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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Hôshasen


Pelo video acima, já devem ter percebido o tópico da entrada de hoje. Hôshasen quer dizer "radiação" em japonês. Vem no seguimento de outros tópicos anteriores, como os posts sobre hibakushas e o post sobre o terramoto de 11 de Março de 2011, mas também porque estamos a meio do Verão e um dos objectivos primordiais do NINJA Samurai é dar conhecimento, sempre que possível, prático aos seus leitores!
Por isso, comecemos por um aviso menos alarmante talvez, mas também mais presente e banal, que como tal corre o risco de não ser levado a sério pela maioria dos humanos.
 
No Japão, há uma tribo social e urbana que se intitula Ganguro (http://en.wikipedia.org/wiki/Ganguro), que significa “rostos negros”. Vestem-se de forma exuberante, pintam e descoloram os cabelos e têm a pele excessivamente bronzeada. Esse bronzeado conseguem-no através dos frequentes banhos de sol e/ou idas frequentes a solários. Para as jovens japonesas que pertencem a esta tribo urbana, não há nada mais fixe que uma pele excessivamente bronzeada. Em Portugal, como país à beira mar plantado que é, também temos uma cultura do “trabalhar do bronze”. Como vemos nas notícias, as pessoas desempregadas que vivem ao pé de praias, depois de enviar currículos em resposta a ofertas de emprego, pegam no telemóvel e vão para a praia. E quem não gosta de ver aquele bronze bonito e saudável na pele? Cada vez mais vemos as nossas actrizes e apresentadoras de TV bronzeadas durante todo o ano, graças à utilização de solários com regularidade.
Mas tudo o que é em demasia faz mal e, como se diz na minha família, “Por causa dos abusos é que o meu bisavô matou o corvo”. Já existe, de facto, um nome técnico para as pessoas que não conseguem viver sem uma pele bronzeada e que por mais bronzeadas que estejam sentem-se sempre pálidos: são os tanoréxicos. Pessoas cuja obsessão pelo bronze perfeito coloca em risco a sua saúde física e mental. O termo foi cunhado por dermatologistas norte-americanos e é indicativo de uma doença do fórum psicológico, embora possa ser acompanhada de lesões e queimaduras cutâneas. As pessoas que sofrem desta patalogia, foram primeiro descobertas pelo comportamento anormal de irem a um dermatologista com lesões cutâneas geradas pelos raios UV e mesmo assim continuarem a expor-se à radiação UV. “A tanorexia surge frequentemente associada a um distúrbio depressivo, à fobia social, ao distúrbio obsessivo-compulsivo ou, nos casos mais graves, ao distúrbio delirante do tipo somático. Neste último, o paciente manifesta a convicção absoluta e inabalável de que possui um tom de pele muitíssimo mais claro do que é na realidade.”, in Super Interessante. É semelhante à anorexia, no sentido de que um anoréxico nunca se acha suficientemente magro, os tanoréxicos acham-se sempre pálidos. E para suprir essa deficiência imaginária vão abusando dos banhos de sol, na praia ou na piscina, conjugados com visitas ao solário.
Ora bem, claro que podemos (e devemos, porque necessitamos de vitamina D) banhar-nos na luz solar. Contudo, devemos fazê-lo, como em tudo na vida, de forma consciente e cautelosa. Sabendo que temos hoje, não um mas, dois buracos do ozono na atmosfera terrestre torna-se imperativo que nos protejamos. E a protecção é simples de se fazer. A aplicação correcta de um protector solar factor 50 e sairmos do Sol nas horas de maior intensidade (das 11h às 16h), é o suficiente. Sim, é uma grande parte do dia, mas infelizmente a raça humana tem de pagar pelo que anda a fazer ao globo desde a Revolução Industrial. Pá, durante essas horas, vão beber umas cervejas para a sombra duma esplanada, vão comer um gelado, ou beber café. Vão a um cinema, se houver essa oportunidade. Depois, voltem à praia. Até tornará o dia de praia menos rotineiro.
Quanto aos solários, bem, isso é logo outra história:

"Os utilizadores de solários têm 20% mais probabilidade  de apanhar cancro de pele do que as pessoas que nunca os usaram e o risco  duplica quando a utilização começa antes dos 35 anos, revela um estudo hoje  divulgado.
O estudo, publicado no British Medical Journal, resulta do trabalho  de investigadores do Instituto Internacional de Investigação Preventiva,  em França, e do Instituto Europeu de Oncologia, em Itália, que analisaram  os resultados de 27 estudos diferentes sobre cancro de pele realizados na  Europa ocidental entre 1981 e 2012. 
Os cientistas concluem que dos 63.942 novos casos de melanoma (a forma  mais grave do cancro de pele) diagnosticados anualmente na Europa ocidental,  3.438 (5,4%) - e 794 mortes associadas - estão relacionados com a utilização  de solários. 
A exposição solar é a causa ambiental mais significativa do cancro de  pele e os solários tornaram-se a principal fonte de exposição não solar  aos raios ultravioleta na Europa Ocidental. Após analisarem 11.428 casos de cancro de pele, os cientistas concluíram  que o risco de melanoma decorrente da utilização de solários é de 20%, mas  o perigo duplica quando a exposição começa antes dos 35 anos. Além disso,  o risco aumenta 1,8% por cada sessão adicional de solário por ano. 
Os autores admitem que os primeiros estudos sobre solários subestimaram  o risco porque a utilização daqueles equipamentos era relativamente recente,  mas sublinham que entre 2005 e 2011 o risco foi aumentando, pelo que estudos  futuros poderão demonstrar um risco ainda mais elevado. 
Os investigadores citam dados provenientes da Islândia, onde os dias  de sol são poucos e onde a incidência de cancro de pele aumentou fortemente  após 1990 entre as raparigas jovens e diminuiu depois de 2000, quando as  autoridades impuseram maior controlo sobre a actividade dos solários. Defendem por isso que são necessárias "acções mais duras" para reduzir  a utilização destes equipamentos, já que a indústria tem sido incapaz de  se auto-regular, tendendo, pelo contrário, a distribuir informação não comprovada  que visa enganar os consumidores. 
Advogam que a utilização de solários por menores de 18 anos deve ser  restringida e que devem ser proibidos os espaços onde se faz solário sem  supervisão, medidas implementadas em Portugal desde 2005. 


Lusa", fonte (http://sicnoticias.sapo.pt/vida/2012/07/24/utilizadores-de-solarios-tem-risco-acrescido-em20-de-apanhar-cancro-de-pele). (NOTA: transcrevi o texto para aqui, em vez de apenas dar o link por duas razões: 1) porque é mesmo para lerem :D ; 2) porque quis emendar o AO usado pela SIC, sendo que as palavras reescritas estão a negrito.)


A radiação UV bem utilizada é boa e essencial ao nosso bem-estar, mas é uma radiação e como tal a resposta do nosso organismo à estimulação por ela causada é directamente proporcional aos níveis de exposição a que este último é sujeite.
Segundo a tira de jornal que aqui coloco, “scannada” pelo yours truly, existem 10 mil novos casos de cancro de pele todos os anos em Portugal. Este dado, se virem na imagem foi reportado no Correio da Manhã em 2011 e é feito um aviso que indica que a maioria dos cancros de pele surgem da exposição episódica fora da época balnear (id est, solários). É também aconselhado o auto-diagnóstico que consiste em detectar feridas que não cicatrizam ou sinais com formas irregulares e que aumentam de tamanho. Se forem avistadas quaisquer destas situações, devem de imediato recorrer a um dermatologista. O aviso e conselhos deste artigo são feitos pelo então secretário-geral da Associação Portuguesa de Cancro Cutâneo, Osvaldo Correia.
Logo, tenham juízo e cuidado. Melanina e vitamina D são fixes, mas cancro não!





Passando agora a outro tipo de radiação que nada traz de positivo, a radiação nuclear. Recentemente vi um documentário, julgo que na TVI 24, intitulado Crianças do Tsunami (título original Children of the Tsunami, da BBC). É um documentário que todos devem ver. Reparte-se entre relatar uma situação de uma escola durante o tsunami, e de algumas mortes que ocorreram nessa escola devido a má decisões por parte dos professores, que (sejamos justos) como todos os restantes nunca esperaram um tsunami com as proporções deste e como tal não souberam reagir adequadamente (ver o post http://150anosportugaljapao.blogspot.pt/2012/05/mega-sismo-quando-o-infinito-encontra-o.html para mais explicações). Vê-se também a revolta dos pais que perderam os filhos e os vários processos de enfrentar essa dor pelos quais eles passam ainda hoje. E finalmente, é mostrado como toda a experiência afectou a vida e a mentalidade das crianças que sobreviveram à calamidade. Ainda é cedo para se poder determinar quaisquer efeitos físicos. Nesta última parte, não pude deixar de ficar mais uma vez espantado com a capacidade de encaixe, de adaptação, e mesmo de estoicismo das crianças. E sobretudo de aproveitarem o melhor duma situação muito má.
Por exemplo, há entre estas crianças uma grande quantidade que quer vir a trabalhar na pesquisa científica de várias áreas de forma a desenvolver formas de combater a radiação ou de a tornar mais segura. Outras desejam vir a trabalhar em algo que as permita salvar outras pessoas de futuras calamidades deste género, como elas próprias têm consciência de ter sido salvas. E o mais estonteante, as crianças sabem que não precisam de procurar respostas no sobrenatural para o que lhes acontecem, não esperam mais de deuses que não conhecem nem se perguntam “Porquê eu?”, chegando mesmo a dizer uma delas, e parafraseio: “A natureza umas vezes é boa para nós, outras vezes é má. A vida é mesmo assim e não há nada a fazer quanto a isso.” E dizem isto de uma forma realista e sem raiva. O conforto do ateu é saber que o caos é parte da natureza e que às vezes, como se diz nos filmes do Predator, “Shit happens.” Nunca é pessoal, é apenas aleatório.
Eu pensei em aqui descrever ou resumir em maior pormenor o que é relatado pelo documentário, mas prefiro que o vejam directamente, pois tem toda a qualidade da BBC e aquelas crianças são um prazer de conhecer :) (aqui entre nós, que nunguém nos ouve, encontra-se na net…). Eis um gostinho:


E assim me despeço, mais uma vez. Perdoem-me por ter estado tão ausente este mês e no anterior, mas o Sol faz-me “preguicite aguda”, if you catch my drift! ;)
Sayonara… 4 now!

Alex


Fontes: Correio da Manhã, SIC Notícias, TVI 24, Wikipedia, Super Interessante.


domingo, 20 de maio de 2012

Mega Sismo: Quando o Infinito encontra o Zero!

Tróia, no dia da sua derrota, cercada pelos exércitos invasores do rei grego Agamémnon, como esteve durante dez longos anos de guerra, protegida pelas enormes muralhas que a encerravam. Sete anéis de muralhas, se a memória não me falha, mas nem esse sortudo número lhe valeu, pois a sua sorte foi madrasta. Eis que chega o Cavalo dos mitos e, contornando as suas defesas, abre as portas ao inimigo… mas que forma tem este cavalo? Há alguns anos atrás, historiadores e arqueólogos finalmente encontraram a há muito perdida cidade de Tróia, trazendo finalmente alguma luz à veracidade da grande epopeia de Homero. Havia até então quem dissesse que era tudo mito, quem dissesse que era factual, mas foram os que descortinaram uma história romanceada baseada em factos que acertaram. De facto, Tróia existiu, de facto tinha vários e impressionantes anéis defensivos que tornavam impossível a sua conquista, mesmo por um exército muito mais numeroso que o que a defendia. Os arqueólogos descobriram nos seus anéis muitas setas e corpos, sinais óbvios de batalha. Mas descobriram outra coisa também. Um vestígio geológico de ocorrência de um sismo no mesmo período de tempo em que a guerra terá acontecido. Os gregos achavam que Posídon, Deus dos Mares, Irmão de Zeus, era a divindade que controlava os terramotos e os maremotos. E por sinal, o Cavalo era o seu símbolo por excelência. Estranho, não é? Eu também não sabia, vi num documentário do canal História. Anos mais tarde, séculos até, Homero reúne as informações que existem sobre essa incrível guerra de antanho e constrói uma história, ou melhor dizendo uma estória, que lhe confere a imortalidade, tal como a via Luís Vaz de Camões: “Aqueles que por obras valorosas se vão da Lei da Morte libertando” O que se presume hoje é que, a certa altura, durante (ou antes) da guerra de Tróia ocorreu o sismo naquela região. Esse sismo foi responsável por brechas nas muralhas defensivas da cidade, o que permitiu ao exército invasor penetrar na cidade e, com a sua superioridade numérica, conquistá-la. Os gregos terão visto neste golpe de sorte a ajuda de um deus, Posídon. Homero, que a mim me parece um humanista mais que um politeísta, usou da sua liberdade poética e conjurou uma incrível figura: Ulisses. O homem que não possuindo nenhuma ligação a deuses (como Aquiles, Hércules, Perseus e outros heróis clássicos sempre tinham), não possuía nenhum poder extra ou supra humano, tendo sim um intelecto acima da norma. Ulisses ficou famoso por se ter lembrado do Cavalo de Tróia, uma artimanha que hoje todos conhecemos e que até dá nome a certo tipo de viroses informáticas. Homero tirou a glória de uma batalha ao Fado, aos Deuses, e deu-a a um homem de vasta inteligência! A ideia do cavalo, podemos hoje facilmente deduzir, surgiu da associação de conceitos: sismo => Posídon = Cavalo. Et voilá…
Depois desta introdução, vamos lá falar de sismos de um ponto de vista mais rigoroso e actual! No mês de Março, tive o gosto e o interesse de participar na Sessão Evocativa do Grande Terramoto do Leste do Japão, que ocorreu a 11 de Março de 2012, um ano depois da Calamidade. Já fiz menção destes procedimentos no mês passado e agora venho partilhar convosco o que aprendi na conferência de Sismologia que fez parte do evento. A conferência, intitulada “Sismos e Tsunamis – Experiências do Japão e de Portugal”, contou com palestras de dois ilustres, um japonês e outro português (pela ordem em que falaram na conferência).
Palestra I
A primeira palestra foi dada pelo Professor Atsushi Tanaka, da Universidade de Tóquio onde é professor. No seu currículo conta com várias publicações na área de Gestão de Catástrofes, Informação Pública e Psicologia de Comportamento Colectivo. É director do Centro de Pesquisa em Informação Integrada de Catástrofes e membro da Iniciativa Inter-Universitária para os Estudos da Informação. Quando se apresentou, o professor explicitou bem que a sua área era no campo da Psicologia e não da Sismologia, mas também que este campo tem vindo a ganhar cada vez mais proeminência na Sismologia devido às suas aplicações práticas nas alturas de ocorrência destes eventos. Como de certo saberão, o Japão está localizado numa zona muito fustigada por actividade sísmica e como tal a sua experiência, tanto prática como teórica, neste campo é mais vasta que a nossa. O objectivo desta conferência foi o de precisamente partilharmos as perspectivas de um povo e de outro sobre o assunto, de forma a fazer progredir os avanços na área.
A palestra do Professor Tanaka começou então com um modelo de computador, uma animação, que nos ia mostrando a evolução da frente de onda sísmica, desde o primeiro momento e do epicentro, e os vários momentos e áreas atingidas sequencialmente pelo sismo. Qual o interesse disto? Bem, o professor queria demonstrar a importância do Early Warning System (Sistema de Aviso Rápido. De hora em diante usarei a sigla EWS) que existe hoje no Japão. Para tal, mostrou-nos um vídeo de uma sala onde pessoas se preparavam para ver uma palestra, momentos antes de o sismo ocorrer. O EWS funciona através de telemóvel e todos os japoneses podem gratuitamente fazer download do software para o seu telemóvel. Assim que o sismo ocorre, é enviado um alerta da ocorrência. Esse alerta chega meros segundos antes da frente de onda sísmica, mas esses segundos podem ser a diferença entre a vida e a morte. Podem, por exemplo, permitir uma pessoa abrigar-se debaixo duma mesa ou na ombreira da porta, ou mesmo sair para a rua. E se nada mais, retiram a surpresa de quando a onda sísmica chega e permite à pessoa agir com menos pânico, evitando assim muitos problemas. No vídeo que vimos, as pessoas estavam sentadas, de repente manda tudo a mão ao bolso e alguns segundos depois, começa tudo a abanar. Houve gritos na mesma, como é de esperar, mas não um pânico avassalador. Estima-se que o sistema deu cerca de 16 segundos de preparação aos que estavam na sala. Mas este valor depende da localização onde se está em relação ao epicentro. Por exemplo, tendo sido o epicentro em Miyagi, a central nuclear mais próxima teve 30 segundos de aviso, mas Sendai uma cidade mais próxima teve apenas 12 segundos.
Como ao longo do século passado, o Japão foi compilando informações relativas a sismos prévios, já havia em 2011 um mapa com previsões de sismo. Baseada na informação recolhida, estimava-se que havia 99,9% de haver um sismo forte (8, na escala de Richter) na zona de Miyagi, nos próximos 30 anos. Há agora a probabilidade de 70%, segundo os mesmo cálculos, de que venha a haver um sismo em Tóquio, com magnitude a rondar os 7,2 na escala de Richter. Disse-nos o professor, que o governo ponderou se devia ou não dar esta informação ao público, pois teve medo do impacto desta a nível das bolsas e mercados internacionais. Ainda assim, acabou por decidir ser melhor avisar a população.
De seguida, na palestra, surgiu uma tabela com várias datas de eventos catastróficos no Japão ao longo dos anos. Eis alguns que consegui apanhar:
1945: Sismo em Showa Nankai
1959: Tufão Ise-Wan
1964: Sismo em Nigata
1995: Sismo
Devido à ocorrência de tantas catástrofes naquela zona, os japoneses recorrem muito, desde os anos 60, ao seguro contra catástrofes. Mas depois do sismo de 1995, foram criados mecanismos governamentais para cobrir estragos privados das pessoas atingidas por estas desastres naturais.
Nos meios técnicos, e para além do sistema EWS, existe também a funcionar no Japão um Sistema de Alerta de Maremoto. O professor Tanaka aqui fez uma breve menção ao Terramoto de Lisboa em 1755, dizendo que segundo dados históricos, se estima que o maremoto atingiu a cidade cerca de 30 minutos após o sismo. Mas como no Japão já se viu o tsunami surgir apenas 7 minutos depois do sismo abalar a terra, o alerta de tsunami é dado 3 minutos após a ocorrência, para garantir a eficácia do alerta.
De seguida, o professor apresentou o Ciclo de Gestão de Desastre:

Por exemplo, na parte da Preparação, em grandes centros urbanos, criam reservatórios de água subterrâneos que são aprovisionados para as emergências. Numa nota engraçada, o professor mostrou uma imagem duma série policial japonesa e disse (parafraseando): “Quando estão vazios, são usados para filmar séries de TV, particularmente cenas de acção.” [risos da audiência]. Na área da Mitigação, além de materiais anti-sísmicos nas construções, são construídas barreiras anti-tsunami, que no Japão atingem os 10 metros (sensivelmente 3 andares). No Japão, trabalham mais na coluna do lado esquerdo (imagem), ou seja na prevenção, procurando dessa forma minimizar os efeitos, até porque o governo só presta os serviços da coluna da direita se a intensidade do evento assim exigir. Está comprovado que esta atitude reduz muito as mortes e gastos posteriores aos desastres. O professor Tanaka mostrou um gráfico demonstrativo para o caso de Miyagi. Como já havia a previsão do sismo, os preparativos incluíram até um reforço intenso a nível da construção. Como consequência directa, nenhuma escola desabou perante o sismo brutalíssimo de 2011. Essas escolas foram depois usadas como centros de acolhimento para os sobreviventes, além de terem salvo a vida das crianças que nelas se encontravam. Por outro lado, as barreiras anti-tsunami falharam. O problema no caso do tsunami de 2011 foi que as ondas superavam em muito os 10 metros de altura, antecipados. As ondas chegaram aos 16 metros de altura (altura calculada com base na altura a que se encontraram posteriormente destroços arrastados).
E aqui chegamos a um ponto importante da palestra. É que o tsunami de 2011 foi muito além das previsões do Mapa de Previsões Japonês. Mas como este mapa era do conhecimento geral da população, houve muita gente que simplesmente não procurou sair da zona onde estava, pois SABIAM (ou pensavam saber) que as barreiras os protegeriam do tsunami. Outras simplesmente por se acharem fora da zona de perigo segundo o mapa, deixaram-se ficar, pensado-se em segurança. Assim sendo, todo o sistema teve de ser repensado. A informação que as pessoas vão recebendo nos telemóveis era deste género:

- aos 3 minutos: alerta Tsunami (ondas de 3 metros em Iwate e de 6 metros em Miyagi);
- aos 17 minutos: ******** (ondas de 6 metros em Iwate e de 10 metros em Miyagi).

Agora a informação que segue para os telemóveis, são possíveis intervalos de altura de onda, para que as pessoas “não se fiem na virgem” e fujam para zonas mais seguras, caso tenham essa possibilidade. Exemplo hipotético: ondas entre 6 e 13 metros. Ainda sobre este sistema de informação: 76% das autoridades locais, no Japão, têm ao seu dispor nas ruas sistemas de altifalantes que continuamente (desde que os sismos não os incapacitem à partida, algo que ocorre pontualmente) vão dando informações actualizadas da situação, funcionam sem fios (wireless) e mesmo em caso de falta de energia (blackout), sendo um sistema robusto o suficiente para ser eficaz; por outro lado, existe uma lei que obriga as estações televisivas a continuamente fazerem boletins informativos sobre a ocorrência. Mais uma vez see prova que informação é poder, neste caso o poder de se agir decisivamente evitando a morte. Mas basta uma má informação e…
O professor Tanaka mostrou ainda um quadro com 3 tipos de padrão de comportamento assumido pelas pessoas e os efeitos que esses comportamentos têm na sua sobrevivência aquando de um sismo desta magnitude:

Padrão A – os que fogem após o sismo: 60% sobrevivem;
Padrão B – os que fogem após o sismo, mas antes tentam fazer algo (malas, salvar pertences, etc…): 30% sobrevivem, 7% são apanhados pelo tsunami, 64% estavam fora de casa;
Padrão C – os que fogem só quando o tsunami já está a cair sobre eles: 10% escapa, 49% são apanhados (onde 30% destes estavam conscientes do tsunami).

Esta última percentagem, 30% de pessoas que estão conscientes da vinda do tsunami mas não fogem, são tipicamente pessoas que se preocupam mais com o bem-estar de outros que com o seu próprio. Pessoas que estavam fora de casa, mas assim que recebem o alerta tentaram chegar à família, ou bombeiros e outros servidores do público que estavam a actuar para salvar pessoas.
Ainda foram mostrados vídeos de maquetes à escala que procuram simular o sismo de 2011 e a resistência dos materiais ou reforço estrutural anti-sísmico, mostrando a eficácia destes últimos mesmo face ao mais destrutivo dos sismos registados. Contudo, é preciso ter noção de que nunca se consegue salvar 100% das pessoas nestas ocorrências. Estas catástrofes tendem a atacar os pontos fracos das nossas sociedades e por isso é preciso eliminar essas fraquezas, por exemplo, aumentando a robustez dos prédios antigos e zonas históricas, encontrando o equilíbrio entre manter o passado e proteger as pessoas no futuro. Mas também mantendo em contínua prontidão os serviços de emergência e ao mesmo tempo fortalecendo a educação nas escolas, para ensinar as novas gerações sobre o que podem e devem fazer individualmente nestas situações. E por último, a divulgação destes conhecimentos que é essencial!
No Japão, segundo o professor Tanaka, estuda-se também como obter a atenção das pessoas que pura e simplesmente não se interessam pela prevenção destes eventos. Não se estuda só a engenharia mitigadora, mas também nos campos da sociologia, psicologia e gestão, quis ele frisar.
Em jeitos de conclusão e finalização da palestra, o professor Tanaka indica que o maior problema deste tipo de sismo (idêntico em escala, estima-se agora, ao de 1755 em Lisboa) só acontece uma vez em cada 3 mil anos. Mas como o ser humano tem tendência a esquecer coisas más, é preciso resistirmos a esse hábito e termos consciência de que estes terríveis eventos já aconteceram e tornarão a acontecer, e como tal é preciso prepararmo-nos para os enfrentar o melhor que esteja ao nosso alcance fazê-lo.

Palestra II
A segunda palestra ficou a cargo do professor Carlos Sousa Oliveira, do Instituto Superior Técnico, onde é professor e investigador de Engenharia de Estruturas, Território e Construções. É autor de vasta publicação na área se risco sísmico e foi consultor da ANPC (Autoridade Nacional de Protecção Civil), tendo acompanhado a elaboração dos planos de risco sísmico da Área Metropolitana de Lisboa e do Algarve. O objectivo da palestra do professor Oliveira foi relacionar o sismo de 2011 em Miyagi com o sismo de 1755 em Lisboa. A palestra andou em passo acelerado devido à falta de tempo, face ao estipulado pela organização, o que para mim foi uma pena, pois ficou muita informação pelo meio por veícular.
Uma das primeiras coisas que o professor disse foi que provavelmente os japoneses levarão uma década a analisar toda a informação recolhida neste último sismo. Segundo alguns dados já apurados, o sismo tinha uma aceleração de 2G no epicentro. No Japão, os prédios estão preparados para absorver acelerações entre 30% e 40% de G, enquanto que em Portugal o intervalo é de 20% a 30% de G. Os modelos de sismos prévios a este terramoto de 2011, previam sismos com duração de 10 a 30 segundos, mas o de Miyagi foi 10 vezes maior em duração, gerando esforços de fadiga penosos nas construções. Por exemplo, edifício com 70 metros de altura, abanava 1 metro para o lado. Os dados históricos do sismo de 1755 apontam para esta duração, mas os cientistas não acreditavam que fossem dados factuais até serem corroborados pelo sismo de 2011. Deduz-se também que a topografia litoral tem uma influência imensa nos efeitos do tsunami. O professor arranjou uma maneira muito elegante de se referir a este tipo devastador de sismos: é um sismo cuja probabilidade tende para zero mas que, quando acontece, tem um poder destrutivo que tende para infinito.

0 .

Quando o Zero se encontra com o Infinito, nunca é bom como saberão decerto da matemática de 12º ano. Ora, como na Matemática esse problema é coisa que nem sábios nem governantes conseguem resolver.
Voltando aos aspectos técnicos, concluiu-se também que zonas propícias a liquefacção, terrenos arenosos, provocam problemas de resistência nos alicerces das construções. Após o terramoto de 1995, o Japão enquanto nação preparou-se a nível de construção para aguentar fisicamente muita força e mesmo assim muitos prédios foram destruídos.
O professor Oliveira mostrou então fotografias da zona atingida no Japão, 1 ano depois do evento. As infra-estruturas foram restabelecidas, mas a regeneração dos espaços (limpos de destroços mas agora vazios) ainda está por fazer. O problema prende-se com a decisão de se se reconstrói a urbe que lá existia ainda mais reforçada e reforçam-se também os diques ou barreiras de tsunami OU se pura e simplesmente não se reconstrói lá nada e as pessoas se mudam para zonas mais seguras? Esta resposta não é fácil de dar, uma vez que pode voltar a ocorrer outro sismo daqueles já amanhã ou só daqui a mil anos. Uma outra fotografia mostrava um autocarro no topo dum prédio. Uma casa inteiramente tombada para o lado, ou seja a estrutura não ruiu mas tombou como um todo. O lixo e escombros resultantes ainda estão amontoados em pilhas e também são um fardo resultante de difícil resolução.
Até ao ano de 1958, as cintas de aço nas estruturas dos prédios ainda eram feitas com demasiada distância entre os ferros. Hoje as normas de segurança exigem que essa distância seja menor e como tal mais resistente, mas o problema é que ainda há prédios muito antigos em todo o mundo. A Baixa Pombalina tem esse problema.
Outro problema no Japão, é que muita gente um ano depois ainda está em alojamento temporário.
Um outro problema importante é o das centrais nucleares. Toda a zona afectada ainda se encontra com concentrações de césio muito elevadas, que não será possível limpar nos próximos 60 anos. Na altura da conferência, o professor Oliveira deu a indicação que o Japão se preparava para fechar as cerca de 60 centrais nucleares do país, que produzem 30% da energia produzida no Japão. O fecho, hoje em dia já uma realidade (como as notícias abaixo testemunharão), é para avaliação de se devem continuar com o seu programa nuclear de produção de energia ou se o Japão deve mudar para processos mais seguros embora menos eficazes de produção de energia, como as eólicas e solares. Um outro problema económico poderá surgir daqui, uma vez que a falta de energia poderá pôr em risco alguma da indústria japonesa ou no mínimo a sua capacidade produtiva.
Em Portugal, já se está a implementar um Early Warning System para Tsunamis, que o professor Oliveira prevê entrar, ou espera que entre, em funcionamento em breve, e que aconselha também a que se prepare um EWS para sismos de seguida. Sines é uma região sobre grande risco sísmico e esforços extras devem ser lá feitos para a proteger. Considerando o que aconteceu em Lisboa em 1755, é importante erguer barreiras nas zonas de risco, pois estima-se que os estragos não foram maiores na Lisboa do século XVIII por causa da Muralha que Lisboa possuía na costa e que mitigou os efeitos do tsunami. Essa muralha já não existe!! Estuda-se também a interconectividade dos vários sistemas de Apoio e Salvamento que actuam nestas eventualidades. O professor aludiu ao facto de ser óptimo ter escolas reforçadas que resistem ao sismo, mas se depois não tivermos meios capazes de lá levar socorro, comida e água, de nada servirá. Recordo eu o problema que o Bush teve nos EUA, aquando do furacão Katrina, que por falta de meios ou da lentidão na resposta, muita mais gente morreu posteriormente ao desastre natural.
Nesta altura, o professor Oliveira deu-nos mais alguns dados históricos apurados dos relatos da altura do Marquês de Pombal:
- teve 8 a 10 minutos de duração;
- uma intensidade estimada de 9 na escala de Richter (face às construções da época);
- quanto ao número de mortos estimam-se que tenha sido a rondar os 20000, sendo que o governo português da época dizia apenas 6000, e a literatura estrangeira coloca valores entre os 30 e os 70 mil mortos;
- o fogo matou imensa gente, no pós sismo.
A resposta por parte do Marquês de Pombal foi feita em tempo recorde, tendo envolvido:
- extinção de fogos;
- evitar epidemias;
- apanhar presos escapados dos calabouços;
- salvar os conteúdos da Torre do Tombo;
- foi feito um inquérito com 13 perguntas junto da população, que era quase igual aos hoje utilizados no pós-sismo para avaliar a intensidade do mesmo entre outros aspectos;
- a reconstrução aprendeu com os erros passados, surgindo a famosa Gaiola Pombalina, o corta-fogo, fazerem-se as fundações em cima de escombros, as estacas que os aumentos actuais do Metro vieram a pôr em causa recentemente;
- foi feito o primeiro regulamento/código de construção e urbano e criaram-se novos sistemas de saneamento.
Segundo Voltaire, esse outro grande humanista, surgiu deste evento também uma nova forma de ver o mundo. O professor Oliveira não elaborou...
Segundo o professor Oliveira, se o sismo de 1755 ocorresse hoje, os gastos seriam de N vezes o valor do PIB.
Outro campo de estudo a ser desenvolvido em Portugal é na área dos simuladores de sismos:
- estudos liderados pela Protecção Civil;
- com o objectivo de prever o que poderá acontecer;
- analisar que recursos podemos utilizar para a prevenção (incluindo mais uma vez a própria educação das crianças).
Existe hoje aprovada (em Julho de 2011) a recomendação AR 103/2010 que infelizmente ainda está por implementar.
Sessão de P&R
Houve depois uma pequena cessão de perguntas e respostas abertas à audiência, que se centralizaram muito na questão nuclear mas também na questão humanitária. Que iria acontecer às pessoas que por exemplo trabalhavam a terra na zona do sismo, que agora ou está radioactiva ou impregnada de sal marítimo, por exemplo? É um outro problema ainda em resolução, sendo que alguns desses agricultores simplesmente abandonaram a área e, com ajuda do seguro e/ou do governo, compraram terrenos noutras regiões e recomeçaram a sua vida. Eis uma  notícia interessante sobre este último problema:
O Engenheiro José Oliveira, director Nacional do Planeamento de Emergência da ANPC, moderador do debate, informou-nos ainda de que a Protecção Civil ainda este ano, salvo erro, fez um simulacro de sismo no Algarve, estando então a manter-se de prontidão para essa eventualidade e também promove actividades nas escolas para educar a criançada sobre o que se deve fazer nestas situações. O engenheiro falou também de se estar a pensar implementar nas zonas de risco em Portugal esses sistemas de altifalantes de emergência nas ruas.

Todos os intervenientes concordam que o essencial é a prevenção e a divulgação da informação e como tal, cá está mais uma vez o N.I.N.J.A. Samurai a fazer o que pode, informando-vos de tanto quanto ele sabe. Num futuro breve, espero deixar aqui também um link para um pdf com informação sobre os comportamentos que devemos tomar em caso de sismo, que circulou em email aqui há uns tempos em Portugal. Por hoje é tudo,

Alex, signing off… as usual!

Update( umas horas mais tarde): eis o link para o pdf: