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sábado, 24 de agosto de 2013

Paixões Culturais para Hoje e para o Futuro

Bom, meus amigos e amigas, já que o governo pouco ou nada quer fazer pela cultura neste país (e não me venham falar de que não há dinheiro, não sejam piegas!), temos de os acordar para a vida. Comecemos então hoje por assinar a petição para se debater e encontrar solução para o problema da Cinemateca (notícia aqui) naquela que deveria ser o símbolo de liberdade democrática em Portugal e cada vez mais é a vista como a moradia de corruptos, a Assembleia da República. Desde do Regicídio que temos vindo a perder identidade cultural (e não, não sou monárquico, sou apologista de democracias seculares e constitucionais), da monarquia à república, da república à ditadura, dessa velha senhora à revolução (ou para ser historicamente exacto, golpe de estado), e daí, via (des)União Europeia e (des)Acordos Ortográficos, ao Deplorável Estado Novo a que chegámos. Não nos podemos arriscar a perder este registo tão importante da nossa História, mais outro tanto da nossa herança colectiva e personalidade nacional. Aquando do Terramoto de 1755, o Marquês de Pombal, no meio de escombros, fogos, fugas de prisão e mortos acumulados, preocupou-se e bem em assegurar a protecção da Torre do Tombo. A Cinemateca é o equivalente em versão cinematográfica, um registo do século passado em celulóide da 7ª Arte em Portugal. Não teremos agora o mesmo espírito e visão para salvarmos a nossa cultura? Poder-se-ão identificar ou registar via facebook, aparentemente, e não perdem mais que 1 minuto se tanto a assinar a petição. São precisas pelo menos 4 mil assinaturas para ir ao plenário:
Feito o nosso dever de cidadão, podemos agora virar-nos para aquilo que o nosso país e os amigos deste último nos podem oferecer, para nos divertirmos, descontrairmos e aproveitarmos as férias ou as horas de lazer. E estranhamente, também é a cultura e não o governo quem nos providencia estas coisas.
Já agora, que vivemos numa época em que toda a gente procura uma oportunidade, eis duas para quem estiver nas condições de as aproveitar. As imagens abaixo vêm do pdf informativo de Agosto da embaixada do Japão (agora que já desistiram do AO90 e se auto excomungaram do mAO90ismo, já posso copiar directamente as imagens). São respectivamente o teste de proficiência na Língua Japonesa, na Universidade do Porto e uma bolsa de investigação para viver no Japão para doutorados com menos de 65 anos:
Sigamos então para a paródia. Para o dia 25 de Agosto, amanhã, tenho uma proposta para quem está por Lisboa e outra para o país todo.
Para quem está em Lisboa é o último dia da iniciativa Lisboa na Rua (cartaz abaixo[este nada tem a ver com a embaixada japonesa]) e peço-vos imensa desculpa de não ter postado isto antes, mas sou recentemente me deparei com o poster online. Também não tenho estado em Lx, senão nos últimos dias.
Para todo o Portugal, a oportunidade de verem Auroras Boreais (notícia da P3 aqui) em pleno verão, amanhã dia 25, às 2h30 na Europa, poderão ver via internet as transmissões destes eventos celestiais através de dois sites:

Quando adiro a este tipo de iniciativas, penso sempre aquela frase que me maravilha à anos do Oscar Wilde: "Estamos todos na sarjeta, mas alguns olham as estrelas.". Frase de grandiosa simplicidade que se traduz numa enorme e verdadeira profundidade. Por falar em olhar as estrelas, apanharam as Perseidas? Eu vi. Já tinha visto estrelas cadentes antes, mas estas viam-se mesmo bem! Parecia que alguém estava a riscar fósforos enormes na nossa atmosfera! ehehhe Não, contínuo ateu... sorry!
Bom, deixemos as estrelas e voltemos-nos para o Futuro (não, não vou armar-me em Maya). Vamos ver o que há na Agenda Cultural para o mês que vem (assim, recebem aviso com tempo :P ). Dois dos eventos já falei deles aqui noutro post, mas vale a pena recordar:

Dos eventos anunciados pela Embaixada do Japão, restam-me anunciar dois:
              -» a 7ª edição do Motelx:
             -» e uma "Tarde Cultural Japonesa com o grupo Kiwakai":
Mas ainda não acabei, porque o N.I.N.J.A. Samurai é contra a centralização e não é adepto de bairrismos ou clubismos.
Em Évora, os amantes do ciclismo, esse nobre desporto que ressuscitou a moral francesa depois da 2ª Guerra Mundial, que é cada vez mais a marca de um país civilizado e cada vez menos a dos países em vias de industrialização (que evolução tão inesperada, mas ambientalmente inteligente, e que demonstra que por vezes para dar um passo em frente necessitamos de dar dois para trás), poderão divertir-se no BikÉvora 2013. «Uma feira “low-cost” de bicicletas e um passeio de ciclismo para ligar os templos romanos de Mérida (Espanha) e Évora são duas das atracções do BikeÉvora 2013, que vai decorrer de 14 a 22 de Setembro.», in P3 (link para o artigo aqui).
Já que falamos de bicicleta, um café no porto que me despertou o interesse e atenção é o Urban Cicle Café, "é uma loja de biclas, que é café que é oficina", in P3 (link para o artigo). Não sei como a ASAE lida com isso, nem me interessa. Adorava ir visitar e aplaudo o conceito.
Ainda antes de largos as bicicletas, queria chamar a atenção para uma micro empresa baseada em Sintra, onde se criam guiadores para poderes personalizar a tua bicicleta (link para o artigo). A Classica Bikes só funciona através do seu site de momento e é um projecto em fase de arranque. É melhor encomendarem depressa antes que os preços aumentem! ahahha
E já que se fala em Sintra, pois que se faça saber igualmente, que por 3 euros se pode alugar um carrinho de golfe eléctrico para andar a abrir nas curvas do monte que leva ao palácio da Pena, por exemplo. Ora vejam:
http://p3.publico.pt/vicios/em-transito/9013/em-sintra-ja-ha-carros-electricos-amigos-do-ambiente-para-passeios-low-cost
Para quem tiver a oportunidade de dar um salto a Matosinhos, poderá divertir-se com a Feira Medieval de Matosinhos, já no mês que vem:
Por falar em desempenhar papéis e colocar adereços, quero apenas chamar-vos à atenção para uma pequena notícia que um amigo meu colocou no Facebook, sobre este simpático mascarado (que obviamente é fã dos Power Rangers) que anda pelo Metro de Tóquio a fazer boas acções (imagem abaixo e link aqui).
"Há malucos para tudo", diz o povo português, mas fossem todos como este. A máscara tem uma função que é, segundo declara o próprio mascarado, ajudá-lo a contornar a mentalidade japonesa que segundo ele dificulta a que os japoneses aceitem ajuda, por temerem ficar a dever favores. Esconder a sua identidade é uma forma simbólica de dizer apriori e sem falar que nada quer em troca.
Já que estamos no tópico de voluntariado, para TODOS os Guerreiros da Paz espalhados por Portugal, que parece um sítio deixado aos caprichos de Nero, sejam voluntários ou profissionais, aos que vivem e aos que deram a vida, aos que neste momento se debatem com dragões: obrigado, força e um grande bem haja. E contem com o meu apoio na vossa luta. Aos governantes, pelo menos arrangem seguros condignos para os voluntários, porque o que se tem visto nas notícias é ridículo. E sr ministro Miguel Macedo, faça lá o obséquio de parar de dizer barbaridades como os incêndios são uma inevitabilidade e comece a apostar em políticas que impulsionem a limpeza das matas e a vigilância destas, políticas preventivas, que vê logo as ocorrências diminuírem drasticamente. O que se tem visto nas notícias mete nojo.
Por último, e como falei de protegermos a nossa identidade, eis três links engraçados para tal:




Antes de me despedir, só indicar que este People Sleeping Project tem uma página de facebook:

Agora sim, durmam bem, tenham um excelente dia amanhã e reencontramos-nos aqui, em breve!
Arigato & Sayonara, tomadochi! ;)

P.P.S.: tenho sempre de ter um destes... no post anterior, sugeri-vos que fossem ver a curta da Oceana ao PFShorts Fest no Teatro Rápido, na Baixa Lisboeta. Pois eu fui e eis a minha crítica ao evento e às curtas metragens que por lá passaram, feita noutro blog em que colaboro dedicado inteiramente a crítica de cinema: http://74rte.blogspot.com/2013/08/pfshorts-fest-no-teatro-rapido.html

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Automatismo no Japão Medieval - Karakuri Ningyo

Autómato, em termos técnicos, indica um engenho que consegue realizar determinada tarefa de forma independente, uma vez accionado. Exemplo: os UAV norte-americano usados para fazer vigilância remota. São accionados e através da instrumentação que possuem vão do ponto A ao ponto B e retornam a A, conseguindo informação através de câmaras e sensores, que reenviam para a base por telemetria. Se houver alguém a controlá-los remotamente, como no caso de um avião telecomandado, já não são considerados autómatos. Nesse caso, não possuem autonomia na execução da sua tarefa, pois necessitam de um humano a controlá-los.
Karakuri é uma palavra japonesa de duplo significado. Pode querer dizer “mecanismo” ou “truque”. Ningyo por sua vez é escrito pela composição de dois caracteres, uma para “pessoa” e outro para “forma”. Literalmente obtemos uma composição, que pode bem servir a definição para autómato humanóide: um mecanismo com a forma de uma pessoa. Não literalmente, este nome composto pode simplesmente ser traduzido para boneco, fantoche ou efígie.
São engenhos capazes de desenvolver uma actividade específica e pré-programada na sua estrutura, apenas utilizando mecânica pura, podendo a sua locomoção ser gerada através de areia, molas ou mercúrio.
Remontam ao período Edo (de 1603 a 1867) na História do Japão, e eram usados para recriar mitos e lendas ou encenações de momentos históricos, tendo dessa forma influenciado as mais tradicionais formas de teatro japonês: Noh, Kabuki e Bunraku.
Mas não foi apenas no teatro que estes antepassados dos robots se imiscuíram. Os butai karakuri (ou karakuri de palco) eram utilizados nos teatros. Mas haviam também os zashiki karakuri (ou karakuri de tatami caseiro), de pequeno porte, para serem utilizados em casa. E ainda os dashi karakuri (karakuri tipo carros alegóricos), que eram usados em festivais religiosos e encenações de mitos e lendas tradicionais.
Poucos destes autómatos sobrevivem hoje em dia e a arte em si era mantida secreta, passada de artesão mestre para o seu púpilo, numa cadeia frágil que conseguiu ainda assim trazer esse conhecimento até aos dias de hoje.
Acima vemos exemplos mais comuns de zashiki karakuri, sendo neste caso um servidor de chá, que ganha “vida” quando lhe é colocada nas mãos uma chávena. O mecanismo avança em linha recta, movendo os pés para simular o andar humano, e baixa a cabeça em vénia ao avançar. Isso indica ao convidado que o chá é para beber e, quando este remove a chávena das mãos do boneco, o karakuri pára. Quando a chávena é recolocada nas mãos do fantoche mecanizado, este reergue a cabeça, dá meia volta e retorna para de onde veio. Tipicamente é potenciado por molas feitas de osso de baleia e as suas acções são programadas pela acção de alavancas e rodas dentadas. Este tipo de karakuri era utilizado especificamente quando o anfitrião desejava divertir os seus convidados durante o chá.

Façamos agora uma pequena comparação com o resto do mundo, apenas aproveitando esta oportunidade para percebermos há quanto tempo o homem anda a tentar recriar-se a si mesmo e a vida em geral de forma autónoma.
O caso mais famoso e ao mesmo tempo mais antigo de autómatos no mundo Ocidental, pertence a Heron de Alexandria, um engenheiro da Antiguidade que fez diversos autómatos (entre muitas outras coisas, como por exemplo “O princípio do caminho mais curto da luz” e uma método iterativo para se calcular raízes quadradas), alguns deles para fins religiosos, utilizados em templos para deixar os fiéis sem fôlego ao entrarem no templo. Heron viveu no século I D.C., criou variadíssimos autómatos como, por exemplo, a Aeolípile, em que uma câmara circular é colocada em movimento pelo uso de água vaporizada e condutas que encaminham esse vapor para a câmara circular de onde depois ele sai por outras condutas que fazem a câmara rodar num eixo. Os variados trabalhos de Heron foram traduzidos para latim no século dezasseis, tendo até então sido mantidos por monges copistas. No renascimento, os seus trabalhos foram recriados e tornaram-se a base para outros autómatos movidos a vapor.
Mas há relatos não confirmados, nomeadamente por Pindar, um historiador grego do século V A.C., que descreve Rodes da seguinte forma na sua sétima Ode Olímpica:
“Lá estão as figuras animadas/ Adornando todas as ruas públicas/ E parecem respirar em pedra, ou / mexerem os seus pés de mármore.” (tradução minha do inglês que está na wikipédia.)
Mas também o Médio Oriente tem relatos históricos antiquíssimos sobre autómatos, envolvendo aquele que foi provavelmente o maior engenheiro e místico do seu tempo, Salomão. É contado que ele criara um trono no seu templo (cuja arquitectura é ainda hoje venerada pelos mestres maçónicos) adornado com animais mecânicos que o anunciavam como rei quando ele a este ascendia. É ainda dito que quando ele se sentava no trono, uma águia colocava-lhe uma coroa na cabeça e uma pomba entregava-lhe um pergaminho do Torah.
Da China antiga, surge também um relato interessante no texto Lie Zi, escrito no século III A.C. Nesse texto, há uma descrição de um acontecimento muito mais antigo, um encontro entre o rei Mu de Zhou (1023 – 957 A.C.) com um engenheiro conhecido como Yan Chi. Este último apresentou ao rei um autómato humanóide de tamanho real que criara. O rei ficou espantado quando viu a figura andar em passadas longas e decidas, e quando o engenheiro lhe tocou no queixo, ele começou a cantar em perfeito tom e ritmo. Ao se aproximar o desfecho da canção, o autómato terá piscado o olho, flirtando com as mulheres presentes, o que deixou o rei ofendido e desejando a cabeça do engenheiro. Este então, temendo pela vida, desfez o autómato e mostrou ao rei que era feito de cola, madeira e couro. O rei observou que todos os órgãos estavam representados no autómato e que quando se lhe removia um o mecanismo perdia capacidades: exemplo, removendo o coração, ele não mais cantava. O rei terá ficado maravilhado.
Em tempos medievais, em que o império Árabe era um poço de conhecimentos científicos que meteriam os seus homónimos europeus da época a um canto, Bagdade era conhecida pelas estátuas que adornavam as suas muralhas e torres e que se moviam com o vento, em meados do século VIII, D.C. É relatado ainda que em 827 o califa Al Ma’mum tinha no seu palácio uma árvore em ouro e prata que ganhava vida e de onde surgiam pássaros cantantes feitos de metal.
No Renascimento, com a publicação dos trabalhos de Heron, o automatismo regressou em força. Até Da Vinci projectou um de cujos desenhos só foram reencontrados nos anos 50 do séc. XX. O autómato seria capaz de mexer a cabeça, os braços e sentar-se com postura perfeita.
Muitos autómatos foram também usados para embelezar as fontes e jardins dos palácios europeus nessa época.
Para mais detalhes sugiro a página da wikipédia sobre o tópico que tristemente não existe traduzida para português:
http://en.wikipedia.org/wiki/Automaton

Este tópico surgiu devido ao facto de estar agendada para a próxima terça-feira, 22 de Novembro, às 18h, no Museu do Oriente, em Lisboa, uma palestra sobre os Karakuri, dada pelo mestre “HARUMITSU Hanya, que nasceu em 1942 e dirige a oficina de Restauro de Bonecos Mecânicos Karakuri, onde se restauram e fabricam bonecos autómatos utilizando as técnicas antigas. Na sua conferência, o mestre mostrará e explicará o funcionamento de três exemplares de bonecos: o boneco que serve chá, o boneco acrobata e o boneco mágico. Uma oportunidade de descobrir um dos aspectos mais desconhecidos da tradição japonesa que une passado e futuro da alta tecnologia do país do sol nascente.”
(esta informação chegou-me por mail pela Embaixada do Japão em Portugal e o texto acima citado está no site do museu do Oriente:

http://www.museudooriente.pt/1335/bonecos-karakuri.htm )
Aproveitem pois a ENTRADA É LIVRE (pendente a lotação da sala) e é uma palestra muito interessante quer para quem nutre um gosto pela cultura japonesa, quer para quem simplesmente goste de robótica.

Se não conhecem, podem igualmente aproveitar o fim de semana para ver o filme Blade Runner, com Harrison Ford no principal papel e Ridley Scott como realizador, que trata precisamente o tópico do que acontece quando os seres humanos criarem autómatos completamente conscientes e vivos, embora artificiais. Escolhi este filme não só por ter a ver com o tópico mas também por ser visualmente espectacular e por na Los Angeles que é mostrada no filme e que seria o futuro dessa cidade, se falar um dialecto que mistura japonês com outras línguas.
http://www.imdb.com/title/tt0083658/

NOTA: Não, não existe uma versão anime deste filme, isto é arte de fã que encontrei online e que aqui dou destaque pelo belíssimo trabalho. Contudo, Ridley Scott já disse que depois de acabar o filme Prometheus que é uma prequela não directa do filme Alien, irá fazer um filme dentro do universo do Blade Runner embora sem conexão aos acontecimentos do filme em si. Talvez daí venha a surgir uma série de anime.

Sayonara e bom fim de semana, com chuva e relâmpagos, mesmo bom para estar em casa e escrever... -_´ eheheheh

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Os Bichinhos Maus

O título desta entrada parece quase o de um livro de histórias para criancinhas. É que, antigamente no Japão, havia a crença de que por detrás de cada doença ou maleita, estava uma insidiosa criaturinha que penetrava no corpo humano e a causava. Um ilustre desconhecido, mas que se crê ter residido em Osaka, escreveu em 1568 um compêndio de seu nome Harikikigaki, que identifica 63 doenças e os seus respectivos causadores, bem como curas através de acupunctura e remédios herbais.
O livro original está hoje em dia à guarda do Museu Nacional de Kyushu que defende que este livro teve um papel fundamental em dissiminar a medicina tradicional chinesa pelo Japão.
Segue-se a título de exemplos, algumas das bestas microscópicas que eram os bodes expiatórios das doenças na altura.







Então primeiro temos o Kashaku, um insecto mauzão que encontramos no fígado, que magoa o seu hospedeiro impulsionando-se para cima em direcção à boca do estômago. Os infectados têm a tendência de berrar enraivecidos ou então procurar actividades para descomprimirem, sendo que lhes apetece comidas àcidas e evitam as comidas oleosas. Pode ser detido pela acupunctura.




Na imagem seguinte, encontramos dois destes monstrengos.
À esquerda, aparece-nos o Hizo-no-Kesshaku, que gera problemas no baço e pode ser detido pela ingestão de shazenji (semente de plantago: http://pt.wikipedia.org/wiki/Plantago ).
À direita, podemos ver o Kanmushi, que é um parasita prejudicial que se agarra à espinha dorsal e encurva-nos as costas. Os infectados desenvolvem também um apetite por comida picante. As ervas mokko (Saussureae radix) e byakujutsu (Atractylodes macrocephala Koidz) são eficazes a combater o Kanmushi.





Gyochu (à esquerda na próxima imagem), é uma criatura mortífera e responsável pela lepra, e actua como um mensageiro do Submundo (dos mortos e não do crime, entenda-se). Na noite de Koshin-no-hi (uma noite que se repete a cada 60 dias no calendário chinês e tem uma importância simbólica), deixa o corpo para visitar o Enma-daio (o Senhor do Submundo) e falar-lhe das suas malandrices. O Enma-daio é conhecido por castigar as pessoas que se portam mal, reduzindo o seu tempo de vida.
O Haimushi (à direita na mesma imagem), uma criatura que com um terrível apetite por arroz, cria problemas nos pulmões. Se o Haimushi sai dos pulmões e não consegue reencontrar o caminho de volta, sofre uma metamorfose e transforma-se num hitodama(uma espécie de fada de fogo), que causa a morte do hospedeiro. A erva byakujutsu é capaz de afastar o Haimushi.





O Kagemushi aparece-nos de seguida. Tem uma versão feminina e outra masculina e ambas aparecem durante actos sexuais. (São por tanto uns chatos do caral... Enfim, voltando à "medicina"!) Quando um casal de Kagemushi se junta, enlançam-se pelos pés e o elemento feminino segrega um visco vermelho enquanto que o masculino um visco branco. (Nota: a minha fonte não referia a cura.)





Na imagem abaixo, à esquerda, surge-nos o Hizo-no-kazamushi, um verme ou minhoca que se aloja no baço e que causa uma perda ou ganho de massa corporal, de acordo com aquilo que o hospedeiro comer.
As ervas agi (ferula) e gajutsu (Curcuma zedoaria: http://en.wikipedia.org/wiki/Zedoary ) são eficazes a controlar a acção deste verme.
À direita, temos o Akuchu, que também se aloja no baço, consome o arroz ingerido pelo hospedeiro. Beber mokko é um antídoto eficaz.





O Haishaku (que podemos ver à esquerda, na próxima imagem), que se aloja na parte superior dos pulmões, é uma criatura cujo o nariz se abre directamente para o seu esterno. Os seus hospedeiros passam, sob a sua influência, a odiar qualquer tipo de odor, seja ele agradável ou malcheiroso, contudo gostam de cheiros pungentes como o cheiro a peixe. Outros sintomas incluem tristeza na fronteira da depressão e desejos de comida picante. Um uso suave, gentil e superficial da acupunctura é um tratamento adequado.
Kakuran-no-mushi (à direita na imagem abaixo), um verme de cabeça negra e corpo vermelho, que invade o estômago e causa diarreia e vómitos. É conhecido por subir à boca do hospedeiro e bicar-lhe a cabeça toda. As ervas goshuyu (Euodia rutaecarpa), shazenshi e mokko são eficazes na luta contra este verme.






Atenção que vem aí o Umakan, uma besta que causa problemas cardíacos. Infecta pessoas ao ar livre que estejam expostas ao Sol ou próximas de fogo. É tratável com Acupunctura.





Koseu ou Kosho, tem o corpo com aspecto de serpente, uma cara com uma barba mal semeada e esbranquiçada, e usa um chapéu que o protege dos remédios contra ele usados (Àparte: simplesmente brutal a imaginação dos médicos da altura.!!). Gosta de beber sake doce e consegue falar.








A seguir, temos o Kameshaku, bicho este que come arroz e se faz munir de um chapéu-de-chuva ou uma sombrinha, que o protege da medicina. Pode contudo ser destruído pela ingestão de feijões selvagens.





Ainda temos o Koshi-nu-moshi, que voa pela boca do hospedeiro adentro, encaminhando-se para a zona baixa das costas. De lá causa diarreia, suores e dores no peito. As ervas mokko e kanzo (raíz de Alcaçuz [Note-se a raiz arábica do nome da planta em português, claro indicativo que a erva terá sido conhecida por cá e introduzida pelos árabes, por estes trazida do oriente.]) são eficazes a tratar da saúde a este bicharoco (podemos vê-lo abaixo de asas abertas).









Outros dois bichinhos nada simpáticos são os que nos surgem na próxima imagem.
O Chishaku (à esquerda), que surge no estômago depois do hospedeiro ter sofrido uma doença grave. Pode ser controlado pela administração shukusha (Cardamomo siamês selvagem).
Já o Hizo-no-mushi (à direita), vive no baço, podendo causar tonturas e ardores quando agarra violentamente os musculos do hospedeiro com os braços e as suas poderosas garras. Pode ser detido pela ingestão de mokko e daio (ruibarbo).










Na imagem seguinte, um outro par de malfeitores mitológicos.
Kiukan ou Gyukan, habita o peito e a sua acção sente-se à hora da refeição. É uma criatura particularmente difícil de combater, mas a acupunctura funciona contra ela.
O Kishaku é um ser vermelho escuro que faz com que o seu hospedeiro desenvolva um apetite nada saudável por comida oleosa. Pode ser detido, comendo-se estômago de tigre.









Já o Jinshaku, é como que um pequeno touro que percorre loucamente todo o corpo. As vítimas desta besta microscópica sofrem de pulso fraco, uma tonalidade de pele escura, um desejo por comida salgada e mau-hálito. É tratado através de acupunctura.





Hishaku (à esquerda) aloja-se no baço, mas afecta maioritoriamente mulheres. Os sintomas incluem um desmesurado apetite por doces, uma tonalidade de pele amarelecida, e uma tendência para entoar melodias murmurando. Pode ser detido pelo uso de acupunctura em torno do umbigo.
O Hinoshu também habita o baço e tem o aspecto de uma pedra. Permanece adormecido até o hospedeiro visitar uma zona fortemente visitada e cheia de gente. Nessa situação, o Hinoshu rebola e cai, como se se tivesse pedras a rebolar dentro do corpo, deixando o hospedeiro zonzo. O tratamento obtém-se pela acupunctura.









É-nos fácil hoje em dia gozar com tais crenças e pseudo-ciências, tendo em conta o actual conhecimento técnico-científico da nossa medicina. Mas podemos fazer um paralelo com os factos científicos que hoje conhecemos. A verdade é que sabemos que muitas das nossas maleitas são criadas por seres vivos orgânicos que conhecemos como vírus, bactérias , fungos e micróbios, já para não falar nos chatos. Afinal, os japoneses não estavam assim tão longe da verdade. Quanto aos tratamentos, sugiro que façam uma busca na net pelas plantas mencionadas que ainda hoje são reconhecidas pelas suas propriedades curativas. Por outro lado, a acupunctura no final do século passado passou de pseudo-medicina para a agora chamada medicina alternativa. O seu historial de sucesso prático tem cerca de 5 mil anos em história escrita. Ao compararmos a medicina japonesa dessa época, com a nossa na mesma época, que ainda usávamos sanguessugas para curar febres, que mandavamos mulheres que conheciam o poder curativo das plantas para a fogueira por bruxaria, talvez com isso em mente possamos dar o desconto e perceber que se calhar, esta medicina antiga não é assim tão disparatada como à partida nos possa parecer. Não naquela época e relativamente a nós.





Até à próxima...