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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Otori, São Valentim e Ginkgo?


Eu estou a gostar muito d’«A Saga dos Otori» (originalmente chamada “Tales of the Otori”), criada pela escritora Lian Hearn, ao ponto de ter finalmente decidido fazer uma crítica aos 4 de 5 livros que já li da supracitada obra, sendo que desde que no Natal me foi oferendado a prequela desta história (o quinto e último livro a ser publicado) não só li a prequela como reli os volumes 1 e 2 da trilogia original e já iniciei o terceiro.
A saga passa-se no Japão Medieval dos Samurai, mas não no Japão Histórico. Antes a acção decorre num Japão alternativo e imaginário, em tudo igual ao Histórico excepto nos intervenientes e nalguma da geografia do país.
Temos portanto um país dividido em feudos, que existem em constante guerra uns com os outros perante um fraco imperador que é descrito como desprovido de poder, arrecadado algures numa capital longínqua. De facto, o Japão foi assim durante imensos anos, nos dias do Xogunato. Lidamos também com um Japão já infectado por missionários cristãos, gerando assim uma nova minoria no Japão, prontamente a ser perseguida por uma classe guerreira temerosa de pessoas que não os considera como seus superiores mas antes como seu iguais (atitude explicada no livro pelo versículo bíblico "todos somos criados iguais", parafraseio). Assim, ao longo de todos os livros desta história, vamos tendo vislumbres de tópicos ou questões que ainda hoje atormentam ou, porque não?, assombram a Humanidade: guerras de classes, perseguição religiosa, direitos das mulheres, os abusos dos poderosos, a austeridade servida às massas através de impostos cada vez maiores... parece-vos familiar?
Tudo isto surge no decorrer da constante luta de uma facção do clã Otori, liderada inicialmente por Otori Shigeru, justo herdeiro do clã, afastado do poder graças a traições e maquinações políticas, por parte dos seus tios. 
A prequela, intitulada originalmente “Heaven’s Net is Wide”, que em Portugal foi chamada “O Fio do Destino” (vá-se lá saber porquê?!?), conta-nos essencialmente como é que Shigeru perdeu o governo do seu clã, ou melhor, como não chegou a herdá-lo. Mas também nos mostra como o seu carácter foi forjado, derivado a uma educação espectacular, digna de um rei, temperada com um sentido de responsabilidade pelo e proximidade para com o seu povo. Ao contrário dos seus tios, que lhe usurpam o poder do clã, ele não vê os seus súbditos como posses, mas antes como pessoas cuja segurança deve ser mantida e a quem a justiça e a prosperidade são devidas. Ou pelo menos, a consciência que cabe ao governante o dever de fazer o seu melhor para proporcionar condições para que o povo goze desses três direitos. São também falados os seus amores e desamores, as suas frustrações e pequenas vitórias. Mas grande parte do livro é o relato da vida de um homem destinado a herdar um grande poder que se tem de adaptar a novas circunstâncias da sua vida, ocultando a sua força com uma máscara de fraqueza, enquanto muito pacientemente aguarda o momento de exercer a sua vingança e recuperar o plano que tinha em jovem para a bem-aventurança do seu povo.
E é assim que chegamos a Otori Takeo, herdeiro de Shigeru, e principal personagem da trilogia e da sequela (o 4º livro da Saga, aquele que ainda não li), e que se torna alvo de todas as esperanças de êxito de Shigeru, bem como a sua ferramenta, ou melhor dizendo arma, para atingir o seu objectivo. É de facto só na trilogia que conhecemos o destino de Shigeru e da sua amada e aliada de pleno direito, a senhora de Maruyama Naomi (um outro feudo), mas também é quando conhecemos (e tão bem quanto Shigeru ou Takeo) Kaede, a herdeira de Shirakawa (ainda um outro feudo, cujo clã governante é familiar de Maruyama) e futura amada de Takeo. É através desta personagem principalmente que vemos a perspectiva feminina de uma feminista que procura sobreviver num mundo dominado por machistas.
Estes são livros muito românticos, mas que não contêm romances propriamente cor-de-rosa. As paixões e amores desta história são sempre forçados a enfrentar tudo e todos para existirem, sendo por vezes forçados a existirem apenas em segredo. A força do desejo sexual puro, a líbido, não é colocada de parte como num filme da Disney, mas antes usada para tornar mais realista a vida destas personagens. A própria sociedade e a sua organização e costumes surge como um obstáculo, que impede os poderosos de fazerem o que lhes dá na real gana no que diz respeito ao amor. Os casamentos estão sempre a ser combinados por pessoas que não os noivos, em prole desta aliança ou daquela necessidade de aplacar uma ofensa para com um aliado em riscos de se tornar inimigo. É essencialmente o que acontece na série de tv “Jogo dos Tronos” e nos livros que a inspiram. Uma outra semelhança que “A Saga dos Otori” tem com o universo de RR Martin, é que Hearn também não tem medo de sacrificar uma personagem com quem acabou de gerar muita empatia perante o leitor. Assim, o leitor é forçado a sentir o medo das personagens quando elas arriscam algo ou quando se decidem a afrontar a sociedade que os impede de ser felizes ou de atingirem os seus objectivos.
No que diz respeito à ligação entre a trilogia original (os volumes 1, 2 e 3) e a prequela, esta está mais bem feita que a ligação entre a trilogia original da Guerra das Estrelas e a trilogia mais moderna dessa mesma saga. Os mais pequenos pormenores estão atados com uma precisão admirável e sempre muito subtilmente. De tal forma, que é até melhor começar a ler “A Saga dos Otori” pelo o último dos seus livros a ser publicado, a prequela. É que ao contrário da Guerra das Estrelas, não há nenhum momento de “Luke, I am your father”, para ser estragado.
Além das várias classes sociais do Japão Medieval e das minorias como os barakumin e os conversos cristãos (neste universo intitulados de Ocultos), o livro recebe ainda uma outra dimensão que é o mundo hermético da Tribo, um conjunto de famílias que se organizou como uma rede de espiões e assassinos ao serviço de quem lhes pagar mais, sem quaisquer lealdade excepto à própria Tribo. Essencialmente, ninjas.
A autora decidiu-se por dar um toque de espiritualidade e fantástico a uma, de resto, história muito realista. Esse toque materializa-se nalguns destes ninjas que são dotados de poderes que rivalizariam os de um Jedi e na existência de profetas e profecias entre os Ocultos, cujo único poder é a sua total convicção e entrega à causa dos ensinamentos do seu Deus.
O facto de Otori Takeo ter uma ascendência que une os Ocultos, os Samurai, e os Ninja, numa mesma pessoa, tornam-no o ponto óbvio de confluência da trama. Ele é o herdeiro adoptivo de Shigeru, o mais popular dos nobres que conseguiu sempre manter a seu lado o apoio das classes mais baixas; é também alguém cuja mãe pertencia aos ocultos, uma minoria que Shigeru e Naomi (a senhora de Maruyama) decidiram proteger, e foi então criado entre eles até quase à maioridade; e herdou de seu pai os mais altos poderes da Tribo, organização que o cobiça e exige a sua lealdade sob ameaça de morte. Em perigo constante tanto da Tribo, como dos senhores feudais, é nos seus poucos aliados nobres mas essencialmente nas classes baixas que Takeo terá de procurar a sua base de poder.
Enquanto isso, Kaede, herdeira do único feudo que permite as mulheres governarem, está ela também em risco constante, daqueles que desejam usurpar o seu dote e daqueles que ela insulta meramente por recusar pedidos de casamento.

Em suma, temos uma buffet de tópicos, tratados pela perspectiva de personagens com as quais facilmente se empatiza, todo o romantismo da Era Medieval mas num contexto em que os nobres, mesmo os mais pérfidos ou maquiavélicos, são cultos (ao contrário da nossa era medieval europeia, em que a classe governante era maioritariamente inculta e só sabia mesmo “andar à porrada”). É um rodizio que se torna coerente por uma escrita que tem tanto de bela como de fluida e simples. O facto de haver algum ateísmo no meio de tantas personagens místicas ou espirituais, também me aliciou na leitura destes livros. Na vida social, todos fingem ter algum tipo de credo, particularmente budista ou shintoísta. Contudo, algumas das personagens, quando falam com o seu círculo interno de amigos ou com “os seus botões”, dão-se à liberdade de afirmações de descrença ou cepticismo, como demonstra o diálogo escrito no scan seguinte:
Claro que é sempre um bónus para quem, como eu, vibra com os folclore e mitos medievais japoneses, esta história estar cravejada de ninjas e samurai. A única pena que tenho é que seja dado tão pouca atenção aos lutadores sumo, sendo que até agora só apareceu uma referência a uma escola de lutadores, mas sem grande profundidade ou interesse para a história central. É apenas uma episódio de passagem. Sendo que a cerimónia pouco conhecida por detrás do Sumo, no Japão Medieval, tive pena que a autora não a usasse mais. Um dia destes abordo o tema aqui.
E se bem que se o Japão Medieval aqui apresentado é imaginário em pessoas e locais, o espírito japonês está extremamente bem representado nestes livros. O valor da honra, a desonra da derrota e o ter de lhe sobreviver, o choque de culturas onde o suicídio é hábito com outras em que este é proíbido, mas também os ensinamentos da arte da guerra (não declarados mas subtilmente escritos das entrelinhas das acções dos actores da história), o ateísmo e o choque de religiões, as classes e as suas ligações, etc…
A tradutora Isabel Nunes está de parabéns. Acho que nos quatro livros, até agora, detectei apenas uma gralha. Em vez de caractér, aparece carácter. Os títulos é que estão um bocado mal traduzidos, mas não sei se foi culpa dela ou da editora. Já indiquei o título da prequela, eis os restantes:
- Livro 1: Across the Nightingale Floor (tradução literal: Através do Chão do Rouxinol) passa a “A Tribo dos Mágicos”;
- Livro 2: Grass for is Pillow (t.l.: Erva para a Almofada Dele), eu colocaria algo como “Erva como Almofada”, mas a tradução foi “O Desafio do Guerreiro” (alguém deve ter visto o Braveheart nessa semana!!);
- Livro3: Brilliance of the Moon (t.l.: Luminosidade da Lua) passou a “As Cinco Batalhas”;
- Finalmente a Sequela, que eu ainda não li: The Harsh Cry of the Heron (t.l.: O Rude Grito da Garça”) passou a “O Voo da Garça”.
Eu até concordo que alguns dos títulos portugueses são melhores que os originais, mas detesto quando o marketing se sobrepõe ao autor, como me parece ser o caso. Não esqueçamos que estes são apenas subtítulos, pois o título é “A Saga dos Otori”.
Seja como for, como o último dos livros oriunda de 2007, facilmente se encontram sem acordo ortográfico!!
Note-se, aludindo às imagens directamente abaixo e acima, que para algumas mulheres, aquelas a quem eu enquanto homem daria preferência de um ponto de vista psicológico e cultural, dão extrema importância à língua (full pun intended):
Assim sendo e como se avizinha o dia de St Valentim (mais um santo desencaminhado pelos mestres do marketing), este é também um belo presente para um(a) namorado(a) que goste de ler e até um presente que, caso quem oferece também goste de ler, pode ser algo que ambos os membros do casal possam desfrutar conjuntamente. Eu sou da opinião que tanto mais romântico é o presente do dia dos namorados quanto possa ser uma prenda que se desfrute a dois.
Por falar no dia dos namorados, eu escrevi no ano passado um post sobre isso, a afirmar o quão era um dia não de romantismo mas de comércio, e qual não é o meu espanto quando este ano revisitei esse meu post e reparei que tenho lá um único comentário e que é precisamente um link para uma oferta comercial relacionada com o Dia dos Namorados. É tão bom quando nos provam correctos! :D Se quiserem ver é só seguirem este link:




Quero ainda acrescentar mais uma prova, if you will, que faz o meu caso acerca da natureza comercial do Dia dos Namorados, ou de São Valentim se preferirem. Uma ex-colega de trabalho minha colocou, por piada, a imagem acima no facebook dela. Ela é solteira e achou por bem brincar com a cena. Embora não sirva apenas para esse dia, vários países desenvolveram de facto um nicho de mercado no aluguer de namorados ou namoradas. Acontece na China (Link aqui), no Brasil (Link aqui), com uma sucursal em Portugal trazida para cá por um alumnae do Instituto Superior Técnico, a minha alma matter, (Link aqui), e finalmente no Japão, como demonstra o vídeo abaixo.
Agora já ninguém precisa de se sentir socialmente inferior por não ter a seu lado a sua alma gémea no dia de São Valentim ou noutra ocasião social qualquer, desde que claro tenha dinheiro! Felizmente, este mundo ainda não está perdido e outra amiga "facebookiana" publicou uma outra imagem dedicada àqueles que são, não só desavergonhada mas também, orgulhosamente solteiros.
Mudando de assunto drasticamente, quando estava a ler a prequela, descobri lá um termo de origem chinesa que desconhecia: Ginkgo. Fui pesquisar e percebi que era uma árvore. Segundo a wikipédia a palavra quer dizer em chinês “damasco prateado”. Não liguei mais na altura. Uns dias depois, surge-me este artigo (Link aqui) no news feed do facebook precisamente sobre as Ginkgo. Não teria ligado ao artigo, não tivesse reconhecido o nome e teria ficado a perder gravemente com isso. É fácil então de perceber o que levou o Jung a acreditar no seu Sincronismo! A vida tem destas coisas
As Ginkgo parecem ser as mais antigas árvores existentes. No artigo acima linkado, Roger Cohn, seu autor, começa por afimar:
“Reverenciadas pela sua beleza e longevidade, as ginkgo são fósseis vivos, imutáveis durante mais de 200 milhões de anos.”
Segue-se então uma entrevista concedida à Yale Environment 360 pelo botânico Peter Crane, que diz ter escrito uma biografia destas árvores raras e estranhamente únicas, e sobre a qual eu aqui deixo um resumo.
Muitos milhares de moradores citadinos conhecerão a ginkgo por ser uma árvore de rua, com elegantes folhas em forma de leque ou abano, frutos malcheirosos, e nozes desejadas pelas suas qualidades medicinais, mas Peter Crane vê esta árvore como algo mais que isso. Para ele é uma raridade na natureza devido ao facto de ser uma espécie única de árvore sem qualquer parente vivo, um fóssil vivo nas suas palavras que privou (isto é, coexistiu) com dinossauros e que não mudou em 200 milhões de anos de existência, mas também um exemplo perfeito de como a Humanidade pode ajudar uma espécie a sobreviver.
Sendo reitor da Escola de Yale para Estudos da Floresta e do Ambiente, Crane tem vindo a escrever uma biografia desta árvore ao longo dos milénios. Ginkgo: The Tree That Time Forgot, é o título do seu novo livro que conta como esta árvore se espalhou pelo Mundo.
O botânico afirma que, como só existem 5 grupos de plantas de semente e a Ginkgo compõe um deles, é impossível que alguém que persiga um sério interesse em plantas não se cruze com ela algures nos seus estudos. Por outro lado, acrescenta, que uma vez que se veja a folha tão característica desta árvore, nunca mais se esquece. É muito estranho que a ginkgo não tenha quaisquer parentes vivos de fácil distinção. Tal não acontece com as cerca de 350000 espécies actualmente vivas. Crane procurou explicitar no seu livro que de facto já existiram várias formas de parentes da ginkgo, mas que todas essas árvores aparentadas à ginkgo se tornaram extintas e só esta última chegou aos dias de hoje. Num breve à parte, parece-me a mim que esta árvore é o equivalente vegetal do crocodilo, que também oriunda dos tempos dos dinossauros e subsiste nos dias de hoje, embora ameaçado pelo Homem.
Foi através do registo fóssil que os cientistas como Crane e também um seu colega chinês paleobotânico chamado Zhou Zhiyan, chegaram há conclusão que a ginkgo não se alterou muito em 200 milhões de anos de existência. Zhiyan terá descoberto algumas diferenças na forma como as sementes estaria agarradas à planta via os fósseis, mas não era nada de marcante. Já Peter Crane afirma que nos fósseis que ele estudou, com cerca de 65 milhões de anos, não há quaisquer diferenças. Os fósseis mais antigos das ginkgo têm pouco mais de 200 milhões de anos.

Quanto ao terrível cheiro dos seus frutos, que Crane diz ser semelhante ao do vómito, julga-se que se trata de um agente dispersivo, isto é, uma forma de atrair animais que venham comer o fruto e depois larguem as suas sementes com as fezes noutro local, dispersando as ginkgo pela Terra. Deduz-se isso porque há histórias de cães a comerem frutos desta árvore, ficando depois indispostos. O botânico deixa então a pergunta no ar, as ginkgo ainda vivem, mas será que os animais que as ajudavam a dispersar-se ainda subsistem ou já estarão extintos?
 
O que parece ser certo é que estas árvores ainda retêm a capacidade de se dispersar pela Terra, portanto ainda terão algum agente dispersor. Há relatos de castores e esquilos a comerem frutos das ginkgo, o que segundo Crane não é de admirar, pois após ter passado o mau cheiro, que é produzido pela parte externa das sementes, as sementes em si são atraentes (assemelham-se a um pistachio) e são muito nutritivas e suculentas. Estas sementes costumam cair à terra no final do Outono, no caso norte-americano, portanto em finais de Novembro, inícios de Dezembro. E a única salvação do cheiro é o facto do solo congelar, avança o botânico. Contudo, apenas as sementes das ginkgo femininas cheiram mal, pelo que hoje em dia as ginkgo masculinas é que são mais cultivadas. As lojas botânicas normalmente têm é sementes masculinas (imagem acima deste parágrafo).
A melhor estimativa de desde há quanto tempo o homem cultiva a ginkgo é desde há 1000 anos, na China. Deduz-se isso porque há registos de cultivo de outras plantas na China há mais tempo, mas a ginkgo só surge nos registos a partir de há mil anos atrás. Supõe-se também que tal se deva ao facto de a ginkgo ser uma árvore rara desde sempre. Deverá ter sido primeiro notado pelas suas bolotas e também devido a elas terá começado a ser cultivada, durante muito tempo só na China, só chegando no século XIV ou XV, pelas rotas comerciais, à Coreia e ao Japão. O primeiro ocidental a encontrar-se com uma ginkgo de que há registo, que tenha escrito sobre isso, Engelbert Kaempfer (sobre o qual vale a pena uma visita à sua página da wikipédia) que estava com a Companhia das Índias Orientais Holandesa no seu posto comercial no sul do Japão em 1692 (muito tempo depois de Portugal ter perdido o monopólio do comércio com o Japão, uma história para outro dia). Ao retornar à Europa, ao escrever sobre a sua estadia no Oriente, ele foi o primeiro a usar a palavra ginkgo e também a apresentar uma ilustração da árvore. Podemos ver abaixo um facsimile de uma das suas ilustrações. É provável, indica-nos Crane, que só umas décadas depois a árvore tenha sido introduzida na Europa, pelos 1730-50.
Quanto às suas propriedades e usos medicinais, das quais goza a reputação de auxiliar ou aumentar a memória, o botânico de Yale diz-nos que há duas vertentes, uma ocidental que se foca em extractos das folhas, e outra tradicional chinesa que se centra nas propriedades das sementes. No Ocidente e segundo Crane, têm sido feitos estudos sobre se os derivados das folhas de ginkgo realmente produzem algum efeito positivo medicinal, mas até agora os resultados têm sido algo que ambíguos, nem provando nem negando tais propriedades.
Quanto à ginkgo em si, Crane não sabe exactamente o que a torna tão resistente. O que lhe parece verdade é que as pestes que atingem outras árvores parecem desgostar das folhas da ginkgo que e embora as suas raízes não recebam muito oxigénio nas ruas de cidades, mas sim muito sal e sabe-se lá mais o quê, estas árvores parecem aguentar-se bem perante tais privações e ataques químicos. Tal faz com que seja uma planta muito usada, por todo o lado, como árvore de rua. Encontra-se por toda a Tóquio, por toda a Seoul e por toda a Manhattan, para dar alguns exemplos. Mas note-se que também em Lisboa temos árvores ginkgo, como exemplificado neste link! O livro de Crane também aprofunda a temática das árvores num contexto urbanístico, alegando por exemplo o efeito psicológico que surge de ter árvores de ambos os lados da estrada, criando a ilusão da estrada ser mais estreita e levando os condutores a andar mais devagar, ou a mera produção de sombra que diminui o calor na cidade, podendo prolongar a passagem, doutra forma rápida, das pessoas por uma zona de comércio, ajudando à actividade económica por exemplo. Mas também fala noutros efeitos menos utilitários, como simplesmente tornar mais agradáveis os passeios citadinos, permitindo aos cidadãos, especialmente aos mais novos, todos os efeitos positivos de andar na rua potenciados por uma vasta sombra nos dias solarengos de Verão. No livro, Crane conta uma história de uma moradora do Harlem que tem uma ginkgo à frente da sua casa e que encontra sempre pessoas em redor da árvore independentemente do cheiro. Crane explica que tal é natural de pessoas cujo passado cultural seja familiar com as ginkgo. É comum, diz ele, pessoas da Coreia, da China ou do Japão procurarem uma ginkgo no Outono e apanharem as suas sementes, na maioria das vezes para consumo próprio e não para venda. Muitas vezes nem esperam que as sementes caíam da árvore e antes promovem a sua queda com o auxílio de uma vara.
Contudo, para uma pequena proporção da população em geral, as bolotas e sementes da ginkgo são tóxicas, não sendo então aconselhável comer muitas destas sementes. Ainda que concedendo isso, Crane afirma que o número de pessoas a que isso acontece é mesmo muito pequeno e que ele já comeu sementes de ginkgo em diversas ocasiões sem lhe causarem mal algum.


Peter Crane afirma ainda no seu livro, que o cultivo mesmo fora do habitat natural das ginkgo, embora a manutenção da existência da espécie neste último também seja importante, é uma óptima ferramenta para garantir a sobrevivência desta planta rara e tão única. O botânico confessa que esta árvore, devido à sua intemporalidade face à espécie humana, o ajudou a pensar para além do “aqui e agora”. Ele acrescenta também que a ginkgo é para ele um equivalente temporal aos esboços espaciais da Via Láctea com uma seta a apontar para um pontinho que diz “Estás aqui”, recordando-nos de quão pequenos somos, quão curta é a nossa passagem pelo Universo do qual não somos o centro e no qual existem coisas bem mais antigas que nós. Um pensamento fácil para um ateu, mas extremamente confuso para um crente dos monoteísmos, acrescento eu.
Devido a um trabalho que o reitor fez sobre um fóssil de Ginkgo, um colega seu teve a gentileza de dar o seu nome a uma espécie de ginkgo: Ginkgo Cranei. Crane contudo permanece céptico de que isso dure, inseguro de que as diferenças subtis que o estudo revelou sobre a espécie fossilizada na verdade venham a ser inexistentes, denotando-se que realmente só existe uma espécie de ginkgo e que o nome do fóssil reverta para o simples Ginkgo Biloba. No fim das contas, quem não gostava de ter um bocadinho que fosse de imortalidade, mesmo que apenas (ou especialmente por isso mesmo!!) simbólica?
Na página da wikipédia portuguesa sobre a Ginkgo, é também indicado que a planta só começou a suscitar verdadeira curiosidade no Ocidente depois de ter sido constatado que esta árvore sobreviveu à radiação da bomba nuclear de Hiroshima. Além disso, aprofunda no uso farmacêutico dado aos derivados desta planta. A página em inglês da mesma enciclopédia virtual detém ainda mais informação, para quem esteja interessado em pesquisar mais.
Despeço-me por agora, deixando-vos com uma memória de tempos idos, dum costume brasileiro intitulado de "cartão de paquera", mas a que eu chamaria "o amor espressado em forma burocrática". Bons romances!

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Os Meus Versículos Satânicos: mAO90ismo




Em vésperas do Dia da Língua Portuguesa, que ao que parece será dia 5 de Maio, que este ano, também é dia da Mãe, venho falar-vos das semelhanças em pensamento entre o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) e uma qualquer Religião. Porquê religião? É simples. Depois de tanto argumento lógico e racional, ou mesmo técnico, contra o AO90, e mesmo perante a evidência de que entre 60% a 70% dos portugueses estão em desacordo com o alegado acordo, é preciso ter muita fé nos dogmas do AO90 para continuar a insistir na sua validade (seja de que perspectiva for) e persistir no erro da sua implementação! Apenas uma fé cega e dogmática pode levar a tamanha arrogância e inconsciência. Qual o seu deus? Dou-vos uma pista: “In God we trust”. Dou o nome de mAO90ismo (leia-se mau-noventa-ismo) a esta nova e interesseira crendice, que como sempre muitos, mesmo entre os cultos e inteligentes, ilude. Tal é também próprio das religiões.
Para os que não me lêem regularmente, uma pequena introdução aos prós e contras deste acordo é imperativa. Deixo aqui também, caso queiram ler ou reler, os meus posts prévios sobre o Acordês:





Todos os argumentos a favor são facilmente destruídos (como procurarei demonstrar de seguida e de forma resumida):

- há que uniformizar o Português para o podermos usar como língua de trabalho internacional e obter esse reconhecimento das Nações Unidas (NU). Falso, o inglês é efectivamente língua de trabalho internacional e nunca teve de se sujeitar a isso. Por outro lado, é facilmente provado que o AO90 não uniformiza a língua, apenas a torna mais pequena, mais restringida e mais ambígua. Reparem nestes dois exemplos que os brasileiros continuarão, segundo o AO90, a escrever como nós escrevíamos antes do AO90 mas nós temos que remover consoantes alegadamente mudas… isto é uniformizar?
Por outro lado, o inglês impõe-se como língua de trabalho internacional essencialmente por duas razões: é fácil de aprender e é a língua de algumas das maiores potências e economias do mundo industrializado;

- temos de tornar a língua mais ágil e fácil, aproximando a escrita da oralidade. Impossível em termos práticos, visto que só em Portugal há uma enorme disparidade de pronúncias e sotaques, quanto mais em todos os PALOPs. Por outro lado, o AO90 vem afastar-nos desse objectivo. Sendo que os brasileiros fecham vogais enquanto nós abrimos (exampli gratia: yóga em Portugal, yôga no Brasil), em geral, é impossível termos a mesma acentuação nas palavras que os nossos irmãos de Além Mar, se o objectivo for mesmo aproximar a oralidade da escrita. Quanto à questão de o AO90 aproximar a pronúncia da escrita, reparem neste excerto, proveniente desta fonte (http://networkedblogs.com/KhcrK):
«Assim, não é por má vontade ou deficiência que um português lerá “ef”tivo” quando lhe põem à frente a palavra “efetivo”, palavra que um brasileiro lerá como “êfétjivo”. Isto é simples, muito simples, e qualquer criança percebe. Já“efectivo” obriga um português, pela presença do C antes do T, a abrir o E mesmo que o C não se “ouça” na fala. Não é uma regra arbitrária: é, além do respeito pela etimologia, pela raiz da palavra (do latim ‘effectívu’, ou “activo que produz”), o respeito pelo sistema vocálico próprio do português europeu.»
Quanto a tornar a língua mais ágil e fácil de aprender, a língua inglesa deve ser a língua mais fácil de aprender como segunda língua e tem os “p” e “c” na sua ortografia. Quando nós também os tínhamos, eu ainda tenho, era mais fácil dominarmos a ortografia inglesa. Pelos vistos, a mania da modernice apressada e às cegas já começa a dar problemas, como constata aqui um professor que diz que os alunos já começam a escrever em inglês sem “c” e “p”, id est projet em vez de Project.
Não só não nos deu facilidade em aprender a nossa própria língua, pois fica ambígua e não há regras que não estejam cheias de excepções absurdas neste AO90, ou seja não há lógica para as crianças seguirem, como ainda conseguiu tirar-nos a nossa facilidade em migrar para a ortografia inglesa cuja raiz etimológica é muito próxima da nossa.

- precisamos que a língua evolua e tal evolução só se pode fazer via acordos ortográficos. Falso, até agora a língua estava a evoluir a 8 frentes, sendo que agora está em ampla repressão (ou quiçá mesmo regressão) evolutiva. A evolução, comprova-se pela mera observação da natureza, beneficia da diversidade e não da falta dela. O Acordo Ortográfico não é Selecção Natural (que seria a evolução ortográfica por força da oral) nem Artificial (a influência de outras línguas e termos novos no vocabulário da língua, como linkar ou googlelar), é uma adaptação para as Letras das absurdas leis da Eugenia. Se olharmos para os exemplos históricos, tipo o latim, percebemos que a evolução natural duma língua falada por povos diferentes é desaparecer, convertendo-se nos seus muitos descendentes. Exempli gratia, o Latim, que originou o inglês, o francês, o português, o castelhano, o italiano, o romeno, etc… e desapareceu enquanto língua viva;


- o argumento dos números: os brasileiros são às centenas de milhões pelo que temos de nos juntarmos a eles ou cair. Falso, por vários motivos: 1) o povo brasileiro também não quer este acordo para nada, nem o pediu ou foi chamado a debater sobre a sua implementação:
TAMBÉM HÁ REVOLTA PURA CONTRA O ACORDO ORTOGRÁFICO:

TAMBÉM SE DÚVIDA DAS MOTIVAÇÕES OCULTAS POR DETRÁS DESTE ACORDO:
E FINALMENTE TAMBÉM HÁ QUEM ACHE QUE NADA SE GANHA COM O AO90, QUE É UMA MÁ IDEIA, QUE SABE OS ARGUMENTOS CONTRA, MAS QUE POR ACHAR QUE NADA HÁ A FAZER BAIXA OS BRAÇOS E NÃO LHE RESISTE:
Só mais uma, desta volta só áudio (link abaixo):
E LÁ PELA ÁFRICA TAMBÉM NÃO ESTÃO MUITO PELOS AJUSTES COM O AO90, NÃO SENHOR:


Bem como cá, desd’as ruas até aos poleiros políticos se resiste, como ilustra a seguinte imagem:

E o debate, o confronto, é mantido vivo:
Cidadãos da Língua Portuguesa sentem-se assaltados pelo Acordo Ortográfico(link)
É preciso, portanto, diferenciar a vontade dos povos da vontade dos políticos que os representam e que, por vezes, quando têm essa possibilidade, procuram usar essa ilusão de números para fazer pender a balança da argumentação a seu favor. É como a Igreja Católica dizer que tem N milhões de fiéis, mas quantos desses foram baptizados à nascença sem terem voto na matéria, fazem parte das estatísticas da Igreja, e/ou nunca acreditaram ou abandonaram a igreja? Os meus pais contam-se entre eles e como eles outros tantos…

2) mesmo que fossemos só 10 milhões a escrever o Português Europeu, este manter-se-ia sempre válido, desde que os bananas que nos lideram assim o permitissem; 3) o AO90 não nos obriga à ortografia brasileira, tendo antes mutilado tanto a ortografia brasileira como a portuguesa; 4) ainda recentemente postei aqui um link em que o governo chinês pediu expressamente a Portugal, professores de Português. Se formos nós a ensiná-los, lá se vão os números dos brasileiros;
(também argumentado no post nº 3 linkado acima)



- o argumento de que se formos contra o AO90, somos retrógrados reaccionários da direita conservadora. Ideia sem dúvida popularizada por ter sido o Governo de José Sócrates (cujo o partido finge ser de esquerda e não de centro) a levar a resolução ao plenário nacional, e potenciada pela acérrima defesa do Bloco de Esquerda deste tão patético projecto… sim, o mesmo bando (este último) que quer desfazer as forças armadas nacionais… enfin! Estranho, contudo, que o único partido na Assembleia da República (AR) Portuguesa de teor ideológico revolucionário, o PCP, se tenha abstido na sua totalidade quando o AO90 foi aprovado na AR, por ter sérias dúvidas do que neste último era advogado (como demonstra a imagem acima), e que mantém a ortografia portuguesa europeia pré-AO90 no seu jornal, o Avante. Quanto a sermos retrógrados, nós que não nos abstemos nem somos neutros mas que atacamos o AO90 em consciência e com paixão, como disse Saramago (deste senhor mais será dito, já lá iremos), nem tudo o que é novidade é necessariamente bom e devemos suspeitar sempre das modernices, até que seja factualmente comprovado o seu maior valor face ao que já havia;


- os acordos ortográficos nunca foram discutidos com a população em geral, com já ouvi dizer em defesa do AO90 quando se diz que este é anti-democrático. Belo dogma, argumento da treta e, como diz um colega meu, “que desculpa de merda, pá”. Se formos a pensar assim, então também as mulheres nunca viriam a votar, ainda haveria escravatura legal e bem-vista pela sociedade, etc… Já para não falar que era normal antigamente não ser discutido um acordo ortográfico na praça pública, visto que uma vasta maioria de pessoas era analfabeta e nada teria a contribuir para o debate. O objectivo deve ser aprimorar a democracia. Para tal, aumenta-se a taxa de cidadãos letrados e dá-se ouvidos à sua opinião nos tópicos importantes. Especialmente quando se trata da sua própria cultura!



Os argumentos contra são simples:

- a língua pertence ao povo que a fala e escreve. A sua evolução deriva da cultura desse próprio povo. Se mais que um povo fala a dada altura uma mesma língua, é apenas natural que essa língua evolua por caminhos distintos mediante as culturas que reflecte. Eu pessoalmente não tenho nenhum problema com o Português deixar de ser a 5ª ou a 7ª língua mais falada, e que passe a haver um Brasileiro e/ou um Angolano, seus descendentes. Na plenitude dos tempos, se a espécie humana não se auto-destruir entretanto, será isso que acontecerá. A História assim nos ensina;

- devemos sempre construir a língua com lógica e racionalidade. Devemos dar ouvidos aos especialistas (terminante e comprovadamente ignorados neste assunto pelos poderes vigentes) e não pisar assuntos sérios como a etimologia, por exemplo. Devemos esforçar-nos para tornar a língua cada vez menos ambígua e não o contrário (para, para = pára, para??);

- a evolução, ensina-nos a Teoria da Evolução, carece de e/ou implica diversidade, logo haver 8 versões do português será sempre melhor para o engrandecimento e enriquecimento cultural da língua do que só haver 1 ortografia (o que desde logo não acontece com o AO90, que a tal se propôs, pois continua a haver diferenças ortográficas entre ortografia brasileira e portuguesa, por exemplo);

- mesmo que o AO90 uniformizasse a 100% as ortografias (coisa que está longe de fazer), ainda restam as palavras sinónimas mas que só são usadas correntemente num país (exemplo: talho (pt-pt) e açougue(pt-br)) e a construção frásica que é completamente diferente e que não podem ser uniformizadas pois decorre directamente da cultura diferente dos povos em questão, que vão continuar a manter as quaisquer dificuldades que possam existir na compreensão universal dum texto português entre os diferentes povos que usam a língua. Logo a uniformização não é conseguida. Um projecto que falha no seu principal objectivo não merece continuação e deve ser abortado;


 - o dito acordo é rejeitado pela maioria da população e dos pareceres técnicos. Em democracia, onde o valor da ciência é tido em conta e não ignorado, esta seria razão suficiente para que um governo de maioria absoluta, que deve representar a vontade da maioria portuguesa e não de lobbies que lhes engordam as carteiras, suprimir o dito acordo. O acordo e especialmente a sua aplicação são portanto anti-democráticos. Reparem nas alegadas ameaças feitas à Academia de Ciências de Lisboa, por ter ousado blasfemar contra o AO90, e mesmo o que os aplicam, como o editor-chefe da Porto Editora (a notícia no Público só está disponível para assinantes), fazem-no sob uma espécie de auto-infligida coacção governamental. É claro que as editoras poderiam ter sido mais corajosas, particularmente aquelas em que os seus editores discordam do AO90, e ter tido a atitude simétrica à que adoptaram: só aplicar AO90 quando expressamente exigido pelos autores ou clientes!!

No vídeo da audição na Comissão Parlamentar de Vasco Graça Moura et all, a própria representante do PSD, partido de maioria relativa que lidera o actual governo de coligação, admite que as informações que tem são que mais de 60% dos portugueses são contra. Algo que terá justificado a formação da comissão. Pergunta, se eles representam a maioria votante nacional, porque raio não botam fora o acordo de imediato e perante tal informação?? Isto é democracia?
A acrescentar a isto ainda vêm as editoras, embora ninguém nisto acredite, nem cá nem no Brasil, dizer que nada lucraram com o AO90, que só lhes trouxe custos acrescidos. Sendo assim, quem lucra com este desacordo que falha em todos os seus propósitos, tão seguramente como o Relvas não ter tirado o curso? Bem, sendo verdade o que as editoras clamam, ninguém ganhou com o AO90.
Contudo, o nosso governo, mesmo após o adiamento brasileiro, mesmo após a rejeição por parte da Angola, mesmo após ter em sua posse em variados blogues, escritos tanto por meros plebeus com aqui o vosso esforçado escriba ou pelas opiniões de doutos das ciências e ilustres dos media, insiste em implementar o AO90, doa a quem doer. Este dogmatismo, é próprio da religião, pois escolhe ignorar todas as provas e argumentos lógicos em prole da fé cega na sua doutrina.
Ainda há mais uma comparação a fazer entre a religião e o AO90. Christopher Hitchens disse que, parafraseio, “é fácil que uma pessoa má faça coisas maléficas, mas para levar uma pessoa boa a fazer coisas más é preciso a religião”. E quem diz “fazer”, também pode estender a “dizer”. Ora eu tenho José Saramago em boa conta, como uma pessoa racional e de uma mente analítica e sagaz, um defensor acérrimo dos direitos humanos e da liberdade. Porque raio então foi José Saramago apologista desta neo-religião? Especialmente sendo ele um confesso ateu, um céptico!!

Primeiro vejamos, pela voz do próprio, vinda não do além mas sim do youtube (onde já li a frase: “Youtube, where religion comes to die!” loool if only), como é que ele defendia o AO90:

Convenhamos que não o defendia, apenas não lhe resistia. Saramago já havia passado por outras reformas ortográficas e pouco lhe interessava como se escrevia, desde que se escrevesse com liberdade. Esqueçam lá o pensamento céptico que ele próprio advoga no primeiro minuto do vídeo seguinte, quando diz que é preciso termos presente que uma coisa não é boa só por ser nova. Será ele também um reaccionário? Um retrógrado? Atrever-se-ão a tanto?

Porque não pensou ele assim quanto ao AO90? Quem me dera ter tido tempo e oportunidade de debater com ele o assunto, pois a mim o que me faz lembrar esta resignação intelectual perante o AO90 é a cláusula de não resistência ao mal do Cristianismo, tipicamente chamada “dar a outra face”. Uma doutrina imoral mascarada de alta moralidade, que deixa uma pessoa boa à mercê duma pessoa maléfica, e que só aumenta a hipocrisia dessa religião, pois houveram ou não inquisições e cruzadas? Onde deram eles a outra face e se tivessem dado teriam sobrevivido ou seríamos todos muçulmanos forçados à submissão de Alá?? Esta abateu-se sobre Saramago da mesma forma que atacou aquele amigo brasileiro do vídeo acima que chega a acusar os defensores do AO90 de mentirem para argumentarem a favor, mas depois diz: “Bom, já que não podemos fazer nada o melhor é aprendermos já as regras novas…”
Pois eu, tal como Saramago, sou ateu, mas ao contrário de Saramago estudo ciência e como tal estou programado, se quiserem, para esperar lógica e rigor nos sistemas que criamos para comunicar e para melhorar a nossa vida. Não estou disposto a encarar a ortografia como uma pseudo-ciência ao serviço de lobbies económicos iludidos, políticos facilmente subornáveis (note-se como o Sócrates escolheu ignorar os pareceres da Academia de Ciências de Lisboa [imagem acima] e de qualquer outro parecer que não o prestado pelo próprio criador do Acordo, tal como nas primeiras semanas deste governo sucessor ao de Sócrates e que se auto-nomeia como uma alternativa a este último, primeiro era contra e uma semana depois já estava a favor) e pseudo-intelectuais, que querem umas viagens à borla ou mais umas 30 peças de prata para traírem a pátria que deviam servir, a seu belo interesse e com desprezível irresponsabilidade e despego.



 
A imagem acima está com péssima resolução e infelizmente o público só deixa ver este artigo online a quem subscrever a sua edição electrónica... Com muito custo, lê-se que além da desesperada tentativa de entrar para a História de alguns fracos (pseudo)intelectuais, estes também o fizeram a fim de ter umas viagens pelo globo pagas pelos nossos impostos, para bem supremo da Lusofonia, claro está... -_-

Como diria o Hitch, se falasse português, não lhes vou dar nem um centímetro. Vou combatê-los até à última. Não vou converter a minha espada num arado, mas antes fiz da minha caneta e/ou teclado, as minhas proverbiais espadas, nesta guerra.
Uma das formas como luta é precisamente os vídeos que vou traduzindo para usar aqui e colocando no youtube. Traduzo-os sem infecções "acordistas"!

Pois eu contraponho que o Acordo Ortográfico fez isso mesmo, transformou a Língua Portuguesa num monstro disforme, sobre o qual reina o caos por força da ambiguidade e pela falta de rigor lógico. Uma quimera literária foi o que criaram. Como já outro disse noutro blogue, um autêntico monstro de Frankenstein com partes deste e daquele e daqueloutro corpos. Mas por muito poderosa que possa ser esta criatura e os seus interesseiros seguidores zelotas, impõe-se que a destruamos.
Para tal, talvez seja necessário este espírito do "never say die" ou "no retreat, no surrender", a via dos Espartanos, a via dos Samurai:
E muita paciência para que depois possamos chegar aqui:
E finalmente à vitória final contra a Besta:

Juntem-se a mim…


... a nós, que resistimos.

As nossas armas?
Para resistir a uma religião, que pelo seu carácter dogmático nunca cede à argumentação lógica ou às provas analíticas ou factuais, só o podemos fazer pela sátira, pelo gozo, pelo ridículo, pela blasfémia:

E finalmente, para aqueles que como eu, apesar de tudo, talvez não sem uma pouco de fé também, acreditam na Democracia, assinem sem demora a ILC contra o AO90 se ainda não o fizeram. Para tal usem os links abaixo:

Não acreditas que podemos vencer? Bem, 70% dos leitores do DN não são da tua opinião:
Para terminar, vou deixar-vos com o copy paste do PDF informativo que a Embaixada do Japão me enviou este mês, perdoem-me por estar a postá-lo tão tarde mas a vida interveio. De realçar que, não sei se pelo meu contínuo criticar dessas ocorrências aqui no N.I.N.J.A. Samurai, se por auto recriação, este último PDF oficial da Embaixada já vem com os Meses todos com inicial Maiúscula, com vários “objeCtivos” e “aCtividades”, e apenas 2 ou 3 erros de acordês, que vou postar para vocês descobrirem tipo “Onde está o Wally?”. Não sei se tive peso nesta inversão, mas se tive, como disse o Sócrates, não o filósofo mas o pseudo-engenheiro cujo governo nos enrrabou com o AO90 [entre outras patranhas, que vos sugiro não se esquecerem delas quando este ilustre se candidatar à presidência da república], “Porreiro, pá!” ;)
Aproveito para me despedir desde já, senhoras e senhores, irmãos e irmãs, amigos, camaradas, de Aquém e Além-Mar, em particular aqueles que se unam a esta causa, esta guerra contra a teocracia ortográfica, um grande bem haja!

 
» Jardins de Pedra – exposição de escultura
De 30 de Março a 29 de Setembro, realiza-se uma exposição de esculturas de Mário Lopes (ex-bolseiro do Governo do Japão), de trabalhos realizados no Japão e inspirados pela sua cultura e arte. Realizar-se-á no Claustro Real do Mosteiro da Batalha, antigo lugar de contemplação e meditação, onde se pretende evidenciar aspectos espirituais e estéticos comuns à cultura japonesa e portuguesa.
Local: Mosteiro da Batalha, Lg. Infante D. Henrique, Batalha.
Organização: Direção-Geral do Património Cultural/Mosteiro da Batalha
+ info: Tel.: 244765497

» Exposição de fotografias e de azulejos
No próximo dia 10 de Abril terá lugar a inauguração da exposição de fotografias “paisagem da primavera e outono no Japão” e da exposição de azulejos, pela artista japonesa Shihoko Gouveia, no Espaço Cultural das Mercês. Exposição patente até ao dia 27 de Abril.
Horário: de quarta a sábado, das 16h00 às 20h00
Local: Rua Cecílio de Sousa, nº 94, Lisboa (junto ao Príncipe Real)
Mais informações: Sra. Yamasuga Gouveia – Telm.: 919650381

» Origami Tradicional - Workshop de Origami no Museu do Oriente
Nos próximos dias 11 ou 23 de Abril, o Museu do Oriente promove um workshop de Origami – dobragens de papel. Pensado para um público adulto, este workshop tem como objectivo contextualizar histórica e simbolicamente alguns dos origami tradicionais e dar espaço à sua realização prática.
Local: Museu do Oriente, Av. Brasília - Doca de Alcântara (Norte), Lisboa
Organização: Fundação Oriente/Museu
Para mais informações e inscrições: Museu do Oriente, tel.: 213 585 200


» Iberanime
O IberAnimeLx 2013, nos próximos dias 13 e 14 de Abril, será um fim-de-semana divertidíssimo para miúdos e graúdos fãs de Anime, Manga e Cultura Pop Japonesa. É também uma oportunidade fantástica para os pais passarem um fim-de-semana diferente com os seus filhos.
Este é o evento certo para os admiradores de séries como DragonBall, Naruto, One Piece, Sailor Moon, Cavaleiros do Zodíaco e muitas outras!
Shows de Cosplay com convidadas internacionais e concertos com os Gaijin Sentai, para além de atividades no espaço de feira, videojogos, demonstrações e concursos são alguns dos muitos momentos que ficarão na memória de todos os presentes neste mundo fantástico de anime, manga e videojogos.
Participação da Embaixada do Japão neste evento dedicado a todos os fãs e curiosos pela cultura pop japonesa.
Local: Pavilhão Atlântico – Sala Tejo, Rossio dos Olivais, Lt 2.13.01A, Lisboa
Organização: Manz Produções
Mais Informações: http://www.iberanime.com/2013/


» Mizuhiki - Nós Japoneses - Workshop

O Museu do Oriente promove, no próximo dia 2 de Maio, um workshop de ‘mizuhiki’, corda feita de papel de arroz que depois de levar uma cama de goma é passada a ferro e, por último, tingida. Este workshop pretende levá-lo a conhecer um pouco mais a história desta arte e a elaborar depois algumas formas com o ‘mizuhiki. Necessária marcação até 24 de Abril.

Local: Museu do Oriente, Av. Brasília - Doca de Alcântara (Norte), Lisboa

Organização: Fundação Oriente/Museu
Para mais informações e inscrições: Museu do Oriente, tel.: 213 585 200,

» Festival do Japão – Haruhi 2013
Este evento, a realizar no próximo dia 4 de Maio, tem por objectivo proporcionar ao público o contacto com a cultura japonesa, abordando temas diversos, sendo o culminar das actividades do clube Haruhi, da Escola Secundária Inês de Castro, em Vila Nova de Gaia.
Organizador: Haruhi – Clube de Japonês da Escola Secundária Inês de Castro
Local do evento: Escola Secundária Inês de Castro, Rua Quinta do Fojo, Vila Nova de Gaia
Mais informações: Tel.: 227727200, Email: info@esic.pt, http://www.esic.pt

» Caixas, Contentores e Sólidos – workshop de Origami
O Museu do Oriente desenvolve esta iniciativa, no dia 14 de Maio, num convite para fazer um percurso entre os primeiros contentores de papel e o início do origami modular no qual se realizam construções a partir de vários módulos de papel.
Pensado para um público adulto, este workshop tem como objectivo contextualizar histórica e simbolicamente alguns dos diagramas tradicionais e dar espaço à sua realização prática.
Museu do Oriente, Av. Brasília - Doca de Alcântara (Norte), Lisboa
Fundação Oriente/Museu
Para mais informações e inscrições
Museu do Oriente, tel.: 213 585 200,

» Festa do Japão em Lisboa 2013
A Embaixada do Japão tem o enorme prazer de informar que a 3ª edição da Festa do Japão em Lisboa irá decorrer no próximo dia 15 de Junho, inserida nas Festas de Lisboa, com a co-organização da Câmara Municipal de Lisboa, EGEAC e Associação de Amizade Portugal-Japão, entre outros.
Pretendemos mais uma vez retratar o ambiente de “Matsuri” (festival), no Japão através da apresentação da cultura japonesa, no Jardim do Japão, em Belém. Também este ano estão previstas demonstrações das várias áreas da cultura japonesa, tais como Ikebana, Origami,Caligrafia, Haiku, Cosplay, Artes Marciais, bem como música e ritmos do Japão (com o presença de um Grupo de Jovens Japoneses de Taiko e Dança Folclórica).
Mais informações: Sector Cultural da Embaixada do Japão
Email: cultural@lb.mofa.go.jp // Tel: 213110560


P.P.S.: Quero apenas agradecer a acção contínua das páginas do Facebook do Desacordo Técnico (Movimento anti-AO90 dos alunos do IST), dos Tradutores contra o Acordo Ortográfico e da página da própria Iniciativa Legislativa contra o Acordo Ortográfico de 1990. Sem vocês, e o material que me fazem chegar e que criam, este post teria sido quasi-impossível! Continuem a luta por todos nós e pelo bem da tão violada Lusofonia! E parabéns à Maxim por ter saído do armário, nesta guerra. Não imaginam o prazer que deu ler aquela simples frase que finalmente surgiu sobre o vosso belo nome na última edição:

ADENDA (06/05/2013 - 2H59 TMG): Cada vez o AO90 nos aproxima mais, já repararam??