quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Más Notícias de 2011

"Hoje, o Japão ouviu uma notícia que já não ouvia desde 1980. A sua economia, que se tornou a segunda maior do mundo graças à sua vocação exportadora, voltou a saber o que é um défice. A balança comercial foi negativa em 2,49 biliões de ienes (cerca de 22,5 mil milhões de euros), naquele que é o primeiro défice comercial do país desde 1980, ano em que a economia foi atingida pelo choque petrolífero. Mesmo durante a crise financeira de 2008-2009, que levou a uma quebra generalizada do comércio mundial, o Japão tinha conseguido aguentar-se com um saldo positivo.

A contribuir para este desempenho está o abrandamento da economia internacional e a instabilidade nos mercados financeiros ocidentais, mas também as consequências do terramoto e do tsunami que, em Março do ano passado, abalaram o país.

As importações aumentaram 12% em 2011, devido à subida das compras de combustíveis decorrentes da quebra de produção de energia própria, na sequência do terramoto que danificou várias centrais nucleares. Neste momento, apenas 4 das 54 centrais existentes no país estão a funcionar.

As exportações, por sua vez, caíram 2,7% na sequência do terramoto e do tsunami, que paralisaram várias fábricas no país. A contribuir para a quebra das vendas ao exterior está também a conjuntura internacional, que está a diminuir a procura pelos produtos e serviços japoneses, e a crescente valorização do iene.

A turbulência nos mercados financeiros e, sobretudo, a crise da dívida europeia tem feito os investidores refugiaram-se em activos mais seguros, como a moeda japonesa, que está em máximos históricos face ao euro. Isto tem prejudicado os ganhos das empresas exportadoras, que são o pilar da economia japonesa.

Com a economia mundial a dar sinais de que irá abrandar ainda mais, o Japão corre o risco de ver o seu défice comercial agravar-se, deixando o país dependente da balança de pagamentos, ou sejam do financiamento externo, para financiar a sua gigantesca dívida pública – que deverá atingir os 238% do PIB este ano, embora seja detida maioritariamente por investidores nacionais.

Os últimos anos já tinham sido de desaceleração para a economia japonesa, mas o terramoto e o tsunami de Março de 2011 vieram perturbar ainda mais o desempenho do Japão, que perde recentemente o título de segunda maior potência mundial para a China. O FMI, que divulgou ontem as suas novas previsões económicas, prevê que o PIB japonês cresça 1,7% este ano, depois de uma contracção de 0,9% em 2011."

FONTE: Jornal "Público"

Custa-me ver um dos poucos países orientais senão o único que se pode dizer verdadeiramente de primeiro Mundo, a começar a ressentir-se nas contas. Mas tal seria de esperar, devido à economia global. De certo que darão a volta por cima, pois são um país de exportações e de indústrias criadoras. Se eles não derem volta à sua situação, quem dará??






Alex, signing off...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Eventos JAPAO - Bolsas de Estudo para Estudos Japoneses 2012‏

Recebi este email e achei importante partilhar! Para os que concorrerem muito boa sorte! ;D


"A Embaixada do Japão tem o prazer de divulgar o seguinte programa de Bolsas de Estudo do Governo do Japão para Estudos Japoneses no ano de 2012:

O Ministério da Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia do Japão (MEXT) concede bolsas de estudo para estudos académicos no Japão a estudantes portugueses que queiram aprofundar os seus conhecimentos em língua Japonesa, assuntos do Japão e cultura Japonesa. Estas bolsas têm o objectivo de promover a mútua compreensão e aprofundar as relações de amizade entre o Japão e os outros países pela utilização de avançados conhecimentos da língua e cultura Japonesas.

O regulamento e os respectivos formulários de candidatura encontram-se disponíveis em http://www.pt.emb-japan.go.jp/estudarnojapao.html#bolsas

Candidaturas até ao dia 8 de Março de 2012, impreterivelmente (data de recepção na Embaixada – não serão aceites candidaturas recebidas depois desta data).

Para mais informações e esclarecimento de qualquer dúvida queiram utilizar o endereço de email (cultural@embjapao.pt) ou então dirigir-se directamente ao Sector Cultural da Embaixada do Japão em Portugal (Av. da Liberdade, n.º 245 / 6º andar - 1269-033 LISBOA / Tel: 21 311 05 60 / Fax: 21 354 39 75 )."



Alex, signing off 4 now...

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Takarajima = "Ilha do Tesouro"








Por alturas do Natal, eu fico sempre nostálgico e reencontro todos os anos a criança que há dentro de mim. É bom fazê-lo porque foi até hoje o melhor tempo da minha vida e memórias tão felizes têm força suficiente para nos escudar contra o cinismo que parece inerente ao ficarmos adultos. Daí os jovens serem mais idealistas e os adultos desdenharem os que acreditam em ideais. Não todos felizmente, apenas aqueles que foram derrotados ou envenenados pelas vicissitudes da Vida e que deixaram morrer a criança que outrora morou dentro deles.
Foi a melhor época da minha vida porque não tinha preocupações nenhumas e os meus pais viviam bem na altura em termos monetários, permitindo-me comprar brinquedos quase todas as semanas! Além disso, ainda tinha os meus 4 avós comigo e era o puto da família, sendo apaparicado por todos! Costuma-se dizer "Para criar uma criança é preciso toda a aldeia!". Bem, eu tive a aldeia e isso já ninguém me tira!
Aos sábados de manhã deleitava-me com desenhos animados épicos e heróicos como hoje já não há, nem no oriente nem no ocidente (e já explico esta afirmação). Às escondidas, via filmes, que o meu pai gravava no velho formato VHS, que não devia ver (Exemplos: Terminator I & II, Predator I & II, Robocop, The Fly, Evil Dead, Cyborg, Rambo) e também via outros que eram próprios para a minha idade (Exemplos: Karate Kid I & II, TMNT I & II, Caça Fanntasmas I & II, Army of Darkness, etc...). Pelo meio, via filmes de acção habituais do Van Dame, do Chuck Norris, do Jacky Chan, do Governator, do Bruce Willis e do grande Bruce Lee. Assim como também via séries como Os Imortais, O Justiceiro, Esquadrão Classe A e o grande McGyver! Por ver estes filmes e séries tantas e tantas vezes, acabei por aprender a falar inglês sozinho e quase como se fosse também uma primeira língua. Tudo começou porque eu tenho uma leve dislexia e quando era puto odiava ter de ler legendas. Como as pessoas da minhas geração saberão, em Portugal, os filmes não eram dobrados mas sim munidos de legendas. Então acabei por ir aprendendo. Por ouvir os meus primos dizerem Man uns para os outros e mesmo para mim (percebendo ser uma cena fixe), perguntei ao meu Pai o que Man queria dizer. "Homem", disse-me ele rindo-se. E eu disso "Homem?! Só isso?? Que tem isso de fixe?". Foi assim que comecei a despertar para a linguística.
Mas voltando ao que queria falar. Na década de 1990, o Anime começava a ganhar proeminência no Ocidente. Séries como os Cavaleiros do Zodíaco e a Ilha do Tesouro são as que melhor me lembro, sendo que gostei muito mais da que dá título a este post que dos Cavaleiros. É que Cavaleiros do Zodíaco tornava-se chato por ser incrivelmente repetitivo... e quase ninguém morria. Já na Ilha do Tesouro, pessoas chave morrem e logo desde os primeiros episódios, tal como no livro original. É isto de que falo quando falo de séries épicas. Hoje em dia a maior parte dos desenhos animados não lidam com a morte e depois admiram-se de crianças por vezes matarem colegas de escola por andarem a brincar ao Dragon Ball ou algo do género. É que nessas séries a morte é inconsequente, o pessoal pode sempre reavivar toda a gente. Ou então, mesmo depois de levar tanta paulada, estão bem. E fazem isto dum ponto de vista sério e não cómico como por exemplo nos Looney Toons. Não admira que as crianças fiquem baralhadas e essas terríveis situações aconteçam. É bom falar da morte quando se é pequeno, até porque as crianças não são nada burras e têm uma capacidade de aprender muito maior que a de um adulto. Falo de experiência quando digo, por exemplo, que é muito mais fácil aprender línguas em criança que em adulto. "De pequenino se torce o pepino!", diz o meu povo! Além disso, basta olharmos para os clássicos contos de criança, histórias de cautela e de terror, em que pessoas efectivamente morrem, como no Capuchinho Vermelho ou no Hansel e Gretel, ou mesmo o João Ratão. A minha mãe ainda hoje me goza porque eu lhe pedia para me contar estas histórias, com 3,4,5 anos, e sempre que as ouvia chorava baba e ranho. Lidar com a morte em criança não nos torna insensíveis em adultos, dá-nos é uma maior sensibilidade e respeito para com o tópico e até mais tempo para aprofundar o nosso conhecimento sobre ele. Só é preciso é ter adultos à volta das crianças que não tratem os assuntos como a Morte como tabus e estejam prontos a guiá-las nesses primeiros encontros. Não paternalizem as crianças. Falem com elas de igual para igual, dentro dos possíveis... mais cedo ou mais tarde, com ou sem o vosso conselho, elas saberão as verdades da vida. Mais vale que seja mais cedo e num ambiente familiar. Garanto-vos!



Sobre a Takarajima...





O John Long Silver era esplendoroso, tanto tinha medo dele como queria fazer parte da sua tripulação! Creio que era isso que o Jim desta série, desta versão da Ilha do Tesouro, sentia também. Curtam só o riso maníaco do gajo:


Depois havia o Gray, que era a minha personagem favorita, e de todos é o que tem a morte mais poética no último episódio. Ainda assim, não estou certo de que esta personagem existisse na história original. Ele era o bacano que atirava facas, que não era central mas era letal e safava as cenas no último momento, de tempos a tempos. As outras personagens dos "bons", como os putos dizem, (o médico magistrado, o ricaço, o capitão, o cozinheiro, entre outros) também eram porreiras e o Jim era uma personagem que nenhum miúdo se importaria de ter como avatar naquele mundo de aventuras. Como podem ver (spoiler alert) no video seguinte, alguns deles morrem durante a série:


Os piratas conseguiam, aos olhos duma criança, meter medo. Especialmente o velho e cego Pew e o próprio Long John. Contudo o próximo video é um musical que encontrei no youtube e que mostra um lado mais "boa onda" dos piratas!


Esta série correu do início da história até ao fim, algo raro nas séries de TV, que são canceladas antes de chegarem a uma conclusão. Gostava de a rever na sua totalidade como ela deu na RTP1, há incontáveis anos atrás! Infelizmente o DVD saiu com dobragens em francês e em alemão, mas não em Português, o que considerando que é a 5ª língua mais falada mundialmente, não se percebe. Até porque, salvo erro, foi das poucas séries dobradas da época. Razão pela qual, quiçá, eu não falo japonês! ahahahah Deixo aqui o pedido que façam uma edição do DVD com versão portuguesa. Falem com a RTP, que eles têm lá os ficheiros de áudio de certeza! É uma série sempre actual originada por um clássico da literatura, e que qualquer criança vai gostar.
http://www.imdb.com/title/tt0296435/
Para mim, a minha infância é a minha ilha do tesouro, escondida já por um oceano cada vez mais vasto de memórias. Mas no baú desse tesouro, entre outras, esta série está bem guardada contra os efeitos do tempo!
Despeço-me então, deixando-vos com um video de homenagem ao Gray (BIG SPOILER ALERT).



Sayonara... 4 now!



domingo, 1 de janeiro de 2012

Um Feliz Ano de 2012

Os cartões Nengaju só devem ser entregues no dia 1. Eis o do N.I.N.J.A. Samurai!!




Quero começar o ano com uma mensagem de esperança, no meio de tanta agitação socio-económica e política que tem percorrido este nosso pequeno berlinde azul e que se adensou drasticamente no ano passado.




Por isso, recordo-vos daquilo que já sabem, lá no fundo. Que se cada um de nós se esforçar para fazer a diferença individualmente, o conjunto dessas difernças individuais e distintas entre si criará um futuro bem melhor do que aquele que será gerado quer por continuarmos a agir sem paixão, sem reflexão, aceitando tudo o que a televisão e os jornais nos dizem sem pensar duas vezes, porque "tem de ser" ou porque "sempre assim foi e há-de ser", quer pelo futuro gerado pela inacção da conformidade ou da perguiça. Cabe a cada um de nós melhorar o nosso cantinho do mundo, para conseguirmos, todos juntos melhorar o mundo inteiro.


Como exemplo dessa mesma filosofia de pensamento, mostro aquela que já é tida por muitos como a casa mais estreita do mundo. Que tem isto a ver com o Japão? Tudo, pois o seu dono e construtor é de facto japonês. Encontrei esta informação no http://www.sitedooriente.com/.
As imagens falam por si:















Um bem conhecido problema do Japão é a crescente falta de espaço para os seus habitantes. Em Portugal diz-se "A necessidade aguça o engenho." e assim sendo o arquitecto japonês Kota Mizuishi criou esta vivenda num estreitíssimo terreno. A moradia conta com cozinha, quartos, sala de jogos e casa de banho e está avaliada em cerca de 200 mil dólares americanos.





Resta-me apenas desejar a todos um excelente Ano Novo e pedir como único desejo que reflitam naquilo que vos disse acima e, se acharem mérito no argumento dado, coloquem-no em prática. Ajam, mas ajam com cabeça e não atabalhoadamente como os nossos políticos têm a mania de fazer, mais preocupados com as aparências de estare a desenvolver trabalho que em realmente tentarem descobrir um caminho não só orientado para os resultados, mas sustentável e de futuro, não só de curto prazo, mas também de longo prazo. Exemplo de como um cidadão comum pode fazer isso... dou três. Para os que têm lareira, vão recolher lenha nas florestas portuguesas, pois assim limpam as matas, poupam na electricidade para aquecimento e ajudam a prevenir ou minimizar os fogos florestais no Verão. Para os fisicamente aptos, tornem-se dadores de sangue e de medula óssea. E finalmente para todos, façam reciclagem.



Um feliz ano novo e rock on! ;)

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Geishun ou Gashou? - Parte 2

http://150anosportugaljapao.blogspot.com/2011/12/geishun-ou-gashou-parte-1.html



(...)



Para completar o ritual de boas vindas aos Ano Novo, deve-se colocar o kodamatsu (literalmente “pinheiro de portão”). São arranjos florais compostos por flores, cana de bambu e folhas. A tradição manda que se coloquem à porta após o Natal e são tidos como moradias temporárias para os Kami (os espíritos ancestrais da colheita). Só se devem remover após o sétimo dia do ano novo. Após o 15 de Janeiro deve-se queimar o kodamatsu, de forma a apaziguar os Kami, libertando-os.
Como é tido como atrair má sorte trabalhar nos primeiros 3 dias do ano, os japoneses preparam as suas refeições para esses 3 dias em antecedência. Os pratos tradicionais incluem o mochi (bolinho de arroz). Esta iguaria é servida de várias maneiras diferentes [como por exemplo, o Kagamimochi (literalmente “espelho bolo de arroz”), que se assemelha a um boneco de neve em forma, tendo um mochi grande como corpo e um pequeno como cabeça] e reza a tradição que se coloque o mochi num altar Shinto, o kamidana, durante a passagem de ano, e com uma laranja amarga japonesa a que chamam daidai por cima, para agradecer a Toshigami (ou Kami). Passada a Passagem do Ano, o bolo é repartido e comido. A esse acto chama-se o kagami biraki (a abertura do espelho). Contudo, esta é uma prática que acarreta alguns perigos. Ao que parece o dito bolo, passado uma noite da sua confecção fica mais viscoso e mole e já houve mesmo casos de idosos a morrer engasgados devido a isso. Há de facto equipas em ambulâncias nos hospitais de prevenção para socorrer esses casos.












Legenda: À esquerda temos um simples mochi. À direita o Kagami Mochi.



Finalmente, bem refastelados de comida e bebida, quando chega a altura da passagem de ano, deve-se dar um salto ao templo. Há muitos que passam mesmo lá a passagem de ano, para ouvirem o soar das 108 badaladas que representam os 108 pecados da crença budista, completando assim a limpeza espiritual. No templo deve-se ainda assistir ao nascer do Sol do dia de Ano Novo.
Mas o mais engraçado é que até o sono, que se segue inevitavelmente depois de uma noite de rituais e festejos, se torna parte da versão japonesa de entrar com o pé direito no ano novo. Parece que o primeiro sonho do ano determina como o ano vai ser. Um pesadelo promete desgraça nesse ano. Além disso, sonhar com beringelas, falcões ou com o monte Fuji é tido como muito bom sinal. Para garantir um bom sonho, é costume colocar uma efígie de uma besta mitológica que se alimenta de sonhos, chamada Baku.
O meu avô ia gostar dos japoneses, eles previnem-se contra tudo!
De notar que a gravura à esquerda ilustra um Baku e é do artista Katsushika Hokusai. Hoje em dia há muitas outras formas de representar o espírito em questão, já explorado em séries de anime e noutros meios.




Para finalizar aproveito para vos deixar as últimas que a Embaixada do Japão me mandou, em termos de notícias e eventos para este mês:
http://www.pt.emb-japan.go.jp/newsletter_2011/Embaixada_do_Japao_Noticias_DEZEMBRO_2011.pdf
Destes últimos, destaco o Ciclo de Cinema de Satsuo Yamamoto, que decorre até 19 de Dezembro na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa.
http://www.cinemateca.pt/CinematecaSite/media/Documentos/dezembro.pdf
A destacar também é a versão em Português do site “O Desafio de Erin – eu entendo Japonês”.
https://www.erin.ne.jp/pt/


Deixo-vos então aos vossos respectivos preparativos de Natal e Ano Novo, com os desejos de que, contrário ao que as notícias nos dizem todos os dias, os senhores que nos (des)governam ganhem tino e nos permitam prosperar!
Feliz Natal, um Próspero Ano Novo e até breve…

Alex


P.S.: Uops! Quase me esquecia de fechar o portal! Deixa cá meter a shimenawa! :D Não vá o Diabo tecê-las!

Geishun ou Gashou? - Parte 1


Em Janeiro, deste ano fiz uma entrada no blog sobre o Natal e o Ano Novo no Japão. A verdade é que o post ficou incompleto, porque realmente há muito para falar! Por exemplo, na imagem acima vemos um templo japonês super protegido contra espíritos malignos! Uma autêntica fortaleza! (Não, não estou doido, continuem a ler :)
Como em tudo o que é costume japonês, a preparação da festa celebrativa do Ano Novo é, nada menos, que um complexo ritual!
Já agora, o período das festas de Ano Novo, a que nós simplesmente chamamos por As Festas, no Japão é chamado: Oshougatsu.
O link abaixo faz ligação ao post de Janeiro supramencionado.
http://150anosportugaljapao.blogspot.com/2011_01_01_archive.html

Antes de mergulharmos no ritual de preparação do Ano Novo Japonês, vejamos primeiro uma festa que ocorre no final do mês de Dezembro, geralmente entre amigos ou colegas de trabalho. Chama-se Bounenkai e a sua origem oriunda do período Meiji. A palavra Bounenkai tem três significados como “esquecer a velhice”, esquecer os acontecimentos do ano que está a acabar” e “esquecer a diferença de idades entre as pessoas”. Essa festa proporciona um ambiente descontraído entre superiores e subalternos no local de trabalho, pois durante a mesma não se liga a postos hierárquicos. Com isso em mente, as pessoas beneficiam dum ambiente festivo e descontraído, que lhes permite para ter uma atitude mais extrovertida com os colegas e superiores do trabalho, fortalecendo assim os laços sociais no local de trabalho. A festa tem como pilares o sake, acompanhado de karaoke, e apresentações de habilidades especiais por partes dos convivas, como por exemplo números de ilusionismo ou dança. Como membros duma sociedade ultra-regulamentada, os japoneses aproveitam esta festa para descontrair do stress acumulado ao longo do ano, através de uma sensação de liberdade conseguida pelo relaxamento das regras sociais.
Outro costume é o da troca de cartões Nengajo, postais para desejar um bom ano novo a familiares, amigos e colegas estimados. Foi este costume que originou o título para este post. A tradição é enviar os cartões de desejos de um próspero Ano Novo durante o mês de Dezembro. O costume é tão intrinsecamente importante na sociedade actual japonesa que mesmo que uma pessoa coloque o cartão no correio a 1 de Dezembro, a pessoa ao qual este é destinado só o recebe a 1 de Janeiro. O que acontece é que os Serviços de Correios Japoneses acumulam os Nengajo e fazem uma massiva entrega no dia 1 do Ano Novo. De facto, o Ministério de Correios e Telecomunicações japonês (yuuseishou) edita alguns Nengajo especiais, designados pela expressão otoshidama-tsuki nenga hagaki, que possuem números para um sorteio de Lotaria. Contudo é considerado má educação enviar um desses cartões a alguém que perdeu um familiar nesse ano. Nesse caso, o costume diz que se deve contactar a pessoa antes da passagem de ano e dizer “ii otoshi wo omukae kudasai” que significa “tenha uma boa passagem de ano”. Depois do 1º de Janeiro, a frase usada deve ser “akemashite omedetou gozaimasu” (parabéns pela passagem de Ano).
Os Nengajo tem como premissa de concepção, por norma, o animal zodiacal, eto, que indique o ano presente. O eto deste ano é a Lebre, simbolizado pelo caracter 卯, e a sua direcção é o Leste. Cá em Portugal tem sido o Ano do Coelho e a direcção é para baixo direito ao inferno! Não resisti! Continuando... Existem muitos cartões diferentes à escolha, dependendo também das formas literárias de desejar uma boa passagem de ano e um feliz ano novo:
- Tsutsushinde shinnen no oyorokobi o moushiagemasu – transmito a minha alegria pela passagem de Ano;
- Shinshun no Goshukushi o Moushiagemasu – desejo-lhe um próspero Ano Novo;
- Gashou – uma saudação ao Ano Novo;
- Geishun – uma expressão que dá as boas vindas ao Ano Novo.
Outro costume impossível de falhar é a entrega ao chefe de um presentinho, chamado Oseibo, que é responsável pelo aumento de vendas nas lojas nesta altura!

Ataquemos agora os rituais do fim de ano!
Começa-se pela Oosouji, uma limpeza intensa que ascende ao nível de verdadeira purificação. Numa casa tradicional japonesa, as donas de casa livram-se dos tatamis velhos e substituem o papel dos painéis que compõem as divisórias da habitação. Até nos escritórios esta limpeza tradicional é observada e são os próprios trabalhadores a limpar os seus cubículos. Como é tradição, ninguém se queixa… pelo menos, de forma oficial ou audível!



Feita a purificação, há que afastar os espíritos malignos, pois como diz o meu sábio avô “Todo o cuidado é pouco!”. Para tal, as portas e portões são protegidos com decorações de corda feita de palha de arroz entrelaçada. Essas decorações são denominadas de shimenawa, que significa literalmente “corda que encerra”, e são usadas em rituais de purificação do sistema de crenças Shinto. Os templos xintoístas usam-nos para separar o mundo em geral dos lugares sagrados. São tidas como protecções contra espíritos malignos, sendo então frequentemente vistas em templos, lugares cerimoniais ou portões torii. Uma versão diferente das shimenawa é usada à cintura pelos yokozunas (os campeões de Sumo, imagem acima). Outro uso que têm é o de assinalar árvores tidas como sendo moradias de Kodama (espíritos malignos) e as quais é melhor não cortar, reza a crença.
(LEGENDA: A gravura vista em cima à esquerda é uma representação dum Kodama. E em baixo e à direita temos uma árvora portadora de Kodama!)



Decidi dividir este post em dois para não ficar enorme. Contudo, vou postar a sequela já de seguida.
Até já!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Shinobi - Parte 1

Como já devem ter percebido, a minha paixão pela cultura japonesa é igualada pela minha paixão por cinema. Como tal, tenho andado a magicar uma curta-metragem que tenha a ver com o Japão.
Os parâmetros para esta curta-metragem são óbvios: tem de envolver pouca gente, não pode exigir muito em termos de cenário, e tem de poder ser contada em 30 minutos ou menos! Ah sim, como infelizmente não tenho nenhum amigo japonês, as personagens japonesas da curta não podem mostrar a cara.
Pois é, adivinharam... vou mesmo ter de meter ninjas ao barulho!
A verdade é que evitei falar deles. Não por medo ou superstição. Sou ocidental e estou a léguas do Japão, além de ser tão insignificante que nenhum ninja alguma vez me poderá desejar silenciar. Apenas porque já tinha feito dois longos posts sobre samurai e, embora as duas palavras dêem nome ao blog, não queria restringir-me só a isso. Mas já dei mostras, post após post, de que consigo abordar muitos outros tópicos relacionados com o Japão e com isso ganhei o direito,perante mim mesmo, de escrever sobre os Ninjas.
Ora bem, na verdade não se sabe assim muito sobre eles. Já referenciei, no primeiríssimo post que fiz neste blog, a página da Wikipédia sobre o tópico, escrita em Português do Brasil. A página está boa, mas incompleta. Procurarei não dizer o que nesta já foi dito, mas antes completá-la, essencialmente traduzindo certas partes da sua homóloga em Inglês.
Comecemos pela etimologia (assunto que enquanto escritor também adoro e que trata a origem e significado dos nomes) das palavras ninja e shinobi, que são sinónimos!Na imagem abaixo e à esquerda, podemos ver os caracteres kanji que designam a palavra ninja, através duma leitura on’yomi (uma maneira de ler kanji influenciada pelo chinês medieval). Se a leitura for feita no estilo nativo japonês chamado kun’yomi, os mesmos caracteres lêem-se shinobi, nome que é diminutivo do nome composto shinobi-no-mono (忍の者). Ou seja, os dois sinónimos surgem de duas vias de leitura disponíveis, embora queiram dizer exactamente a mesma coisa e só haja uma maneira de escrever essa… ahum… coisa! “Shinobi” tem o significado subjacente de “fazer desaparecer” e, por extensão, de “resistir ou aguentar”, enquanto que “mono” quer dizer “uma pessoa”. Portanto a expressão indica alguém capaz de suportar/resistir e desaparecer. A palavra shinobi tem referências em textos desde o século 8 D.C. e a designação shinobi era a mais usual no Japão feudal. Contudo, a cultura do pós Segunda Guerra Mundial tornou o termo ninja mais popular, talvez pela sua facilidade de reprodução nas línguas dos ocidentais.
Existem ainda muitos termos coloquiais para designar ninjas. Por exemplo, monomi que quer dizer “aquele que vê”. É interessante, e aqui podemos talvez ver expresso linguisticamente, o carácter mágico atribuído aos ninjas. No ocidente, o termo "witch" (bruxo/a) vem do termo celta "wicce" que quer dizer "sábio" simbolicamente, mas literalmente traduz-se para "aquele que vê" ou "vidente". O termo nokizaru também foi usado para os designar e quer dizer “macaco de telhado” (saru é o termo típico de macaco em Japonês, mas refere-se a uma espécie autóctone ao Japão e portanto hoje em dia diz-se Nihonzaru [onde Nihon quer dizer japonês.] Podemos ver o bicho na imagem abaixo). Outros termos mais simples surgem como rappa (rufia), kusa (erva) e Iga-mono (pessoa de Iga). Kunoichi, que quer dizer ninja feminino, surge de se pronunciar cada um dos traços que compõem o caracter para mulher (女 = mulher divide-se em く(ku)ノ(no) 一 (ichi) ).


Historicamente, poucos relatos existem sobre ninjas, se descontarmos os contos populares. O historiador Kiyoshi Watatani disse que os ninjas treinam em segredo e fazem tudo para manter as suas artes secretas:
As técnicas do chamado Ninjutsu (…) têm o objectivo que o adversário não saiba da nossa existência, e para elas existem treinos específicos”, Turnbull, Stephen (2007), Warriors of Medieval Japan, Osprey Publishing.
Antes do século XV, os ninjas não eram mais que assassinos a soldo e ladrões. Mas no período Sengoku, durante o qual os samurais de digladiavam em campo aberto e segundo um código de honra, surgiu uma exigência da existência de homens que não se importassem se fazer guerra duma forma tida como menos honrosa. Os ninjas apareceram então como mercenários de excelência, contratados para espiar, assassinar, sabotar ou roubar o inimigo de quem lhe pagasse.
Na guerra, tiveram inúmeros papéis quer como espião (kancho), batedor (teisatsu), guerreiro de emboscada (kishu) e agitador ou criador de caos (konran). Os clãs ninjas organizaram-se em guildas, ocupando cada uma um determinado território. Tinham uma hierarquia: o jonin (o mais alto na hierarquia) representa o grupo e recebe os contratos; os chunin são os seus assistentes e estão no meio da hierarquia; o agente de campo, que recebe e executa as ordens, o final da cadeia hierárquica, tem o título de genin.
Os ninjas surgiram das regiões montanhosas e de difícil acesso em Iga (actual Perfeitura Mie) e Koga (actual Perfeitura Shiga). A inacessibilidade destes locais poderá ter tido um papel fulcral na criação do ninjutsu. É feita a distinção entre os ninjas destas duas províncias e os espiões ou mercenários contratados do povo por samurais, pois estes clãs eram devotos na criação de ninjas profissionais. E foram-no até Oda Nobunaga ter invadido Iga e destruído os clãs organizados. Alguns sobreviventes espalharam-se pelo Japão, mas outros chegaram até Tokugawa Ieyasu que os recebeu bem e os tornou seus guarda-costas pessoais. Entre eles estava o homem cujo o nome foi popularizado no filme Kill Bill: Hatori Hanzo!
Mais tarde, durante o shogunato de Tokugawa Yoshimune, este último criou um grupo especializado na recolha de informação para daymios e membros do governo, uma primeira agência de serviços secretos. O nome da agência era Grupo Oniwaban. Os seus agentes eram chamados de oniwabanshu (jardineiro, no sentido de “aquele que cuida do jardim”). Embora não haja um documento histórico que o diga, a natureza secreta do grupo leva a crer que os seus membros fossem shinobi. Eles são falados, por exemplo, numa das minhas séries de anime preferidas chamada Samurai X.
Esta ligação entre ninjas e agentes secretos leva-me ao meu filme preferido do James Bond: Só se Vive Duas Vezes.
Ora bem, porque é que este é o meu filme preferido do bom e, admitamos, velho 007?
Bem a resposta tem tanto de complexa quando de previsível. Primeiro, é um dos do Sean Connery, que para mim será sempre o melhor dos Bond. Depois, tem uma ameaça de intriga internacional em que paira no ar o terror do romper de uma guerra atómica entre a URSS e os EUA. Em seguida, passa-se no Japão e no Espaço de baixa órbita! Tem os gadjets mais fixes de toda a série, como o cigarro-pistola e a Little Nellie, aeronave que entrou para o Livro de Recordes Guiness como a aeronave mais pequena pilotada. Depois tem ninjas e duas das actrizes japonesas mais giras que já vi até hoje! Aquela mergulhadora de pérolas era adorável! -_- Para além disso, mostra um Bond conhecedor de uma cultura completamente diferente da dele, incluindo até a língua nipónica. Fala-se de coisas como a temperatura correcta para se beber sake! E tem o mauzão do gato, o vilão que sempre curti mais e o big boss da SPECTRUM (tenho saudades desses gajos!). Ainda adorei um ditado japonês usado pelo Bond quando o seu colega japonês goza com o facto de ele ter pêlos no peito (aparentemente os japoneses não os têm). O Bond diz então: "Um velho ditado japonês diz: Um pássaro nunca faz ninho numa árvore sem folhas!" Ahahaha. Brutal!



Pontos menos bons: o Blofeld mostra a cara neste filme e eu acho que a personagem é muito mais interessante quando não lhe vemos a cara; aquela operação para transformar o Sean Connery num asiático foi uma beca puxado, mas no contexto da história deixa-se passar; treinar um ninja em tão pouco tempo é impossível, mesmo para alguém que seja já de início um espião presumivelmente com vastos conhecimentos de auto-defesa.
http://www.imdb.com/title/tt0062512/

Antes de terminar, e como já devem ter percebido, vou só confirmar que este post terá continuação. O assunto é vasto. Falta falar da acção histórica dos ninjas durante a inquietação da era dos Shogunatos, o pouco que se conhece das suas artes marciais e armas, os poderes místicos que lhes foram atribuídos, e também sobre o que é feito deles hoje em dia. Além disso, falarei dum filme chamado Shinobi de origem japonesa que eu gostei bastante, doutro chamado Ninja Academy (ao género da Academia de Polícia), e de um filme de 2009 chamado Ninja Assassin. Justificarei porque acho que o Bond é um ninja-samurai. Essa entrada terá o título Shinobi - Parte 2. Esperemos que a Parte 3 venha a ser a minha curta! Despeço-me por hora, mas prometo o regresso ainda este ano! (e puff!, desapareço numa bola de fumo)
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