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sábado, 24 de março de 2012

Calhaus, Samurais, Carl Sagan e Selecções...

SERÁ UM ASTERÓIDE?




SERÁ UM METEORO?







Por esta altura, senhoras e senhores, irmãs e irmãos, amigos de aquém e além mar, já terão compreendido que as imagens são de um fóssil... o MEU fóssil. Por isso, não se atrevam a dizer que a Evolução não é uma realidade à minha frente ou sujeitam-se às consequências... Lewis Black's style! Hey, eu avisei em posts anteriores que viria armado para esta entrada!

Este post já anda na minha cabeça há alguns meses, porque queria fazer uma entrada completamente diferente de todas as que já tinha feito aqui no blog. Mas demorou algum tempo a sair porque criar legendas, editar videos e fazer videos com legendas hardcoded (incorporizadas na imagem) neles eram conhecimentos que não possuía, além de ser trabalhoso fazer as próprias legendas e sintonizá-las com o video e afins. Como tal, foi um processo lento. Primeiro ia só colocar o primeiro video, porque tinha o Carl Sagan, figura da Ciência que muito me inspira, e samurais, sendo que a história que ele conta faz parte da História Japonesa (ligação ao blog que é essencialmente sobre cultura japonesa). Mas depois achei melhor colocar a explicação dos dois principais mecanismos da Evolução. Já que ia tocar o assunto, então quis levá-lo (não até ao fim porque a Teoria da Evolução ainda está a ser desenvolvida, como qualquer outro ramo científico) até uma conclusão. Essa conclusão é que a Evolução é uma realidade comprovável com provas empíricas. A brincadeira com o video do Lewis Black e com o fóssil, surgiu entretanto porque me lembrei de ter visto este espectáculo de stand up comedy há uns anos atrás, na televisão. Serve como uma reiteração pela sátira da ideia de que achar que a Evolução ainda não foi comprovada é simplesmente ridícula. Não resisti! ;)
Aproveito para vos sugerir o filme "Creation" de 2009, que vi pela primeira vez há uma semana e é soberbo. Elenco de primeiríssimo nível mundial, o filme trata o problema de consciência que Darwin teve há medida que foi compreendendo que as evidências naturais dos seus estudos pareciam contradizer a sua educação cristã e o Criacionismo. Isto também começa a trazer problemas no seu casamento, com uma mulher profundamente religiosa, bem como na educação dos seus filhos. Não vos vou dizer como acabou, vejam o filme. É excelente, soberbo mesmo!
http://www.imdb.com/title/tt0974014/ Já agora, sabiam que a espingarda do Darwin era portuguesa? :) É verdade! Soube disto em 2007, quando visitei a exposição sobre Darwin na fundação Gulbenkian. Bons tempos em que criávamos de tudo neste país. Até o pai da Evolução usava tecnologia portuguesa. Mas pronto, o cão do Obama é português... pode ser que haja algum consolo nisso! ahahaha
Signing off, pessoal, mas voltarei ainda este mês para vos falar de vampiros! `!´

terça-feira, 6 de março de 2012

Notícias "Japão em Portugal" - Março 2012

Mais uma vez, funcionando em paralelo com a Embaixada do Japão em Portugal, venho dar-vos conta de várias actividades e/ou oportunidades referentes ao Japão em Portugal, desta volta maioritariamente na área de Lisboa.
Uma nota apenas para reter ética editorial, todo o texto neste post que estiver em Itálico é texto copiado directamente do pdf informativo que a Embaixada do Japão me enviou por mail. Eu coloco aqui os eventos em destaque apenas e precisamente para lhes conceder mais notoriedade, mas deixo-vos no final do post um link directo para o documento pdf fonte.
Esclarecido isto, comecemos por anunciar duas exposições que já estão a decorrer:

Exposição de Arquitectura «Tradition is Innovation»
A exposição de arquitectura moderna portuguesa “Tradition is Innovation”, organizada pelo arquitecto japonês Sr. Yutaka Shiki, está a decorrer até ao dia 9 de Março (2ª a 6ª, 10:00~18:00), na Ordem dos Arquitectos - Secção Regional Sul (Travessa do Carvalho nº 23, 1249-003 Lisboa).
Mais informações : Email:
pointofview2011@gmail.com


Exposição de Pintura «Aihara Misa»
Estará patente até ao dia 16 de Março a exposição desta artista japonesa, Aihara Misa, na ‘Colorida - Galeria de Arte’, de Terça a Sábado, das 14h30 às 19h00.
‘Colorida - Galeria de Arte’ - Costa do Castelo, 63 – Lisboa.
Mais informações: Tel 218 853 347
http://www.colorida.biz/

De seguida, queria indicar-vos não um mas dois eventos para este fim de semana (10 e 11 de Março de 2012), sobre o Grande Sismo do Leste do Japão, que ocorreu no ano passado:


A 11 de Março de 2011, a região Tohoku, situada a nordeste do Japão, foi atingida por um grande terramoto e tsunami. Passado um ano, a Embaixada do Japão organizará uma sessão evocativa da tragédia, com o objectivo de mostrar pesar pelas vítimas e de reforçar ainda mais os votos pela restauração do país, agradecendo o apoio e solidariedade recebidos do mundo inteiro. Nesse dia, além da cerimónia, terá lugar uma exposição fotográfica das zonas afectadas pelo sismo e uma conferência sobre protecção civil, em colaboração com a Autoridade Nacional de Protecção Civil. Irão ser expostas imagens da tragédia e da situação actual e será feira (feita) uma apresentação da tecnologia anti-sísmica do Japão. Este evento vai ser aberto ao público.
Data: 11 de Março de 2012
Programação:
1ª parte - 12:00 ~13:30 Discursos Abertura da exposição das fotografias

2ª parte - 14:00 ~16:30 Conferência “Sismos e tsunamis – Experiências do Japão e de Portugal”
Local: Palácio Foz - Praça dos Restauradores, 1250 Lisboa

Contudo, e dentro do mesmo tópico, vai haver em paralelo, também este fim de semana um evento de dois dias sobre o mesmo tópico em Cascais:

Evento Memorial do Grande Terramoto de Tohoku “Contigo Japão”

A Associação de Amizade Portugal-Japão organizará, a 10 e 11 de Março, o “Contigo Japão” em Cascais, com apoio da Câmara Municipal de Cascais (cidade geminada com Atami) e outras entidades, destinado a reunir fundos para apoio às vítimas da catástrofe do Grande Terramoto de Tohoku ocorrido a 11 de Março de 2011. Do evento consta o seguinte programa:
10 de Março
15h00 - Festival das Artes Marciais no Pavilhão da Quinta dos Lombos em Carcavelos
10h00-20h00 - O Japão em exposição no Cubo de Cristal junto à Marina de Cascais
11 de Março
10h00 - Corrida pela paz junto à Marina de Cascais
15h00 - Torneio da Remada pelo Surfing Club de Portugal
10-20h00 - O Japão em exposição - Cubo de Cristal - junto à Marina de Cascais Inscrições no evento e mais informações:
info@contigojapao.org - Telemóveis: 919 993 295 / 964712096 - web: http://www.contigojapao.org/

E agora, dou-vos a saber de mais uns quantos de eventos culturais que serão inaugurados ou decorrerão este mês:

Exposição de Fotografia “Jardins Japoneses”, de José Reis!
A ‘Equivalentes’ – Associação Cultural irá organizar a exposição de fotografia – “Jardins Japoneses”, da autoria do fotógrafo José Reis, com inauguração no dia 8 Março, às 19h00, patente até ao próximo dia 7 de Abril de 2012.
Horário da exposição: de terça a sexta-feira das 17h00 às 20h00 - sábados das 15h00 às 19h00.
Local: Av. Almirante Reis, nº 74, Lisboa.
Mais informações: ‘Equivalentes’ -
http://casadafotografia.equivalentes.org/

Workshop de ‘Origami’ pela Embaixada do Japão
Terá lugar um workshop de ‘Origami’ (dobragens de papel) organizado pela Embaixada do Japão (Av. da Liberdade, No 245-6º, 1269-033 Lisboa) nos dias 15, 16, 19 e 20 de Março (inscrição obrigatória).
Mais informações: Embaixada do Japão – Tel.: 213 110 560
Email:
cultural@embjapao.pt

Iberanime 2012
Decorrerá, de 17 a 18 de Março, no LX Factory (Rua Rodrigues de Faria 103, 1300-501 Lisboa), o Iberanime, que contará com exposições e workshops de Manga, Origami, cosplay, concursos de Anime e Karaoke, etc.
Mais informações: Tel: 214 269 710 / http://www.iberanime.com/pt/
Compra de bilhetes:
http://www.ticketline.pt

Festival de Animação de Lisboa – MONSTRA
Terá lugar, de 19 a 25 de Março, o Festival de Animação de Lisboa – “Monstra” −, no Cinema São Jorge (Avenida da Liberdade nº 175, 1250-141 Lisboa). Os filmes de animação japoneses como “Ghost in the Shell” pelo realizador Mamoru Oshii, também serão exibidos.
Mais informações: 918 453 750, 918 682 115 /
producao@monstrafestival.com,
festival@monstrafestival.com http://www.monstrafestival.com/index.php/pt/

Antes de terminar, quero ainda relembrar que:

O Ministério da Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia do Japão (MEXT) concede bolsas de estudo para estudos académicos no Japão a estudantes portugueses que queiram aprofundar os seus conhecimentos em língua Japonesa, assuntos do Japão e cultura Japonesa. Estas bolsas têm o objectivo de promover a mútua compreensão e aprofundar as relações de amizade entre o Japão e os outros países pela utilização de avançados conhecimentos da língua e cultura Japonesas. Candidaturas até ao dia 8 de Março de 2012.
Mais informações: Embaixada do Japão – Tel.: 213 110 560 Email: cultural@embjapao.pt


E dar-vos a conhecer a:
Revista de Banda Desenhada “BANZAI”

Foi lançada em Novembro do ano passado a revista trimestral de banda desenhada “BANZAI”, pela edição da “NCreatures”, produtora de conteúdos originais. A revista tem a participação ocasional de autores estrangeiros, como parte da parceria da “NCreatures” com a “Comic Party” da Dinamarca e a “Nosebleed Studios” da Suécia.
Website :
http://banzai.ncreatures.com

Para mais informações sobre estes tópicos e notícias do Japão, deixo-vos o link abaixo, que é também a fonte deste post:
http://www.pt.emb-japan.go.jp/newsletter2012/Embaixada_do_Japao_Noticias_MARCO_2012.pdf

Gostava muito de poder ir à Sessão Evocativa do Sismo que se vai passar no dia 11, mas provavelmente não conseguirei. Em jeitos de despedida, quero apenas dizer que este mês aqui no N.I.N.J.A. Samurai vamos ter muitas novidades e, mesmo não contando com este post e tendo eu tempo suficiente para tal, 3 posts. Posso adiantar que vou falar, nessas entradas de futuro muito próximo, sobre a Teoria da Evolução (pela voz dum embaixador muito especial), sobre Vampiros (oh sim, eles andam aí ;) e, last but not least, sobre o código do Samurai. Por isso, até breve,
Alex, signing off...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

OCdS: Espírito de Guerreiro



“Nunca negligenciar o Espírito Combativo”


É este o título da secção do Código do Samurai que abordo aqui hoje. O livro dá exemplos da sua época, uma época medieval, em que imperava a lei da espada. Fala-nos do carácter guerreiro do Japão, dizendo que até os membros das castas mais baixas (segunda a perspectiva japonesa da época) os agricultores, artesãos e comerciantes, gostavam de possuir uma espada. Indica que o samurai, mesmo e/ou especialmente em tempos de paz, nunca se deve separar das suas espadas. De facto, afirma até que o melhor dos samurais faz-se acompanhar duma espada sem gume ou de madeira até quando toma banho. Aconselha, por intermédio dum ditado, que se agimos assim em casa, devemos duplamente fazê-lo ao sair da segurança desta, pois “no caminho pode sair algum ébrio ou insensato que eventualmente ocasione um confronto inesperado”:
“Há um velho ditado: «Quando sais pela tua porta, age como se estivesse à vista um inimigo.»”
Diz por último que se o Samurai de espada à cinta mantiver presente a noção da morte sempre à espreita (algo que já abordámos em posts posteriores), então manterá o espírito combativo. Mas aquele que assim não agir/pensar, mesmo que armado, não passará dum mero agricultor ou comerciante mascarado de guerreiro.
Como é que estes conselhos se adaptam aos nossos tempos? Infelizmente, com demasiada facilidade. Hoje vivemos num mundo muito diferente do dos Samurais e contudo potencialmente tão ou mais perigoso que o deles. É óbvio que não sugiro que andemos armados, seja de espadas, seja com outras armas. Ainda não chegámos a esse ponto, pelo menos em Portugal. Contudo, com o Desemprego a subir em flecha, o desespero das pessoas a chegar ao limite, o poder de compra drasticamente diminuído, o elemento criminoso vai crescer em número e a sua actividade vai drasticamente aumentar. Já se vêem os primeiros sinais. Houve recentemente uma notícia de um assaltante armado que matou a tiro um homem, enquanto assaltava um casal. A vítima, provavelmente sem saber que o outro estava armado, tentou impedi-lo de levar a mala da esposa e acabou morto a tiro. Não satisfeito com isto, o assaltante foi imediatamente interpelar outro transeunte perto do local do assassinato e disse friamente (parafraseando): “Passa para cá a narta, que eu já matei ali um, e vê lá se não queres ser o próximo!”. Contudo, dessa vez, as coisas não lhe correram de feição. O segundo abordado sabia artes marciais e soube agir rápida e decisivamente, desarmando o bandido e colocando-o em fuga. Notificada a polícia, esta pela descrição e batendo a zona, descobriram o assassino e prenderam-no. O homem em questão era procurado no Brasil por homicídio triplo. Belo trabalho do SEF ao deixá-lo entrar no país…
O mundo continua deveras perigoso e é importante estarmos prontos, mantermos uma proverbial espada à cintura onde quer que andemos. As artes marciais em geral são perfeitas para isso, quando praticadas regularmente, com empenho e seriedade. Mais que isso, a Lei portuguesa prevê que um homem pode usar força em defesa pessoal legalmente sempre que se ache em desvantagem técnica. Isto é, se alguém armado ameaça a tua integridade física com intuito de te lesar, podes partir-lhe a boca, os braços, o que for preciso para assegurares a tua segurança. Se estiveres em desvantagem numérica e te quiserem lesar, podes se souberes como defender-te usando força bruta. Contudo, se houver uma igualdade de meios ou números, aí já é mais complicado provar autodefesa em tribunal, se de todo possível.
Hoje em dia precisamos também de pensar doutra forma. No tempo dos samurais, se te atacassem, matavas o outro ou eras morto. Hoje em dia, necessitas de te proteger e/ou aos teus, mas procurando não matar o agressor. Caso contrário, dependendo das circunstâncias, poderás ir preso. Mais que nunca, precisamos hoje em dia de saber usar a cabeça e o corpo, pois exige-se ao samurai do Século XXI, pela Lei e pelas circunstâncias, que obtenha vitória sem matar. É muito mais difícil, especialmente quando a nossa vida ou a de alguém de quem gostamos, está em perigo. A resposta eficaz, sem hesitações e decisiva que tais situações exigem pode apenas ser dada após muitas horas de treino e condicionalismo físico e mental. Armem-se!
Por outro lado, também enquanto cidadãos, hoje mais que nunca, precisamos de ser combativos. De manter o guerreiro dentro de nós vivo. Pois quando tudo se parece voltar contra nós, quando o mundo parece desabar, quando o nosso próprio Governo parece querer deitar-nos ainda mais para baixo, devemos conseguir erguer o queixo e resistir. Aí o combate não será de força física, mas sobretudo mental. As armas não serão espadas, mas canetas, emails, cartazes, manifestações, abaixo-assinados, petições, etc… Lutem pelos vossos direitos, sem esquecerem os vossos deveres! Exijam do Governo, com a mesma veemência que ele exige de vós! Ouçam o que diz um dos nossos melhores pensadores livres do século passado:




E enquanto cidadãos mundiais, há também outras guerras a lutar. Neste momento, por exemplo querem fragmentar a Internet com as SOPA’s, as PIPA’s e as ACTA’s e outros que tais. Lutem por ela, pois nos tempos que corre a Internet é a instituição mais democrática que temos. Como lutamos por ela? Os Anonymous, pensadores livres actuais, dizem-nos como:



Por isso “armem-se”, com informação, com conhecimentos, com habilidades físicas, porque hoje mais que nunca, somos forçados a lutar. Não só por um povo, não só por um país, mas também por um Mundo, pelo Futuro da nossa espécie, a que chamamos Humanidade sem ainda completamente merecermos tal título. Estejam prontos e preparados para o que der e vier. Mantenham o espírito combativo e… hasta la vitoria siempre!


Até porque, por vezes o guerreiro que se mantém positivo, que não desiste perante uma batalha que parece perdida de início obtém uma vitória. E batalha a batalha pode ser que ganhe a guerra. Este blog é contra o presente (des)Acordo Ortográfico e finalmente, graças aos esforços encabeçados por Graça Moura & Outros, às muitas pessoas que ainda não desistiram de apontar as muitas fraquezas do documento e o que este destrói na Língua Portuguesa, e a todos os que assinaram as petições a pedir a revogação do AO e um referendo sobre o mesmo, eis que surge um raio pequenino de esperança, mas ainda assim um passo numa melhor direcção:

http://www.publico.pt/Cultura/viegas-admite-aperfeicoar-regras-do-acordo-ortografico-ate-2015-1535754


Alex, signing off, deixando-vos com uma música que eu acho ser um hino ao espírito de guerreiro!
(: prestem a devida atenção ao significado da letra :)


quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Desacordo Ortográfico e Democracia





Este post parecerá aqui fora de sítio, uma vez que este blog nunca pretendeu ser um fórum político, nem nada que se lhe parecesse. Mas para tempos excepcionais impõem-se medidas excepcionais, e disso decorre o seguinte. Até porque, no primeiro post que fiz, a que chamei Prólogo, expliquei que parte do nome deste blog servia para declarar que este está ao serviço de um povo, tanto quanto pode estar. Procuro apenas manter-me fiel a essa convicção primária. Este post será longo, mesmo quando comparado com os meus posts habituais que já são de si longos, por isso deixo um índice dos seus conteúdos no início:

- Desacordo Ortográfico Descodificado;
- Lobbies e o risco para a Democracia;


DESACORDO ORTOGRÁFICO DESCODIFICADO

Quem me conhece sabe que sou absolutamente CONTRA o chamado Acordo Ortográfico. Alguns desses sabem alguns dos argumentos nos quais baseio a minha posição. Hoje aqui registo todos eles, pecando apenas por não o ter feito há mais tempo.

1) Começo pela simples razão de que não faz sentido nenhum um qualquer acordo deste género sem que houvesse um consenso entre todos os países da CPLP. Tal não acontece, como eu recentemente soube, porque pelo menos Moçambique e Angola não assinaram. Se o objectivo é ter um Português único, tal não é atingido por este português que só afasta mais os países, criando blocos políticos (os a favor do AO e os contra o AO).
2) O facto de, na génese deste acordo, não terem sido consultados peritos qualificados, como filólogos ou linguistas creditados e experientes (de todos os países envolvidos), como seria de esperar numa criação conceptual oriunda do século XX, século no qual o saber técnico-científico nos levou (enquanto espécie) à Lua, a conhecer melhor épocas do mundo em que não existiam homens, e nos permitiu ganhar mais ou menos 30 anos em esperança média de vida. Mas insistimos em criar coisas e colocá-las em prática sem ouvirmos quem realmente estudou o problema em questão. (Porque é que tal acontece? Responderei mais abaixo) Já agora, a esmagadora maioria dos pareceres científicos que se pronunciaram sobre este assunto são contra este acordo, dos restantes, 2 pareceres foram favoráveis (e isto não quer dizer que apoiem a 100%) e o resto remeteu-se a um silêncio cobarde ou simplesmente não foram consultados.
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=967360
3) O Inglês, assim como o Francês e o Castelhano (vulgo Espanhol), são línguas que como o Português, vieram (maioritariamente) do Latim e, pela expansão que portugueses começaram no século XV, são hoje faladas e escritas em vários países e continentes diferentes. Eles nunca fizeram acordos ortográficos que suprimissem ramos da árvore genealógica da sua língua em prole de unificar a escrita da mesma. Assim sendo, essas línguas, como até agora acontecia com a nossa, enriquecem-se a várias frentes. São as diferenças evolutivas produzidas pelas diferentes culturas que falam uma mesma língua que permitem que essa língua cresça e se torne cada vez mais bela e completa. Um acordo ortográfico cessa esse tipo de evolução, castrando-o politicamente. Faz-me lembrar a Novilíngua, do livro de ficção científica 1984, de George Orwell, livro do qual surgiu o conceito do Big Brother. Nessa civilização futuresca, que ainda não chegou a existir, os órgãos de repressão inventaram a Novilíngua, que era a máxima simplificação da língua (exemplo, na novilíngua não há “mau”, há apenas vários graus de “bom”: menos bom, bom, muito bom! Também não há “excelente”, ou “formidável”, apenas muitos graus de bom…). Esta super simplificação servia apenas para fazer com que as pessoas sentissem cada vez menos ao lerem. Com menos adjectivos torna-se uma língua mais enfadonha e menos capaz de traduzir emoções e sentimentos, sendo que essa tradução é o objectivo máximo do escritor. Claro que a presente situação não é nem de perto nem de longe tão má, mas quando chegarem à segunda parte deste post verão que pode ser um passo nesse sentido. A cultura nunca pode ser feita por decreto político em democracia… afinal isso era o que fazia o Estado Novo.
4) A pretensão dos que são a favor deste acordo dizerem que é uma evolução e que as línguas precisam de evoluir. Eu acho que nos (mais ou menos) 500 anos entre o achar do Brasil e agora, a língua portuguesa não parou de evoluir e contudo ainda nunca houve acordo ortográfico para potenciar tal evolução. Pista essa talvez de que a evolução de uma língua não precisa e quiçá nem beneficie dum acordo ortográfico. Sabemos hoje que a Evolução animal beneficia muito da biodiversidade. Será um passo tão grande pensarmos o mesmo para a evolução de qualquer língua? Não será melhor termos 5 versões duma língua, que como um todo são essa língua, do que termos uma só que não olha às várias e distintas culturas que a falam? Eu acho que fará mais sentido uma diversidade evolutiva dentro de uma língua, que uma mera homogeneização da mesma. É claro que os que estão a favor do AO dizem “Ah, mas a única mudança é ortográfica, todos continuamos a falar da mesma forma que sempre falámos!”. Essa defesa chateia-me solenemente de tão falsa que é, porque eu sempre disse EgiPto, desde criança, porque quem lá vive são EgíPcios. Mas hoje em dia deixo de poder ter um P(para alguns mudo, mas não para mim) no Egipto quando escrevo. Ou seja não escrevo o que falo. E tanto quanto percebo olhando para outras línguas, olhando para a História do Homem, a parte escrita do todo que é a Língua deve espelhar os sons dessa língua quando falada, senão não tem sentido. Como disse uma personagem de António Banderas no “The 13th Warrior”:
- Draw sounds? Yes, I can draw sounds… and I can speak them back!
Mas agora com este acordo ortográfico eu já não posso desenhar os sons que digo. Até porque a maioria letrada de nós sabe que os p’s e c’s, que foram agora ostracizados coitadinhos!, em Portugal tinham o distinto papel de abrir a vogal. É normal que os brasileiros deles abdicassem porque eles tendem a fechar as vogais. Logo, tanto de um lado como do outro do Atlântico, por muitos defeitos que a Língua tivesse (e tinha bastantes), nós escrevíamos como falávamos (ou o mais próximo disso) e todos sempre nos entendemos e nos demos bem. Logo não houve evolução, mas usaram esse termo para pessoas que pouco sabem sobre Evolução de um ponto de vista científico (que é a maioria), se amedrontasse de os contrariar. (Quem são eles? Já explico.)
5) Todos os erros que a escrita da nossa língua tinha, como palavras que não estavam claramente acentuadas, como palavras homógrafas que dificultam a leitura, este AO, que se diz campeão da simplificação (e já sabemos o que o Orwell pensa sobre a simplificação), não resolveu. De facto, criou outros, mais do mesmo, como o: “para” e “pára”, que segundo a nova “regra” são indistintos. Mais uma vez, não houve evolução, nada se ganhou em termos práticos. Já no exemplo que os protectores deste malfadado acordo (político de base) tanto gostam de usar para justificar a decorrente actual mudança, o antigo Ph que foi substituído pelo F, houve efectivamente uma melhoria, sendo que havia uma letra que fazia o trabalho de duas. Houve, em termos práticos, uma simplificação que não criava mais erros internos na língua nem castrava certas pronúncias locais das palavras. Contudo, até esse caso teve um senão, que foi o de nos afastar de outras línguas latinas assim como dessa ancestral raiz. É que não devemos cair no erro de confundir evolução com modernices ou novidades. Só por algo ser novo, não quer dizer que seja melhor que o velho, nem que traga nada de suficientemente positivo, que faça merecer a pena uma substituição. Dou três exemplos: os ecrãs plasma que acabaram por ceder face aos LCD’s, os mini-disk que nunca conquistaram terreno ao vulgar CD, ou esta nova vaga de 3D (sim nova, já se tenta fazer 3D desde os irmãos Lumiére) que até tem a sua piada, mas considerando a perda de 30% de cor, o obrigar a usar óculos, e as enxaquecas que dão no fim, é apenas mais uma modernice que será rejeitada porque simplesmente coisas pontiagudas a sair do ecrã não compensam tanto malefício.
6) No ponto anterior, escrevi regra entre aspas, porque este acordo de tão político e tão pouco cultural ou científico que é, procurando agradar a gregos e não hostilizar troianos, é mais excepções que regras. Reparem a inteligência (ou falta dela) política em criar um acordo que procura homogeneizar a escrita portuguesa, mas continua a ter esporte e desporto, fato e facto, etc... mas teve de destruir o Egipto, por exemplo. E venham-me dizer que não é totalmente arbitrário… Um à parte, e voltando aqui à vaca fria da suposta evolução, se olharmos para a língua inglesa, especialmente o ramo norte-americano, percebemos logo onde os brasileiros vão buscar as suas mais recentes palavras... esporte é uma corruptela directa da palavra sport. "Tchimie" (não sei qual a grafia brasileira correcta) é uma corruptela directa da palavra inglesa team. E contudo muitos clamam e reclamam que o português brasileiro é o mais evoluído, as mesmas pessoas que usam o fim do Ph na língua portuguesa como um dos pilares justificativos para essa alegada evolução trazida pelo seu adorado AO, e contudo esquecem-se ou preferem não ver, que o tão evoluído português brasileiro bebe de uma língua que ainda escreve photography! Não é um argumento, apenas uma piada cartoonesca!
7) Mas este, com o número da sorte por trás, é o argumento que mais me faz detestar este Acordo Ortográfico. Esqueçamos as falsas presunções evolutivas, a falta de coerência ou contributo científico na sua concepção, o que mais me irrita é o facto de ser feito sem a vontade da maioria do povo lusófono. O povo brasileiro não o desejou, a maioria do povo português não é a favor, e numa época em que pensamos ter liberdade de escrita, que nos querem convencer que o poder está nas ruas, tudo isto se fez sem considerar aquilo que é supremo na democracia: a vontade das maiorias. E porque é que foi feito? Porque interessava a uma pequena mas altamente organizada minoria de bolsos fundos e com os contactos certos nos governos de então. A estas minorias de fórum político-económico chama-se lobbies. O lobby em questão foi o das editoras brasileiras. Este é um lobby muito poderoso, organizado ao estilo norte-americano e este último argumento é a ponte perfeita para mudarmos de capítulo:


LOBBIES E A DEMOCRACIA EM RISCO

Nos Estados Unidos da América (EUA), a Meca dos Lobbies políticos, há hoje em dia um consenso geral entre a maioria do povo de que uma lei de Controlo de Armas era benéfica para o país. Contudo, o poderoso lobby das armas, ou melhor da indústria das armas, uma das maiores indústrias norte-americanas, detém vasto e enraizado poder no senado americano, conseguindo assim manter a actual situação de desregularização das armas, podendo o comum norte-americano ter uma RPG ou uma M16 debaixo da sua cama, ou mesmo bunkers cheios delas, ou ir à caça com armas feitas para guerra como metralhadoras mais pesadas, ou matar o vizinho case este decida entrar na área do seu jardim sem ser convidado. Os lobbies são a coisa mais claramente anti-democrática que existe, pois existem meramente para fazer governos, independentemente das suas ideias políticas, manterem o status quo elevado das respectivas indústrias que defendem e pelas quais são financiadas. Os lobbies trabalham nos bastidores do poder e a sua principal arma, ainda que cuidadosamente usada para não ser passível de ser provada em tribunal, é a corrupção.
Estas organizações começaram nos EUA, mas era de esperar que mais cedo ou mais tarde se espalhassem para outros países ditos livres (mas que por a acção velada destes grupos têm uma liberdade muito estreita). Ora, é algo natural que o Brasil seja dos primeiros contagiados, uma vez que seguem cada vez mais o modelo dos EUA, uma vez que são também uma federação de estados, de emergente poder capitalista. Nada tem a ver com o povo brasileiro em si, pois tal como o povo norte-americano, são meras vítimas da acção organizada e velada dos lobbies.
Eu aprendi a falar inglês a ver filmes norte-americanos vezes sem conta em criança. Quando cheguei ao ciclo (5º ano de escolaridade em Portugal) a minha primeira professora de inglês, contam-me os meus pais, não acreditava que eu não tivesse andado de antemão num instituto pois “sabe demasiado inglês para não ter andado lá”. A verdade é que não andei. A verdade é que aprendi a falar a língua porque era calão demais para ter de estar a ler legendas que, por uma leve dislexia de que sofro derivado ao facto de pela educação me terem transformado de esquerdino em destro, raramente à época conseguia ler a frase toda antes que ela desaparecesse do ecrã. Caso para dizer, a preguiça também gera coisas boas. Mas como efeito secundário, primariamente através de filmes e séries, e depois de telejornais e programas mais variados com o advento da Tv-cabo, cresci dentro da cultura norte-americana, quase tanto como da portuguesa. E uma coisa que aprendi, como cidadão interessado por política que sou, foi a detectar lobbies. Eis como se faz. Regra de ouro, não há coincidências. Vejamos então os acontecimentos mais recentes do AO:

- Graça Moura, aproveitando a sua nomeação para director do CCB, fez rolar a primeira pedra da ressurreição do movimento popular (isto é, do povo), removendo do CCB qualquer ferramenta ou resquício da nova ortografia portuguesa luso-brasileira (uma vez que não nos devemos esquecer que há países da CPLP que não assinaram o AO);
http://www.publico.pt/Cultura/graca-moura-da-ordem-aos-servicos-do-ccb-para-nao-aplicarem-o-acordo-ortografico-1532066
- o supramencionado movimento popular nada organizado, mas de diversas frentes, começa a dar vários cabeçalhos a jornais, como petições e abaixo-assinados com centenas de milhares de assinaturas, como universidades de letras que não tinham opinião formada sobre o AO, um jurista que tem em tribunal um processo em que acusa o AO de ser anti-constitucional, etc;
http://www.publico.pt/Cultura/movimento-de-oposicao-ao-acordo-ortografico-cresce-em-varias-frentes-1533714
- um jornal angolano manifestou-se contra o AO, dizendo que futuras relações entre Portugal e esse país podias estar em risco derivado à conivência dos governos portugueses e brasileiros neste ataque à língua mãe no seu todo;
http://www.publico.pt/Cultura/jornal-de-angola-rejeita-acordo-ortografico--1533026
- um cidadão português, único subscritor de uma petição com número mais que suficiente de assinaturas, conseguiu finalmente audiência com comissão parlamentar e/ou governamental afim de defender a realização dum referendo ao Acordo Ortográfico;
http://www.publico.pt/Cultura/um-cidadao-exige-o-referendo-1533716
- mais recentemente, silêncio...

... até há uns dias atrás. “The Empire Strikes Back” A TVI, até então o último canal aberto de TV em Portugal que ainda não tinha deixado a ortografia lusitana, sem nada dizer directamente, perguntou ao professor Marcelo Rebelo de Sousa (e na TVI o que o Marcelo diz, Deus prefaz no Céu e na Terra) se achava que se devia fazer um referendo ao acordo ortográfico e o prof M diz que, embora todos reconheçamos que o AO foi mal concebido e feito à revelia democrática do grosso dos povos cujos governos o assinaram, não devemos fazer o referendo porque estamos em crise e porque o governo anterior comprometeu Portugal ao AO. Ora bem, isto é próprio de uma pessoa que ou está demente ou está comprado por certos interesses. Quem no seu perfeito juízo diz que uma coisa está mal feita, cheia de erros e é anti-democrática, mas porque os anteriores (já não actuais) gestores políticos nos impuseram isso, devemos todos fazer valer esse compromisso por mais ruinoso que seja? Apenas alguém que tem algo a ganhar com isso ou está louco. E certo e sabido, Marcelo na Terra, Deus na TVI, os programas da TVI passaram de Directo a Direto da noite para o dia, em data de seu aniversário, justificados não numa nota editorial, mas pela sapiência imensa do Prof M, que “fala, fala, fala, mas não” faz ou diz nada em concreto que resolva qualquer dos problemas do nosso país. Disse ainda o ilustre falador que acha muito bem que se debata o assunto do AO, desde que nada se faça para o corrigir! Ainda bem que lhe pagam milhares, como acontece no caso das Rating Agencies que dizem que Portugal é lixo. Vocês acreditam nelas? Eu não. Nem nele.
Na quinta-feira passada, comprei o Público, que tem sido o resistente no meio de todos os jornais nacionais que perpetuaram ou logo se dispuseram a perpetuar este erro crasso na nossa língua. Li com assombro o editorial, que falava de novos grafismos no dia de aniversário. Li também, a contra gosto, alguns artigos que no final diziam “Este artigo vem escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico por expresso desejo do autor”, parafraseando. Quase que adivinho (espero eu erradamente) que o Lobby já chegou ao Público e que a celebração desse aniversário em Março deste ano, será a rendição do Público, adoptando o malfadado acordo. Se tal acontecer, considerando o aproveitamento igual de um aniversário da entidade para mudar de política editorial tentando não perder face, e sendo que as entidades supracitadas têm distintos donos, é lógico reconhecer um padrão de acção único para terminar a resistência com os que por último resistiam à mudança. Isso revela-nos um lobby. Espero mesmo estar enganado e que a mudança de grafismo não traga uma mudança de grafia. Assim, pelo menos terei um jornal que me dê prazer a ler.
Mas a “prova” consumada é que, na assembleia da república portuguesa, onde raramente alguém se entende, os 5 partidos que devem representar a esmagadora maioria votante portuguesa, por milagre achou em uníssono que este Aborto Ortográfico era uma brilhante ideia, falhando em representar a maioria da sua sociedade, que dele discorda, bem como os pareceres técnicos que ignorou! E mais, os partidos ousaram fazê-lo, sendo esta uma questão cultural e não política, sem se preocuparem em saber a opinião do povo, o principal criador e agente evolutivo último da cultura nacional, pelo modo mais democrático: o referendo nacional. Eu, que nunca elegi nenhum governo e sempre votei desde que tenho idade para isso, esperei que pelo menos os mais afastados do centro que é o PS(D) (vulgo Centrão), como o PCP e o CDS, respectivamente auto-nomeados protectores máximos da democracia constitucional e da cultura tradicional portuguesa, se manifestassem contra, mas nem esses. Mais uma pista de que um lobby poderoso agiu. A vontade da maioria, reforçada pelo saber técnico, ignorada pelos representantes políticos dessa vontade alegadamente soberana.
Talvez nos casos destes últimos partidos que mencionei acima, o lobby tê-los-á amedrontado com a possibilidade de poderem ver os seus eleitorados a achá-los xenófobos se não assinassem, ou mesmo retrógrados se não dissessem sim à novidade. Sim, medo. Medo foi o maior motivador e a maior razão para o AO. O medo que nos quiseram impor de que como os brasileiros são mais que nós e escrevem mais na net, o nosso português ia ser um mero dialecto no futuro, pois somos meros 10 milhões. Ora bolas, quando é que agir pelo medo surtiu algum efeito bom? Não temos de temer a cultura brasileira, nem a sua ortografia, temos de abraçá-la como cultura de nós descendente e orgulharmo-nos pelos avanços que têm feito por eles. Não temê-los, abraçá-los como parte que são da nossa história e cultura, como nós da deles, independentemente das nossas agora distintas culturas. A diversidade é boa, ou a natureza não teria feito tantas espécies diferentes de tronco comum.
Mas, hey, o país entretanto mudou de governo. Mudou de governo partindo do pressuposto de que o governo anterior levou o país perigosamente perto duma bancarrota, portanto para maus caminhos. Queríamos um novo rumo e um governo que emendasse e corrigisse os erros feitos pelos que vieram antes. Porque não então, professor Marcelo, corrigir este erro, que como o senhor disse, todos sabemos dos seus principais defeitos? Ele respondeu. Disse o ilustre senhor que são meras 4% das palavras portuguesas afectadas e que ficaria mal para Portugal mais uma vez não cumprir o AO (sim, porque isto não é de agora, o lobby teve tempo para se organizar, pois já antes foi 2 vezes derrotado). Mas dito assim até podem pensar que ele até tem razão... afinal o que é 4%, né? É DEMASIADO e eu explico porquê! Quando nos tiram mais 4% do nosso salário líquido, não gostamos. É demasiado. Quando nos aumentam mais 4% nos impostos dos produtos que comemos, que vestimos, dos combustíveis e das energias, até andamos de lado! É demasiado. E não temos, acreditem, maior riqueza que é o nosso património cultural conjunto de toda a CPLP que é por este AO tornado 4% menor apenas para servir interesses económicos ao invés dos desejos da maioria democrática. E nós sempre fomos pequenos e sempre vingámos cá em Portugal. Não temos de ter medo de ser pequenos, desde que a nossa alma nacional continue grande! Outrora conquistámos o mundo, hoje temos dos melhores cientistas e engenheiros no mundo, artistas então estão rapidamente a conquistar o seu lugar nos holofotes internacionais. O nosso problema não é sermos poucos, mas sim termos agentes políticos, comentadores políticos e um grosso dos média, que em bom português, só podem ser adjectivados de merdosos e “sem tomates”, ou cojones como diriam, por supuesto, nuestros hermanos. Se somos bons em algo, é em cultura e ciência, não em política. Não se limitem então a encolher os ombros aos 4%, ou no mínimo dos mínimos, exijam o referendo e que ganhe a maioria. Pois esses 4% de palavras afectadas, são apenas um símbolo, um aviso para dias futuros, de que a democracia, de que a ideia de que o futuro é escolhido por maiorias nos povos, é facilmente manobrável nos seus bastidores por agentes sem rosto ou nome, mas de bolsos fundos e contactos certeiramente posicionados em todas as bancadas políticas. O AO não só é uma afronta à língua portuguesa e ao seu futuro, mas também um ataque à democracia em si! Além de que, já por duas vezes a nossa nação assinou o dito acordo e não cumpriu... o mundo não desabou por causa disso. Não deixámos de ser amigos com o Brasil. Nenhum mal virá de dizermos NÃO uma vez mais, professor Marcelo. A História, ainda mais a História Recente, assim o comprova.
Esta é uma verdadeira batalha pela alma não só deste país, mas também pela alma do Brasil. A única maneira de os ajudarmos a eles, é ajudando-nos a nós e fazer a democracia valer mais que o cifrão! E quando eu digo alma, falo da cultura que se faz (ou fazia) nas ruas pelo povo (sem decreto político por trás), assim como o mero acto democrático no qual hoje (supostamente) baseamos o nosso modo de vida, ao qual chamamos liberdade. Eu não me importo de perder votações, meus amigos, é aquilo a que mais habituado estou, pois sempre votei e nunca elegi nenhum governo. Mas não abdico do meu direito de voto. E no dia em que nós o fizermos, porque “são apenas 4%” (já agora, olhem para os vossos teclados. Já repararam que o 4, de 4%, está exactamente na mesma tecla que o $, símbolo mais conhecido para dinheiro?:), a democracia está finalmente e insidiosamente transformada numa ilusão de liberdade, num mecanismo de controlo à la Matrix, para um punhado de poderosos dominarem as massas.
Acordem, Samurais lusófonos actuais, a vossa cultura precisa das vossas canetas, as espadas desta nova era! Somos os únicos de permeio entre os verdadeiros “ninjas” de hoje e o seu pérfido objectivo! Esses “ninjas”, mercenários altamente especializados que agem furtivamente para fazer valer o desejo de quem mais alto lhes paga, têm apenas como verdadeiros oponentes os N.I.N.J.A.’s (No Incomes, No Jobs or Accepts) como eu, talvez como vocês, mas não se não lutarmos. Vão vocês continuar a ser peões num jogo de xadrez de grandes lordes, ou ovelhas a serem conduzidas pelos pastores, ou vão finalmente lutar por um mundo melhor?
A nossa única vantagem é sermos mais, mas é preciso que não sejam só uns poucos a falar abertamente. Juntem-se a nós, que não estamos organizados, mas sim desconexos, que não lutamos escondidos mas em campo aberto, que não procuramos moldar a opinião pública mas sim apelar a que esta se mova em seu próprio proveito! Nós que lutamos pelos 4%, pelos coitados mudos dos p’s e c’s que abrem vogais, pelo trema ¨ que existia no Brasil até ao AO, e os acentos circunflexos, o vulgo chapéuzinho chinês, que existia em ambas as margens do Atlântico e agora fica em vias de extinção. E através de tudo isso, pela democracia.
Não se importam que a batalha possa já estar perdida, o samurai (aquele que serve algo maior que a si mesmo) luta por honra e porque no seu âmago sabe que o deve fazer. Para um samurai do século XVIII era a vida que estava sempre no fio da espada, nós arriscamos apenas a possibilidade de viver em verdadeira liberdade democrática na ponta da nossa caneta ou dedos. Coisa pouca? Não se a perdermos novamente. De qualquer forma, é preciso mais coragem para agir, do que para simplesmente encolher os ombros e deixar-se levar pela maré dominante. Se temos de perder, que percamos a lutar e não a encolhermo-nos! No filme, “The Last Samurai”, o último samurai diz “A via dos samurai já não é necessária” para o mundo moderno, e o Tom Cruise responde com perguntas:
- Necessary? What could be more necessary?
Despeço-me por ora, com um Bem Haja, dirigido a todos os que lerem isto, quer concordem comigo quer não, gozando-me dos H’s mudos que ainda não se lembraram de nos tirar, antes que venha o próximo AO e os descrimine também, pois coitadinhos são mudos e não podem falar por si mesmos!
bem Hajam,

Alexandre Fanha, confesso e actual N.I.N.J.A. integrante da geração À Rasca, assinante nº 127853 da petição cujo link vos deixo abaixo, signing off 4 now...

http://www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa/?utm_medium=email&utm_source=system&utm_campaign=Send%2Bto%2BFriend




Versão PDF deste post para quem quiser imprimir (cumprimentos do blog X-Number de um amigo meu):
http://www.x-number.com/blog/wp-content/uploads/2012/02/Desacordo-Ortográfico-e-Democracia.pdf

domingo, 20 de novembro de 2011

Humor

LOL :




Um pedaço de filme que nunca foi projectado num cinema como bem merecia:



Um video do Jim Carey a gozar com o Karate:
http://www.youtube.com/watch?v=T2u1GKJ3csE&feature=related


Vão ao google tradutor e ponham lá isto:
ノーッサ ノーッサ アッシン ボッセ メ マーッタ! アーイセエーウテーペゴ!アーイ,アーイセエーウテーペゴ
a seguir ponham para traduzir de Inglês para Japonês (Siim, de inglês para Japonês) e ouçam a tradução... é de morrer a rir!

Signing off... 4 now!

terça-feira, 2 de agosto de 2011

13 Assassinos

Na minha última entrada, fiz menção a um filme japonês em que o famigerado realizador Quentin Tarantino fez um cameo. E na primeira entrada deste blog disse que iria, eventualmente, falar de filmes japoneses e fazer críticas (esperançosamente construtivas) aos mesmos. Hoje estreio-me nessas andanças.
O filme em questão é muito recente e chama-se “Jûsan-nin no shikaku”, sendo que no Ocidente ficou conhecido pelo título 13 Assassinos. É em suma um filme de samurais, mais precisamente, do final da era dos Samurais. A sinopse no site Internet Movie Database (IMDb) diz apenas que “Um grupo de assassinos reúne-se, numa missão suicida, para matar um malvado senhor feudal”, e sobre a história em si eu próprio não irei revelar mais, preferindo focar-me noutros aspectos mais técnicos.
Em termos de enredo, este filme é bastante minimalista e ainda bem, uma vez que é um filme talvez um pouco longo demais e se tentasse ser demasiado complexo cansaria a sua audiência facilmente. O filme tem cerca de 2 horas e 20 minutos no total, sendo que a última hora de filme é a tão esperada, épica e massiva cena de batalha.
Como bom português que sou, vi este filme legendado e falado no idioma original, ou seja japonês. E aconselho a todos essa opção. O filme parecer-vos-á talvez mais real se em vez de estar a ouvir o inglês ou o português dobrados por cima, ouvirem o japonês, que embora a nós pareça quase alienígena pois é de uma matriz linguística completamente diferente das línguas de origem latina, acho que todos já nos habituamos àquele ritmo de conversa e intensidade de entrega de diálogo que apenas a língua japonesa é capaz. Tem no seu carácter implícito um dramatismo intenso, por vezes furioso, por vezes cómico, por vezes melancólico, que espelha bem aquilo que nós no Ocidente esperamos das convicções dum samurai.
Todos os elementos famosos do espírito do Samurai estão presentes. Existem samurais nos dois lados antagónicos da batalha e ambos guerreiam pelas suas convicções. Dum lado a convicção de que o lorde visado para morrer é mau até aos ossos e há uma necessidade de o matar, destruindo assim o mal que ele semeia. De facto, logo nos primeiros momentos do filme, vê-se que o tirano é maléfico ao ponto de não ter qualquer respeito por ninguém nem por nada, e ser um ser sádico e psicótico. As suas acções, tipicamente ofendendo a honra de vários daimyos (um daimyo é um samurai chefe de um clã) de clãs mais pequenos das formas mais desprezíveis e a despeito da vida humana, estão a trazer o país perigosamente à beira de uma guerra civil. Assim, alguns samurais decidem agir contra o seu senhor e em favor do que é melhor para o país. Esta é a quintessência do dilema do samurai. “Aquele que serve” deve eterna e completa lealdade ao seu senhor, mas se o seu senhor não a merece e é um péssimo governador, não deve o samurai, alimentado pelo povo que deve em troca proteger, cumprir o seu dever de proteger esse povo acima de todos? É de facto o filme que procura redimir a imagem dos samurais enquanto meros lordes feudais autoritários que trazem ao povo japonês actual más recordações históricas (algo que acontece hoje em dia, como já disse em prévios posts neste blog), procurando trazê-lo novamente ao estatuto heróico, como defensor da paz, mesmo sacrificando a vida e, aquilo que levam mais a sério, a honra. Traiem o seu mestre, fazendo o melhor para o povo, evitando uma guerra e acabando com um tirano.
Do outro lado, temos um samurai que assume o dever de proteger o seu senhor, mesmo sendo ele um desprezível e louco megalomaníaco psicótico. O bom neste tipo de filmes, é que nenhum dos dois samurais antagónicos são propriamente bons nem maus, pois ambos estão apenas a cumprir aquele que acham ser o seu dever. Um preferindo manter a honra a todo o custo, outro preferindo sacrificar a sua honra por um bem maior. E ainda que nos seja fácil imediatamente assumir a posição dos assassinos, que aos nossos olhos ocidentais e pragmáticos têm imediatamente as suas acções justificadas pelas acções do tirano que querem matar, temos de compreender que o outro samurai procura apenas cumprir os votos que fez, uma palavra que deu, de estar ao serviço de um homem, guardando a sua vida. Outro dos factores que contribui ao escolhermos o lado dos assassinos é o facto de eles serem 13 a lutarem contra 200. Naturalmente, o ser humano torce pelo mais fraco. É ainda subtil e levemente discutido aquilo a que eu chamo o factor “Vida num Sopro”. Ou seja, a ideia de que nos devemos entregar de corpo e alma àquilo que fazemos, às nossas convicções, lutando por elas sem medo da morte e de facto como se a procurássemos. E tendo consciência dessa proximidade da mística entidade ceifeira, todos os instantes de vida se tornam mais preciosos e mais belos. Neste filme, e é isto que o torna bom, a honra é apresentada como sendo um conceito completamente relativo. Depende sempre do conjunto de valores morais que o seu detentor possui.
No filme, para além do tirano, dos assassinos, e do exército que protege o tirano, existem ainda personagens motivadas pelo desejo de vingança que ajudam os assassinos a pôr em prática o seu plano.
A cena de batalha sinceramente gostei, embora não seja nada de novo. É feita sem grandes efeitos especiais, para além do muito sangue que corre. Deu-se importância no decorrer da história à preparação dos samurais assassinos para essa mesma batalha, procurando formular uma estratégia que lhes permita vencer contra probabilidades tão negativas, seguindo preceitos da Arte da Guerra de Sun Tsu, bem conhecida no mundo feudal oriental. Escolha de local, elemento de surpresa, emboscadas, utilização de todas as vantagens. Só houve um pormenor que não gostei e que é muito parecido com algo que se passou no filme 300. Tem a ver com o não uso ou pouco uso de arqueiros e mais não direi. Mas é uma batalha credível a deste filme, com 13 guerreiros tipo forças especiais a limpar 200 soldados “carne para canhão”.
É, como não podia deixar de ser, um filme para adultos, com cenas de carnificina, violação, assassinatos, muito sangue. Para além de ser para adultos, é para adultos que se revejam ou sejam fãs deste género de cinema.
Em suma, se são fãs de filmes de samurais, especialmente do clássico Seven Samurai, de 1954, vão gostar muito deste filme. Eu pessoalmente já não via um tão bom no tópico desde “O último Samurai”, sendo que o "13 Assassinos" talvez por ser completamente japonês e não uma produção de Hollywood me pareceu tão mais realista. A batalha final, no que me diz respeito, está muito melhor e mais convincente dum ponto de vista estratégico, embora em termos de números a relação é a mesma. Isto é, um dos exércitos tem um número de efectivos que é uma ordem de grandeza superior ao outro. Em termos de valores e do espírito do samurai, estão igualmente bem representados face ao "O Último Samurai", sem contudo serem narrados e compreendidos aos olhos dum ocidental, mas explicitados pelas acções das personagens.
Podem encontrar muita mais informação sobre o filme, incluindo trailer, trivia e poster, em:


http://www.imdb.com/title/tt1436045/

Num assunto relacionado, há uma série de anime chamada Shigurui, infelizmente inacabada, que é muito ao género deste filme e que se baseia nos acontecimentos que levaram ao primeiro combate dum torneio histórico e famoso de esgrima com samurais do mesmo período histórico que este filme. É uma série de animação igualmente violenta, com personagens muito ambíguas, algumas também insanas e psicóticas. Se gostarem do filme, procurem ver a série. Eu pessoalmente, não me farto de samurais. ( Mais info em: http://www.imdb.com/title/tt1233119/ )




Alex,
Signing off… 4 now!

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Semelhanças...

Numa relação de amizade, as diferenças são tão importantes como as semelhanças, mas são as semelhanças que permitem a geração de empatia que permite a amizade verdadeira, a amizade que vê as diferenças como uma mais valia e não algo de negativo.




Eis algumas das semelhanças entre o povo japonês e o povo português.




Ambos os países foram forjados na idade média, em sociedades feudais, cujos simbolos de poder eram os lordes guerreiros:










































Os cineastas de ambas as nações parecem gostar de Tarantino, ao ponto de fazerem filmes em que os diálogos são entregues ao público em inglês, com fortes sotaques nativos dos países de origem. "Arte de Roubar" é um claro tributo ao género cinematográfico de Quentin Tarantino (um dos meus realizadores preferidos, já agora!!). Já Sukiyaki Western Django é um western passado no japão, tributo aos western da personagem Django dos EAU, mas com a participação cameo do próprio Tarantino.





(podem ver-se os posters de ambos os filmes abaixo)









Confesso, contudo, que a indústria cinematógrafa japonesa está muito mais instuticionalizada e financiada que a portuguesa. Têm melhores efeitos especiais e estão muito abertos a tocar o sobrenatural, os filmes de acção e a ficção científica. Em Portugal, infelizmente temos pouco disso. Quanto a efeitos especiais os tiros nunca soam ou parecem verossímeis, ficção científica não há (excepto talvez alguma adaptação dum livro de Saramago), e filmes de terror só me consigo lembrar dum que é a incrível curta "I'll see you in my dreams", que é um filme de baixo orçamento mas com efeitos especiais que superam os filmes de mais orçamento portugueses. Já somos relativamente bons a fazer filmes de época e/ou históricos, mas temos de aprimorar as cenas de acção e pancada, os efeitos especiais... enfim, basta de pensar que só o guião faz o filme. É preciso criar a noção de que o cinema não é mera arte, mas dever ser sim arte ao serviço do entretenimento!




E aparentemente, ambas as culturas têm um gosto por porcelana de cariz erótico! A famosa louça das Caldas da Rainha, tem uma homologa japonesa, como demonstram as figuras abaixo...































Não há muito a dizer aí! XD



São apenas algumas das semelhanças, das mais conhecidas e óbvias. E por agora terá de chegar, mais tarde falaremos das diferenças...




Sayonara...

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Somente Um Será Homem Imortal

O termo "sushi", que nos dias correntes apenas é usado para designar este famoso prato japonês, quis em tempos antigos dizer, literalmente, "é azedo". Tradicionalmente, sushi é uma combinação de arroz e peixe fermentados, preservados com sal, mediante um processo oriundo do Sudoeste Asiático. Algo que atesta bem à sua origem histórica. Na verdade, o processo de fermentação é tal que quando se adiciona vinagre oriundo da fermentação de arroz, este desfaz o peixe em aminoácidos. O resultado directo deste processo chama-se umami. Existem 5 tipos de sushi e o sushi que comemos hoje em dia é muito diferente do sushi original. Para além disso, existem ainda diferenças entre o sushi oriental e o sushi ocidental.
A forma mais antiga de Sushi, chamada narezushi, é muito parecida com o umami. Foi no período Muromachi ( de 1336 a 1573, D.C.) que o vinagre começou a ser adicionado à mistura para melhorar o sabor e a preservação da comida. O vinagre acentuava a acidez do arroz e aumentava o seu "tempo de prateleira", diminuindo cada vez mais o tempo necessário de fermentação até esta ser abandonada por completo. No séculos seguintes, surgiu uma nova versão intitulada Oshi-zushi (pois foi inventada em Osaka). Nessa nova versãa, o arroz e os alimentos marítimos eram amalgamados por pressão entre moldes de madeira, em geral, bambu.

Pelo meio do século XVIII, esta forma de sushi chegou a Edo (antigo nome de Tóquio). A versão actual do sushi foi invenção de Hanaya Yohei, no final do período Edo. O próprio cozinheiro era de Edo, ou pelo menos lá inventou a sua forma do prato, e como tal o nome original desta forma de sushi ficou Edomae zushi (Edomae= baía de Edo). O nome deveu-se ao facto do peixe com que se confeccionava o prato na altura ser proveniente da baía de Edo. Esta nova forma de sushi foi na realidade uma forma de fastfood do seu tempo pois era feita sem uso de fermentação (logo rapidamente) e podia ser comida com as mãos à esquina ou num teatro!
Existem variadíssimos tipos de Sushi, cerca de 5 ou 6, não contando com a diferença entre a confecção no ocidente e no oriente.


Contudo, existem riscos a comer sushi. Qual risco? O de não se arrotar no fim da refeição e o nosso anfitrião achar-se ofendido, pensando-nos insatisfeito com a sua comida, sacar da Katana ancestral da sua família e dar-no uma morte mais honrosa que a que nós queriamos? ;D
O risco é na saúde física do consumidor. O atum, um dos ingredientes utilizados, devido a estar no topo da cadeia alimentar no seu habitat, tem altíssimas quantidades de mercúrio. Assim, o abuso do sushi pode levar a envenenamento por mercúrio. Sim, o mesmo metal dos termómetros. Cool, hã? LOL
Como o peixe vem cru, é também possível apanhar uma infecção bacterial, embora nos dias de hoje as estatísticas são contra tal ocorrência (cerca de 40 pessoas por ano nos USA).
Há ainda formas do sushi que utilizam peixes como o Fugu (http://en.wikipedia.org/wiki/Fugu) que tem no seu interior orgãos carregadinhos de veneno neuronal, pelo que tais pratos só devem ser confeccionados por chefes devidamente treinados e certificados no Japão.
Agora, meus caros samurais, se continuam sem medo e ainda não provaram, têm uma excelente oportunidade de o fazer no Museu do Oriente, diz 29 de Setembro.


P.S.: Se se estão a perguntar o porquê do título, não, não é porque os imortais do Clã Macleod usavam uma espada samurai que o escolhi... Olhem com atenção e lembrem-se enquanto o fazem do que fala este post! ;D Sayonara!

domingo, 18 de abril de 2010

"Aqueles que servem" - Parte II

Os dias do Samurai parecem, verdadeiramente, ter perecido.
As armas de fogo inevitavelmente tornaram as armas brancas obsoletas, tal como os canhões tornaram as fortalezas uma coisa do passado. E contudo, cada vez mais os exércitos mais avançados do mundo retornam ao passado, equipando os seus soldados com facalhões multiusos, elmos e coletes de kevlar, joelheiras, caneleiras, etc… e treinando os seus soldados nas mais variadas formas de artes marciais, enquanto criam bunkers debaixo da terra ou abrigados no interior de montanhas! Será que os guerreiros do futuro não serão mais parecidos com os samurais que com os soldados que sobre eles descarregaram cartuchos de metralhadora?
Durante a Segunda Guerra Mundial, a figura do Samurai foi usada pelo Governo Imperial para revitalizar o nacionalismo japonês, orientando-o numa via marcial e de vida ao serviço do Imperador e como tal do Império. Os soldados americanos, durante a Segunda Grande Guerra (2ªGG), temeram os ataques banzai dos soldados japoneses, durante os quais estes últimos carregavam ferozmente brandindo a sua katana violentamente contra os primeiros, como se acreditassem possuir capacidades místicas. Tal medo levou a que a seguir à 2ªGG, os americanos impusessem uma proibição contra a posse e fabrico de espadas samurai. Também confiscaram e destruíram cerca de 5 milhões destas espadas e quase que conseguiram fazer desaparecer a arte antiga do forjar destas lâminas. Mas os japoneses conseguiram esconder muitas katanas em boas condições e em 1953 foi levantada a proibição destas armas. Os artesãos fizeram renascer a sua arte, sendo impulsionados pelos bolsos de coleccionadores ricos. Ainda hoje, nos subúrbios de Tóquio, pode-se ouvir o martelar dos Katanakaji, criando estas lâminas supremas segundo os preceitos tradicionais da sua arte.
É também certo que os herdeiros dos samurais ocupavam, já em 1970, 21% dos cargos dirigentes do Japão.
Os teatros kabuki são potenciados pelas histórias épicas dos samurais desde o século XVII e há ainda reconstituições de grandes batalhas da época dos samurais. Para além disso, as artes marciais dos samurais ainda hoje são praticadas com afinco no Japão, mesmo em tempo de paz.

Um bom exemplo destas artes marciais é o Kendo, uma luta de espadas que é praticada utilizando espadas de bambu e protecções corporais.
Contudo, o samurai é o protector do seu senhor e sem guerra torna-se num instrumento sem utilidade… ou será que não? Como nos ensina a Teoria da Evolução, os que sobrevivem são os que se adaptam. Foi esse o caminho dos samurais. Os seus preceitos de estratégia, honra, respeito e etiqueta foram adaptados aos tempos modernos. Alguns tornaram-se polícias e militares, até mesmo bombeiros (pode-se ver à direita um capacete de bombeiro japonês, que se assemelha a um elmo samurai)
. Outros dirigentes de grandes empresas e políticos ao serviço do seu país. Como é bem vinculado no filme “Rising Sun”, “buisiness is war!”. E se os negócios são guerra então são da província do samurai.
Mas para muitos o tempo dos samurais já lá vai e ainda bem. Com a adopção do pacifismo no pós Segunda Grande Guerra, o mero uso da palavra samurai pode causar mal-estar entre japoneses. Para esses japoneses, o samurai é um símbolo de morte e guerra e preferem assim usar a outra palavra para guerreiro que é bushi.
Ainda assim, por muito que os japoneses possam não querer, o samurai (seja a figura em si seja a ideia mitológica da figura, ou mesmo as ideias cinematográficas da mesma) ainda vive no colectivo cultural do Japão e na minha opinião é provavelmente a sua imagem de marca, tendo sempre talvez um ou dois ninjas na sua sombra. Essa imagem foi criada pelo cinema, pelas mangas e consequentes animes que foram criadas e exportadas do Japão para o Mundo, na segunda metade do século XX. O samurai influenciou até a Guerra das Estrelas, onde os que mantêm a paz usam quimonos e têm como arma predilecta uma espada, onde o Darth Vader é uma armadura de samurai futuresca, um samurai ao serviço dum imperador.

Desta forma, e considerando também os escritos e poemas dos samurais que sobreviveram e ainda hoje são estudados e lidos, acho que podemos seguramente dizer que, embora a sua época tenha passado, os samurais ainda andam por aí muito embora possam usar canetas em vez de espadas!


A minha interpretação do código de Samurai – Capítulo 2

A visão do código sobre o Dever Filial do samurai é bastante fria e calculista, e, como tal, é essencialmente perfeita do ponto de vista lógico. Diz então o código que o samurai deve ter conhecimento do que é correcto em todos os assuntos ou situações, pois tal é exigido no bushido. Alguém que descuide dos seus deveres de filho é alguém que não reconhece que deve a sua existência aos seus pais ou de que é carne da carne dos seus pais, logo não tem uma boa consciência da relação causa/efeito, e como tal não terá capacidade de discernir o que é correcto ou não. Como tal, tal pessoa dificilmente poderá ser alguma vez considerada um samurai.
Segundo o código, há duas situações a considerar:

-1ª- os pais são carinhosos e responsáveis para com os seus filhos, providenciando-lhes todas as oportunidades que podem aos seus filhos, ministrando-lhes uma correcta educação, sem deixar que nada lhes falte e, quando falecerem, deixarem aos filhos tudo o que possuíam em vida. Quando tal acontece é fácil para o filho cuidar dos pais quando estes precisam e tal não é extraordinário nem digno de elogio. É apenas o cumprimento do seu dever filial, pois afinal se quando uma pessoa não da família nos ajuda com verdadeira amizade e em boa-fé, sentimo-nos dispostos a proceder amavelmente e fazemos coisas por ela mesmo que sejam contrárias aos nossos interesses, como é possível não termos a mesma atitude pelo nosso próprio sangue?
-2ª- Mas quando os pais são ausentes e mesquinhos, velhos irresponsáveis assim tornados pela idade e pela perda do tino, quando passam os restantes anos da sua vida a reclamar a propriedade do lar ou a fazer chantagem emocional ou quando querem sempre mais para eles sem olhar ao estado económico da família, e que dizem ainda mal da sua família às pessoas que encontram na rua, até mesmo esses pais devem ser respeitados e bem tratados. Deve-se moldar o seu mau comportamento, amainar as dores da sua senilidade e mesmo sentir tristeza por estas os afligirem, sem nunca dar-lhes conhecimento de contrariedade da nossa parte. Dar o máximo por pais assim é possuir verdadeira piedade filial.

É aqui que entra a minha visão das coisas, pois na minha opinião há mais duas situações! Uma delas é o meio-termo entre as duas situações anteriores, que aconteceu e acontece entre os meus pais e os meus avós. Nesse aspecto, devo dizer, creio que os meus pais (daquilo que eu pude presenciar e testemunhar) são autênticos samurais, tanto no que diz respeito ao dever filial como enquanto pais.
A outra e última situação são os pais tirânicos. Sejam eles demasiado ausentes ou autoritários, violentos ou pedófilos, pais desses na minha opinião não merecem quaisquer considerações filiais, pois também eles não cumpriram com os seus deveres paternais. Tais casos estão omitidos do código e achei que este meu parecer do código poderia ficar mais completo. É certo que há situações e situações, pode haver pais autoritários ou ausentes que anos mais tarde vejam o erro das suas acções e procurem fazer emendas. Acho que aí cabe aos filhos julgá-los e decidirem se merecem ou não essa 2ª oportunidade, embora o povo diga que “toda a gente merece uma segunda oportunidade”.

O código diz ainda que um senhor só pode confiar numa pessoa que seja leal para com a família, pois quem assim não for é provável que abandone o serviço do seu senhor assim que sobre este se abata maus tempos, de pobreza ou fraqueza. Poderá até trai-lo para um inimigo num momento de grande necessidade! Ao invés disso, alguém que é leal para com os seus, terá um perfeito entendimento do que é a lealdade e lutará pelo seu senhor até na mais negra das horas… talvez, especialmente, na mais negra das horas. Um ditado popular japonês é citado no código e citá-lo-ei igualmente:
“Procura vassalo leal entre as pessoas filiais!”

segunda-feira, 29 de março de 2010

"Aqueles que servem" - Parte I

Das brumas da História surge-nos o Samurai, que literalmente significa "aquele que serve".





O primeiro registo histórico dos samurais aparece no século X. No seu início, não passavam de guarda-costas, treinados e equipados por senhores ricos, a quem deviam a sua lealdade. Eram mercenários, recrutados de entre as classes nobres de baixa categoria, nas fileiras das quais não faltavam jovens saudáveis e bem alimentados e cheios de ambição.








O próprio imperador fez-se rodear de tais guardas imperiais, quando a Corte fracassou em recrutar um exército de entre as massas dos camponeses e pequenos proprietários de terra. E os nobres seguiram-lhe o exemplo. Contudo, o próprio imperador do país do Sol nascente, foi eclipsado pelo crescente poder e multiplicação de clãs de samurais. Não demorou muito tempo até dois clãs surgirem com mais poder que os restantes, que se aliavam a um ou outro lado. A guerra civil acabou por se dar, com o Imperador já impotente para a impedir. Nessa guerra civil foi forjada a realidade do Japão Medieval, quando os samurais subiram definitivamente ao poder, chefiados pela figura que então surgiu, o Xogum.


Foi em 1185 que Yorimoto, líder do clã Minamoto, vencedor da guerra civil supra-mencionada, consolidou o seu poder e fez da aldeia piscatória de Kamakura a nova capital do Japão, tornando-se no primeiro Xogum (pintura retrato à direita). Muitos historiadores assumem que foi deveras a partir desse momento que a Era do Samurai começou.








O Xogum era o chefe militar supremo e governou o Japão enquanto ditador, embora o seu poder estivesse constantemente a ser minado pelas guerras, intrigas e quezílias entre os restantes clãs de samurai. Foi durante o Xogunato que a classe guerreira, que englobava apenas 6% de toda a população japonesa da época, se tornou dominante, prosperando num sistema feudal. Os samurais davam a sua lealdade a um lorde ou senhor, ao qual protegiam e auxiliavam a aumentar o seu poder e território. Os samurais eram, em retorno, recompensados com mais honras, riquezas e poder para si mesmos.



Quando as guerras dos clãs eclodiram, os samurais não encaravam os seus oponentes como inimigos malignos e odiados, mas sim como adversários respeitados. Havia entre eles um código, muito sui generis, próximo do cavalheirismo romanesco. Assim, para encontrarem um adversário à altura, os samurais cavalgavam até à linha da frente, declaravam a sua linhagem e os feitos da mesma. Terminada a bravata, os arqueiros disparavam e depois o cavaleiro carregava sobre as linhas inimigas.


Quando o samurai encontrava a vergonha e desonra da derrota (e a esta sobrevivia), procedia ao ritual do seppuku, no qual se esventrava a si mesmo. Para um samurai a desonra é muito pior que a morte. Por ser um ritual deveras doloroso, os samurais começaram a permitir que no seppuku, embora o guerreiro tivesse de se auto-esventrar, podia ter o auxílio de um outro samurai, que lhe cortaria a cabeça após a auto-mutilação, poupando-o ao agonizante sofrimento.
















Uma das maneiras que os samurais tinham para crescer em glória e favor junto do seu senhor, era oferendar a este último as cabeças dos inimigos dele. A recompensa por tal prenda podia ser na forma de uma promoção a um posto hierárquico mais alto, uma maquia em ouro ou prata, ou mesmo as terras e fortaleza dos inimigos conquistados.



Originalmente, a arma predilecta do samurai era o arco. Mas a ferocidade, glória e pura adrenalina do combato corpo a corpo, do duelo mano a mano, elevou a espada ao pedestal de instrumento de morte preferido. Este novo encontrado favoritismo pela espada surgiu em paralelo com a subida ao poder de um novo Xogunato, sob o governo do clã Ashikaga. Existem então vários tipos de espadas de samurai, sendo as mais usadas a katana, a wakizashi e as kodashi. A Katana é uma espada longa, com 60 cm ou mais de lâmina, enquanto as Wakizashi (quer dizer "inserção lateral") eram espadas mais curtas que as Kodachi [(Ko = pequena, tachi = espada), que eram por sua vez mais pequenas que a Katana, nunca passando dos 59 cm], mais conceptualizadas para o uso dentro de casa. A maior diferença entre as kodachi e as wakizashi é a filosofia da sua concepção. As kodachi são feitas para usar independentemente de outras armas, enquanto que as wakizashi são feitas de forma a se adaptarem ao peso do seu utilizador e para complementarem o uso da katana. Contudo, por ser mais longa que uma wakizashi e menor que uma katana, a kodachi é tido como mais rápida que uma katana, embora propocione ataques mais fracos, sendo apelidada de "espada escudo". As kodachi por serem menores que as katanas, podiam ser usadas por comerciantes, no período Edo. Ao conjunto da Katana e Wakizashi, chama-se Daishô. Muitos peritos actuais dizem que a espada de samurai é a espada perfeita. Os artesãos que fabricam estas lâminas espectaculares, que praticamente toda a gente do mundo ocidental reconhece de vista, são denominados em japonês de Katanakaji, que quer dizer "fabricante de espadas longas".
Na figura abaixo pode ver-se um conjunto que mostra os três tipos de espada.



As batalhas deixaram de se travar apenas em campos abertos, para se batalharem cada vez mais em regiões montanhosas onde os grandes senhores erguiam as suas fortalezas. À medida que os exércitos dos samurais cresciam em número, o cavalheirismo no campo de batalha e toda a bravata inicial foi progressivamente esmorecendo até desaparecer, ao mesmo tempo que o número de guerreiros apeados superava o de cavaleiros.



Mas o samurai era mais que um guerreiro. Os daimyo(ou "grandes nomes") recebiam nas suas fortalezas pensadores e filósofos, actores e pintores, enfim artistas e intelectuais de todos os géneros. Praticavam afincadamente a caligrafia o tocar do alaúde e faziam arranjos florais. Escreveram muitos poemas dedicados à exaltação e observação das flores de cerejeira, em cuja vida curta se reviam. Como a flor da cerejeira abandona a árvore no apogeu da sua beleza, assim também o samurai sonhava com uma morte gloriosa no campo de batalha, na plenitude das suas forças, enfrentando hipóteses esmagadoramente negativas. Os samurais dedicavam-se ainda a dominar a arte da cerimónia do chá. Foram monges budistas zen que transmitiram aos senhores Ashikaga rituais a seguir para tomar o chá. O clã do Xogum começou então a usar esses rituais de forma generalizada. O oitavo Xogum Ashikaga criou um ritual para tomar chá mais simples e espiritual. Era tomado numa pequena divisão onde cabia apenas um punhado de pessoas. Talvez tenha sido o ambiente de reflexão e tranquilidade que a confecção e beberagem do chá num ambiente pequeno, onde as espadas eram proíbidas, que tenha cativado os samurais. Era uma cerimónia espiritual que os samurais adoptaram para se libertar das tensões acumuladas das suas vidas intensas. Serviam-se desse ritual para relaxar, meditar e aproveitar o momento presente.


Foi também durante o governo do clã Ashikaga, entre o início do século XIV ao final do século XVI, que as guerras entre os clãs atingiram o seu apogeu, movidas pela ganância e pelo desejo e ambição de governar o Japão. Mas nessa altura deixou de haver um modelo de governo central, enquanto cerca de vinte clãs se digladiavam pelo controlo do reino, durante um período de 100 anos a que os japoneses chamam Sengoku Jidai, ou Era do País em Guerra. Nesta época, o teatro de operações marciais alterou-se significativamente. Os exércitos começaram a comportar milhares de samurais, muitas vezes reforçados por fileiras de ashigaru(pés descalços) armados de arcabuzes e recrutadas à força de entre os camponeses. Estas armas de fogo foram introduzidas no Japão por mercadores portugueses (mea culpa;) e em 30 anos os japoneses tinham os exércitos com maior número de armas de fogo no mundo. A imagem à direita ilustra esse facto histórico. Durante estas guerras de inter-clãs, sempre que morria um grande senhor, os seus samurais conheciam a vergonha, perdiam o grau de samurai e a honra. A partir daí tinham duas escolhas: fazer seppuku ou enfrentar a vergonha tornando-se num ronin (homens das ondas), basicamente samurais sem senhor. Alguns ronin chegaram mesmo a percorrer as ruas de cara ocultada por máscaras e tocando flauta, pedindo esmolas de porta em porta. Contudo, 47 ronin ficaram para sempre imortalizados na história do Japão quando conseguiram penetrar na fortaleza do senhor rival que ordenara a morte do seu daimyo, vingaram essa morte e depois recorreram ao seppuku, recuperando a sua honra. Até tiveram direito a ser imortalizados pela sétima arte: http://www.imdb.com/title/tt0055850/



Em 1616, com o início da dinastia de Xoguns Tokugawa, a guerra civil terminou. O governo de Tokugawa, sediado na cidade de Edo, implementou uma estrutura social estratificada em quatro classes, sendo a dos samurais a mais alta na hierárquia. O comportamento das pessoas dessa época ficou assim determinado pela classe à qual pertenciam. Foi através desta engenharia social que os Tokugawa mantiveram a paz.



A classe mais alta a seguir à dos samurais era a dos camponeses, que basicamente compravam a sua importância com 60 % das suas colheitas, impostos que pagavam aos senhores feudais. De seguida, estavam os artesãos, que faziam as roupas, as armas e o sake que os samurais usavam e consumiam, respectivamente. Na classe mais baixa, e menosprezada pelos samurais, surgiam os comerciantes.


Nesta altura de paz, os samurais pouco tinham que fazer. Recebiam uma pensão anual em arroz, medida em koku( http://pt.wikipedia.org/wiki/Koku ), que era o seu pagamento para levarem uma vida honesta, manterem-se saudáveis e aptos de corpo e mente, as suas lâminas afiadas prontas a saltarem em defesa do Xogum se tal fosse necessário. O que se esperava dessa vida dita honesta era que se mantivessem afastados de formas de entretenimento geradas por mercadores e como tal tidas como decadentes: entre estas encontravam-se as danças de gueixas e as peças de teatro kabuki. Mas o que é certo é que durante a paz, os samurais de mais baixa categoria começaram a frequentar bordéis e as casas de chá de Quioto e Edo, o que foi visto pelos intelectuais da época como um comportamento decadente tanto do ponto de vista económico como do moral.


Embora fosse fácil manter as espadas afiadas, durante a paz as capacidades físicas e psicológicas definhavam e, alarmados com a possibilidade dos samurais se tornarem fracos, alguns mestres conceberam códigos de comportamento e ética que ao serem seguidos manteriam os samurais tão afiados como as suas armas. No período Edo, o ensino das artes marciais foi difundido através do bushido (a via do guerreiro), tradição que ainda hoje impregna a sociedade japonesa. Em 1716, um samurai de clã Saga, de seu nome Yamamoto Tsunemoto, publicou o Hagakure, que renovava o bushido e realçava a mentalidade marcial que definhava na paz da era Tokugawa. Disse então esse samurai que "Se formos confrontados com as duas alternativas, viver ou morrer, devemos escolher a morte sem vacilar."

Mas mesmo com estas tentativas de revitalização, o crepúsculo dos samurais aproximava-se inevitavelmente e chegou, como o mais inesperado dos ataques, de surpresa. À medida que o custo de vida aumentou no Japão, os samurais foram ultrapassados em riqueza e poder pela classe que mais desprezavam, a dos comerciantes. O seu desprezo ancestral para com esta classe social parece quase profético. Subitamente, a sua pensão anual de arroz, na maioria das vezes convertida em dinheiro, foi desvalorizando regularmente. as famílias de daimyo ficaram falidas, pois os ganhos da venda de arroz não se comparavam já aos lucros duma loja de quimonos. Assim, os samurais foram forçados a tornar-se instrutores de artes marciais, polícias e contabilistas, mesmo artesãos (faziam guarda-chuvas, gaiolas ou mobílias) para terem os suplementos monetários que necessitavam.



Mas o golpe final aos samurais veio por uma conjugação de acções externas em combinação com uma mudança de rumo e de poder e reestruturação social no Japão. Quando os navios negros (em japonês Kurofune) do comodoro americano Matthew Perry chegaram ao Japão, ficou clara a inabilidade do Xogum de defender o Japão duma invasão estrangeira. Essa revelação foi reiterada pela rápida adesão a pactos com os estrangeiros por parte do ditador militar japonês. Um conjunto de samurais descontentes e ainda poderosos, juntamente com anti-estrangeiros e inimigos dos Tokugawa, uniram-se sob o estandarte do há muito hibernado imperador. Esta força revoltosa foi apoiada por mercadores influentes e camponeses descontentes com a inactividade do regime vigente de então. No final da década de 1860, estas forças unidas removeram o Xogum do poder, restituindo o comando do Japão ao Imperador, de seu nome Meiji, que formou um governo constituido por muitos samurais de educação superior.
A imagem abaixo ilustra a chegada dos navios negros ao Japão:


Mas a verdade é que o Imperador saiu melhor que a encomenda aos samurais que o apoiaram neste derradeiro golpe de estado, pois ao invés de restabelecer um regime conservador devolvendo o esplendor e poder aos samurais, este aboliu o sistema de classes, dissolveu os sistemas feudais e proíbiu o uso de espada por parte de samurais. Os samurais que apoiaram o Imperador acharam-se traídos e houve inúmeras revoltas, mas os modernamente equipados exércitos do governo Meiji conseguiram abafar todas estas derradeiras tentativas dos samurais para retomar o seu estatuto perdido. Na última batalha, samurais envergando as tradicionais armaduras e armados de arcos e espada, liderados por Saigo Takamori, carregaram sobre o exército imperial, acabando por perecer sob o poder de fogo de metralhadoras.


Assim terminou a Era do Samurai, mas o misticismo da sua via nunca deixou de influenciar os costumes da sociedade japonesa e o imaginário do mundo inteiro até mesmo no século XXI.




A minha interpretação do código do Samurai - Capítulo I




Neste capítulo, falarei no que diz respeito ao que o código do samurai exige da educação e formação de um samurai.


O código diz que uma vez que o samurai pertence à classe superior a cujo encargo está a administração, então o samurai deve ter uma boa educação e um alargado saber sobre tudo o que o rodeia. Mas, nos tempos da guerra civil, os samurais iam para o campo de batalha com a idade de 15 ou 16 anos, sendo que forçosamente começavam a exercitar a sua perícia militar pelos 12 ou 13 anos. Assim, faltando-lhes o tempo para praticarem a caligrafia ou lerem livros, os samurais dessa época dedicavam-se por inteiro ao estudo da guerra e à via do guerreiro, pondo de parte a educação cultural, sendo na sua maioria analfabetos. O código diz que tal é compreensível pois não se devia nem à falta de empenho dos pais na educação das novas gerações nem na falta de inclinação para os estudos, mas sim devido à necessidade de então.


Contudo, a partir do momento em que há paz, os conhecimentos marciais não precisam de preceder aos restantes saberes, nem precisam de ser fomentados desde tão tenra idade, pelo que é esperado que a partir dos 7 ou 8 anos os samurais comecem a ler. O código do samurai manda ler os Quatro Livros, os Cinco Clássicos e os Sete Textos (essencialmente tratados de filosofia budista e confucionista). Contudo, e mais uma vez trazendo este código aos dias de hoje, é uma boa ideia que as crianças comecem a ler cedo, mesmo que leiam livros de banda-desenhada. Eu li bd até aos dezasseis anos e só quando descobri a ficção científica mais pesada é que deixei os meus Astérix, Mickeys, Tio Patinhas, X-Men e Batman, entre outros para começar a ler Tolkien, Ray Bradbury, Salman Rushdie, A E Van Vogt, Filipe Faria, Humberto Eco, etc... Toda e qualquer leitura que nos ensine algo, que nos permita viajar por fantasias ou realidades que não a nossa e que por meio dessa viagem estimulem a nossa imaginção e creatividade, a nossa capacidade de sonhar e mesmo de pensar estrategicamente, que nos ensine novos pontos de vista, torna-nos (como diriam os Jedi de Lucas) parte de "um mundo muito maior". A fim de uma pessoa ser um cidadão em toda a plenitude da palavra é preciso estar inteirado do maior número de pontos de vista diferentes afim de poder então formar o seu próprio ponto de vista e poder ajudar construtivamente a sociedade na qual está inserido. A cultura é maior arma de todos os tempos, "saber..." será sempre "... poder." Para podermos votar em consciência, não nos podemos deixar levar pela conversa deste ou daquele político, deste ou daquele comentador, deste ou daquele telejornal, devemos procurar toda a informação disponível, ouvi-los a todos e depois pensar estrategicamente e para tal temos de aprender a pensar por nós próprios. Não há nada que este mundo precise mais que pensadores independentes e livres e esses são criados na forja da cultura, através da leitura e da busca pelo saber. Na altura dos samurais, estes precisavam de ter cultura pois eram governantes... hoje em dia, todos somos governantes... esse é o significado da democracia, o poder está no povo. Mas como qualquer poder, se o povo não tem a maturidade ou a cultura suficiente para tomar as suas próprias decisões sozinho, então haverá sempre os que controlarão a multidão com "panus et circus" como diria um romano.


É dito também que não se pode culpar as crianças pela falta de cultura ou de amor a esta. A responsabilidade de suscitar esse interesse pela cultura reside nos pais. Há um samurai em cada um de nós, enquanto cidadãos todos temos o dever, assim como o direito, de escolhermos o rumo do nosso país. Até mesmo o poder de melhorar aquele pedacinho do mundo em que vivemos. Mas para tal, é preciso cultura e erradicar a ignorância ou as falsas sabedorias. Pensem, leiam, aprendam, questionem, ensinem as vossas mentes a funcionar de forma independente do que o que a maioria diz. Quando todos o fizermos e tivermos uma sociedade de pessoas que pensam de forma livre e independente, por si mesmas, ao invés duma multidão apática então... teremos um país de samurais onde não serviremos senhores feudais (ou os políticos que a nossa apatia colectiva engorda), apenas nos serviremos uns aos outros, enquanto iguais em direitos e deveres.