que Lisboa possuía na costa e que mitigou os efeitos do tsunami. Essa muralha já não existe!! Estuda-se também a interconectividade dos vários sistemas de Apoio e Salvamento que actuam nestas eventualidades. O professor aludiu ao facto de ser óptimo ter escolas reforçadas que resistem ao sismo, mas se depois não tivermos meios capazes de lá levar socorro, comida e água, de nada servirá. Recordo eu o problema que o Bush teve nos EUA, aquando do furacão Katrina, que por falta de meios ou da lentidão na resposta, muita mais gente morreu posteriormente ao desastre natural.
Nesta altura, o professor Oliveira deu-nos mais alguns dados históricos apurados dos relatos da altura do Marquês de Pombal:
- teve 8 a 10 minutos de duração;
- uma intensidade estimada de 9 na escala de Richter (face às construções da época);
- quanto ao número de mortos estimam-se que tenha sido a rondar os 20000, sendo que o governo português da época dizia apenas 6000, e a literatura estrangeira coloca valores entre os 30 e os 70 mil mortos;
- o fogo matou imensa gente, no pós sismo.
A resposta por parte do Marquês de Pombal foi feita em tempo recorde, tendo envolvido:
- extinção de fogos;
- evitar epidemias;
- apanhar presos escapados dos calabouços;
- salvar os conteúdos da Torre do Tombo;
- foi feito um inquérito com 13 perguntas junto da população, que era quase igual aos hoje utilizados no pós-sismo para avaliar a intensidade do mesmo entre outros aspectos;
- a reconstrução aprendeu com os erros passados, surgindo a famosa Gaiola Pombalina, o corta-fogo, fazerem-se as fundações em cima de escombros, as estacas que os aumentos actuais do Metro vieram a pôr em causa recentemente;
- foi feito o primeiro regulamento/código de construção e urbano e criaram-se novos sistemas de saneamento.
Segundo Voltaire, esse outro grande humanista, surgiu deste evento também uma nova forma de ver o mundo. O professor Oliveira não elaborou...
Segundo o professor Oliveira, se o sismo de 1755 ocorresse hoje, os gastos seriam de N vezes o valor do PIB.
Outro campo de estudo a ser desenvolvido em Portugal é na área dos simuladores de sismos:
- estudos liderados pela Protecção Civil;
- com o objectivo de prever o que poderá acontecer;
- analisar que recursos podemos utilizar para a prevenção (incluindo mais uma vez a própria educação das crianças).
Existe hoje aprovada (em Julho de 2011) a recomendação AR 103/2010 que infelizmente ainda está por implementar.
Sessão de P&R
Houve depois uma pequena cessão de perguntas e respostas abertas à audiência, que se centralizaram muito na questão nuclear mas também na questão humanitária. Que iria acontecer às pessoas que por exemplo trabalhavam a terra na zona do sismo, que agora ou está radioactiva ou impregnada de sal marítimo, por exemplo? É um outro problema ainda em resolução, sendo que alguns desses agricultores simplesmente abandonaram a área e, com ajuda do seguro e/ou do governo, compraram terrenos noutras regiões e recomeçaram a sua vida. Eis uma  notícia interessante sobre este último problema:
O Engenheiro José Oliveira, director Nacional do Planeamento de Emergência da ANPC, moderador do debate, informou-nos ainda de que a Protecção Civil ainda este ano, salvo erro, fez um simulacro de sismo no Algarve, estando então a manter-se de prontidão para essa eventualidade e também promove actividades nas escolas para educar a criançada sobre o que se deve fazer nestas situações. O engenheiro falou também de se estar a pensar implementar nas zonas de risco em Portugal esses sistemas de altifalantes de emergência nas ruas.

Todos os intervenientes concordam que o essencial é a prevenção e a divulgação da informação e como tal, cá está mais uma vez o N.I.N.J.A. Samurai a fazer o que pode, informando-vos de tanto quanto ele sabe. Num futuro breve, espero deixar aqui também um link para um pdf com informação sobre os comportamentos que devemos tomar em caso de sismo, que circulou em email aqui há uns tempos em Portugal. Por hoje é tudo,

Alex, signing off… as usual!

Update( umas horas mais tarde): eis o link para o pdf:

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Festa Japonesa em Belém e Desacordo Técnico em crescendo


Olá, pessoal!
Bem sei que o blog tem estado MUERTO (esta escolha de palavra não é ao acaso :) este mês, mas ainda vai ressuscitar antes do fim! Tremam, meus compatriotas terrenos, tremam!
Entretanto, aproveito para relembrar o vindouro evento da Festa do Japão em Lisboa. Se querem ir para fora cá dentro, se gostam de se deixar imergir em culturas diferentes da nossa, aproveitem a oportunidade no dia 2 de Junho de 2012. Eis os pormenores, fresquinhos e directamente da Embaixada do Japão:

Face ao enorme êxito da Festa do Japão em Lisboa em 2011, a Embaixada do Japão, a Câmara Municipal de Lisboa, a EGEAC e a Associação de Amizade Portugal-Japão, com o apoio da JapanNet e da 'Japan Foundation', organizam este ano a 2ª edição deste evento, no âmbito das Festas da Cidade de Lisboa.
Pretende-se celebrar a amizade e a cultura entre o Japão e Portugal, no espaço existente do Jardim do Japão em Belém, aproveitando a sua excelente localização para dar a conhecer mais a cultura japonesa em Portugal.
Os visitantes poderão usufruir das várias expressões da cultura japonesa, quer tradicional quer pop,  através de concertos de música japonesa (tambores e 'shamisen'), demonstrações de Ikebana, Shodo (caligrafia), artes marciais, poesia Haiku, Origami, Furoshiki (técnica de embrulho), brinquedos japoneses, como vestir Yukata (o kimono de Verão), Cosplay (expressão da cultura pop), concursos, exposições de Bonsai, tendas de gastronomia japonesa (para venda de sushi, carê udon, takoyaki, dorayaki - doce de soja, sakê, cerveja japonesa etc.), representação de empresas japonesas, entre outras. VER PROGRAMA
A edição deste ano contará igualmente com a gentil participação de Fernando Tordo, Filipa Pais e Carlos Mendes, na apresentação de 'Memorial', com o tema 'Biombo de Namban'."


Só acrescentar numa outra nota a boa nova duma pequena mas, espero eu, significativa vitória para todos aqueles que como eu partilham do sentimento anti-Acordo Ortográfico. A Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico votou esta semana em assembleia geral de alunos declarar-se publicamente contra o Acordo Ortográfico, contra a sua implementação no IST (para começar ehehhe) e anunciou o intento em procurar levar este sentimento a outras associações de estudantes de forma a gerar uma frente unida contra este (des)acordo por parte dos estudantes actuais, líderes do amanhã! Momentos destes levam-me a ter orgulho em dizer que sim, estudo no Instituto Superior Técnico, uma universidade de engenharia onde os alunos se preocupam com a cultura do seu país, independentemente de estarmos em crise económico/social ou de não estudarem letras eles próprios. Mas se soubesse o comum dos mortais que a Matemática a sério é mais letras que números, ninguém diria que não estudamos Letras! Além disso, não há nada pior que um texto técnico atabalhoado e mal escrito... eles já são complicados o suficiente estando bem escritos e numa ortografia tanto menos ambígua quanto possível.
Também muito me agradou quando descobri termos no IST um grupo de estudantes que dá pelo nome de Desacordo Técnico, que foi o primeiro pólo do IST publica e activamente contra este acordo (a página deste grupo é fácil de encontrar no facebook):
Assim sendo, continuemos a resistir, de canetas e teclados empunhados quais espadas e vitória a vitória, a guerra será vencida por nós!
Não se esqueçam de assinar a "ILC contra o AO90". São necessárias 35 mil assinaturas. É uma iniciativa de cidadãos e não uma mera petição. Tem de se assinar em papel, sendo que todas as informações sobre para onde enviar e o formulário a assinar, se podem encontrar no blog desta Iniciativa ( http://ilcao.cedilha.net/ ). Ainda ando a recolher algumas assinaturas junto dos meus amigos e familiares para enviar juntamente com a minha! Vamos lá!

Até à próxima… que espero que seja em breve!
Signing off

P.S.: O parágrafo que acompanha o cartaz da Festa do Japão e está a itálico, é citação directa do boletim informativo da Embaixada do Japão.