terça-feira, 2 de agosto de 2011

13 Assassinos

Na minha última entrada, fiz menção a um filme japonês em que o famigerado realizador Quentin Tarantino fez um cameo. E na primeira entrada deste blog disse que iria, eventualmente, falar de filmes japoneses e fazer críticas (esperançosamente construtivas) aos mesmos. Hoje estreio-me nessas andanças.
O filme em questão é muito recente e chama-se “Jûsan-nin no shikaku”, sendo que no Ocidente ficou conhecido pelo título 13 Assassinos. É em suma um filme de samurais, mais precisamente, do final da era dos Samurais. A sinopse no site Internet Movie Database (IMDb) diz apenas que “Um grupo de assassinos reúne-se, numa missão suicida, para matar um malvado senhor feudal”, e sobre a história em si eu próprio não irei revelar mais, preferindo focar-me noutros aspectos mais técnicos.
Em termos de enredo, este filme é bastante minimalista e ainda bem, uma vez que é um filme talvez um pouco longo demais e se tentasse ser demasiado complexo cansaria a sua audiência facilmente. O filme tem cerca de 2 horas e 20 minutos no total, sendo que a última hora de filme é a tão esperada, épica e massiva cena de batalha.
Como bom português que sou, vi este filme legendado e falado no idioma original, ou seja japonês. E aconselho a todos essa opção. O filme parecer-vos-á talvez mais real se em vez de estar a ouvir o inglês ou o português dobrados por cima, ouvirem o japonês, que embora a nós pareça quase alienígena pois é de uma matriz linguística completamente diferente das línguas de origem latina, acho que todos já nos habituamos àquele ritmo de conversa e intensidade de entrega de diálogo que apenas a língua japonesa é capaz. Tem no seu carácter implícito um dramatismo intenso, por vezes furioso, por vezes cómico, por vezes melancólico, que espelha bem aquilo que nós no Ocidente esperamos das convicções dum samurai.
Todos os elementos famosos do espírito do Samurai estão presentes. Existem samurais nos dois lados antagónicos da batalha e ambos guerreiam pelas suas convicções. Dum lado a convicção de que o lorde visado para morrer é mau até aos ossos e há uma necessidade de o matar, destruindo assim o mal que ele semeia. De facto, logo nos primeiros momentos do filme, vê-se que o tirano é maléfico ao ponto de não ter qualquer respeito por ninguém nem por nada, e ser um ser sádico e psicótico. As suas acções, tipicamente ofendendo a honra de vários daimyos (um daimyo é um samurai chefe de um clã) de clãs mais pequenos das formas mais desprezíveis e a despeito da vida humana, estão a trazer o país perigosamente à beira de uma guerra civil. Assim, alguns samurais decidem agir contra o seu senhor e em favor do que é melhor para o país. Esta é a quintessência do dilema do samurai. “Aquele que serve” deve eterna e completa lealdade ao seu senhor, mas se o seu senhor não a merece e é um péssimo governador, não deve o samurai, alimentado pelo povo que deve em troca proteger, cumprir o seu dever de proteger esse povo acima de todos? É de facto o filme que procura redimir a imagem dos samurais enquanto meros lordes feudais autoritários que trazem ao povo japonês actual más recordações históricas (algo que acontece hoje em dia, como já disse em prévios posts neste blog), procurando trazê-lo novamente ao estatuto heróico, como defensor da paz, mesmo sacrificando a vida e, aquilo que levam mais a sério, a honra. Traiem o seu mestre, fazendo o melhor para o povo, evitando uma guerra e acabando com um tirano.
Do outro lado, temos um samurai que assume o dever de proteger o seu senhor, mesmo sendo ele um desprezível e louco megalomaníaco psicótico. O bom neste tipo de filmes, é que nenhum dos dois samurais antagónicos são propriamente bons nem maus, pois ambos estão apenas a cumprir aquele que acham ser o seu dever. Um preferindo manter a honra a todo o custo, outro preferindo sacrificar a sua honra por um bem maior. E ainda que nos seja fácil imediatamente assumir a posição dos assassinos, que aos nossos olhos ocidentais e pragmáticos têm imediatamente as suas acções justificadas pelas acções do tirano que querem matar, temos de compreender que o outro samurai procura apenas cumprir os votos que fez, uma palavra que deu, de estar ao serviço de um homem, guardando a sua vida. Outro dos factores que contribui ao escolhermos o lado dos assassinos é o facto de eles serem 13 a lutarem contra 200. Naturalmente, o ser humano torce pelo mais fraco. É ainda subtil e levemente discutido aquilo a que eu chamo o factor “Vida num Sopro”. Ou seja, a ideia de que nos devemos entregar de corpo e alma àquilo que fazemos, às nossas convicções, lutando por elas sem medo da morte e de facto como se a procurássemos. E tendo consciência dessa proximidade da mística entidade ceifeira, todos os instantes de vida se tornam mais preciosos e mais belos. Neste filme, e é isto que o torna bom, a honra é apresentada como sendo um conceito completamente relativo. Depende sempre do conjunto de valores morais que o seu detentor possui.
No filme, para além do tirano, dos assassinos, e do exército que protege o tirano, existem ainda personagens motivadas pelo desejo de vingança que ajudam os assassinos a pôr em prática o seu plano.
A cena de batalha sinceramente gostei, embora não seja nada de novo. É feita sem grandes efeitos especiais, para além do muito sangue que corre. Deu-se importância no decorrer da história à preparação dos samurais assassinos para essa mesma batalha, procurando formular uma estratégia que lhes permita vencer contra probabilidades tão negativas, seguindo preceitos da Arte da Guerra de Sun Tsu, bem conhecida no mundo feudal oriental. Escolha de local, elemento de surpresa, emboscadas, utilização de todas as vantagens. Só houve um pormenor que não gostei e que é muito parecido com algo que se passou no filme 300. Tem a ver com o não uso ou pouco uso de arqueiros e mais não direi. Mas é uma batalha credível a deste filme, com 13 guerreiros tipo forças especiais a limpar 200 soldados “carne para canhão”.
É, como não podia deixar de ser, um filme para adultos, com cenas de carnificina, violação, assassinatos, muito sangue. Para além de ser para adultos, é para adultos que se revejam ou sejam fãs deste género de cinema.
Em suma, se são fãs de filmes de samurais, especialmente do clássico Seven Samurai, de 1954, vão gostar muito deste filme. Eu pessoalmente já não via um tão bom no tópico desde “O último Samurai”, sendo que o "13 Assassinos" talvez por ser completamente japonês e não uma produção de Hollywood me pareceu tão mais realista. A batalha final, no que me diz respeito, está muito melhor e mais convincente dum ponto de vista estratégico, embora em termos de números a relação é a mesma. Isto é, um dos exércitos tem um número de efectivos que é uma ordem de grandeza superior ao outro. Em termos de valores e do espírito do samurai, estão igualmente bem representados face ao "O Último Samurai", sem contudo serem narrados e compreendidos aos olhos dum ocidental, mas explicitados pelas acções das personagens.
Podem encontrar muita mais informação sobre o filme, incluindo trailer, trivia e poster, em:


http://www.imdb.com/title/tt1436045/

Num assunto relacionado, há uma série de anime chamada Shigurui, infelizmente inacabada, que é muito ao género deste filme e que se baseia nos acontecimentos que levaram ao primeiro combate dum torneio histórico e famoso de esgrima com samurais do mesmo período histórico que este filme. É uma série de animação igualmente violenta, com personagens muito ambíguas, algumas também insanas e psicóticas. Se gostarem do filme, procurem ver a série. Eu pessoalmente, não me farto de samurais. ( Mais info em: http://www.imdb.com/title/tt1233119/ )




Alex,
Signing off… 4 now!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Semelhanças...

Numa relação de amizade, as diferenças são tão importantes como as semelhanças, mas são as semelhanças que permitem a geração de empatia que permite a amizade verdadeira, a amizade que vê as diferenças como uma mais valia e não algo de negativo.




Eis algumas das semelhanças entre o povo japonês e o povo português.




Ambos os países foram forjados na idade média, em sociedades feudais, cujos simbolos de poder eram os lordes guerreiros:










































Os cineastas de ambas as nações parecem gostar de Tarantino, ao ponto de fazerem filmes em que os diálogos são entregues ao público em inglês, com fortes sotaques nativos dos países de origem. "Arte de Roubar" é um claro tributo ao género cinematográfico de Quentin Tarantino (um dos meus realizadores preferidos, já agora!!). Já Sukiyaki Western Django é um western passado no japão, tributo aos western da personagem Django dos EAU, mas com a participação cameo do próprio Tarantino.





(podem ver-se os posters de ambos os filmes abaixo)









Confesso, contudo, que a indústria cinematógrafa japonesa está muito mais instuticionalizada e financiada que a portuguesa. Têm melhores efeitos especiais e estão muito abertos a tocar o sobrenatural, os filmes de acção e a ficção científica. Em Portugal, infelizmente temos pouco disso. Quanto a efeitos especiais os tiros nunca soam ou parecem verossímeis, ficção científica não há (excepto talvez alguma adaptação dum livro de Saramago), e filmes de terror só me consigo lembrar dum que é a incrível curta "I'll see you in my dreams", que é um filme de baixo orçamento mas com efeitos especiais que superam os filmes de mais orçamento portugueses. Já somos relativamente bons a fazer filmes de época e/ou históricos, mas temos de aprimorar as cenas de acção e pancada, os efeitos especiais... enfim, basta de pensar que só o guião faz o filme. É preciso criar a noção de que o cinema não é mera arte, mas dever ser sim arte ao serviço do entretenimento!




E aparentemente, ambas as culturas têm um gosto por porcelana de cariz erótico! A famosa louça das Caldas da Rainha, tem uma homologa japonesa, como demonstram as figuras abaixo...































Não há muito a dizer aí! XD



São apenas algumas das semelhanças, das mais conhecidas e óbvias. E por agora terá de chegar, mais tarde falaremos das diferenças...




Sayonara...

terça-feira, 31 de maio de 2011

Bolsas de Mestrado e Doutoramento

A embaixada do Japão enviou-me este link para os formulários e também com toda a informação necessária:

http://www.pt.emb-japan.go.jp/estudarnojapao.html#bolsas

Os prazos são até 3 de Junho de 2011. Desculpem avisar tão em cima do acontecimento, mas a verdade é que o email que me foi envviado caiu na pasta de Spam, não sei bem porquê e só dei com ele por acaso.

Sayonara...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Já que estamos numa de artes e cultura...

Parece que há um artista japonês que tem como matéria prima bananas. Nelas faz escultura, com pouco mais que um palito e muito jeitinho! ahahha
Algumas das caras são bem reconhecíveis, como a do Achmed o Terrorista.
E já que estamos numa de banana, eis um truque de ilusionismo, algo que idiota, mas ainda assim:









Mas voltando ao assunto, o artísta em questão chama-se Keisuke Yamada, e ganhou notoriedade postando a sua arte na net!
Como vem na Nona de Beethoven: Banananam Bananam



















Vejam o post anterior sobre o Teatro Noh em Lisboa, dia 10 e 11 de Junho!!!!




Sayonara!

O retorno do escriba!

Foi uma longa ausência, provocada por um semestre cheio de trabalho e também por me ter centrado mais no livro que estou a escrever. O desastre natural e consequências nucleares deste no Japão também me deixou um pouco sem saber o que escrever. Num futuro próximo, abordarei a tragédia num post, mas não hoje.




Hoje vim só deixar um recado para os Lisboetas amantes de cultura. No seguimento dos festejos dos 150 anos de amizade entre Portugal e o Japão, no Teatro D. Maria, nos dias 10 e 11, vão ser exibidas duas peças em teatro Noh. Contudo, a peça do dia 10, é inspirada ou adaptada do Auto da Barca de Viagem de Gil Vicente, o dramaturgo português. A peça do dia 11 é sobre um samurai e daymio conhecido por ter sido o fomentador do comércio com Portugal. Acrescento apenas que em paralelo às peças de Teatro, vai também ser exibida uma exposição de bonecos japoneses. Todas as informações estão abaixo:





BILHETEIRA ONLINE:

http://www.teatro-dmaria.pt/Temporada/detalhe.aspx?idc=1749&ids=16




Alex, signing off... 4 now




quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Kinga Shinnen

A expressão que dá título a este post quer dizer "Tenha um próspero Ano Novo", ou pelo menos assim me dizem as minhas fontes. Mas embora o Ano Novo seja uma data muito celebrada, com toda a pompa e circunstância, no Japão desde antanho, o Natal apenas recentemente começou a ser celebrado por lá.
Na verdade, o Natal foi para lá levado na esteira da 2ª Guerra Mundial, nas mentes e pelas tradições dos homens das forças ocupacionais norte-americanas lá estacionadas durante o pós-guerra. E mesmo durante muito tempo, foi apenas uma data festejada pelas crianças, cujo único propósito era a entrega das prendas e a doçaria. Mas tendo o Japão 1% da sua população cristã, as coisas mudaram. Hoje em dia festeja-se o Natal todos os anos, mas apenas na noite da véspera, ou seja na noite do dia 24. Isto porque o Natal não é feriado no Japão, trabalha-se tanto no dia 24 como no 25.
Há contudo um pormenor interessante: por meados dos anos 80, o Natal japonês era uma espécie de dia dos Namorados nipónico. O costume então era levar a namorada a sair, começando por um sumptuoso jantar com todas as regalias, passando pela troca de prendas e terminando numa noite num hotel. Esses hóteis produziam espectáculos especiais propícios aos rapazes conseguirem impressionar a namorada. O que é certo é que alguns desses rendez-vous chegavam a custar um mês de salário de um jovem trabalhador.
Contudo, com a chegada da crise económica e a estagnação da economia japonesa, o Natal reencontrou-se na Terra do Sol Nascente. Devido à falta de dinheiro, as pessoas deixaram-se deste costume excêntrico (no sentido do Euro Milhões!!!) e começaram a restringir as prendas a cartões de natal e flores. A passagem da noite, deixou de ser efectuada em hóteis e começou a ser feita em casa, com a família, fazendo karaoke (literalmente: "festa do lar"). As decorações e a doçaria são cada vez mais feitas também em casa e pelos próprios anfitriões e a festa ganhou um carácter informal, comportando apenas família e amigos mais chegados, mas em grupos pequenos com não mais de 10 pessoas.
O Natal não é Natal sem comida tradicional da época. Neste caso, o bacalhau da Consoada é trocado pelo karaage (frango frito, crocante e muito temperado) e o bolo rei, caracteristico numa mesa de Natal tradicional lusitana é trocado pelo kurisumasu keeki (um pão-de-ló coberto com natas, enfeitado com morangos e um Pai Natal em açúcar). Já agora, a palavra japonesa para Pai Natal é Jisu, que mais parece um japonesismo da palavra Jesus e ao que parece as crianças adoram a mística da história de Jesus e travam através dela conhecimento com a palavra berço. Parece que eles não usam disso, por lá! Kurisumasu Omedeto = Feliz Natal
Já o Shogatsu é todo um ritual. Pode começar a ser preparado um mês antes e acabar um mês depois, mas a época oficialmente festejada são os 3 primeiros dias de Janeiro. Todo o esforço, cujos pormenores eu não vou sequer tentar resumir pois são imensos, é para conseguir angariar energias positivas para o ano vindouro.
O Shogatsu é a celebração do dia em que nasce o ano. O costume tradicional manda que se deixe todos os problemas do ano anterior, pessoais e profissionais, resolvidos antes do 1 de Janeiro. Sinceramente, eu bem tento, mas deixo sempre algo por resolver. Chama-se Hatsumoude à primeira visita do ano ao templo, seja qual for a sua vertente religiosa, shintoísta ou budista. Este costume incorpora também o costume de doar umas moedas ao templo , atirando-as no Osaisen (caixa de doações), fazer soar duas vezes um sino e bater palmas, afim de saudar o novo ano, rezando a deus para lhes dar paz, saúde e prosperidade no futuro próximo... talvez um equivalente às nossas doze passas e doze desejos! O período para o Hatsaumude vai desde o ano velho até ao dia 7 de Janeiro do ano novo.
Também nesta época há comida tradicional. Ozouni é uma sopa de legumes e carne que terá surgido de um costume antigo de cozinhar comida para os deuses. A bebida tradicional da época é feita a partir de mirin (uma forma de sake doce), combinada com uma erva medicinal chinesa.
Por agora ficamos por aqui, mas terei mais a dizer no próximo post ainda sobre este tópico que tem panos para mangas!
Tsutsushinde shinnen no oyorokobi o moushiagemasu ("Estou a transmitir a minha alegria pela passagem de ano)
Até à próxima... ainda este ano, espero! eheheheh

sábado, 16 de outubro de 2010

Hibakusha

"No momento do flash, senti como se faíscas invadissem os meus olhos. Num ápice, a casa desabou. O estrondo atirou-me para o fundo da cozinha, e perdi a consciência. (...) Acordei num abrigo contra bombas e a minha mãe estava a chamar, "Kazuco!" Olhei para ela e vi que a sua cara também estava queimada, o cabelo tinha ardido todo e estava nua. Parecia que o seu corpo estava assado. "Mãe!", respondi, mas sentia demasiado medo para me aproximar dela. (...) Então lembrei-me de que outro irmão meu tinha voltado à escola para buscar algo de que se tinha esquecido. Saí com outro dos meus irmãos para o procurar. O edifício estava em ruínas e tudo o que encontrámos foram caveiras brancas espalhadas. Nenhuns torsos. Nunca saberei o que aconteceu ao meu irmão. A minha mãe morreu no dia seguinte, dia dez. A sua cara estava tão queimada, tenho a certeza que morreu em grande sofrimento." -> Kazuko Nagase, de Nagasaki
(8 anos na altura)


«De repente, um clarão. Uma luz branca azulada que cegava. Por um instante, os carris, as carruagens, a plataforma, tudo desapareceu da minha vista. Depois a explosão. A pele da minha barriga parecia que se ia rasgar e cuspir os meus intestinos. Partículas cor de laranja avançavam lentamente. De repente, aumentaram e transformaram-se numa enorme massa de fogo que caía sobre nós. Colunas de chamas saíam da terra em remoinho soltando setas de luz de todas as cores. Beleza feroz e terror indizível! Comecei a sentir arrepios de frio por todo o corpo e a tremer. Virei-me e pensei: Tenho de fugir! (...) A 9 de Agosto, a minha irmã piorou muito. Suplicando numa voz sumida "Ajuda-me, mãe!", encontrou a morte. Não havia nada que a minha mãe pudesse fazer. A minha irmã tinha dezasseis anos. (...) Vazio de esperanças e sonhos, o meu coração não sentia mais senão ódio pelos EUA, por terem assassinado a minha irmã e os meus amigos. (...) Enquanto estiver cheio de amargura, nunca conhecerei a alegria. A amargura só alimenta ódio. Como seria a estender a mão aos EUA (...) e trabalhar pela paz? Seria a melhor coisa que eu podia fazer pelas vítimas da guerra."» -> Yasuhiko Takeda, Hiroxima
(12 anos na altura)


"... nesse dia a bomba roubou as preciosas vidas da minha família. (...) De repente, ouvimos uma explosão enorme e ficou tudo preto. O prédio estava todo a abanar. Não vi o clarão, atirei-me para debaixo da secretária. Quando a luz voltou, corri lá para fora à procura da minha irmã (...) Os nosso sapatos pegavam fogo. (...) Deparámo-nos com um eléctricopreto que tinha saído da linha. O condutor estava carbonizado. Os corpos pendurados nas janelas estavam queimados num dos lados e parcialmente no outro. Os ossos fora dos corpos. Os meus nervos estavam tão paralizados que nem sentia medo. à volta do rio aglomeravam-se pessosas nuas, tão gravemente queimadas que não se distinguia homem de mulher, criança de adulto. Choravam, gemiam. O rio estava entupido de corpos." -> Fujie Yamada, de Nagasaki
( 22 anos na altura)


"Agora percebo que o flash da bomba atómica me atingiu de um ângulo por cima da minha cabeça. Entrou pelos meus olhos fechados e foi direito ao meu cérebro. Eu estava a 1.6 km do hipocentro onde a temperatura atingiu mais de 1000º C. Contorci-me com dores, como se tivesse sido atirado para um fogo. No instante seguinte, a luz desapareceu. Tudo à minha volta ficou preto, e deixei de sentir dores. Suspeito que todas as camadas de pele estavam tão gravemente queimadas que até os nervos ficaram inactivos. Comecei a pensar que, queimado por uma luz misteriosa, estava a entrar no reino da morte. Na realidade, uma nuvem gigante em forma de cogumelo bloqueava a luz do sol e mergulhava o mundo na escuridão. (...) Fiquei confinado à cama durante muitos anos, com 10 operações pelo meio. Pensei no suicídio. 30 cm do meu intestino grosso foram removidos. Tenho uma anca e uma coza arteficiais. E sinto sempre muitas dores. (...) Eu queria desenhar máquinas. Mas esse sonho perdeu-se com a bomba atómica. As pessoas pensavam que a doença da bomba atómica era contagiosa, por isso havia sempre muita discriminação contra os sobreviventes. (...) O ponto de partida para a paz é um coração que consiga sentir a dor dos outros. Se as pessoas se colocassem na pele umas das outras, não existiria guerra nem terrorismo." -> Akio Sakita, de Nagasaki
(tinha 16 anos na altura)


Estes são ecos históricos, testemunhos em primeira mão, do horror e sofrimento que nenhum de nós excepto eles consegue começar a imaginar, do dia em que o inferno esteve na terra, em pleno Japão. Eles, entre muitos, são os hibakusha, sobreviventes da bomba atómica, guerreiros pacíficos cuja causa é um mundo do Homem em paz consigo mesmo. São os primeiros heróis da guerra atómica. Juntemo-nos a eles, recordando esse erro histórico e lutando para nunca o voltemos a cometer enquanto espécie.
Fez este ano 65 anos.
Depois disso, já sobrevivemos à Guerra Fria.
Agora vem a Era do Terrorismo e das novas Guerras (ditas) Sagradas.
O desafio continua. Não podemos esquecer o sofrimento, a destruição, que houve em tão curto espaço de tempo.
PAX!