terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Geishun ou Gashou? - Parte 2

http://150anosportugaljapao.blogspot.com/2011/12/geishun-ou-gashou-parte-1.html



(...)



Para completar o ritual de boas vindas aos Ano Novo, deve-se colocar o kodamatsu (literalmente “pinheiro de portão”). São arranjos florais compostos por flores, cana de bambu e folhas. A tradição manda que se coloquem à porta após o Natal e são tidos como moradias temporárias para os Kami (os espíritos ancestrais da colheita). Só se devem remover após o sétimo dia do ano novo. Após o 15 de Janeiro deve-se queimar o kodamatsu, de forma a apaziguar os Kami, libertando-os.
Como é tido como atrair má sorte trabalhar nos primeiros 3 dias do ano, os japoneses preparam as suas refeições para esses 3 dias em antecedência. Os pratos tradicionais incluem o mochi (bolinho de arroz). Esta iguaria é servida de várias maneiras diferentes [como por exemplo, o Kagamimochi (literalmente “espelho bolo de arroz”), que se assemelha a um boneco de neve em forma, tendo um mochi grande como corpo e um pequeno como cabeça] e reza a tradição que se coloque o mochi num altar Shinto, o kamidana, durante a passagem de ano, e com uma laranja amarga japonesa a que chamam daidai por cima, para agradecer a Toshigami (ou Kami). Passada a Passagem do Ano, o bolo é repartido e comido. A esse acto chama-se o kagami biraki (a abertura do espelho). Contudo, esta é uma prática que acarreta alguns perigos. Ao que parece o dito bolo, passado uma noite da sua confecção fica mais viscoso e mole e já houve mesmo casos de idosos a morrer engasgados devido a isso. Há de facto equipas em ambulâncias nos hospitais de prevenção para socorrer esses casos.












Legenda: À esquerda temos um simples mochi. À direita o Kagami Mochi.



Finalmente, bem refastelados de comida e bebida, quando chega a altura da passagem de ano, deve-se dar um salto ao templo. Há muitos que passam mesmo lá a passagem de ano, para ouvirem o soar das 108 badaladas que representam os 108 pecados da crença budista, completando assim a limpeza espiritual. No templo deve-se ainda assistir ao nascer do Sol do dia de Ano Novo.
Mas o mais engraçado é que até o sono, que se segue inevitavelmente depois de uma noite de rituais e festejos, se torna parte da versão japonesa de entrar com o pé direito no ano novo. Parece que o primeiro sonho do ano determina como o ano vai ser. Um pesadelo promete desgraça nesse ano. Além disso, sonhar com beringelas, falcões ou com o monte Fuji é tido como muito bom sinal. Para garantir um bom sonho, é costume colocar uma efígie de uma besta mitológica que se alimenta de sonhos, chamada Baku.
O meu avô ia gostar dos japoneses, eles previnem-se contra tudo!
De notar que a gravura à esquerda ilustra um Baku e é do artista Katsushika Hokusai. Hoje em dia há muitas outras formas de representar o espírito em questão, já explorado em séries de anime e noutros meios.




Para finalizar aproveito para vos deixar as últimas que a Embaixada do Japão me mandou, em termos de notícias e eventos para este mês:
http://www.pt.emb-japan.go.jp/newsletter_2011/Embaixada_do_Japao_Noticias_DEZEMBRO_2011.pdf
Destes últimos, destaco o Ciclo de Cinema de Satsuo Yamamoto, que decorre até 19 de Dezembro na Cinemateca Portuguesa, em Lisboa.
http://www.cinemateca.pt/CinematecaSite/media/Documentos/dezembro.pdf
A destacar também é a versão em Português do site “O Desafio de Erin – eu entendo Japonês”.
https://www.erin.ne.jp/pt/


Deixo-vos então aos vossos respectivos preparativos de Natal e Ano Novo, com os desejos de que, contrário ao que as notícias nos dizem todos os dias, os senhores que nos (des)governam ganhem tino e nos permitam prosperar!
Feliz Natal, um Próspero Ano Novo e até breve…

Alex


P.S.: Uops! Quase me esquecia de fechar o portal! Deixa cá meter a shimenawa! :D Não vá o Diabo tecê-las!

Geishun ou Gashou? - Parte 1


Em Janeiro, deste ano fiz uma entrada no blog sobre o Natal e o Ano Novo no Japão. A verdade é que o post ficou incompleto, porque realmente há muito para falar! Por exemplo, na imagem acima vemos um templo japonês super protegido contra espíritos malignos! Uma autêntica fortaleza! (Não, não estou doido, continuem a ler :)
Como em tudo o que é costume japonês, a preparação da festa celebrativa do Ano Novo é, nada menos, que um complexo ritual!
Já agora, o período das festas de Ano Novo, a que nós simplesmente chamamos por As Festas, no Japão é chamado: Oshougatsu.
O link abaixo faz ligação ao post de Janeiro supramencionado.
http://150anosportugaljapao.blogspot.com/2011_01_01_archive.html

Antes de mergulharmos no ritual de preparação do Ano Novo Japonês, vejamos primeiro uma festa que ocorre no final do mês de Dezembro, geralmente entre amigos ou colegas de trabalho. Chama-se Bounenkai e a sua origem oriunda do período Meiji. A palavra Bounenkai tem três significados como “esquecer a velhice”, esquecer os acontecimentos do ano que está a acabar” e “esquecer a diferença de idades entre as pessoas”. Essa festa proporciona um ambiente descontraído entre superiores e subalternos no local de trabalho, pois durante a mesma não se liga a postos hierárquicos. Com isso em mente, as pessoas beneficiam dum ambiente festivo e descontraído, que lhes permite para ter uma atitude mais extrovertida com os colegas e superiores do trabalho, fortalecendo assim os laços sociais no local de trabalho. A festa tem como pilares o sake, acompanhado de karaoke, e apresentações de habilidades especiais por partes dos convivas, como por exemplo números de ilusionismo ou dança. Como membros duma sociedade ultra-regulamentada, os japoneses aproveitam esta festa para descontrair do stress acumulado ao longo do ano, através de uma sensação de liberdade conseguida pelo relaxamento das regras sociais.
Outro costume é o da troca de cartões Nengajo, postais para desejar um bom ano novo a familiares, amigos e colegas estimados. Foi este costume que originou o título para este post. A tradição é enviar os cartões de desejos de um próspero Ano Novo durante o mês de Dezembro. O costume é tão intrinsecamente importante na sociedade actual japonesa que mesmo que uma pessoa coloque o cartão no correio a 1 de Dezembro, a pessoa ao qual este é destinado só o recebe a 1 de Janeiro. O que acontece é que os Serviços de Correios Japoneses acumulam os Nengajo e fazem uma massiva entrega no dia 1 do Ano Novo. De facto, o Ministério de Correios e Telecomunicações japonês (yuuseishou) edita alguns Nengajo especiais, designados pela expressão otoshidama-tsuki nenga hagaki, que possuem números para um sorteio de Lotaria. Contudo é considerado má educação enviar um desses cartões a alguém que perdeu um familiar nesse ano. Nesse caso, o costume diz que se deve contactar a pessoa antes da passagem de ano e dizer “ii otoshi wo omukae kudasai” que significa “tenha uma boa passagem de ano”. Depois do 1º de Janeiro, a frase usada deve ser “akemashite omedetou gozaimasu” (parabéns pela passagem de Ano).
Os Nengajo tem como premissa de concepção, por norma, o animal zodiacal, eto, que indique o ano presente. O eto deste ano é a Lebre, simbolizado pelo caracter 卯, e a sua direcção é o Leste. Cá em Portugal tem sido o Ano do Coelho e a direcção é para baixo direito ao inferno! Não resisti! Continuando... Existem muitos cartões diferentes à escolha, dependendo também das formas literárias de desejar uma boa passagem de ano e um feliz ano novo:
- Tsutsushinde shinnen no oyorokobi o moushiagemasu – transmito a minha alegria pela passagem de Ano;
- Shinshun no Goshukushi o Moushiagemasu – desejo-lhe um próspero Ano Novo;
- Gashou – uma saudação ao Ano Novo;
- Geishun – uma expressão que dá as boas vindas ao Ano Novo.
Outro costume impossível de falhar é a entrega ao chefe de um presentinho, chamado Oseibo, que é responsável pelo aumento de vendas nas lojas nesta altura!

Ataquemos agora os rituais do fim de ano!
Começa-se pela Oosouji, uma limpeza intensa que ascende ao nível de verdadeira purificação. Numa casa tradicional japonesa, as donas de casa livram-se dos tatamis velhos e substituem o papel dos painéis que compõem as divisórias da habitação. Até nos escritórios esta limpeza tradicional é observada e são os próprios trabalhadores a limpar os seus cubículos. Como é tradição, ninguém se queixa… pelo menos, de forma oficial ou audível!



Feita a purificação, há que afastar os espíritos malignos, pois como diz o meu sábio avô “Todo o cuidado é pouco!”. Para tal, as portas e portões são protegidos com decorações de corda feita de palha de arroz entrelaçada. Essas decorações são denominadas de shimenawa, que significa literalmente “corda que encerra”, e são usadas em rituais de purificação do sistema de crenças Shinto. Os templos xintoístas usam-nos para separar o mundo em geral dos lugares sagrados. São tidas como protecções contra espíritos malignos, sendo então frequentemente vistas em templos, lugares cerimoniais ou portões torii. Uma versão diferente das shimenawa é usada à cintura pelos yokozunas (os campeões de Sumo, imagem acima). Outro uso que têm é o de assinalar árvores tidas como sendo moradias de Kodama (espíritos malignos) e as quais é melhor não cortar, reza a crença.
(LEGENDA: A gravura vista em cima à esquerda é uma representação dum Kodama. E em baixo e à direita temos uma árvora portadora de Kodama!)



Decidi dividir este post em dois para não ficar enorme. Contudo, vou postar a sequela já de seguida.
Até já!

sábado, 10 de dezembro de 2011

Shinobi - Parte 1

Como já devem ter percebido, a minha paixão pela cultura japonesa é igualada pela minha paixão por cinema. Como tal, tenho andado a magicar uma curta-metragem que tenha a ver com o Japão.
Os parâmetros para esta curta-metragem são óbvios: tem de envolver pouca gente, não pode exigir muito em termos de cenário, e tem de poder ser contada em 30 minutos ou menos! Ah sim, como infelizmente não tenho nenhum amigo japonês, as personagens japonesas da curta não podem mostrar a cara.
Pois é, adivinharam... vou mesmo ter de meter ninjas ao barulho!
A verdade é que evitei falar deles. Não por medo ou superstição. Sou ocidental e estou a léguas do Japão, além de ser tão insignificante que nenhum ninja alguma vez me poderá desejar silenciar. Apenas porque já tinha feito dois longos posts sobre samurai e, embora as duas palavras dêem nome ao blog, não queria restringir-me só a isso. Mas já dei mostras, post após post, de que consigo abordar muitos outros tópicos relacionados com o Japão e com isso ganhei o direito,perante mim mesmo, de escrever sobre os Ninjas.
Ora bem, na verdade não se sabe assim muito sobre eles. Já referenciei, no primeiríssimo post que fiz neste blog, a página da Wikipédia sobre o tópico, escrita em Português do Brasil. A página está boa, mas incompleta. Procurarei não dizer o que nesta já foi dito, mas antes completá-la, essencialmente traduzindo certas partes da sua homóloga em Inglês.
Comecemos pela etimologia (assunto que enquanto escritor também adoro e que trata a origem e significado dos nomes) das palavras ninja e shinobi, que são sinónimos!Na imagem abaixo e à esquerda, podemos ver os caracteres kanji que designam a palavra ninja, através duma leitura on’yomi (uma maneira de ler kanji influenciada pelo chinês medieval). Se a leitura for feita no estilo nativo japonês chamado kun’yomi, os mesmos caracteres lêem-se shinobi, nome que é diminutivo do nome composto shinobi-no-mono (忍の者). Ou seja, os dois sinónimos surgem de duas vias de leitura disponíveis, embora queiram dizer exactamente a mesma coisa e só haja uma maneira de escrever essa… ahum… coisa! “Shinobi” tem o significado subjacente de “fazer desaparecer” e, por extensão, de “resistir ou aguentar”, enquanto que “mono” quer dizer “uma pessoa”. Portanto a expressão indica alguém capaz de suportar/resistir e desaparecer. A palavra shinobi tem referências em textos desde o século 8 D.C. e a designação shinobi era a mais usual no Japão feudal. Contudo, a cultura do pós Segunda Guerra Mundial tornou o termo ninja mais popular, talvez pela sua facilidade de reprodução nas línguas dos ocidentais.
Existem ainda muitos termos coloquiais para designar ninjas. Por exemplo, monomi que quer dizer “aquele que vê”. É interessante, e aqui podemos talvez ver expresso linguisticamente, o carácter mágico atribuído aos ninjas. No ocidente, o termo "witch" (bruxo/a) vem do termo celta "wicce" que quer dizer "sábio" simbolicamente, mas literalmente traduz-se para "aquele que vê" ou "vidente". O termo nokizaru também foi usado para os designar e quer dizer “macaco de telhado” (saru é o termo típico de macaco em Japonês, mas refere-se a uma espécie autóctone ao Japão e portanto hoje em dia diz-se Nihonzaru [onde Nihon quer dizer japonês.] Podemos ver o bicho na imagem abaixo). Outros termos mais simples surgem como rappa (rufia), kusa (erva) e Iga-mono (pessoa de Iga). Kunoichi, que quer dizer ninja feminino, surge de se pronunciar cada um dos traços que compõem o caracter para mulher (女 = mulher divide-se em く(ku)ノ(no) 一 (ichi) ).


Historicamente, poucos relatos existem sobre ninjas, se descontarmos os contos populares. O historiador Kiyoshi Watatani disse que os ninjas treinam em segredo e fazem tudo para manter as suas artes secretas:
As técnicas do chamado Ninjutsu (…) têm o objectivo que o adversário não saiba da nossa existência, e para elas existem treinos específicos”, Turnbull, Stephen (2007), Warriors of Medieval Japan, Osprey Publishing.
Antes do século XV, os ninjas não eram mais que assassinos a soldo e ladrões. Mas no período Sengoku, durante o qual os samurais de digladiavam em campo aberto e segundo um código de honra, surgiu uma exigência da existência de homens que não se importassem se fazer guerra duma forma tida como menos honrosa. Os ninjas apareceram então como mercenários de excelência, contratados para espiar, assassinar, sabotar ou roubar o inimigo de quem lhe pagasse.
Na guerra, tiveram inúmeros papéis quer como espião (kancho), batedor (teisatsu), guerreiro de emboscada (kishu) e agitador ou criador de caos (konran). Os clãs ninjas organizaram-se em guildas, ocupando cada uma um determinado território. Tinham uma hierarquia: o jonin (o mais alto na hierarquia) representa o grupo e recebe os contratos; os chunin são os seus assistentes e estão no meio da hierarquia; o agente de campo, que recebe e executa as ordens, o final da cadeia hierárquica, tem o título de genin.
Os ninjas surgiram das regiões montanhosas e de difícil acesso em Iga (actual Perfeitura Mie) e Koga (actual Perfeitura Shiga). A inacessibilidade destes locais poderá ter tido um papel fulcral na criação do ninjutsu. É feita a distinção entre os ninjas destas duas províncias e os espiões ou mercenários contratados do povo por samurais, pois estes clãs eram devotos na criação de ninjas profissionais. E foram-no até Oda Nobunaga ter invadido Iga e destruído os clãs organizados. Alguns sobreviventes espalharam-se pelo Japão, mas outros chegaram até Tokugawa Ieyasu que os recebeu bem e os tornou seus guarda-costas pessoais. Entre eles estava o homem cujo o nome foi popularizado no filme Kill Bill: Hatori Hanzo!
Mais tarde, durante o shogunato de Tokugawa Yoshimune, este último criou um grupo especializado na recolha de informação para daymios e membros do governo, uma primeira agência de serviços secretos. O nome da agência era Grupo Oniwaban. Os seus agentes eram chamados de oniwabanshu (jardineiro, no sentido de “aquele que cuida do jardim”). Embora não haja um documento histórico que o diga, a natureza secreta do grupo leva a crer que os seus membros fossem shinobi. Eles são falados, por exemplo, numa das minhas séries de anime preferidas chamada Samurai X.
Esta ligação entre ninjas e agentes secretos leva-me ao meu filme preferido do James Bond: Só se Vive Duas Vezes.
Ora bem, porque é que este é o meu filme preferido do bom e, admitamos, velho 007?
Bem a resposta tem tanto de complexa quando de previsível. Primeiro, é um dos do Sean Connery, que para mim será sempre o melhor dos Bond. Depois, tem uma ameaça de intriga internacional em que paira no ar o terror do romper de uma guerra atómica entre a URSS e os EUA. Em seguida, passa-se no Japão e no Espaço de baixa órbita! Tem os gadjets mais fixes de toda a série, como o cigarro-pistola e a Little Nellie, aeronave que entrou para o Livro de Recordes Guiness como a aeronave mais pequena pilotada. Depois tem ninjas e duas das actrizes japonesas mais giras que já vi até hoje! Aquela mergulhadora de pérolas era adorável! -_- Para além disso, mostra um Bond conhecedor de uma cultura completamente diferente da dele, incluindo até a língua nipónica. Fala-se de coisas como a temperatura correcta para se beber sake! E tem o mauzão do gato, o vilão que sempre curti mais e o big boss da SPECTRUM (tenho saudades desses gajos!). Ainda adorei um ditado japonês usado pelo Bond quando o seu colega japonês goza com o facto de ele ter pêlos no peito (aparentemente os japoneses não os têm). O Bond diz então: "Um velho ditado japonês diz: Um pássaro nunca faz ninho numa árvore sem folhas!" Ahahaha. Brutal!



Pontos menos bons: o Blofeld mostra a cara neste filme e eu acho que a personagem é muito mais interessante quando não lhe vemos a cara; aquela operação para transformar o Sean Connery num asiático foi uma beca puxado, mas no contexto da história deixa-se passar; treinar um ninja em tão pouco tempo é impossível, mesmo para alguém que seja já de início um espião presumivelmente com vastos conhecimentos de auto-defesa.
http://www.imdb.com/title/tt0062512/

Antes de terminar, e como já devem ter percebido, vou só confirmar que este post terá continuação. O assunto é vasto. Falta falar da acção histórica dos ninjas durante a inquietação da era dos Shogunatos, o pouco que se conhece das suas artes marciais e armas, os poderes místicos que lhes foram atribuídos, e também sobre o que é feito deles hoje em dia. Além disso, falarei dum filme chamado Shinobi de origem japonesa que eu gostei bastante, doutro chamado Ninja Academy (ao género da Academia de Polícia), e de um filme de 2009 chamado Ninja Assassin. Justificarei porque acho que o Bond é um ninja-samurai. Essa entrada terá o título Shinobi - Parte 2. Esperemos que a Parte 3 venha a ser a minha curta! Despeço-me por hora, mas prometo o regresso ainda este ano! (e puff!, desapareço numa bola de fumo)
`_´

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Hibakusha II - O Rei dos Daikaiju!

Esta entrada segue na esteira de uma outra que fiz em 2010, de seu título Hibakusha (aqui linkado), sobre os sobreviventes das bombas nucleares, daí o título deste post e já perceberão a relação.
Kaiju é uma palavra japonesa que é correctamente traduzida para "estranha besta", mas que normalmente é tida como sinónimo de "monstro". Um Daikaiju é uma variante dessa palavra que indica "monstro gigante". Se ainda não perceberam de quem falo, dou-vos uma pista visual, pois uma imagem vale mil palavras:







Então... já lá chegaram? Quem poderia fazer tamanha pegada? Nunca houve, pelo menos que se saiba, um dinossauro com tais dimensões. Então quem? Só pode ser o Godzilla!
O seu nome original, japonês, é Gojira. E tal foi até mencionado no guião do filme Godzilla feito nos EUA. O nome Gojira provém da combinação de duas palavras japonesas: gorira (sinónimo de "gorila") e kujira ("baleia" em japonês). Tal aconteceu porque aquando da sua criação, o daijuku foi descrito como o cruzamento entre um gorila e uma baleia, dando a entender a sua imensa força e tamanho, a sua postura mais ou menos humanóide (se não contarmos a cauda), mas também a sua origem e natureza marinhas. Existe um rumor popular de que a ideia para o monstro em questão proveio de um escritorário da Toho que era maldosamente apelidado de Gojira pelos colegas. Até agora, esta mítica história de origem nunca foi confirmada, particularmente, porque nenhum antigo funcionário da empresa se assumiu como "o tal". Eh eh eh!

O produto acabado é o que se pode ver abaixo:



Mas que tem o Godzilla a ver com os Hibakusha? Bem, tudo. Ele próprio é um Hibakusha, pois originalmente o monstro é criado pela radiação deixada por bombas atómicas. Historicamente, a inspiração para a conceptualização da criatura foi precisamente o ataque nuclear que o Japão sofreu às mãos dos EUA, no final da Segunda Guerra Mundial. Inicialmente o monstro é o vilão, ameançando Tóquio, constituindo uma metáfora cinematográfica para armas nucleares em geral. É verdade que a sua origem varia de filme para filme, mas a constante é o seu tamanho e poderes serem sempre resultado de mutação por radiação nuclear. Parece que originalmente, o Godzilla foi apresentado como um ser pré-histórico que seria o elo de ligação entre as criaturas marinhas e as criaturas terrestres (relembro que o filme surgiu em 1954, na mesma época em que Orson Wells fez muita gente nos EUA acreditar que uma invasão marciana estava a decorrer com uma mera emissão radiofónica), que teria atingido aquelas dimensões e poderes pela mutação causada pelas bombas atómicas largadas no fim da guerra.
O Godzilla tem diversos poderes, que variam de filme para filme, sendo a constante a sua completa adpatabilidade quer em terra, quer na água. Também o seu tamanho e força nunca diferem. Nos filmes japoneses da Companhia Toho, o Godzilla possui também uma capacidade de auto-cura muito rápida (tipo Wolverine) e é capaz de disparar raios nucleares da sua boca. Nos 28 filmes produzidos pela Toho, ele tem variadíssimos outros poderes e capacidades que por vezes são fulcrais na história do filme. Surgem até alturas, em que o rei dos monstros gigantes usa artes marciais para derrotar os concorrentes ao título.



Nota: Gostei da imagem acima, particularmente pelo carácter japonês que tem. Dois monstros gigantes a combaterem espezinhando um castelo medieval japonês! Belo cenário!


Desses concorrentes, o meu favorito é o mostrado na imagem mostrada acima. Rei Guidorah, prós amigos portugueses. O filme que eu vi é de 1991(embora existam mais antigos), portanto a cores, e chama-se "Godzilla Vs King Guidorah":
http://en.wikipedia.org/wiki/Godzilla_vs._King_Ghidorah
http://www.imdb.com/title/tt0101962/


Eu nunca vi os filmes originais, a preto e branco, mas uma vez diverti-me muito numa das antigas semanas temáticas de cinema da RTP2, que deu um filme do Godzilla diferente todos dias dessa semana. Este que menciono acima foi o que mais gostei e o qual mais me lembro em termos de enredo.
Com isto chegamos à nova encarnação do bicho, a versão americanizada, if you will. Em vez de ser um homem num facto de borracha é feita com CGI, na minha opinião até bastante bem feita. Mas há quem argumente que o Godzilla Norte-Americano não é o Godzilla. O filme foi muito mal recebido pelos fã(nático)s do Godzilla original e mesmo pelos críticos, mas limpou nas bilheteiras e ainda originou um série de desenhos animados que eu até curtia ver, mesmo já no liceu. A Toho contudo reclassificou o Godzilla Americano como Zilla, pois declarou-o não merecedor do nome God (deus) no seu nome. Até são capazes de ter razão, afinal ele morreu e o Godzilla nunca morre, e ele não tem superpoderes atómicos como o original. O Zilla não é Godzilla.

Logo, quando a Toho depois fez o filme "Godzilla: Final Wars", meteram o Zilla lá no meio e claro foi derrotado pelo original. Rumores não confirmados dizem que a Toho considera no entanto o Godzilla Jr da série de desenhos animados digno de ser um dos filhos do Godzilla, uma vez que até tinha o raio nuclear como o pai. Parece que a Legendary Pictures comprou os direitos da personagem e está em vias de fazer um novo filme hollywoodesco do Godzilla... a ver vamos. Mas hey, o segundo Hulk foi bem melhor que o primeiro.


O Godzilla, originalmente visto como uma força destrutiva e descontrolada, reminiscente da guerra nuclear, tornou-se num protector do Japão com o avançar dos tempos. Mas na versão americana voltou a ser um lembrança do que a poluição de lixo atómico e de testes nucleares podem alterar em demasia o nosso mundo e colocar a nossa existência em risco. Era essa a sua inspiração inicial e, talvez por consequência, a sua missão.
O rei dos monstros do cinema, figurou em vários filmes, quer como vilão, quer como herói, ao longo dos anos. Também figurou em brinquedos, jogos de computador, e até anúncios de TV. Felizmente, o monstro-rei e os seus companheiros e inimigos enormes, só existem nos filmes. Assim, o Godzilla, como estrela de cinema muito bem sucedida e internacional que é, teve direito a uma estrela no Passeio da Fama, em Hollywood:

Os filmes são supostos ser divertidos ou suscitadores de emoções fortes, afinal o cinema é uma indústria de entertenimento. Mas os bons filmes, aqueles que perduram e são recordados, contêm uma mensagem velada, conscienciosa, para muitos invisível, nas entrelinhas dos seus diálogos e das milhentas palavras contadas pelas imagens que os compõem. Este Rei dos Daikaiju é um símbolo violento e monstruoso que surge como crítica e aviso para o futuro contra mais uso de capacidades nucleares na guerra, mas também recorda que a radiação que produzimos bem como a poluição por ela gerada tem de ser tratada e minimizada, ou podemos um dia ser destruídos pelos monstros tecnológicos que criamos.

Considerem-se avisados...

domingo, 20 de novembro de 2011

Humor

LOL :




Um pedaço de filme que nunca foi projectado num cinema como bem merecia:



Um video do Jim Carey a gozar com o Karate:
http://www.youtube.com/watch?v=T2u1GKJ3csE&feature=related


Vão ao google tradutor e ponham lá isto:
ノーッサ ノーッサ アッシン ボッセ メ マーッタ! アーイセエーウテーペゴ!アーイ,アーイセエーウテーペゴ
a seguir ponham para traduzir de Inglês para Japonês (Siim, de inglês para Japonês) e ouçam a tradução... é de morrer a rir!

Signing off... 4 now!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Automatismo no Japão Medieval - Karakuri Ningyo

Autómato, em termos técnicos, indica um engenho que consegue realizar determinada tarefa de forma independente, uma vez accionado. Exemplo: os UAV norte-americano usados para fazer vigilância remota. São accionados e através da instrumentação que possuem vão do ponto A ao ponto B e retornam a A, conseguindo informação através de câmaras e sensores, que reenviam para a base por telemetria. Se houver alguém a controlá-los remotamente, como no caso de um avião telecomandado, já não são considerados autómatos. Nesse caso, não possuem autonomia na execução da sua tarefa, pois necessitam de um humano a controlá-los.
Karakuri é uma palavra japonesa de duplo significado. Pode querer dizer “mecanismo” ou “truque”. Ningyo por sua vez é escrito pela composição de dois caracteres, uma para “pessoa” e outro para “forma”. Literalmente obtemos uma composição, que pode bem servir a definição para autómato humanóide: um mecanismo com a forma de uma pessoa. Não literalmente, este nome composto pode simplesmente ser traduzido para boneco, fantoche ou efígie.
São engenhos capazes de desenvolver uma actividade específica e pré-programada na sua estrutura, apenas utilizando mecânica pura, podendo a sua locomoção ser gerada através de areia, molas ou mercúrio.
Remontam ao período Edo (de 1603 a 1867) na História do Japão, e eram usados para recriar mitos e lendas ou encenações de momentos históricos, tendo dessa forma influenciado as mais tradicionais formas de teatro japonês: Noh, Kabuki e Bunraku.
Mas não foi apenas no teatro que estes antepassados dos robots se imiscuíram. Os butai karakuri (ou karakuri de palco) eram utilizados nos teatros. Mas haviam também os zashiki karakuri (ou karakuri de tatami caseiro), de pequeno porte, para serem utilizados em casa. E ainda os dashi karakuri (karakuri tipo carros alegóricos), que eram usados em festivais religiosos e encenações de mitos e lendas tradicionais.
Poucos destes autómatos sobrevivem hoje em dia e a arte em si era mantida secreta, passada de artesão mestre para o seu púpilo, numa cadeia frágil que conseguiu ainda assim trazer esse conhecimento até aos dias de hoje.
Acima vemos exemplos mais comuns de zashiki karakuri, sendo neste caso um servidor de chá, que ganha “vida” quando lhe é colocada nas mãos uma chávena. O mecanismo avança em linha recta, movendo os pés para simular o andar humano, e baixa a cabeça em vénia ao avançar. Isso indica ao convidado que o chá é para beber e, quando este remove a chávena das mãos do boneco, o karakuri pára. Quando a chávena é recolocada nas mãos do fantoche mecanizado, este reergue a cabeça, dá meia volta e retorna para de onde veio. Tipicamente é potenciado por molas feitas de osso de baleia e as suas acções são programadas pela acção de alavancas e rodas dentadas. Este tipo de karakuri era utilizado especificamente quando o anfitrião desejava divertir os seus convidados durante o chá.

Façamos agora uma pequena comparação com o resto do mundo, apenas aproveitando esta oportunidade para percebermos há quanto tempo o homem anda a tentar recriar-se a si mesmo e a vida em geral de forma autónoma.
O caso mais famoso e ao mesmo tempo mais antigo de autómatos no mundo Ocidental, pertence a Heron de Alexandria, um engenheiro da Antiguidade que fez diversos autómatos (entre muitas outras coisas, como por exemplo “O princípio do caminho mais curto da luz” e uma método iterativo para se calcular raízes quadradas), alguns deles para fins religiosos, utilizados em templos para deixar os fiéis sem fôlego ao entrarem no templo. Heron viveu no século I D.C., criou variadíssimos autómatos como, por exemplo, a Aeolípile, em que uma câmara circular é colocada em movimento pelo uso de água vaporizada e condutas que encaminham esse vapor para a câmara circular de onde depois ele sai por outras condutas que fazem a câmara rodar num eixo. Os variados trabalhos de Heron foram traduzidos para latim no século dezasseis, tendo até então sido mantidos por monges copistas. No renascimento, os seus trabalhos foram recriados e tornaram-se a base para outros autómatos movidos a vapor.
Mas há relatos não confirmados, nomeadamente por Pindar, um historiador grego do século V A.C., que descreve Rodes da seguinte forma na sua sétima Ode Olímpica:
“Lá estão as figuras animadas/ Adornando todas as ruas públicas/ E parecem respirar em pedra, ou / mexerem os seus pés de mármore.” (tradução minha do inglês que está na wikipédia.)
Mas também o Médio Oriente tem relatos históricos antiquíssimos sobre autómatos, envolvendo aquele que foi provavelmente o maior engenheiro e místico do seu tempo, Salomão. É contado que ele criara um trono no seu templo (cuja arquitectura é ainda hoje venerada pelos mestres maçónicos) adornado com animais mecânicos que o anunciavam como rei quando ele a este ascendia. É ainda dito que quando ele se sentava no trono, uma águia colocava-lhe uma coroa na cabeça e uma pomba entregava-lhe um pergaminho do Torah.
Da China antiga, surge também um relato interessante no texto Lie Zi, escrito no século III A.C. Nesse texto, há uma descrição de um acontecimento muito mais antigo, um encontro entre o rei Mu de Zhou (1023 – 957 A.C.) com um engenheiro conhecido como Yan Chi. Este último apresentou ao rei um autómato humanóide de tamanho real que criara. O rei ficou espantado quando viu a figura andar em passadas longas e decidas, e quando o engenheiro lhe tocou no queixo, ele começou a cantar em perfeito tom e ritmo. Ao se aproximar o desfecho da canção, o autómato terá piscado o olho, flirtando com as mulheres presentes, o que deixou o rei ofendido e desejando a cabeça do engenheiro. Este então, temendo pela vida, desfez o autómato e mostrou ao rei que era feito de cola, madeira e couro. O rei observou que todos os órgãos estavam representados no autómato e que quando se lhe removia um o mecanismo perdia capacidades: exemplo, removendo o coração, ele não mais cantava. O rei terá ficado maravilhado.
Em tempos medievais, em que o império Árabe era um poço de conhecimentos científicos que meteriam os seus homónimos europeus da época a um canto, Bagdade era conhecida pelas estátuas que adornavam as suas muralhas e torres e que se moviam com o vento, em meados do século VIII, D.C. É relatado ainda que em 827 o califa Al Ma’mum tinha no seu palácio uma árvore em ouro e prata que ganhava vida e de onde surgiam pássaros cantantes feitos de metal.
No Renascimento, com a publicação dos trabalhos de Heron, o automatismo regressou em força. Até Da Vinci projectou um de cujos desenhos só foram reencontrados nos anos 50 do séc. XX. O autómato seria capaz de mexer a cabeça, os braços e sentar-se com postura perfeita.
Muitos autómatos foram também usados para embelezar as fontes e jardins dos palácios europeus nessa época.
Para mais detalhes sugiro a página da wikipédia sobre o tópico que tristemente não existe traduzida para português:
http://en.wikipedia.org/wiki/Automaton

Este tópico surgiu devido ao facto de estar agendada para a próxima terça-feira, 22 de Novembro, às 18h, no Museu do Oriente, em Lisboa, uma palestra sobre os Karakuri, dada pelo mestre “HARUMITSU Hanya, que nasceu em 1942 e dirige a oficina de Restauro de Bonecos Mecânicos Karakuri, onde se restauram e fabricam bonecos autómatos utilizando as técnicas antigas. Na sua conferência, o mestre mostrará e explicará o funcionamento de três exemplares de bonecos: o boneco que serve chá, o boneco acrobata e o boneco mágico. Uma oportunidade de descobrir um dos aspectos mais desconhecidos da tradição japonesa que une passado e futuro da alta tecnologia do país do sol nascente.”
(esta informação chegou-me por mail pela Embaixada do Japão em Portugal e o texto acima citado está no site do museu do Oriente:

http://www.museudooriente.pt/1335/bonecos-karakuri.htm )
Aproveitem pois a ENTRADA É LIVRE (pendente a lotação da sala) e é uma palestra muito interessante quer para quem nutre um gosto pela cultura japonesa, quer para quem simplesmente goste de robótica.

Se não conhecem, podem igualmente aproveitar o fim de semana para ver o filme Blade Runner, com Harrison Ford no principal papel e Ridley Scott como realizador, que trata precisamente o tópico do que acontece quando os seres humanos criarem autómatos completamente conscientes e vivos, embora artificiais. Escolhi este filme não só por ter a ver com o tópico mas também por ser visualmente espectacular e por na Los Angeles que é mostrada no filme e que seria o futuro dessa cidade, se falar um dialecto que mistura japonês com outras línguas.
http://www.imdb.com/title/tt0083658/

NOTA: Não, não existe uma versão anime deste filme, isto é arte de fã que encontrei online e que aqui dou destaque pelo belíssimo trabalho. Contudo, Ridley Scott já disse que depois de acabar o filme Prometheus que é uma prequela não directa do filme Alien, irá fazer um filme dentro do universo do Blade Runner embora sem conexão aos acontecimentos do filme em si. Talvez daí venha a surgir uma série de anime.

Sayonara e bom fim de semana, com chuva e relâmpagos, mesmo bom para estar em casa e escrever... -_´ eheheheh

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Anime - Como remakes deveriam ser feitos...

Para fazer um breve interregno no tópico do Karate (para mim obviamente fascinante e interminável, e o qual sem dúvida voltarei a abordar aqui no blog), e motivado por ter visto ontem um filme de anime que ainda não conhecia, vou hoje abordar o Anime.
É um sub-género de cinema e mais que isso é uma sub-cultura. O que inicialmente me atraiu no Anime foi a sua potencialidade e aptidão para tocar na ficção científica e no sobrenatural, sendo que descobri este tipo de cinema ao mesmo tempo que deixei de ler bd (que ainda hoje me faz as delícias) e comecei a ler livros de Sci Fi, particularmente da massiva colecção de livros de bolso do meu pai. Subsequentemente e graças à originalmente gloriosa Sic Radical, descobri todas as outras avenidas do Anime, como a veia mais cómica que sinceramente não me diz muito porque não acho grande piada ao estilo de humor utilizado, ou a veia pornográfica do sub-sub-género do Hentai (essa sim por vezes espectacularmente cómica:).
O filme que vi e que motivou esta entrada chama-se Demon City (Makaitoshi Shinjuku). O título em versão inglesa lembrou-me imediatamente de um outro filme que já vi repetidamente e adorei chamado Wicked City (Yôjû toshi), o qual já tinha reparado partilha o esqueleto do enredo com o clássico da animação japonesa intitulado Ninja Scroll (Jûbê ninpûchô). Quando digo que partilha o esqueleto do enredo refiro-me a que ambas as histórias tratam as aventuras de um velho com uma agenda muito própria, uma rapariga corajosa (mais ou menos poderosa conforme o filme) e um homem que será o objecto de amor dessa mulher corajosa e quem no final terá de derrotar o chefe dos demónios que os três defrontam para atingir os seus diversos objectivos. Ora, não me espantou nada que o Demon City também tivesse esta estrutura básica. Mas o mais engraçado é que embora a planta destes três filmes seja a mesma, as variadas nuances fazem com que valha a pena ver todos os três. No resto do post vou referir-me aos filmes por 1º,2º e 3º, quando tal acontece em geral é devido à ordem cronológica: o Wicked City (1987) foi o primeiro; o Demon City (1988) veio depois; e o Ninja Scroll (1993) foi o último a estreiar.


O Demon City é sem dúvida o mais meloso, mais próprio para uma audiência juvenil, embora haja um gore versão light. Mas a rapariga é nova e ingénua, não tem qualquer poder supra-humano, e não há qualquer cena erótica ou sexual no filme, embora haja uma cena à James Bond com uma personagem que não faz parte do esqueleto partilhado dos filmes e que nem cheguei a perceber exactamente o seu papel. Mas chama-se Mefisto (um nome de demónio que também é usado por uma personagem do universo Marvel), é um gajo todo estiloso que faz lembrar o vampiro Alucard da série de anime Helsing (que na minha opinião foi mal escrita, embora eu tenha gostado muito do seu universo. Mal escrita porque deixou demasiado por explicar. Por exemplo, como é que o pai da Helsing conseguira vincular o Alucard à sua vontade, sendo o Alucard tão poderoso). Há também outra personagem que é um puto de rua que até é interessante. É um sobrevivente e isso chega para me fazer gostar dele. Julgo que estas duas personagens surgem para mitigar a aparente falta de confiança e de vivência do casal principal. http://www.imdb.com/title/tt0094995/



No Wicked City, acontece exactamente o contrário. O filme abre logo com uma cena em que o herói é engatado por uma gaja num bar e corta para uma cena de sexo abertamente erótica. E esse erotismo ecoa o filme todo em variadíssimas outras cenas. De facto, o velho mestre neste filme faz-se passar por um velho tarado e indefeso durante todo o filme. Mas existe uma razão para tal que só é dada quando no fim se percebe as diversas agendas de todos os envolvidos. O herói neste filme não carrega uma katana, mas tem antes um poderoso e futurista revólver, e é mais próximo de um James Bond cruzado com Dirty Harry (por causa da Magnum 44) do que com um samurai. (Se bem que seria fácil comparar o Bond a um samurai... mas isso fica para outro dia.) Mas é uma personagem que pretende ser cínica e nada romântica, o típico engatatão que nunca se apaixona, até a Maki lhe quebrar o gelo em torno do coração. Contudo a heroína do filme é a versão demoníaca do próprio herói e como tal tem bastante mais poder que ele, mero humano. Uma nuance engraçada face aos outros dois filmes é que o herói é logo avisado (por várias personagens que o conhecem e sabem da sua veia Don Juan) que não deve ter nada com ela sexualmente, até porque corre o rumor que se um homem mortal copula com uma demónio, ou morre de seguida ou fica para sempre com disfunção eréctil. Mas o sexo não é desnecessário nem gratuito neste filme e no final entendem porquê. http://www.imdb.com/title/tt0098692/


Já no Ninja Scroll temos um belo equilíbrio. Existe algum erotismo, mas não tão carregado como no Wicked City, o herói e a personagem feminina começam por ser como um cão e um gato, mas acabam por se apaixonar, mas neste caso e muito cedo no filme sabemos que a jovem Kagero tem um poder deveras estranho e que é uma maldição mais que uma benece. Ela é venenosa, um mero beijo dela mata um ser humano normal, o que os impede de consumarem o amor deles sexualmente. Já o Jubei é um ninja a soldo, sem lealdade a ninguém excepto a si mesmo, característica que partilha com o herói do Demon City além da arma de ambos ser uma espada (respectivamente, uma de bambu e outra de bom aço nipónico). Contudo, o Jubei é um homem feito, seguro das suas capacidades e que, como o Renzaburo Taki, procura apresentar-se como cínico e insensível. Ainda que o Taki fosse um Black Guard e devesse lealdades e o Jubei não. Portanto, o Jubei é um misto dos dois heróis que o precederam. Assim como se calhar a Kagero também é um misto da ingénua Sayaka (Demon City) com a sabida mas amorosa Maki (Wicked City). http://www.imdb.com/title/tt0107692/

Em todos estes filmes, o velho é pouco mais que um manipulador e/ou observador dos acontecimentos, embora seja o jogador de xadrez num dos lados do tabuleiro. A verdade é que gostei de todos estes filmes e acho que cada nova reencarnação desta mesma história consegue ser um bom recontar da mesma e sempre acrescentar uma nuance que a torna completamente diferente, sem que perca a empatia das personagens, mantendo ainda assim a mesma estrutura facilmente reconhecida de um trio (um casal e um velho sábio) que defronta uma série de demónios para manter um período de paz na Terra. Holywood deveria estudar estes filmes para aprender como se fazem remakes bem feitos. Se bem que gosto mais das personagens no Wiked City e no Ninja Scroll, ou seja primeiro e último da série, do que no Demon City, mas apenas porque as deste último são em geral mais novas e ingénuas, enquanto que as dos outros dois são bem mais cínicas e quebradas pela vida. Por outro lado, é isso que torna esse filme diferente dos outros dois.
Sendo eu como sou, fui pesquisar no IMDb e descobri que o escritor Hideyuki Kikuchi é responsável pelas histórias tanto de Wicked City como da Demon City, e já agora foi também este senhor que criou a história do Vampire Hunter D, que eu também gosto muito. Já o realizador/escritor Yoshiaki Kawajiri ajudou a criar as personagens dos 3 filmes e realizou o Wiked City e o Ninja Scroll. Logo, as coisas não acontecem por acidente. Quanto ao Ninja Scroll já há algum tempo que se ouvem zum-zuns na net sobre fazerem uma versão live action. Pelos vistos o IMDb confirma que tal irá acontecer, embora ainda esteja em fase embrionária e sem data de estreia: http://www.imdb.com/title/tt1314656/
Outro desenvolvimento interessante, que descobri apenas quando andava à procura de imagens para este post no google, é que aparentemente vai haver um filme Live Action do Wicked City. Eu não gosto muito quando fazem estas transições, mas verdade seja dita a versão Live Action em 3 filmes da série Death Note tá brutal, pelo que vou ver o filme assim que possa e possivelmente digo-vos o meu veredicto daqui a uns tempos.







Sayonara `_´