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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Otori, São Valentim e Ginkgo?


Eu estou a gostar muito d’«A Saga dos Otori» (originalmente chamada “Tales of the Otori”), criada pela escritora Lian Hearn, ao ponto de ter finalmente decidido fazer uma crítica aos 4 de 5 livros que já li da supracitada obra, sendo que desde que no Natal me foi oferendado a prequela desta história (o quinto e último livro a ser publicado) não só li a prequela como reli os volumes 1 e 2 da trilogia original e já iniciei o terceiro.
A saga passa-se no Japão Medieval dos Samurai, mas não no Japão Histórico. Antes a acção decorre num Japão alternativo e imaginário, em tudo igual ao Histórico excepto nos intervenientes e nalguma da geografia do país.
Temos portanto um país dividido em feudos, que existem em constante guerra uns com os outros perante um fraco imperador que é descrito como desprovido de poder, arrecadado algures numa capital longínqua. De facto, o Japão foi assim durante imensos anos, nos dias do Xogunato. Lidamos também com um Japão já infectado por missionários cristãos, gerando assim uma nova minoria no Japão, prontamente a ser perseguida por uma classe guerreira temerosa de pessoas que não os considera como seus superiores mas antes como seu iguais (atitude explicada no livro pelo versículo bíblico "todos somos criados iguais", parafraseio). Assim, ao longo de todos os livros desta história, vamos tendo vislumbres de tópicos ou questões que ainda hoje atormentam ou, porque não?, assombram a Humanidade: guerras de classes, perseguição religiosa, direitos das mulheres, os abusos dos poderosos, a austeridade servida às massas através de impostos cada vez maiores... parece-vos familiar?
Tudo isto surge no decorrer da constante luta de uma facção do clã Otori, liderada inicialmente por Otori Shigeru, justo herdeiro do clã, afastado do poder graças a traições e maquinações políticas, por parte dos seus tios. 
A prequela, intitulada originalmente “Heaven’s Net is Wide”, que em Portugal foi chamada “O Fio do Destino” (vá-se lá saber porquê?!?), conta-nos essencialmente como é que Shigeru perdeu o governo do seu clã, ou melhor, como não chegou a herdá-lo. Mas também nos mostra como o seu carácter foi forjado, derivado a uma educação espectacular, digna de um rei, temperada com um sentido de responsabilidade pelo e proximidade para com o seu povo. Ao contrário dos seus tios, que lhe usurpam o poder do clã, ele não vê os seus súbditos como posses, mas antes como pessoas cuja segurança deve ser mantida e a quem a justiça e a prosperidade são devidas. Ou pelo menos, a consciência que cabe ao governante o dever de fazer o seu melhor para proporcionar condições para que o povo goze desses três direitos. São também falados os seus amores e desamores, as suas frustrações e pequenas vitórias. Mas grande parte do livro é o relato da vida de um homem destinado a herdar um grande poder que se tem de adaptar a novas circunstâncias da sua vida, ocultando a sua força com uma máscara de fraqueza, enquanto muito pacientemente aguarda o momento de exercer a sua vingança e recuperar o plano que tinha em jovem para a bem-aventurança do seu povo.
E é assim que chegamos a Otori Takeo, herdeiro de Shigeru, e principal personagem da trilogia e da sequela (o 4º livro da Saga, aquele que ainda não li), e que se torna alvo de todas as esperanças de êxito de Shigeru, bem como a sua ferramenta, ou melhor dizendo arma, para atingir o seu objectivo. É de facto só na trilogia que conhecemos o destino de Shigeru e da sua amada e aliada de pleno direito, a senhora de Maruyama Naomi (um outro feudo), mas também é quando conhecemos (e tão bem quanto Shigeru ou Takeo) Kaede, a herdeira de Shirakawa (ainda um outro feudo, cujo clã governante é familiar de Maruyama) e futura amada de Takeo. É através desta personagem principalmente que vemos a perspectiva feminina de uma feminista que procura sobreviver num mundo dominado por machistas.
Estes são livros muito românticos, mas que não contêm romances propriamente cor-de-rosa. As paixões e amores desta história são sempre forçados a enfrentar tudo e todos para existirem, sendo por vezes forçados a existirem apenas em segredo. A força do desejo sexual puro, a líbido, não é colocada de parte como num filme da Disney, mas antes usada para tornar mais realista a vida destas personagens. A própria sociedade e a sua organização e costumes surge como um obstáculo, que impede os poderosos de fazerem o que lhes dá na real gana no que diz respeito ao amor. Os casamentos estão sempre a ser combinados por pessoas que não os noivos, em prole desta aliança ou daquela necessidade de aplacar uma ofensa para com um aliado em riscos de se tornar inimigo. É essencialmente o que acontece na série de tv “Jogo dos Tronos” e nos livros que a inspiram. Uma outra semelhança que “A Saga dos Otori” tem com o universo de RR Martin, é que Hearn também não tem medo de sacrificar uma personagem com quem acabou de gerar muita empatia perante o leitor. Assim, o leitor é forçado a sentir o medo das personagens quando elas arriscam algo ou quando se decidem a afrontar a sociedade que os impede de ser felizes ou de atingirem os seus objectivos.
No que diz respeito à ligação entre a trilogia original (os volumes 1, 2 e 3) e a prequela, esta está mais bem feita que a ligação entre a trilogia original da Guerra das Estrelas e a trilogia mais moderna dessa mesma saga. Os mais pequenos pormenores estão atados com uma precisão admirável e sempre muito subtilmente. De tal forma, que é até melhor começar a ler “A Saga dos Otori” pelo o último dos seus livros a ser publicado, a prequela. É que ao contrário da Guerra das Estrelas, não há nenhum momento de “Luke, I am your father”, para ser estragado.
Além das várias classes sociais do Japão Medieval e das minorias como os barakumin e os conversos cristãos (neste universo intitulados de Ocultos), o livro recebe ainda uma outra dimensão que é o mundo hermético da Tribo, um conjunto de famílias que se organizou como uma rede de espiões e assassinos ao serviço de quem lhes pagar mais, sem quaisquer lealdade excepto à própria Tribo. Essencialmente, ninjas.
A autora decidiu-se por dar um toque de espiritualidade e fantástico a uma, de resto, história muito realista. Esse toque materializa-se nalguns destes ninjas que são dotados de poderes que rivalizariam os de um Jedi e na existência de profetas e profecias entre os Ocultos, cujo único poder é a sua total convicção e entrega à causa dos ensinamentos do seu Deus.
O facto de Otori Takeo ter uma ascendência que une os Ocultos, os Samurai, e os Ninja, numa mesma pessoa, tornam-no o ponto óbvio de confluência da trama. Ele é o herdeiro adoptivo de Shigeru, o mais popular dos nobres que conseguiu sempre manter a seu lado o apoio das classes mais baixas; é também alguém cuja mãe pertencia aos ocultos, uma minoria que Shigeru e Naomi (a senhora de Maruyama) decidiram proteger, e foi então criado entre eles até quase à maioridade; e herdou de seu pai os mais altos poderes da Tribo, organização que o cobiça e exige a sua lealdade sob ameaça de morte. Em perigo constante tanto da Tribo, como dos senhores feudais, é nos seus poucos aliados nobres mas essencialmente nas classes baixas que Takeo terá de procurar a sua base de poder.
Enquanto isso, Kaede, herdeira do único feudo que permite as mulheres governarem, está ela também em risco constante, daqueles que desejam usurpar o seu dote e daqueles que ela insulta meramente por recusar pedidos de casamento.

Em suma, temos uma buffet de tópicos, tratados pela perspectiva de personagens com as quais facilmente se empatiza, todo o romantismo da Era Medieval mas num contexto em que os nobres, mesmo os mais pérfidos ou maquiavélicos, são cultos (ao contrário da nossa era medieval europeia, em que a classe governante era maioritariamente inculta e só sabia mesmo “andar à porrada”). É um rodizio que se torna coerente por uma escrita que tem tanto de bela como de fluida e simples. O facto de haver algum ateísmo no meio de tantas personagens místicas ou espirituais, também me aliciou na leitura destes livros. Na vida social, todos fingem ter algum tipo de credo, particularmente budista ou shintoísta. Contudo, algumas das personagens, quando falam com o seu círculo interno de amigos ou com “os seus botões”, dão-se à liberdade de afirmações de descrença ou cepticismo, como demonstra o diálogo escrito no scan seguinte:
Claro que é sempre um bónus para quem, como eu, vibra com os folclore e mitos medievais japoneses, esta história estar cravejada de ninjas e samurai. A única pena que tenho é que seja dado tão pouca atenção aos lutadores sumo, sendo que até agora só apareceu uma referência a uma escola de lutadores, mas sem grande profundidade ou interesse para a história central. É apenas uma episódio de passagem. Sendo que a cerimónia pouco conhecida por detrás do Sumo, no Japão Medieval, tive pena que a autora não a usasse mais. Um dia destes abordo o tema aqui.
E se bem que se o Japão Medieval aqui apresentado é imaginário em pessoas e locais, o espírito japonês está extremamente bem representado nestes livros. O valor da honra, a desonra da derrota e o ter de lhe sobreviver, o choque de culturas onde o suicídio é hábito com outras em que este é proíbido, mas também os ensinamentos da arte da guerra (não declarados mas subtilmente escritos das entrelinhas das acções dos actores da história), o ateísmo e o choque de religiões, as classes e as suas ligações, etc…
A tradutora Isabel Nunes está de parabéns. Acho que nos quatro livros, até agora, detectei apenas uma gralha. Em vez de caractér, aparece carácter. Os títulos é que estão um bocado mal traduzidos, mas não sei se foi culpa dela ou da editora. Já indiquei o título da prequela, eis os restantes:
- Livro 1: Across the Nightingale Floor (tradução literal: Através do Chão do Rouxinol) passa a “A Tribo dos Mágicos”;
- Livro 2: Grass for is Pillow (t.l.: Erva para a Almofada Dele), eu colocaria algo como “Erva como Almofada”, mas a tradução foi “O Desafio do Guerreiro” (alguém deve ter visto o Braveheart nessa semana!!);
- Livro3: Brilliance of the Moon (t.l.: Luminosidade da Lua) passou a “As Cinco Batalhas”;
- Finalmente a Sequela, que eu ainda não li: The Harsh Cry of the Heron (t.l.: O Rude Grito da Garça”) passou a “O Voo da Garça”.
Eu até concordo que alguns dos títulos portugueses são melhores que os originais, mas detesto quando o marketing se sobrepõe ao autor, como me parece ser o caso. Não esqueçamos que estes são apenas subtítulos, pois o título é “A Saga dos Otori”.
Seja como for, como o último dos livros oriunda de 2007, facilmente se encontram sem acordo ortográfico!!
Note-se, aludindo às imagens directamente abaixo e acima, que para algumas mulheres, aquelas a quem eu enquanto homem daria preferência de um ponto de vista psicológico e cultural, dão extrema importância à língua (full pun intended):
Assim sendo e como se avizinha o dia de St Valentim (mais um santo desencaminhado pelos mestres do marketing), este é também um belo presente para um(a) namorado(a) que goste de ler e até um presente que, caso quem oferece também goste de ler, pode ser algo que ambos os membros do casal possam desfrutar conjuntamente. Eu sou da opinião que tanto mais romântico é o presente do dia dos namorados quanto possa ser uma prenda que se desfrute a dois.
Por falar no dia dos namorados, eu escrevi no ano passado um post sobre isso, a afirmar o quão era um dia não de romantismo mas de comércio, e qual não é o meu espanto quando este ano revisitei esse meu post e reparei que tenho lá um único comentário e que é precisamente um link para uma oferta comercial relacionada com o Dia dos Namorados. É tão bom quando nos provam correctos! :D Se quiserem ver é só seguirem este link:




Quero ainda acrescentar mais uma prova, if you will, que faz o meu caso acerca da natureza comercial do Dia dos Namorados, ou de São Valentim se preferirem. Uma ex-colega de trabalho minha colocou, por piada, a imagem acima no facebook dela. Ela é solteira e achou por bem brincar com a cena. Embora não sirva apenas para esse dia, vários países desenvolveram de facto um nicho de mercado no aluguer de namorados ou namoradas. Acontece na China (Link aqui), no Brasil (Link aqui), com uma sucursal em Portugal trazida para cá por um alumnae do Instituto Superior Técnico, a minha alma matter, (Link aqui), e finalmente no Japão, como demonstra o vídeo abaixo.
Agora já ninguém precisa de se sentir socialmente inferior por não ter a seu lado a sua alma gémea no dia de São Valentim ou noutra ocasião social qualquer, desde que claro tenha dinheiro! Felizmente, este mundo ainda não está perdido e outra amiga "facebookiana" publicou uma outra imagem dedicada àqueles que são, não só desavergonhada mas também, orgulhosamente solteiros.
Mudando de assunto drasticamente, quando estava a ler a prequela, descobri lá um termo de origem chinesa que desconhecia: Ginkgo. Fui pesquisar e percebi que era uma árvore. Segundo a wikipédia a palavra quer dizer em chinês “damasco prateado”. Não liguei mais na altura. Uns dias depois, surge-me este artigo (Link aqui) no news feed do facebook precisamente sobre as Ginkgo. Não teria ligado ao artigo, não tivesse reconhecido o nome e teria ficado a perder gravemente com isso. É fácil então de perceber o que levou o Jung a acreditar no seu Sincronismo! A vida tem destas coisas
As Ginkgo parecem ser as mais antigas árvores existentes. No artigo acima linkado, Roger Cohn, seu autor, começa por afimar:
“Reverenciadas pela sua beleza e longevidade, as ginkgo são fósseis vivos, imutáveis durante mais de 200 milhões de anos.”
Segue-se então uma entrevista concedida à Yale Environment 360 pelo botânico Peter Crane, que diz ter escrito uma biografia destas árvores raras e estranhamente únicas, e sobre a qual eu aqui deixo um resumo.
Muitos milhares de moradores citadinos conhecerão a ginkgo por ser uma árvore de rua, com elegantes folhas em forma de leque ou abano, frutos malcheirosos, e nozes desejadas pelas suas qualidades medicinais, mas Peter Crane vê esta árvore como algo mais que isso. Para ele é uma raridade na natureza devido ao facto de ser uma espécie única de árvore sem qualquer parente vivo, um fóssil vivo nas suas palavras que privou (isto é, coexistiu) com dinossauros e que não mudou em 200 milhões de anos de existência, mas também um exemplo perfeito de como a Humanidade pode ajudar uma espécie a sobreviver.
Sendo reitor da Escola de Yale para Estudos da Floresta e do Ambiente, Crane tem vindo a escrever uma biografia desta árvore ao longo dos milénios. Ginkgo: The Tree That Time Forgot, é o título do seu novo livro que conta como esta árvore se espalhou pelo Mundo.
O botânico afirma que, como só existem 5 grupos de plantas de semente e a Ginkgo compõe um deles, é impossível que alguém que persiga um sério interesse em plantas não se cruze com ela algures nos seus estudos. Por outro lado, acrescenta, que uma vez que se veja a folha tão característica desta árvore, nunca mais se esquece. É muito estranho que a ginkgo não tenha quaisquer parentes vivos de fácil distinção. Tal não acontece com as cerca de 350000 espécies actualmente vivas. Crane procurou explicitar no seu livro que de facto já existiram várias formas de parentes da ginkgo, mas que todas essas árvores aparentadas à ginkgo se tornaram extintas e só esta última chegou aos dias de hoje. Num breve à parte, parece-me a mim que esta árvore é o equivalente vegetal do crocodilo, que também oriunda dos tempos dos dinossauros e subsiste nos dias de hoje, embora ameaçado pelo Homem.
Foi através do registo fóssil que os cientistas como Crane e também um seu colega chinês paleobotânico chamado Zhou Zhiyan, chegaram há conclusão que a ginkgo não se alterou muito em 200 milhões de anos de existência. Zhiyan terá descoberto algumas diferenças na forma como as sementes estaria agarradas à planta via os fósseis, mas não era nada de marcante. Já Peter Crane afirma que nos fósseis que ele estudou, com cerca de 65 milhões de anos, não há quaisquer diferenças. Os fósseis mais antigos das ginkgo têm pouco mais de 200 milhões de anos.

Quanto ao terrível cheiro dos seus frutos, que Crane diz ser semelhante ao do vómito, julga-se que se trata de um agente dispersivo, isto é, uma forma de atrair animais que venham comer o fruto e depois larguem as suas sementes com as fezes noutro local, dispersando as ginkgo pela Terra. Deduz-se isso porque há histórias de cães a comerem frutos desta árvore, ficando depois indispostos. O botânico deixa então a pergunta no ar, as ginkgo ainda vivem, mas será que os animais que as ajudavam a dispersar-se ainda subsistem ou já estarão extintos?
 
O que parece ser certo é que estas árvores ainda retêm a capacidade de se dispersar pela Terra, portanto ainda terão algum agente dispersor. Há relatos de castores e esquilos a comerem frutos das ginkgo, o que segundo Crane não é de admirar, pois após ter passado o mau cheiro, que é produzido pela parte externa das sementes, as sementes em si são atraentes (assemelham-se a um pistachio) e são muito nutritivas e suculentas. Estas sementes costumam cair à terra no final do Outono, no caso norte-americano, portanto em finais de Novembro, inícios de Dezembro. E a única salvação do cheiro é o facto do solo congelar, avança o botânico. Contudo, apenas as sementes das ginkgo femininas cheiram mal, pelo que hoje em dia as ginkgo masculinas é que são mais cultivadas. As lojas botânicas normalmente têm é sementes masculinas (imagem acima deste parágrafo).
A melhor estimativa de desde há quanto tempo o homem cultiva a ginkgo é desde há 1000 anos, na China. Deduz-se isso porque há registos de cultivo de outras plantas na China há mais tempo, mas a ginkgo só surge nos registos a partir de há mil anos atrás. Supõe-se também que tal se deva ao facto de a ginkgo ser uma árvore rara desde sempre. Deverá ter sido primeiro notado pelas suas bolotas e também devido a elas terá começado a ser cultivada, durante muito tempo só na China, só chegando no século XIV ou XV, pelas rotas comerciais, à Coreia e ao Japão. O primeiro ocidental a encontrar-se com uma ginkgo de que há registo, que tenha escrito sobre isso, Engelbert Kaempfer (sobre o qual vale a pena uma visita à sua página da wikipédia) que estava com a Companhia das Índias Orientais Holandesa no seu posto comercial no sul do Japão em 1692 (muito tempo depois de Portugal ter perdido o monopólio do comércio com o Japão, uma história para outro dia). Ao retornar à Europa, ao escrever sobre a sua estadia no Oriente, ele foi o primeiro a usar a palavra ginkgo e também a apresentar uma ilustração da árvore. Podemos ver abaixo um facsimile de uma das suas ilustrações. É provável, indica-nos Crane, que só umas décadas depois a árvore tenha sido introduzida na Europa, pelos 1730-50.
Quanto às suas propriedades e usos medicinais, das quais goza a reputação de auxiliar ou aumentar a memória, o botânico de Yale diz-nos que há duas vertentes, uma ocidental que se foca em extractos das folhas, e outra tradicional chinesa que se centra nas propriedades das sementes. No Ocidente e segundo Crane, têm sido feitos estudos sobre se os derivados das folhas de ginkgo realmente produzem algum efeito positivo medicinal, mas até agora os resultados têm sido algo que ambíguos, nem provando nem negando tais propriedades.
Quanto à ginkgo em si, Crane não sabe exactamente o que a torna tão resistente. O que lhe parece verdade é que as pestes que atingem outras árvores parecem desgostar das folhas da ginkgo que e embora as suas raízes não recebam muito oxigénio nas ruas de cidades, mas sim muito sal e sabe-se lá mais o quê, estas árvores parecem aguentar-se bem perante tais privações e ataques químicos. Tal faz com que seja uma planta muito usada, por todo o lado, como árvore de rua. Encontra-se por toda a Tóquio, por toda a Seoul e por toda a Manhattan, para dar alguns exemplos. Mas note-se que também em Lisboa temos árvores ginkgo, como exemplificado neste link! O livro de Crane também aprofunda a temática das árvores num contexto urbanístico, alegando por exemplo o efeito psicológico que surge de ter árvores de ambos os lados da estrada, criando a ilusão da estrada ser mais estreita e levando os condutores a andar mais devagar, ou a mera produção de sombra que diminui o calor na cidade, podendo prolongar a passagem, doutra forma rápida, das pessoas por uma zona de comércio, ajudando à actividade económica por exemplo. Mas também fala noutros efeitos menos utilitários, como simplesmente tornar mais agradáveis os passeios citadinos, permitindo aos cidadãos, especialmente aos mais novos, todos os efeitos positivos de andar na rua potenciados por uma vasta sombra nos dias solarengos de Verão. No livro, Crane conta uma história de uma moradora do Harlem que tem uma ginkgo à frente da sua casa e que encontra sempre pessoas em redor da árvore independentemente do cheiro. Crane explica que tal é natural de pessoas cujo passado cultural seja familiar com as ginkgo. É comum, diz ele, pessoas da Coreia, da China ou do Japão procurarem uma ginkgo no Outono e apanharem as suas sementes, na maioria das vezes para consumo próprio e não para venda. Muitas vezes nem esperam que as sementes caíam da árvore e antes promovem a sua queda com o auxílio de uma vara.
Contudo, para uma pequena proporção da população em geral, as bolotas e sementes da ginkgo são tóxicas, não sendo então aconselhável comer muitas destas sementes. Ainda que concedendo isso, Crane afirma que o número de pessoas a que isso acontece é mesmo muito pequeno e que ele já comeu sementes de ginkgo em diversas ocasiões sem lhe causarem mal algum.


Peter Crane afirma ainda no seu livro, que o cultivo mesmo fora do habitat natural das ginkgo, embora a manutenção da existência da espécie neste último também seja importante, é uma óptima ferramenta para garantir a sobrevivência desta planta rara e tão única. O botânico confessa que esta árvore, devido à sua intemporalidade face à espécie humana, o ajudou a pensar para além do “aqui e agora”. Ele acrescenta também que a ginkgo é para ele um equivalente temporal aos esboços espaciais da Via Láctea com uma seta a apontar para um pontinho que diz “Estás aqui”, recordando-nos de quão pequenos somos, quão curta é a nossa passagem pelo Universo do qual não somos o centro e no qual existem coisas bem mais antigas que nós. Um pensamento fácil para um ateu, mas extremamente confuso para um crente dos monoteísmos, acrescento eu.
Devido a um trabalho que o reitor fez sobre um fóssil de Ginkgo, um colega seu teve a gentileza de dar o seu nome a uma espécie de ginkgo: Ginkgo Cranei. Crane contudo permanece céptico de que isso dure, inseguro de que as diferenças subtis que o estudo revelou sobre a espécie fossilizada na verdade venham a ser inexistentes, denotando-se que realmente só existe uma espécie de ginkgo e que o nome do fóssil reverta para o simples Ginkgo Biloba. No fim das contas, quem não gostava de ter um bocadinho que fosse de imortalidade, mesmo que apenas (ou especialmente por isso mesmo!!) simbólica?
Na página da wikipédia portuguesa sobre a Ginkgo, é também indicado que a planta só começou a suscitar verdadeira curiosidade no Ocidente depois de ter sido constatado que esta árvore sobreviveu à radiação da bomba nuclear de Hiroshima. Além disso, aprofunda no uso farmacêutico dado aos derivados desta planta. A página em inglês da mesma enciclopédia virtual detém ainda mais informação, para quem esteja interessado em pesquisar mais.
Despeço-me por agora, deixando-vos com uma memória de tempos idos, dum costume brasileiro intitulado de "cartão de paquera", mas a que eu chamaria "o amor espressado em forma burocrática". Bons romances!

terça-feira, 6 de março de 2012

Notícias "Japão em Portugal" - Março 2012

Mais uma vez, funcionando em paralelo com a Embaixada do Japão em Portugal, venho dar-vos conta de várias actividades e/ou oportunidades referentes ao Japão em Portugal, desta volta maioritariamente na área de Lisboa.
Uma nota apenas para reter ética editorial, todo o texto neste post que estiver em Itálico é texto copiado directamente do pdf informativo que a Embaixada do Japão me enviou por mail. Eu coloco aqui os eventos em destaque apenas e precisamente para lhes conceder mais notoriedade, mas deixo-vos no final do post um link directo para o documento pdf fonte.
Esclarecido isto, comecemos por anunciar duas exposições que já estão a decorrer:

Exposição de Arquitectura «Tradition is Innovation»
A exposição de arquitectura moderna portuguesa “Tradition is Innovation”, organizada pelo arquitecto japonês Sr. Yutaka Shiki, está a decorrer até ao dia 9 de Março (2ª a 6ª, 10:00~18:00), na Ordem dos Arquitectos - Secção Regional Sul (Travessa do Carvalho nº 23, 1249-003 Lisboa).
Mais informações : Email:
pointofview2011@gmail.com


Exposição de Pintura «Aihara Misa»
Estará patente até ao dia 16 de Março a exposição desta artista japonesa, Aihara Misa, na ‘Colorida - Galeria de Arte’, de Terça a Sábado, das 14h30 às 19h00.
‘Colorida - Galeria de Arte’ - Costa do Castelo, 63 – Lisboa.
Mais informações: Tel 218 853 347
http://www.colorida.biz/

De seguida, queria indicar-vos não um mas dois eventos para este fim de semana (10 e 11 de Março de 2012), sobre o Grande Sismo do Leste do Japão, que ocorreu no ano passado:


A 11 de Março de 2011, a região Tohoku, situada a nordeste do Japão, foi atingida por um grande terramoto e tsunami. Passado um ano, a Embaixada do Japão organizará uma sessão evocativa da tragédia, com o objectivo de mostrar pesar pelas vítimas e de reforçar ainda mais os votos pela restauração do país, agradecendo o apoio e solidariedade recebidos do mundo inteiro. Nesse dia, além da cerimónia, terá lugar uma exposição fotográfica das zonas afectadas pelo sismo e uma conferência sobre protecção civil, em colaboração com a Autoridade Nacional de Protecção Civil. Irão ser expostas imagens da tragédia e da situação actual e será feira (feita) uma apresentação da tecnologia anti-sísmica do Japão. Este evento vai ser aberto ao público.
Data: 11 de Março de 2012
Programação:
1ª parte - 12:00 ~13:30 Discursos Abertura da exposição das fotografias

2ª parte - 14:00 ~16:30 Conferência “Sismos e tsunamis – Experiências do Japão e de Portugal”
Local: Palácio Foz - Praça dos Restauradores, 1250 Lisboa

Contudo, e dentro do mesmo tópico, vai haver em paralelo, também este fim de semana um evento de dois dias sobre o mesmo tópico em Cascais:

Evento Memorial do Grande Terramoto de Tohoku “Contigo Japão”

A Associação de Amizade Portugal-Japão organizará, a 10 e 11 de Março, o “Contigo Japão” em Cascais, com apoio da Câmara Municipal de Cascais (cidade geminada com Atami) e outras entidades, destinado a reunir fundos para apoio às vítimas da catástrofe do Grande Terramoto de Tohoku ocorrido a 11 de Março de 2011. Do evento consta o seguinte programa:
10 de Março
15h00 - Festival das Artes Marciais no Pavilhão da Quinta dos Lombos em Carcavelos
10h00-20h00 - O Japão em exposição no Cubo de Cristal junto à Marina de Cascais
11 de Março
10h00 - Corrida pela paz junto à Marina de Cascais
15h00 - Torneio da Remada pelo Surfing Club de Portugal
10-20h00 - O Japão em exposição - Cubo de Cristal - junto à Marina de Cascais Inscrições no evento e mais informações:
info@contigojapao.org - Telemóveis: 919 993 295 / 964712096 - web: http://www.contigojapao.org/

E agora, dou-vos a saber de mais uns quantos de eventos culturais que serão inaugurados ou decorrerão este mês:

Exposição de Fotografia “Jardins Japoneses”, de José Reis!
A ‘Equivalentes’ – Associação Cultural irá organizar a exposição de fotografia – “Jardins Japoneses”, da autoria do fotógrafo José Reis, com inauguração no dia 8 Março, às 19h00, patente até ao próximo dia 7 de Abril de 2012.
Horário da exposição: de terça a sexta-feira das 17h00 às 20h00 - sábados das 15h00 às 19h00.
Local: Av. Almirante Reis, nº 74, Lisboa.
Mais informações: ‘Equivalentes’ -
http://casadafotografia.equivalentes.org/

Workshop de ‘Origami’ pela Embaixada do Japão
Terá lugar um workshop de ‘Origami’ (dobragens de papel) organizado pela Embaixada do Japão (Av. da Liberdade, No 245-6º, 1269-033 Lisboa) nos dias 15, 16, 19 e 20 de Março (inscrição obrigatória).
Mais informações: Embaixada do Japão – Tel.: 213 110 560
Email:
cultural@embjapao.pt

Iberanime 2012
Decorrerá, de 17 a 18 de Março, no LX Factory (Rua Rodrigues de Faria 103, 1300-501 Lisboa), o Iberanime, que contará com exposições e workshops de Manga, Origami, cosplay, concursos de Anime e Karaoke, etc.
Mais informações: Tel: 214 269 710 / http://www.iberanime.com/pt/
Compra de bilhetes:
http://www.ticketline.pt

Festival de Animação de Lisboa – MONSTRA
Terá lugar, de 19 a 25 de Março, o Festival de Animação de Lisboa – “Monstra” −, no Cinema São Jorge (Avenida da Liberdade nº 175, 1250-141 Lisboa). Os filmes de animação japoneses como “Ghost in the Shell” pelo realizador Mamoru Oshii, também serão exibidos.
Mais informações: 918 453 750, 918 682 115 /
producao@monstrafestival.com,
festival@monstrafestival.com http://www.monstrafestival.com/index.php/pt/

Antes de terminar, quero ainda relembrar que:

O Ministério da Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia do Japão (MEXT) concede bolsas de estudo para estudos académicos no Japão a estudantes portugueses que queiram aprofundar os seus conhecimentos em língua Japonesa, assuntos do Japão e cultura Japonesa. Estas bolsas têm o objectivo de promover a mútua compreensão e aprofundar as relações de amizade entre o Japão e os outros países pela utilização de avançados conhecimentos da língua e cultura Japonesas. Candidaturas até ao dia 8 de Março de 2012.
Mais informações: Embaixada do Japão – Tel.: 213 110 560 Email: cultural@embjapao.pt


E dar-vos a conhecer a:
Revista de Banda Desenhada “BANZAI”

Foi lançada em Novembro do ano passado a revista trimestral de banda desenhada “BANZAI”, pela edição da “NCreatures”, produtora de conteúdos originais. A revista tem a participação ocasional de autores estrangeiros, como parte da parceria da “NCreatures” com a “Comic Party” da Dinamarca e a “Nosebleed Studios” da Suécia.
Website :
http://banzai.ncreatures.com

Para mais informações sobre estes tópicos e notícias do Japão, deixo-vos o link abaixo, que é também a fonte deste post:
http://www.pt.emb-japan.go.jp/newsletter2012/Embaixada_do_Japao_Noticias_MARCO_2012.pdf

Gostava muito de poder ir à Sessão Evocativa do Sismo que se vai passar no dia 11, mas provavelmente não conseguirei. Em jeitos de despedida, quero apenas dizer que este mês aqui no N.I.N.J.A. Samurai vamos ter muitas novidades e, mesmo não contando com este post e tendo eu tempo suficiente para tal, 3 posts. Posso adiantar que vou falar, nessas entradas de futuro muito próximo, sobre a Teoria da Evolução (pela voz dum embaixador muito especial), sobre Vampiros (oh sim, eles andam aí ;) e, last but not least, sobre o código do Samurai. Por isso, até breve,
Alex, signing off...

sábado, 10 de dezembro de 2011

Shinobi - Parte 1

Como já devem ter percebido, a minha paixão pela cultura japonesa é igualada pela minha paixão por cinema. Como tal, tenho andado a magicar uma curta-metragem que tenha a ver com o Japão.
Os parâmetros para esta curta-metragem são óbvios: tem de envolver pouca gente, não pode exigir muito em termos de cenário, e tem de poder ser contada em 30 minutos ou menos! Ah sim, como infelizmente não tenho nenhum amigo japonês, as personagens japonesas da curta não podem mostrar a cara.
Pois é, adivinharam... vou mesmo ter de meter ninjas ao barulho!
A verdade é que evitei falar deles. Não por medo ou superstição. Sou ocidental e estou a léguas do Japão, além de ser tão insignificante que nenhum ninja alguma vez me poderá desejar silenciar. Apenas porque já tinha feito dois longos posts sobre samurai e, embora as duas palavras dêem nome ao blog, não queria restringir-me só a isso. Mas já dei mostras, post após post, de que consigo abordar muitos outros tópicos relacionados com o Japão e com isso ganhei o direito,perante mim mesmo, de escrever sobre os Ninjas.
Ora bem, na verdade não se sabe assim muito sobre eles. Já referenciei, no primeiríssimo post que fiz neste blog, a página da Wikipédia sobre o tópico, escrita em Português do Brasil. A página está boa, mas incompleta. Procurarei não dizer o que nesta já foi dito, mas antes completá-la, essencialmente traduzindo certas partes da sua homóloga em Inglês.
Comecemos pela etimologia (assunto que enquanto escritor também adoro e que trata a origem e significado dos nomes) das palavras ninja e shinobi, que são sinónimos!Na imagem abaixo e à esquerda, podemos ver os caracteres kanji que designam a palavra ninja, através duma leitura on’yomi (uma maneira de ler kanji influenciada pelo chinês medieval). Se a leitura for feita no estilo nativo japonês chamado kun’yomi, os mesmos caracteres lêem-se shinobi, nome que é diminutivo do nome composto shinobi-no-mono (忍の者). Ou seja, os dois sinónimos surgem de duas vias de leitura disponíveis, embora queiram dizer exactamente a mesma coisa e só haja uma maneira de escrever essa… ahum… coisa! “Shinobi” tem o significado subjacente de “fazer desaparecer” e, por extensão, de “resistir ou aguentar”, enquanto que “mono” quer dizer “uma pessoa”. Portanto a expressão indica alguém capaz de suportar/resistir e desaparecer. A palavra shinobi tem referências em textos desde o século 8 D.C. e a designação shinobi era a mais usual no Japão feudal. Contudo, a cultura do pós Segunda Guerra Mundial tornou o termo ninja mais popular, talvez pela sua facilidade de reprodução nas línguas dos ocidentais.
Existem ainda muitos termos coloquiais para designar ninjas. Por exemplo, monomi que quer dizer “aquele que vê”. É interessante, e aqui podemos talvez ver expresso linguisticamente, o carácter mágico atribuído aos ninjas. No ocidente, o termo "witch" (bruxo/a) vem do termo celta "wicce" que quer dizer "sábio" simbolicamente, mas literalmente traduz-se para "aquele que vê" ou "vidente". O termo nokizaru também foi usado para os designar e quer dizer “macaco de telhado” (saru é o termo típico de macaco em Japonês, mas refere-se a uma espécie autóctone ao Japão e portanto hoje em dia diz-se Nihonzaru [onde Nihon quer dizer japonês.] Podemos ver o bicho na imagem abaixo). Outros termos mais simples surgem como rappa (rufia), kusa (erva) e Iga-mono (pessoa de Iga). Kunoichi, que quer dizer ninja feminino, surge de se pronunciar cada um dos traços que compõem o caracter para mulher (女 = mulher divide-se em く(ku)ノ(no) 一 (ichi) ).


Historicamente, poucos relatos existem sobre ninjas, se descontarmos os contos populares. O historiador Kiyoshi Watatani disse que os ninjas treinam em segredo e fazem tudo para manter as suas artes secretas:
As técnicas do chamado Ninjutsu (…) têm o objectivo que o adversário não saiba da nossa existência, e para elas existem treinos específicos”, Turnbull, Stephen (2007), Warriors of Medieval Japan, Osprey Publishing.
Antes do século XV, os ninjas não eram mais que assassinos a soldo e ladrões. Mas no período Sengoku, durante o qual os samurais de digladiavam em campo aberto e segundo um código de honra, surgiu uma exigência da existência de homens que não se importassem se fazer guerra duma forma tida como menos honrosa. Os ninjas apareceram então como mercenários de excelência, contratados para espiar, assassinar, sabotar ou roubar o inimigo de quem lhe pagasse.
Na guerra, tiveram inúmeros papéis quer como espião (kancho), batedor (teisatsu), guerreiro de emboscada (kishu) e agitador ou criador de caos (konran). Os clãs ninjas organizaram-se em guildas, ocupando cada uma um determinado território. Tinham uma hierarquia: o jonin (o mais alto na hierarquia) representa o grupo e recebe os contratos; os chunin são os seus assistentes e estão no meio da hierarquia; o agente de campo, que recebe e executa as ordens, o final da cadeia hierárquica, tem o título de genin.
Os ninjas surgiram das regiões montanhosas e de difícil acesso em Iga (actual Perfeitura Mie) e Koga (actual Perfeitura Shiga). A inacessibilidade destes locais poderá ter tido um papel fulcral na criação do ninjutsu. É feita a distinção entre os ninjas destas duas províncias e os espiões ou mercenários contratados do povo por samurais, pois estes clãs eram devotos na criação de ninjas profissionais. E foram-no até Oda Nobunaga ter invadido Iga e destruído os clãs organizados. Alguns sobreviventes espalharam-se pelo Japão, mas outros chegaram até Tokugawa Ieyasu que os recebeu bem e os tornou seus guarda-costas pessoais. Entre eles estava o homem cujo o nome foi popularizado no filme Kill Bill: Hatori Hanzo!
Mais tarde, durante o shogunato de Tokugawa Yoshimune, este último criou um grupo especializado na recolha de informação para daymios e membros do governo, uma primeira agência de serviços secretos. O nome da agência era Grupo Oniwaban. Os seus agentes eram chamados de oniwabanshu (jardineiro, no sentido de “aquele que cuida do jardim”). Embora não haja um documento histórico que o diga, a natureza secreta do grupo leva a crer que os seus membros fossem shinobi. Eles são falados, por exemplo, numa das minhas séries de anime preferidas chamada Samurai X.
Esta ligação entre ninjas e agentes secretos leva-me ao meu filme preferido do James Bond: Só se Vive Duas Vezes.
Ora bem, porque é que este é o meu filme preferido do bom e, admitamos, velho 007?
Bem a resposta tem tanto de complexa quando de previsível. Primeiro, é um dos do Sean Connery, que para mim será sempre o melhor dos Bond. Depois, tem uma ameaça de intriga internacional em que paira no ar o terror do romper de uma guerra atómica entre a URSS e os EUA. Em seguida, passa-se no Japão e no Espaço de baixa órbita! Tem os gadjets mais fixes de toda a série, como o cigarro-pistola e a Little Nellie, aeronave que entrou para o Livro de Recordes Guiness como a aeronave mais pequena pilotada. Depois tem ninjas e duas das actrizes japonesas mais giras que já vi até hoje! Aquela mergulhadora de pérolas era adorável! -_- Para além disso, mostra um Bond conhecedor de uma cultura completamente diferente da dele, incluindo até a língua nipónica. Fala-se de coisas como a temperatura correcta para se beber sake! E tem o mauzão do gato, o vilão que sempre curti mais e o big boss da SPECTRUM (tenho saudades desses gajos!). Ainda adorei um ditado japonês usado pelo Bond quando o seu colega japonês goza com o facto de ele ter pêlos no peito (aparentemente os japoneses não os têm). O Bond diz então: "Um velho ditado japonês diz: Um pássaro nunca faz ninho numa árvore sem folhas!" Ahahaha. Brutal!



Pontos menos bons: o Blofeld mostra a cara neste filme e eu acho que a personagem é muito mais interessante quando não lhe vemos a cara; aquela operação para transformar o Sean Connery num asiático foi uma beca puxado, mas no contexto da história deixa-se passar; treinar um ninja em tão pouco tempo é impossível, mesmo para alguém que seja já de início um espião presumivelmente com vastos conhecimentos de auto-defesa.
http://www.imdb.com/title/tt0062512/

Antes de terminar, e como já devem ter percebido, vou só confirmar que este post terá continuação. O assunto é vasto. Falta falar da acção histórica dos ninjas durante a inquietação da era dos Shogunatos, o pouco que se conhece das suas artes marciais e armas, os poderes místicos que lhes foram atribuídos, e também sobre o que é feito deles hoje em dia. Além disso, falarei dum filme chamado Shinobi de origem japonesa que eu gostei bastante, doutro chamado Ninja Academy (ao género da Academia de Polícia), e de um filme de 2009 chamado Ninja Assassin. Justificarei porque acho que o Bond é um ninja-samurai. Essa entrada terá o título Shinobi - Parte 2. Esperemos que a Parte 3 venha a ser a minha curta! Despeço-me por hora, mas prometo o regresso ainda este ano! (e puff!, desapareço numa bola de fumo)
`_´

domingo, 20 de novembro de 2011

Humor

LOL :




Um pedaço de filme que nunca foi projectado num cinema como bem merecia:



Um video do Jim Carey a gozar com o Karate:
http://www.youtube.com/watch?v=T2u1GKJ3csE&feature=related


Vão ao google tradutor e ponham lá isto:
ノーッサ ノーッサ アッシン ボッセ メ マーッタ! アーイセエーウテーペゴ!アーイ,アーイセエーウテーペゴ
a seguir ponham para traduzir de Inglês para Japonês (Siim, de inglês para Japonês) e ouçam a tradução... é de morrer a rir!

Signing off... 4 now!

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Somente Um Será Homem Imortal

O termo "sushi", que nos dias correntes apenas é usado para designar este famoso prato japonês, quis em tempos antigos dizer, literalmente, "é azedo". Tradicionalmente, sushi é uma combinação de arroz e peixe fermentados, preservados com sal, mediante um processo oriundo do Sudoeste Asiático. Algo que atesta bem à sua origem histórica. Na verdade, o processo de fermentação é tal que quando se adiciona vinagre oriundo da fermentação de arroz, este desfaz o peixe em aminoácidos. O resultado directo deste processo chama-se umami. Existem 5 tipos de sushi e o sushi que comemos hoje em dia é muito diferente do sushi original. Para além disso, existem ainda diferenças entre o sushi oriental e o sushi ocidental.
A forma mais antiga de Sushi, chamada narezushi, é muito parecida com o umami. Foi no período Muromachi ( de 1336 a 1573, D.C.) que o vinagre começou a ser adicionado à mistura para melhorar o sabor e a preservação da comida. O vinagre acentuava a acidez do arroz e aumentava o seu "tempo de prateleira", diminuindo cada vez mais o tempo necessário de fermentação até esta ser abandonada por completo. No séculos seguintes, surgiu uma nova versão intitulada Oshi-zushi (pois foi inventada em Osaka). Nessa nova versãa, o arroz e os alimentos marítimos eram amalgamados por pressão entre moldes de madeira, em geral, bambu.

Pelo meio do século XVIII, esta forma de sushi chegou a Edo (antigo nome de Tóquio). A versão actual do sushi foi invenção de Hanaya Yohei, no final do período Edo. O próprio cozinheiro era de Edo, ou pelo menos lá inventou a sua forma do prato, e como tal o nome original desta forma de sushi ficou Edomae zushi (Edomae= baía de Edo). O nome deveu-se ao facto do peixe com que se confeccionava o prato na altura ser proveniente da baía de Edo. Esta nova forma de sushi foi na realidade uma forma de fastfood do seu tempo pois era feita sem uso de fermentação (logo rapidamente) e podia ser comida com as mãos à esquina ou num teatro!
Existem variadíssimos tipos de Sushi, cerca de 5 ou 6, não contando com a diferença entre a confecção no ocidente e no oriente.


Contudo, existem riscos a comer sushi. Qual risco? O de não se arrotar no fim da refeição e o nosso anfitrião achar-se ofendido, pensando-nos insatisfeito com a sua comida, sacar da Katana ancestral da sua família e dar-no uma morte mais honrosa que a que nós queriamos? ;D
O risco é na saúde física do consumidor. O atum, um dos ingredientes utilizados, devido a estar no topo da cadeia alimentar no seu habitat, tem altíssimas quantidades de mercúrio. Assim, o abuso do sushi pode levar a envenenamento por mercúrio. Sim, o mesmo metal dos termómetros. Cool, hã? LOL
Como o peixe vem cru, é também possível apanhar uma infecção bacterial, embora nos dias de hoje as estatísticas são contra tal ocorrência (cerca de 40 pessoas por ano nos USA).
Há ainda formas do sushi que utilizam peixes como o Fugu (http://en.wikipedia.org/wiki/Fugu) que tem no seu interior orgãos carregadinhos de veneno neuronal, pelo que tais pratos só devem ser confeccionados por chefes devidamente treinados e certificados no Japão.
Agora, meus caros samurais, se continuam sem medo e ainda não provaram, têm uma excelente oportunidade de o fazer no Museu do Oriente, diz 29 de Setembro.


P.S.: Se se estão a perguntar o porquê do título, não, não é porque os imortais do Clã Macleod usavam uma espada samurai que o escolhi... Olhem com atenção e lembrem-se enquanto o fazem do que fala este post! ;D Sayonara!