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quinta-feira, 19 de junho de 2014

GOJIRA

Recordar-se-ão os leitores assíduos aqui do Samurai que eu fiz em temos um post sobre as origens do Godzilla intitulado Hibakusha II: O Rei dos Daikaiju.
Desta volta, vou apenas limitar-me a fazer uma crítica de cinema relativa ao novo filme do Rei dos Daikaiju.
O filme chega-nos pela visão e direcção de Gareth Edwards, realizador que fez o filme “Monsters” que estreou em 2010 e captou a atenção dos cinéfilos de todo o mundo pois foi o primeiro a conseguir efectivamente criar no seu quarto todos os efeitos especiais digitais do filme, mas com a qualidade ao nível de Hollywood. Para aqueles de vocês que sejam fluentes em inglês sugiro-vos a entrevista que o Dr Mark Kermode fez ao então jovem realizador exactamente devido a esse feito, que vos deixo aqui linkada.
O novo “Godzilla” tem muito do carácter do filme de estreia do realizador, por isso é bastante interessante ver os dois filmes de seguida e por ordem de data de estreia. Ambos os filmes procuram centrar-se em personagens humanas, através das quais experimentamos uma Terra onde monstros enormes e poderosos existem abertamente e causam problemas aos humanos. Mas enquanto em “Monsters”, o filme não evolui dessa dinâmica, em “Godzilla” o próprio monstro torna-se uma personagem, pela qual começamos a torcer, e como que se torna mais importante que os humanos que temos anteriormente andado a seguir durante o filme. Considerando o título do filme, não só foi uma boa jogada, como era a única jogada de sucesso.
Uma outra coisa interessante em “Godzilla”, e que também o diferencia em “Monsters”, é o facto dos humanos surgirem literalmente como se fossem colónias de formigas desesperadamente a fugirem dum luta de dois humanos sobre a sua metrópole. É que neste filme os humanos nada podem contra os monstros, tal como as formigas nada podem contra humanos.
É notório nos bonecos relativos aos dois últimos filmes do Godzilla essa diferença. Na primeira adaptação americana, os bonecos que sairam eram tipo GI Joe, com os homens tão importantes ou mais que o Godzilla (figura à direita). Nesta última versão, os monstros é que interessam e os humanos estão lá como se fossem cenário (figura à esquerda).
Como não podia deixar de ser num reboot (recomeçar) da frandchise, que já agora já tem confirmada uma sequela com o mesmo realizador ao leme, a história procura reintroduzir o Godzilla e, portanto, é uma história de origem. Assim a origem do rei dos monstros é recontada. Acaba por não se distanciar muito do original, mas ao invés de ser um produto da radiação de bombas nucleares sobre animais, acaba por ter uma inclinação ecológica e dizer que estes monstros precederam os dinossauros e viviam num era onde a radiação à superfície terrestre era muito mais elevada. Assim, quando os americanos começaram a mandar bombas e muitos países a fazerem reactores nucleares, os sobreviventes ou descendentes dessas raças acordam de hibernação. Essa premissa, algo que defeituosa devido à escala de tempos envolvida, já foi antes usada para explicar os dragões em “Reign of Fire”, o meu filme favorito com dragões, mas depois encaixa bem numa explicação de cadeia alimentar que completa o sentido lógico da história.
A ideia de que há uma conspiração em que os governos estão a esconder algo das populações que dizem servir e toda a paranóia que acompanha essas ideias, talvez não tão descabidas quanto isso como a realidade nos mostra(refiro-me, por exemplo, ao programa de espionagem norte-americano), é muito bem instrumentalizada para dar corpo ao início do filme. Isso e uma certa consciência do horror do desastre natural de Fukushima e de como as uzinas nucleares quando destroçadas pela Natureza podem, literalmente, envenenar a Terra. Simplesmente, em vez de movimentos da crosta terrestre, o que causa a destruição são as alimárias pré-pré-históricas que dão mote ao filme. Mas o governo local ter de evacuar as pessoas de uma zona radioactiva, deixando vidas inteiras para trás, casas desprovidas de vida, mas cheias de memórias, completamente mobiladas, cidades inteiras tornadas urbes fantasmas, tudo isso surge abertamente reforçando a credibilidade do filme, recordando os terríveis acontecimentos do passado muito recente.
A única coisa que me chateou no filme, ou que achei idiota, foi os militares continuarem a armar-se com metralhadoras e pistolas quando já sabiam o que enfrentavam e que nem bombas nucleares os matavam. Algo que estúpido. Os militares não têm a tendência de carregar armas desnecessárias.
Também achei desnecessário a ida para São Francisco. Aquela ponte já foi mais vezes destruída nos filmes que o cagar da ameixa, passo a expressão, e não era necessário americanizar mais ainda o filme.
Quanto ao boneco, o Godzilla está engraçado, uma mistura de gorila e dragão de Komodo. Embora eu não me junte nem ao grupo que odiou a versão anterior do Godzilla, a que os japoneses chamaram só Zilla porque acharam-no muito pequeno ahaha, nem ao grupo que achou este Godzilla gordo (parece que assim aconteceu entre espectadores nipónicos… nunca estão satisfeitos ahaha), não desgostei desta nova encarnação e o CGI está bem feito e não temos a sensação de falta de peso no boneco, tal como ela não havia no filme do Guillermo Del Toro “Pacific Rim” (ler a minha crítica a esse filme aqui) com os seus kaijus e robots gigantes (criticado por mim aqui). E isso e o sentido de escala é o essencial nestes filmes.
Gostei da banda sonora e do tom negro e mais sério do filme, que contrasta com a versão americana anterior. Os actores estão todos de parabéns, sem que haja nenhum que sobressaía durante o filme, excepto talvez o próprio Godzilla. A cena da qual se vê um pouco no trailer do salto HALO é magnífica num grande ecrã.
Resumindo, é um óptimo filme, próprio para qualquer idade e que merece o grande ecrã. Eu vi em 2D e IMAX. Não me parece que o 3D lá contribua nada, para além da eventual coisa pontiaguda a sair do ecrã, mas como não vi em 3D não afirmo, só suspeito. Aguardo com altas expectativas (o que nunca é bom) a continuação.
De salientar, numa outra nota, que o Godzilla tem agora um planeta com o seu nome!
E, para os mais nerds de nós, eis também uma curiosidade, da qual o mérito não é meu, sobre quando estreou o primeiro filme do Godzilla, o original japonês, em Portugal, ainda nos dias do Estado Novo e com um título idiota:
Se tiver tempo e pachorra, traduzirei aquele vídeo da entrevista do Kermode ao Edwards e depois linko-o aqui também!
Para lá do filme e como já não venho cá há demasiado tempo, deixo-vos aqui também umas actividades para este fim-de-semana e para o resto do mês:
-. esta sexta e este sábado, 20 e 21 respectivamente de Junho, a iniciativa 24 Horas, no Pavilhão do Conhecimento. Notem que o site está sem Acordo Ortográfico... yeah!! :D
- sábado, dia 21 de Junho, a partir das 16h, no Jardim do Japão em Belém, para lá da Torre de Belém, à beira Tejo e ao lado do CCB, a Festa do Japão terá novamente lugar:
-  uma oportunidade para os que tiverem condições para isso, até dia 25 de Junho ainda se podem inscrever nas bolsas para estudar no Japão. Toda a informação no link abaixo:
- por último, uma produção de Sandra Fanha, com realização de José Barahona, dia 27 de Junho no MU.SA (MUSEU DAS ARTES DE SINTRA), estreia "Vianna da Mota", numa projecção ao ar Livre (mais informações abaixo). "Um músico prodígio nascido no século XIX...":
E por hora me despeço, senhoras e senhores, irmãos e irmãs, camadaras e amigos, que amanhã tenho um dia inteiro de despedida de solteiro do meu melhor amigo, do qual tenho também a honra de ser padrinho de casamento. E para isso, com'é lógic' (grande Jorge Jesus!!), não vos convido.
Sayonara, tomodachi! ;)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Automatismo no Japão Medieval - Karakuri Ningyo

Autómato, em termos técnicos, indica um engenho que consegue realizar determinada tarefa de forma independente, uma vez accionado. Exemplo: os UAV norte-americano usados para fazer vigilância remota. São accionados e através da instrumentação que possuem vão do ponto A ao ponto B e retornam a A, conseguindo informação através de câmaras e sensores, que reenviam para a base por telemetria. Se houver alguém a controlá-los remotamente, como no caso de um avião telecomandado, já não são considerados autómatos. Nesse caso, não possuem autonomia na execução da sua tarefa, pois necessitam de um humano a controlá-los.
Karakuri é uma palavra japonesa de duplo significado. Pode querer dizer “mecanismo” ou “truque”. Ningyo por sua vez é escrito pela composição de dois caracteres, uma para “pessoa” e outro para “forma”. Literalmente obtemos uma composição, que pode bem servir a definição para autómato humanóide: um mecanismo com a forma de uma pessoa. Não literalmente, este nome composto pode simplesmente ser traduzido para boneco, fantoche ou efígie.
São engenhos capazes de desenvolver uma actividade específica e pré-programada na sua estrutura, apenas utilizando mecânica pura, podendo a sua locomoção ser gerada através de areia, molas ou mercúrio.
Remontam ao período Edo (de 1603 a 1867) na História do Japão, e eram usados para recriar mitos e lendas ou encenações de momentos históricos, tendo dessa forma influenciado as mais tradicionais formas de teatro japonês: Noh, Kabuki e Bunraku.
Mas não foi apenas no teatro que estes antepassados dos robots se imiscuíram. Os butai karakuri (ou karakuri de palco) eram utilizados nos teatros. Mas haviam também os zashiki karakuri (ou karakuri de tatami caseiro), de pequeno porte, para serem utilizados em casa. E ainda os dashi karakuri (karakuri tipo carros alegóricos), que eram usados em festivais religiosos e encenações de mitos e lendas tradicionais.
Poucos destes autómatos sobrevivem hoje em dia e a arte em si era mantida secreta, passada de artesão mestre para o seu púpilo, numa cadeia frágil que conseguiu ainda assim trazer esse conhecimento até aos dias de hoje.
Acima vemos exemplos mais comuns de zashiki karakuri, sendo neste caso um servidor de chá, que ganha “vida” quando lhe é colocada nas mãos uma chávena. O mecanismo avança em linha recta, movendo os pés para simular o andar humano, e baixa a cabeça em vénia ao avançar. Isso indica ao convidado que o chá é para beber e, quando este remove a chávena das mãos do boneco, o karakuri pára. Quando a chávena é recolocada nas mãos do fantoche mecanizado, este reergue a cabeça, dá meia volta e retorna para de onde veio. Tipicamente é potenciado por molas feitas de osso de baleia e as suas acções são programadas pela acção de alavancas e rodas dentadas. Este tipo de karakuri era utilizado especificamente quando o anfitrião desejava divertir os seus convidados durante o chá.

Façamos agora uma pequena comparação com o resto do mundo, apenas aproveitando esta oportunidade para percebermos há quanto tempo o homem anda a tentar recriar-se a si mesmo e a vida em geral de forma autónoma.
O caso mais famoso e ao mesmo tempo mais antigo de autómatos no mundo Ocidental, pertence a Heron de Alexandria, um engenheiro da Antiguidade que fez diversos autómatos (entre muitas outras coisas, como por exemplo “O princípio do caminho mais curto da luz” e uma método iterativo para se calcular raízes quadradas), alguns deles para fins religiosos, utilizados em templos para deixar os fiéis sem fôlego ao entrarem no templo. Heron viveu no século I D.C., criou variadíssimos autómatos como, por exemplo, a Aeolípile, em que uma câmara circular é colocada em movimento pelo uso de água vaporizada e condutas que encaminham esse vapor para a câmara circular de onde depois ele sai por outras condutas que fazem a câmara rodar num eixo. Os variados trabalhos de Heron foram traduzidos para latim no século dezasseis, tendo até então sido mantidos por monges copistas. No renascimento, os seus trabalhos foram recriados e tornaram-se a base para outros autómatos movidos a vapor.
Mas há relatos não confirmados, nomeadamente por Pindar, um historiador grego do século V A.C., que descreve Rodes da seguinte forma na sua sétima Ode Olímpica:
“Lá estão as figuras animadas/ Adornando todas as ruas públicas/ E parecem respirar em pedra, ou / mexerem os seus pés de mármore.” (tradução minha do inglês que está na wikipédia.)
Mas também o Médio Oriente tem relatos históricos antiquíssimos sobre autómatos, envolvendo aquele que foi provavelmente o maior engenheiro e místico do seu tempo, Salomão. É contado que ele criara um trono no seu templo (cuja arquitectura é ainda hoje venerada pelos mestres maçónicos) adornado com animais mecânicos que o anunciavam como rei quando ele a este ascendia. É ainda dito que quando ele se sentava no trono, uma águia colocava-lhe uma coroa na cabeça e uma pomba entregava-lhe um pergaminho do Torah.
Da China antiga, surge também um relato interessante no texto Lie Zi, escrito no século III A.C. Nesse texto, há uma descrição de um acontecimento muito mais antigo, um encontro entre o rei Mu de Zhou (1023 – 957 A.C.) com um engenheiro conhecido como Yan Chi. Este último apresentou ao rei um autómato humanóide de tamanho real que criara. O rei ficou espantado quando viu a figura andar em passadas longas e decidas, e quando o engenheiro lhe tocou no queixo, ele começou a cantar em perfeito tom e ritmo. Ao se aproximar o desfecho da canção, o autómato terá piscado o olho, flirtando com as mulheres presentes, o que deixou o rei ofendido e desejando a cabeça do engenheiro. Este então, temendo pela vida, desfez o autómato e mostrou ao rei que era feito de cola, madeira e couro. O rei observou que todos os órgãos estavam representados no autómato e que quando se lhe removia um o mecanismo perdia capacidades: exemplo, removendo o coração, ele não mais cantava. O rei terá ficado maravilhado.
Em tempos medievais, em que o império Árabe era um poço de conhecimentos científicos que meteriam os seus homónimos europeus da época a um canto, Bagdade era conhecida pelas estátuas que adornavam as suas muralhas e torres e que se moviam com o vento, em meados do século VIII, D.C. É relatado ainda que em 827 o califa Al Ma’mum tinha no seu palácio uma árvore em ouro e prata que ganhava vida e de onde surgiam pássaros cantantes feitos de metal.
No Renascimento, com a publicação dos trabalhos de Heron, o automatismo regressou em força. Até Da Vinci projectou um de cujos desenhos só foram reencontrados nos anos 50 do séc. XX. O autómato seria capaz de mexer a cabeça, os braços e sentar-se com postura perfeita.
Muitos autómatos foram também usados para embelezar as fontes e jardins dos palácios europeus nessa época.
Para mais detalhes sugiro a página da wikipédia sobre o tópico que tristemente não existe traduzida para português:
http://en.wikipedia.org/wiki/Automaton

Este tópico surgiu devido ao facto de estar agendada para a próxima terça-feira, 22 de Novembro, às 18h, no Museu do Oriente, em Lisboa, uma palestra sobre os Karakuri, dada pelo mestre “HARUMITSU Hanya, que nasceu em 1942 e dirige a oficina de Restauro de Bonecos Mecânicos Karakuri, onde se restauram e fabricam bonecos autómatos utilizando as técnicas antigas. Na sua conferência, o mestre mostrará e explicará o funcionamento de três exemplares de bonecos: o boneco que serve chá, o boneco acrobata e o boneco mágico. Uma oportunidade de descobrir um dos aspectos mais desconhecidos da tradição japonesa que une passado e futuro da alta tecnologia do país do sol nascente.”
(esta informação chegou-me por mail pela Embaixada do Japão em Portugal e o texto acima citado está no site do museu do Oriente:

http://www.museudooriente.pt/1335/bonecos-karakuri.htm )
Aproveitem pois a ENTRADA É LIVRE (pendente a lotação da sala) e é uma palestra muito interessante quer para quem nutre um gosto pela cultura japonesa, quer para quem simplesmente goste de robótica.

Se não conhecem, podem igualmente aproveitar o fim de semana para ver o filme Blade Runner, com Harrison Ford no principal papel e Ridley Scott como realizador, que trata precisamente o tópico do que acontece quando os seres humanos criarem autómatos completamente conscientes e vivos, embora artificiais. Escolhi este filme não só por ter a ver com o tópico mas também por ser visualmente espectacular e por na Los Angeles que é mostrada no filme e que seria o futuro dessa cidade, se falar um dialecto que mistura japonês com outras línguas.
http://www.imdb.com/title/tt0083658/

NOTA: Não, não existe uma versão anime deste filme, isto é arte de fã que encontrei online e que aqui dou destaque pelo belíssimo trabalho. Contudo, Ridley Scott já disse que depois de acabar o filme Prometheus que é uma prequela não directa do filme Alien, irá fazer um filme dentro do universo do Blade Runner embora sem conexão aos acontecimentos do filme em si. Talvez daí venha a surgir uma série de anime.

Sayonara e bom fim de semana, com chuva e relâmpagos, mesmo bom para estar em casa e escrever... -_´ eheheheh

segunda-feira, 29 de março de 2010

"Aqueles que servem" - Parte I

Das brumas da História surge-nos o Samurai, que literalmente significa "aquele que serve".





O primeiro registo histórico dos samurais aparece no século X. No seu início, não passavam de guarda-costas, treinados e equipados por senhores ricos, a quem deviam a sua lealdade. Eram mercenários, recrutados de entre as classes nobres de baixa categoria, nas fileiras das quais não faltavam jovens saudáveis e bem alimentados e cheios de ambição.








O próprio imperador fez-se rodear de tais guardas imperiais, quando a Corte fracassou em recrutar um exército de entre as massas dos camponeses e pequenos proprietários de terra. E os nobres seguiram-lhe o exemplo. Contudo, o próprio imperador do país do Sol nascente, foi eclipsado pelo crescente poder e multiplicação de clãs de samurais. Não demorou muito tempo até dois clãs surgirem com mais poder que os restantes, que se aliavam a um ou outro lado. A guerra civil acabou por se dar, com o Imperador já impotente para a impedir. Nessa guerra civil foi forjada a realidade do Japão Medieval, quando os samurais subiram definitivamente ao poder, chefiados pela figura que então surgiu, o Xogum.


Foi em 1185 que Yorimoto, líder do clã Minamoto, vencedor da guerra civil supra-mencionada, consolidou o seu poder e fez da aldeia piscatória de Kamakura a nova capital do Japão, tornando-se no primeiro Xogum (pintura retrato à direita). Muitos historiadores assumem que foi deveras a partir desse momento que a Era do Samurai começou.








O Xogum era o chefe militar supremo e governou o Japão enquanto ditador, embora o seu poder estivesse constantemente a ser minado pelas guerras, intrigas e quezílias entre os restantes clãs de samurai. Foi durante o Xogunato que a classe guerreira, que englobava apenas 6% de toda a população japonesa da época, se tornou dominante, prosperando num sistema feudal. Os samurais davam a sua lealdade a um lorde ou senhor, ao qual protegiam e auxiliavam a aumentar o seu poder e território. Os samurais eram, em retorno, recompensados com mais honras, riquezas e poder para si mesmos.



Quando as guerras dos clãs eclodiram, os samurais não encaravam os seus oponentes como inimigos malignos e odiados, mas sim como adversários respeitados. Havia entre eles um código, muito sui generis, próximo do cavalheirismo romanesco. Assim, para encontrarem um adversário à altura, os samurais cavalgavam até à linha da frente, declaravam a sua linhagem e os feitos da mesma. Terminada a bravata, os arqueiros disparavam e depois o cavaleiro carregava sobre as linhas inimigas.


Quando o samurai encontrava a vergonha e desonra da derrota (e a esta sobrevivia), procedia ao ritual do seppuku, no qual se esventrava a si mesmo. Para um samurai a desonra é muito pior que a morte. Por ser um ritual deveras doloroso, os samurais começaram a permitir que no seppuku, embora o guerreiro tivesse de se auto-esventrar, podia ter o auxílio de um outro samurai, que lhe cortaria a cabeça após a auto-mutilação, poupando-o ao agonizante sofrimento.
















Uma das maneiras que os samurais tinham para crescer em glória e favor junto do seu senhor, era oferendar a este último as cabeças dos inimigos dele. A recompensa por tal prenda podia ser na forma de uma promoção a um posto hierárquico mais alto, uma maquia em ouro ou prata, ou mesmo as terras e fortaleza dos inimigos conquistados.



Originalmente, a arma predilecta do samurai era o arco. Mas a ferocidade, glória e pura adrenalina do combato corpo a corpo, do duelo mano a mano, elevou a espada ao pedestal de instrumento de morte preferido. Este novo encontrado favoritismo pela espada surgiu em paralelo com a subida ao poder de um novo Xogunato, sob o governo do clã Ashikaga. Existem então vários tipos de espadas de samurai, sendo as mais usadas a katana, a wakizashi e as kodashi. A Katana é uma espada longa, com 60 cm ou mais de lâmina, enquanto as Wakizashi (quer dizer "inserção lateral") eram espadas mais curtas que as Kodachi [(Ko = pequena, tachi = espada), que eram por sua vez mais pequenas que a Katana, nunca passando dos 59 cm], mais conceptualizadas para o uso dentro de casa. A maior diferença entre as kodachi e as wakizashi é a filosofia da sua concepção. As kodachi são feitas para usar independentemente de outras armas, enquanto que as wakizashi são feitas de forma a se adaptarem ao peso do seu utilizador e para complementarem o uso da katana. Contudo, por ser mais longa que uma wakizashi e menor que uma katana, a kodachi é tido como mais rápida que uma katana, embora propocione ataques mais fracos, sendo apelidada de "espada escudo". As kodachi por serem menores que as katanas, podiam ser usadas por comerciantes, no período Edo. Ao conjunto da Katana e Wakizashi, chama-se Daishô. Muitos peritos actuais dizem que a espada de samurai é a espada perfeita. Os artesãos que fabricam estas lâminas espectaculares, que praticamente toda a gente do mundo ocidental reconhece de vista, são denominados em japonês de Katanakaji, que quer dizer "fabricante de espadas longas".
Na figura abaixo pode ver-se um conjunto que mostra os três tipos de espada.



As batalhas deixaram de se travar apenas em campos abertos, para se batalharem cada vez mais em regiões montanhosas onde os grandes senhores erguiam as suas fortalezas. À medida que os exércitos dos samurais cresciam em número, o cavalheirismo no campo de batalha e toda a bravata inicial foi progressivamente esmorecendo até desaparecer, ao mesmo tempo que o número de guerreiros apeados superava o de cavaleiros.



Mas o samurai era mais que um guerreiro. Os daimyo(ou "grandes nomes") recebiam nas suas fortalezas pensadores e filósofos, actores e pintores, enfim artistas e intelectuais de todos os géneros. Praticavam afincadamente a caligrafia o tocar do alaúde e faziam arranjos florais. Escreveram muitos poemas dedicados à exaltação e observação das flores de cerejeira, em cuja vida curta se reviam. Como a flor da cerejeira abandona a árvore no apogeu da sua beleza, assim também o samurai sonhava com uma morte gloriosa no campo de batalha, na plenitude das suas forças, enfrentando hipóteses esmagadoramente negativas. Os samurais dedicavam-se ainda a dominar a arte da cerimónia do chá. Foram monges budistas zen que transmitiram aos senhores Ashikaga rituais a seguir para tomar o chá. O clã do Xogum começou então a usar esses rituais de forma generalizada. O oitavo Xogum Ashikaga criou um ritual para tomar chá mais simples e espiritual. Era tomado numa pequena divisão onde cabia apenas um punhado de pessoas. Talvez tenha sido o ambiente de reflexão e tranquilidade que a confecção e beberagem do chá num ambiente pequeno, onde as espadas eram proíbidas, que tenha cativado os samurais. Era uma cerimónia espiritual que os samurais adoptaram para se libertar das tensões acumuladas das suas vidas intensas. Serviam-se desse ritual para relaxar, meditar e aproveitar o momento presente.


Foi também durante o governo do clã Ashikaga, entre o início do século XIV ao final do século XVI, que as guerras entre os clãs atingiram o seu apogeu, movidas pela ganância e pelo desejo e ambição de governar o Japão. Mas nessa altura deixou de haver um modelo de governo central, enquanto cerca de vinte clãs se digladiavam pelo controlo do reino, durante um período de 100 anos a que os japoneses chamam Sengoku Jidai, ou Era do País em Guerra. Nesta época, o teatro de operações marciais alterou-se significativamente. Os exércitos começaram a comportar milhares de samurais, muitas vezes reforçados por fileiras de ashigaru(pés descalços) armados de arcabuzes e recrutadas à força de entre os camponeses. Estas armas de fogo foram introduzidas no Japão por mercadores portugueses (mea culpa;) e em 30 anos os japoneses tinham os exércitos com maior número de armas de fogo no mundo. A imagem à direita ilustra esse facto histórico. Durante estas guerras de inter-clãs, sempre que morria um grande senhor, os seus samurais conheciam a vergonha, perdiam o grau de samurai e a honra. A partir daí tinham duas escolhas: fazer seppuku ou enfrentar a vergonha tornando-se num ronin (homens das ondas), basicamente samurais sem senhor. Alguns ronin chegaram mesmo a percorrer as ruas de cara ocultada por máscaras e tocando flauta, pedindo esmolas de porta em porta. Contudo, 47 ronin ficaram para sempre imortalizados na história do Japão quando conseguiram penetrar na fortaleza do senhor rival que ordenara a morte do seu daimyo, vingaram essa morte e depois recorreram ao seppuku, recuperando a sua honra. Até tiveram direito a ser imortalizados pela sétima arte: http://www.imdb.com/title/tt0055850/



Em 1616, com o início da dinastia de Xoguns Tokugawa, a guerra civil terminou. O governo de Tokugawa, sediado na cidade de Edo, implementou uma estrutura social estratificada em quatro classes, sendo a dos samurais a mais alta na hierárquia. O comportamento das pessoas dessa época ficou assim determinado pela classe à qual pertenciam. Foi através desta engenharia social que os Tokugawa mantiveram a paz.



A classe mais alta a seguir à dos samurais era a dos camponeses, que basicamente compravam a sua importância com 60 % das suas colheitas, impostos que pagavam aos senhores feudais. De seguida, estavam os artesãos, que faziam as roupas, as armas e o sake que os samurais usavam e consumiam, respectivamente. Na classe mais baixa, e menosprezada pelos samurais, surgiam os comerciantes.


Nesta altura de paz, os samurais pouco tinham que fazer. Recebiam uma pensão anual em arroz, medida em koku( http://pt.wikipedia.org/wiki/Koku ), que era o seu pagamento para levarem uma vida honesta, manterem-se saudáveis e aptos de corpo e mente, as suas lâminas afiadas prontas a saltarem em defesa do Xogum se tal fosse necessário. O que se esperava dessa vida dita honesta era que se mantivessem afastados de formas de entretenimento geradas por mercadores e como tal tidas como decadentes: entre estas encontravam-se as danças de gueixas e as peças de teatro kabuki. Mas o que é certo é que durante a paz, os samurais de mais baixa categoria começaram a frequentar bordéis e as casas de chá de Quioto e Edo, o que foi visto pelos intelectuais da época como um comportamento decadente tanto do ponto de vista económico como do moral.


Embora fosse fácil manter as espadas afiadas, durante a paz as capacidades físicas e psicológicas definhavam e, alarmados com a possibilidade dos samurais se tornarem fracos, alguns mestres conceberam códigos de comportamento e ética que ao serem seguidos manteriam os samurais tão afiados como as suas armas. No período Edo, o ensino das artes marciais foi difundido através do bushido (a via do guerreiro), tradição que ainda hoje impregna a sociedade japonesa. Em 1716, um samurai de clã Saga, de seu nome Yamamoto Tsunemoto, publicou o Hagakure, que renovava o bushido e realçava a mentalidade marcial que definhava na paz da era Tokugawa. Disse então esse samurai que "Se formos confrontados com as duas alternativas, viver ou morrer, devemos escolher a morte sem vacilar."

Mas mesmo com estas tentativas de revitalização, o crepúsculo dos samurais aproximava-se inevitavelmente e chegou, como o mais inesperado dos ataques, de surpresa. À medida que o custo de vida aumentou no Japão, os samurais foram ultrapassados em riqueza e poder pela classe que mais desprezavam, a dos comerciantes. O seu desprezo ancestral para com esta classe social parece quase profético. Subitamente, a sua pensão anual de arroz, na maioria das vezes convertida em dinheiro, foi desvalorizando regularmente. as famílias de daimyo ficaram falidas, pois os ganhos da venda de arroz não se comparavam já aos lucros duma loja de quimonos. Assim, os samurais foram forçados a tornar-se instrutores de artes marciais, polícias e contabilistas, mesmo artesãos (faziam guarda-chuvas, gaiolas ou mobílias) para terem os suplementos monetários que necessitavam.



Mas o golpe final aos samurais veio por uma conjugação de acções externas em combinação com uma mudança de rumo e de poder e reestruturação social no Japão. Quando os navios negros (em japonês Kurofune) do comodoro americano Matthew Perry chegaram ao Japão, ficou clara a inabilidade do Xogum de defender o Japão duma invasão estrangeira. Essa revelação foi reiterada pela rápida adesão a pactos com os estrangeiros por parte do ditador militar japonês. Um conjunto de samurais descontentes e ainda poderosos, juntamente com anti-estrangeiros e inimigos dos Tokugawa, uniram-se sob o estandarte do há muito hibernado imperador. Esta força revoltosa foi apoiada por mercadores influentes e camponeses descontentes com a inactividade do regime vigente de então. No final da década de 1860, estas forças unidas removeram o Xogum do poder, restituindo o comando do Japão ao Imperador, de seu nome Meiji, que formou um governo constituido por muitos samurais de educação superior.
A imagem abaixo ilustra a chegada dos navios negros ao Japão:


Mas a verdade é que o Imperador saiu melhor que a encomenda aos samurais que o apoiaram neste derradeiro golpe de estado, pois ao invés de restabelecer um regime conservador devolvendo o esplendor e poder aos samurais, este aboliu o sistema de classes, dissolveu os sistemas feudais e proíbiu o uso de espada por parte de samurais. Os samurais que apoiaram o Imperador acharam-se traídos e houve inúmeras revoltas, mas os modernamente equipados exércitos do governo Meiji conseguiram abafar todas estas derradeiras tentativas dos samurais para retomar o seu estatuto perdido. Na última batalha, samurais envergando as tradicionais armaduras e armados de arcos e espada, liderados por Saigo Takamori, carregaram sobre o exército imperial, acabando por perecer sob o poder de fogo de metralhadoras.


Assim terminou a Era do Samurai, mas o misticismo da sua via nunca deixou de influenciar os costumes da sociedade japonesa e o imaginário do mundo inteiro até mesmo no século XXI.




A minha interpretação do código do Samurai - Capítulo I




Neste capítulo, falarei no que diz respeito ao que o código do samurai exige da educação e formação de um samurai.


O código diz que uma vez que o samurai pertence à classe superior a cujo encargo está a administração, então o samurai deve ter uma boa educação e um alargado saber sobre tudo o que o rodeia. Mas, nos tempos da guerra civil, os samurais iam para o campo de batalha com a idade de 15 ou 16 anos, sendo que forçosamente começavam a exercitar a sua perícia militar pelos 12 ou 13 anos. Assim, faltando-lhes o tempo para praticarem a caligrafia ou lerem livros, os samurais dessa época dedicavam-se por inteiro ao estudo da guerra e à via do guerreiro, pondo de parte a educação cultural, sendo na sua maioria analfabetos. O código diz que tal é compreensível pois não se devia nem à falta de empenho dos pais na educação das novas gerações nem na falta de inclinação para os estudos, mas sim devido à necessidade de então.


Contudo, a partir do momento em que há paz, os conhecimentos marciais não precisam de preceder aos restantes saberes, nem precisam de ser fomentados desde tão tenra idade, pelo que é esperado que a partir dos 7 ou 8 anos os samurais comecem a ler. O código do samurai manda ler os Quatro Livros, os Cinco Clássicos e os Sete Textos (essencialmente tratados de filosofia budista e confucionista). Contudo, e mais uma vez trazendo este código aos dias de hoje, é uma boa ideia que as crianças comecem a ler cedo, mesmo que leiam livros de banda-desenhada. Eu li bd até aos dezasseis anos e só quando descobri a ficção científica mais pesada é que deixei os meus Astérix, Mickeys, Tio Patinhas, X-Men e Batman, entre outros para começar a ler Tolkien, Ray Bradbury, Salman Rushdie, A E Van Vogt, Filipe Faria, Humberto Eco, etc... Toda e qualquer leitura que nos ensine algo, que nos permita viajar por fantasias ou realidades que não a nossa e que por meio dessa viagem estimulem a nossa imaginção e creatividade, a nossa capacidade de sonhar e mesmo de pensar estrategicamente, que nos ensine novos pontos de vista, torna-nos (como diriam os Jedi de Lucas) parte de "um mundo muito maior". A fim de uma pessoa ser um cidadão em toda a plenitude da palavra é preciso estar inteirado do maior número de pontos de vista diferentes afim de poder então formar o seu próprio ponto de vista e poder ajudar construtivamente a sociedade na qual está inserido. A cultura é maior arma de todos os tempos, "saber..." será sempre "... poder." Para podermos votar em consciência, não nos podemos deixar levar pela conversa deste ou daquele político, deste ou daquele comentador, deste ou daquele telejornal, devemos procurar toda a informação disponível, ouvi-los a todos e depois pensar estrategicamente e para tal temos de aprender a pensar por nós próprios. Não há nada que este mundo precise mais que pensadores independentes e livres e esses são criados na forja da cultura, através da leitura e da busca pelo saber. Na altura dos samurais, estes precisavam de ter cultura pois eram governantes... hoje em dia, todos somos governantes... esse é o significado da democracia, o poder está no povo. Mas como qualquer poder, se o povo não tem a maturidade ou a cultura suficiente para tomar as suas próprias decisões sozinho, então haverá sempre os que controlarão a multidão com "panus et circus" como diria um romano.


É dito também que não se pode culpar as crianças pela falta de cultura ou de amor a esta. A responsabilidade de suscitar esse interesse pela cultura reside nos pais. Há um samurai em cada um de nós, enquanto cidadãos todos temos o dever, assim como o direito, de escolhermos o rumo do nosso país. Até mesmo o poder de melhorar aquele pedacinho do mundo em que vivemos. Mas para tal, é preciso cultura e erradicar a ignorância ou as falsas sabedorias. Pensem, leiam, aprendam, questionem, ensinem as vossas mentes a funcionar de forma independente do que o que a maioria diz. Quando todos o fizermos e tivermos uma sociedade de pessoas que pensam de forma livre e independente, por si mesmas, ao invés duma multidão apática então... teremos um país de samurais onde não serviremos senhores feudais (ou os políticos que a nossa apatia colectiva engorda), apenas nos serviremos uns aos outros, enquanto iguais em direitos e deveres.