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segunda-feira, 15 de abril de 2013

Rápidögraphia: Christopher Hitchens



“It was a cold bright day in April and all the clocks were striking thirteen.”

Esta entrada tem um duplo objectivo. Celebrar o aniversário de um recém-caído "guerreiro" das liberdades humanas, um verdadeiro amante da sabedoria, ao mesmo tempo que, dessa forma, inauguro uma nova rubrica aqui no N.I.N.J.A. Samurai. Esta última chama-se Rápidögraphia, e tem como propósito dar-vos um vislumbre de pessoas da esfera pública, nacional e internacional, que admiro.
Introduzamos a primeira dessas figuras, por meio duma entrevista levada a cabo no Brasil:


O seu nome era Christopher Hitchens.
Os seus inimigos, os teocratas e os totalitários de todas as espécies. A sua vida eram as palavras e a luta pelos direitos humanos e pela emancipação da Humanidade de todas as formas de totalitarismo, sendo a original a Religião.
A citação acima não é dele, mas sim de George Orwell. É a primeira frase do poderoso 1984. O Christopher achava-a particularmente importante e suspeitava que ela era uma espécie de homenagem velada à revolução norte-americana. Um dos pais dessa revolução, eu não me lembro qual, mas o Hitch saber-vos-ia de imediato indicá-lo, terá dito que para se conseguir levar a cabo a revolução era preciso fazer os relógios dos 13 estados baterem em uníssono! Para aqueles de vós que não o sabem, antes de serem 50 estados, eram 13. Mas por outro lado, 13 de Abril era a data de nascimento de Thomas Jefferson, outro grande presidente dos EUA, que ajudou a escrever as emendas à constituição, com particular preponderância naquela que separa o estado da Igreja. O próprio Christopher nasceu a 13 de Abril de 1949. Abril deve ser mesmo o mês dos revolucionários!
Na sua visão de mundo, não existia qualquer divindade. Apenas homens que se auto-nomeavam enviados ou agentes endossados de/por um imaginário poder celestial, obtendo dessa forma um terreno e muito real poder sobre os seus pares. Ele atacava a religião e não os fiéis, embora muitos fiéis por ele se sentissem insultados. Mas era também um amante das artes e da boémia. Johnny Walker Black, era o seu veneno de eleição, e dizia que uma refeição sem vinho, tinto de preferência, não tinha sabor. Ao morrer de Cancro do Esófago, não arranjou para si nenhuma desculpa, sabendo que tinha abusado bem durante toda a sua vida, com álcool e cigarros. Como ele próprio disse, e traduzo livremente, queimou a vela nas duas pontas e esta deu uma bela luz.
Era um cidadão do mundo, anglo-americano, que percorreu o planeta a testemunhar a opressão e libertação de vários povos, incluindo o nosso. Esteve cá em ’74, para cobrir a revolução dos Cravos, que o veio a roubar das últimas ilusões de um movimento socialista internacional, o qual deu então por morto. Emancipando-se de dogmas partidários, tornou-se num marxista independente, sem afiliações, completamente entregue à perseguição dos hipócritas, dos corruptos e das fraudes, enquanto lutava por justiça e pela liberdade, e buscava a verdade. Uma vez disse, parafraseio, mesmo que a verdade seja inalcançável, isso não é desculpa para não a buscarmos.
Era um homem de contradições, um aluno esforçado da dialéctica.
Tendo falado contra a primeira guerra do Iraque, foi a favor da segunda, sendo que as suas recém criadas amizades entre os resistentes seculares curdos o tenham convencido da prioridade que era varrer Saddam Husseim do mapa. Daí em diante, enquanto defendia a justeza da Guerra do Iraque dos seus ex-aliados da Esquerda britânica e americana, depressa tornados  opositores, Hitch usou a bandeira do Curdistão na lapela. E ao contrário dos outros defensores da Intervenção no Iraque, não escondia a importância do petróleo naquela guerra. Perguntava ele se achávamos mesmo que deveríamos ficar impávidos enquanto um tirano sádico e a sua família mafiosa continuava secretamente armar-se (e sim, foram encontradas não armas de destruição em massa, mas enterrados em lugares chave, os seus ingredientes, bem como planos de um vasto plano para esconder um arsenal inteiro dos inspectores da Nações Unidas); enquanto este último queimava, para que os outros não os pudessem usar, poços de petróleo, enchendo a atmosfera de carbono, subjugando o seu povo com punho de ferro (famílias eram obrigadas a assistir à morte de um familiar preso pelo regime e até tinham de aplaudir!!); enquanto conhecidos terroristas eram detidos na Europa, mas tinham de ser libertados por gozarem de imunidade diplomática concedida por um passaporte iraquiano? E embora admitisse que a Libertação do ou a Intervenção no Iraque, pelas forças da Coligação dos Voluntariosos, tivesse sido mal planeada e pessimamente executada, contava no seu balanço alguns sucessos:
- a entrega de Kadafi de todo o seu arsenal de destruição maciça aos EUA (arsenal esse que reside agora em Oak Ridge, Tennessee);
- a investigação feita à origem dessas armas, que se apurou terem vindo da Coreia do Norte e do Paquistão, levando a que se fechassem essas vias de proliferação;
- o estabelecimento de eleições democráticas no Iraque e de tribunais;
- o estabelecimento da região autónoma no norte do Iraque, onde os curdos fizeram um governo secular e democrático;
- o ter-se terminado com um país que dava protecção diplomática e abrigo a conhecidos terroristas;
- o afastamento da família Hussein do poder.
Afirmava sem hesitação que a cura para a pobreza era a emancipação da Mulher, mas acreditando ainda assim que a Mrs Hitchens não devia ter a obrigatoriedade, mas apenas o direito, de ter um emprego. "Se ela quiser, que trabalhe, mas não deve ser obrigada."
Acreditava na legalização das drogas para terminar a Guerra contra as Drogas, na solução dos dois estados para o conflito da Palestina, tinha reservas contra o aborto (embora reconhecesse casos em que este era imperativo e outros em que era permissível moralmente), era a favor do Euro e do federalismo europeu, e dizia que a homossexualidade não era apenas uma forma de sexo, mas também de amor. Nas suas Memórias, Hitch 22, escreveu sobre (para além dum tórrido encontro do seu rabo com um jornal enrolado e empunhado pela Dama de Ferro em pessoa, a Sra Tatcher) as suas experiências homossexuais durante a sua estadia num colégio interno britânico, estendendo dessa forma a sua solidariedade para com a comunidade gay. Falou também da morte bizarra da sua mãe e da personalidade estranha do seu pai. Teve 3 filhos de duas mulheres e dizia que quando se tem filhos com alguém nunca se fica realmente divorciado dessa pessoa.
Atacou as reputações de poderosos e de santos, como Kissinger, Clinton e Madre Teresa, revelando-lhes o lado negro e obscuro, que campanhas bem orquestradas de propaganda tão maravilhosamente ocultaram. Ao mesmo tempo, escreveu livros sobre o Parthenon, sobre Jefferson, Thomas Pane e Orwell, entre outros, e produziu milhares de artigos em várias publicações internacionais. Foi durante muito tempo, se é que não o é ainda, o único escritor a ter estado nos 3 países do Eixo do Mal de George W Bush, o Iraque, o Irão e a Coreia do Norte. De facto, Hitch (como era tratado pelos seus amigos) passou, depois de ter estado na Coreia do Norte, a retratar o Paraíso Celestial como uma Coreia do Norte Celestial. Experimentou depilação e tortura por waterboarding, apenas para sobre isso escrever em primeira-mão. Quase foi espancado por fascistas árabes em Beirute, por destruir um grafitti duma suástica, mas foi salvo por uma multidão de árabes não fascistas que o removeram da cena. Quando recebeu uma ameaça de morte, que o Departamento de Estado norte-americano achava credível, aconselhando-o a mudar de residência, Hitchens não o fez, nem pediu protecção. Dizia abertamente na televisão, que o nome e morada dele estavam na lista telefónica em Washington. Era um homem de grande integridade moral e coragem verdadeira (ou talvez fosse falta de medo?!), sem nunca ter receio de ofender quando falava o que pensava, sem medo de pedir desculpa quando se revelava que tinha errado. Ou de admitir em público quando não sabia o suficiente para se pronunciar num dado tópico. O sábio é aquele que sabe quando remeter-se ao silêncio.
Filósofo com aspirações a político, que acabou por encontrar-se como jornalista, comentador político, e profícuo autor. Declarado ateu e anti-teísta resoluto. O próprio Vaticano o convidou para assumir funções de Advogado do Diabo, falando contra a beatificação da Madre Teresa em Roma, levando Hitchens a dizer mais tarde que foi o único homem a defender o diabo pró bono! Quando lhe perguntaram se era possível acreditar em Deus e ainda assim ser um anti-teísta, Hitch disse que sim e foi mais longe dizendo que se deus existisse, ele (Christopher) seria “… of the Devil’s party”, como Milton, que escreveu: "Better to reign in Hell, than to serve in Heaven!"
Inventou o que eu chamo o Desafio do Hitch:
"Nomeia-me uma afirmação moral ou acção moral, executada por um crente que não possa ser executada por um descrente."
E o seu corolário, bem mais fácil:
"Nomeia uma acção terrível ou declaração imoral, feita por alguém por causa da sua religião."
E como ele costumava dizer: do corolário pensaram logo em várias com facilidade. Eheheh.
Criou também o que eu chamo o Hitchslogan:
"Mr Jefferson build up that wall!"
Este slogan, alude à Muralha de separação entre o estado e a igreja, consagrada na 1ª Emenda à Constituição dos EUA, enquanto goza com a célebre frase de Reagan: "Mr Gorbachev, tear down this wall!" pedindo a queda do Muro de Berlim
Grande defensor de Salman Rushdie aquando da fatuah que lhe foi lançada pelo Ayatolla Khomeini, começou aí a sua verdadeira guerra contra os partidos de Deus. Tendo esta sido intensificada após os ataques de 11 de Setembro, acontecimento que o levou finalmente a pedir nacionalidade americana, sentido-se moralmente obrigado a isso por solidariedade com os USA, nos quais já vivia há imensos anos com um visto perpétuo. Os seus filhos são americanos. No ano em que publicou o seu primeiro livro, teve o seu primogénito (a quem chamou Alexandre, by the by), e plantou uma árvore. Ainda não tinha 33.
Eu só o descobri em inícios de 2012, após ter lido o livro de José Rodrigues dos Santos, “O Último Segredo”, que desenha o Jesus Histórico em oposição ao Jesus Mitológico. Querendo saber mais, meti-me a pesquisar na net e deparei com os vídeos dos debates do Hitch, quando em tournée do seu livro “God is Not Great”. Identifiquei-me de imediato com ele, devido ao gosto pela escrita, ao cepticismos, ao ateísmo, ao gosto pelo debate e pela retórica.
Naveguei avidamente pelos seus debates e entrevistas no youtube, aprendendo imenso sobre História, literatura da língua inglesa, apanhando alguns títulos de cinema que doutra forma dificilmente descobriria, até que por fim descobrindo, com incrédulo pesar, que ele tinha morrido de cancro. Porque é que as pessoas que valem a pena morrem cedo? A resposta é simples. O Universo é caótico, impiedoso na sua inconsciência e não nos deve nada. Os genes e os abusos de Hitch deram aos seus inimigos o prazer de ver o seu corpo flutuar rio abaixo, parafraseando Sun Tsu. Mas enquanto estes últimos morrerão e serão esquecidos, a obra que Hitchens nos deixou dar-lhe-á, espero eu, a única medida de imortalidade aberta a seres mortais.
Mudou-me a opinião quanto à Guerra do Iraque; discordo com ele quanto ao Euro e ao Aborto; concordo sobre a homossexualidade, sobre a necessidade de nos emanciparmos da Religião e, embora seja mais igualitário que ele (sou a favor de direitos e deveres iguais entre géneros), ambos acreditamos na justeza e necessidade da emancipação da Mulher.
Amigo de Martin Amis, Salman Rushdie, (estes últimos, sempre discordaram publicamente com o Hitch sobre o Iraque e a sua amizade durou até ao fim) Stephen Fry, Ayaan Hirsi Ali, Lawrence Krause, entre muitos outros ilustres, nos últimos anos da sua vida tornou-se num dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse, a vanguarda e os porta-estandartes do crescente movimento ateu internacional (imagem acima).
Perdi, na ignorância, a minha hipótese de ouvir ao vivo este grande orador, quando nos visitou em 2004:

Mas deixo-vos ainda assim com as suas palavras (nada melhor para o definirem pois muito mais teria que escrever para lhe fazer justiça), por mim legendadas para terminar em beleza, demonstrando este post também que o N.I.N.J.A. Samurai honra tanto a ortografia brasileira como a portuguesa, sempre em aberto desafio ao Acordês do AO90.
Para terminar direi que o Hitch foi um homem que sim soube morrer, mas mais que isso, foi um homem que soube viver.
Esta minha pequena mas esforçada homenagem, é o mínimo que posso fazer por alguém que não só muito enriqueceu a minha cultura pessoal, como é a quem muitas vezes recorro na minha argumentação ou escrita aqui no blog, por meio de vídeos e citações. Por isso mesmo, mais das suas palavras traduzirei para de futuro as usar para dar às minhas alguma ênfase, como já o tenho feito no passado. O Hitch também constatou que plágio é inevitável, mas que não é negativo se nós nomearmos o autor original. Ele foi um daqueles intelectuais que, mesmo quando discordamos com ele, vale sempre a pena ouvir o que ele tem para dizer.
Hasta la vista, camarada!

NOTA: é possível que este post venha a ser editado, se entretanto eu tiver tempo de legendar mais uns quantos de vídeos. ;)



segunda-feira, 4 de março de 2013

Genpatsu, Kissinger, Portugal


Não é fácil definir o conceito de Energia, mesmo em termos formais da ciência. Podemos dizer que é uma das componentes existentes quando há interacção entre dois entes ou sistemas físicos. Podemos ainda dizer que é uma componente essencial à realização de trabalho. Em termos metafísicos, esotéricos ou sobrenaturais ainda mais nos perdemos num labirinto de retórica que, desastradamente, procura parecer sábia mas é vã. Concentremo-nos na ordem natural das coisas, que é mais que suficiente para este nosso Verso. Queria um kanji para título deste post, mas a verdade é que, pelo que eu encontrei, o termo japonês para energia (homólogo deste nosso) é um japonesismo da palavra Enerugï, que se escreve em kanji:エネルギー. Existem outras duas palavras japonesas que descobri para energia, mas ambas são específicas: o Ki = 気 (energia espiritual) e o Denki = 電気 (energia eléctrica). Mas até compreendo os japoneses. Reflectindo sobre o assunto, é um pouco estranho termos uma palavra que sozinha não tem definição directa. Se falarmos energia mecânica, eléctrica ou cinética (por exemplo), sabemos instintivamente o que são. Mas se dizemos apenas energia é um tudo que é nada. E contudo, sabemos que é algo. Como a própria energia, o conceito em si é algo não palpável. Muitas vezes me sento em frente à minha lareira a olhar as chamas bruxuleantes no seu interior, como se nelas pudesse estar a resposta à minha pergunta, o que é o fogo? É sem dúvida um dos resultados duma combustão. É energia. É luz. É calor. É tudo isso. Mas o que é? Fogo.
Num filme, que eu não desgostei, chamado “The Celestine Prophecy”, que eu vi originalmente porque nele entra o ilustre Joaquim de Almeida, é dito a certa altura que todas as interacções humanas são resultado de interacções de campos energéticos gerados pelos seres vivos, os quais nós nem nos apercebemos que existem. Na mitologia do filme, a tomada de consciência desses campos e a realização de que não nos devemos procurar dominar uns aos outros (ou, neste contexto, sugar energia ao próximo), leva a um mais elevado plano espiritual. Mas isto tudo para chegar ao ponto de que nesse filme é dito que todas as guerras ou disputas humanas são essencialmente por energia. De facto, acaba sempre por ser, em última análise. Se na Pré-História guerreávamos por territórios de caça, era porque necessitávamos dessa caça para fornecer energia aos nossos corpos. Hoje lutamos por petróleo, por gás natural, por metais radioactivos, etc… mas essencialmente, lutamos por energia em qualquer que seja a sua forma. De facto, nós somos energia. Como diria o Yoda: “Seres luminosos somos nós, não esta rude matéria.” E como adorava Christopher Hitchens relembrar, parafraseando outro autor: “Esqueçam lá a morte de Cristo, estrelas tiveram de morrer para nós estarmos aqui hoje. Não é isso mais glorioso que o Arbusto Flamejante?”




Por falar em Mitologias… Na minha infância, antes de ler romances, policiais e ficção científica, lia Banda Desenhada. Entre as muitas que lia, como não podia deixar de ser para alguém da minha geração, estava a das Tartarugas Ninja. Estranhamente, a saga que eu mais gostei dessa BD, foi uma na qual não entravam os intervenientes do costumo. O Destruidor (The Shredder), o Krang, o Beebop e o Rocksteady, e o seu exército de Ninjas Foot, foram trocados por um clã de ninjas tradicional e místico, um samurai feiticeiro que odeia a Humanidade e uma ninja raposa, lacaia deste último. Em vez de Casey Jones como aliados, temos um rapaz que se consegue transformar num dragão gigante. Nova Iorque aparece substituída por Hiroshima. Mas o que me apaixonou nessas edições que nem vinham seguidas mas de forma intercalada, eram as introduções. Um mito de criação do Japão (acima), uma cena contextualizada no dia fatídico da queda das bombas nucleares (abaixo), dando-nos um vislumbre sobre a vida anterior do Mestre Lascas (Sensei Splinter).
Depois a história essencialmente, era que o Samurai Feiticeiro queria usar o Dragão Guerreiro, para destruir uma uzina nuclear, cuja energia iria soltar um Demónio para destruir a Humanidade. Com uma ajudinha dos Deuses do Yin Yang, os Tartas conseguem furtar tais planos, que são afinal uma ameaça terrorista hoje em dia tão passível de ser tornada realidade, mesmo sem a existência de dragões e demónios ou deuses.

 
Queria apenas partilhar esta parte da minha infância convosco, pois foi um pouco dela e da actualidade, que me surgiu a inspiração para este post e para a imagem a que chamei Mushroom Yin Yang. Mas digresso…


O Japão está, muito como Portugal, ou mesmo como toda esta nossa Aldeia Global, num momento de mudanças impostas pela inevitabilidade das consequências das decisões do passado. Fantasmas de outrora influenciam o momento presente. A Crise, que no grego antigo quer dizer Momento de Mudança, é diferente para Japão e Portugal, mas inevitável para ambos. A crise em Portugal foi criada pela ganância desmesurada dos homens, aliada a uma grande dose de credulidade e ignorância. A crise japonesa foi criada pelos esbirros de Gaia, se quisermos empregar uma linguagem mais poética, mas também pelo uso descuidado duma tecnologia que é na melhor das hipóteses um pau de dois bicos.
O Super Terramoto de 2011 que atacou o Japão fez com que o Estado Japonês tivesse de confrontar o verdadeiro perigo de ter Centrais Nucleares numa zona geográfica de alto risco do ponto de vista da sismologia, como é aquela em que se encontra o seu país. O já existente movimento verde anti-nuclear ganhou momento com este terrível acontecimento e o desastre proveniente da destruição da Central Nuclear de Fukushima.
Onde antes me centrei nas lições aprendidas (vide os dois links abaixo) em termos de prevenção e preparação para este tipo de situações (sismos e tsunamis), venho agora nesta nova entrada abordar em profundidade o controverso tópico do nuclear e a questão energética que cada vez mais vai apoquentar as sociedades modernas, servindo-lhes também de travão evolutivo a nível tecnológico. É certo que cada vez nos tornamos mais dependentes de energia, pois tornámo-nos uma civilização altamente tecnológica. Contudo, o próximo nível de avanços científicos, hologramas, sabres de luz, motores iónicos, teletransporte, motores anti-gravidade, tudo depende essencialmente de quanta energia conseguimos gerar, logo essa quantidade de energia acaba por ser o nosso limite tecnológico!
Novas, Actualidades e Trabalho de Campo

Mega Sismo: Quanto o Infinito Encontra o Zero

Ora, dos meus outros posts, nota-se o meu óbvio interesse nestas áreas. A sismologia porque foi o sismo de Março de 2011 que comprovou os dados recolhidos pelo astúcia e visão governativa do Marquês de Pombal em 1755 e que até 2011 se julgavam exageros de uma sociedade retrógrada. Portanto, no que diz respeito à sismologia, vivemos uma altura interessante em Portugal, embora acho que no meio de tanta coisa em que pensar com a Crise e a Austeridade, isto passou completamente ao lado do povo. Supostamente, no último trimestre de 2013, vai entrar em funcionamento um sistema de alerta de Tsunami em Portugal. Se forem ao post que escrevia (acima “linkado”) intitulado “Mega Sismo: Quando o Infinito Encontra o Zero”, poderão perceber que muitas vidas podem ser salvas pela implementação de um tal sistema.
Vejamos se o sistema é implementado e se fica a funcionar em pleno, incluindo apps de telemóvel para que os cidadãos possam ser avisados no momento, tal como existe no Japão, hoje em dia.
Outra coisa que mais cedo ou mais tarde terá de nos preocupar é a preparação de edifícios antigos para um terramoto.
http://www.publico.pt/mundo/noticia/intervencao-antisismo-em-edificios-antigos-nao-e-tao-comum-como-isso-1493840

Com o estado actual da construção pública em Portugal e a falta de emprego, seria uma lufada de ar fresco para muitos, se o Governo cagar para os bancos, if you pardon my French, fechando-lhes as torneiras e antes investir nessas obras de interesse público, particularmente em zonas de muito risco, como o Algarve e a Baixa Lisboeta. Erguer muralhas defensivas também não fazia mal nenhum. Mas eu sei… eu sei… não há dinheiro (no futuro post na rubrica “Os Meus Versículos Satânicos”, para o qual ainda me digladio com um subtítulo, hei-de oferecer ideias e alternativas para superarmos a nossa Crise). Mas imaginem no que esse investimento poupará quando vier o tsunami e o sismo. Eles hão-de vir, descansem. Mas são como a Morte, inesperada e impiedosa! Mas não se iludam, pois é certo que a Construção (movida a capitais estatais), embora faça surgir emprego momentaneamente podendo aliviar o sofrimento e a fome (não poupemos palavras) de alguns, em termos de resolver crises económicas não é solução, uma vez que é um investimento que não é exportável, logo não aumenta a nossa produtividade, mas sim a despesa de estado e a dívida. Quero com isto dizer que só espero que as probabilidades estejam connosco e que o Tsunami só retorno a terras lusas muito após termos superado os nossos problemas socio-económicos.
Voltando à questão energética, Portugal nunca aderiu à tecnologia nuclear e com efeito um dos vários problemas que contribuem para a nossa falta de auto-suficiência nacional e, consequentemente, para a nossa actual crise económica, é a incapacidade de gerar internamente energia suficiente para as necessidades de todo o país, sendo portanto forçados a importá-la. Duma forma ou de outra, uma vez que importamos energia da Espanha e da França, também nós dependemos do nuclear. Por outro lado, somos um dos países da União Europeia que mais energia verde produz, através de barragens, painéis solares, geradores eólicos e de energia de ondas marítimas. Hey, não podíamos fechar a tabela em tudo. Contudo, essa energia representa cerca de 30% da energia total que precisamos actualmente no país. E é preciso reparar que actualmente Portugal tem muito pouca indústria, logo no futuro, se conseguirmos escapar à mediocridade da nossa classe política governante e realmente semearmos as bases para uma retoma económica em larga escala no país, emergiremos a necessitar de ainda mais energia. Just some food for thought…
Já o Japão tem uma longa e estranha, para não dizer infeliz, história com a tecnologia nuclear. Já antes abordei o tópico do único ataque nuclear alguma vez levado a cabo na História escrita da Humanidade, com as bombas de Nagasaki e Hiroshima, e todo o horror que daí surgiu, bem como certos traços subculturais, nos posts abaixo “linkados”:

Mas e o que aconteceu ao Japão depois desse trágico final da Segunda Guerra Mundial?
Bem, menos de uma década após o final dessa Guerra, em Agosto de 1945, o Japão já estava a executar planos para poder gerar energia eléctrica através de uma central nuclear, para satisfazer as suas crescentes necessidades eléctricas. Uma campanha de propaganda muito inteligente, que usou a combinação do desejo dos japoneses por uma vida melhor e o medo de perder esse futuro brilhante devido a falta de electricidade, fez com que a opinião pública esquecesse ou pusesse de parte o terror das bombas nucleares. O Japão, localizado numa das zonas mais instáveis a nível sísmico do planeta, tornou-se na plenitude dos tempos numa país com 50 centrais nucleares e o terceiro maior produtor eléctrico a nível mundial. Ora, se eu fosse Jung falaria do Sincronismo necessário para que tal se tenha passado.
A estrada para o Japão nuclear que conhecemos é uma de esforços secretos durante a guerra por parte de cientistas nucleares japoneses, de um nacionalista de direita que dominou a política japonesa durante quase 50 anos, de um magnata dos media que trabalhava com a CIA, de um espalhafatoso piloto com jeito para a auto-promoção, do mais popular e corrupto primeiro-ministro japonês pós-guerra, e dum colectivo de orgulho desmesurado que ficaria conhecido como a aldeia de energia eléctrica.
Em 1945, a bordo do USS Missouri na Baía de Tóquio, foi assinado o acordo que deu por terminada a guerra, passando o controlo do Japão para a Ocupação Norte-Americana, que procurou refazer o Japão à imagem dos E.U.A., ou o mais próximo disso possível, no intuito de impedir uma nova guerra catastrófica. Os gestores americanos que foram para o Japão administrar a Ocupação, da escola do New Deal de Franklin Roosevelt, vinham cheios de optimismo e de uma ingenuidade popularizada anos mais tarde por Graham Greene, no romance “The Quiet American” (que hoje em dia já conta com pelo menos uma adaptação cinematográfica). Ainda assim, de boas intenções está o inferno cheio, e foram essas alegadas boas intenções que chegaram aos jornais e revistas norte-americanos, enquanto que a verdadeira história da Ocupação é uma bem mais sórdida e que permaneceu durante muitos anos secreta. Esta, trazida à luz do dia, destrói a cuidadosamente guionizada versão oficial da transição pacífica do Japão para uma nação democrática.
Nenhum segredo terá dado mais causa de reflexão à América que o facto do programa atómico japonês durante a guerra estar bem mais avançado que alguém pudesse conceber em Whashington D.C. Apenas semanas após a rendição é que foi descoberto que cientistas japoneses em Tóquio, Quioto, e na Coreia ocupada pelo Japão, tinham estado a trabalhar para chegar à Bomba. À medida que os anos ‘40 deram lugar aos anos ‘50, e a Guerra Fria começou, muitos dos japoneses presos como criminosos de guerra, deram por si a serem libertados, para se tornarem em aliados de Whashington contra o Comunismo. A necessidade de os EUA de terem um aliado no Oriente contra a então já nuclear União Soviética e uma China Comunista, intersectou o antigo sonho do Japão para ter uma fonte de energia segura, limpa e estável. O momento da energia nuclear no Japão havia chegado.
Em 1953, com a guerra da Coreia a terminar numas tréguas instáveis, Yasuhiro Nakasone, um nacionalista japonês em ascensão, foi convidado a estudar na universidade de Harvard. Ao frequentar essa universidade, conheceu um ambicioso académico de Harvard: Henry Kissinger.

Quero só acrescentar antes de prosseguir que Kissinger nunca se atreveu a processar Hitchens pelo livro que o acusa de ser um mentiroso, um criminoso de guerra, presumidamente porque para isso teria de o enfrentar em tribunal. Aliás, o Hitchens ainda o processou ou tal ameaçou via advogados por todos os insultos que Kissinger lhe fez. Mas os advogados de Kissinger acabaram por emitir um comunicado em que pediam desculpa a Christopher Hitchens pelos insultos prestados. Kissinger é vil, mais que maquiavélico, um doido por poder em toda a acepção da expressão. Infelizmente este livro não se encontra traduzido para Português e eu também não disponho do tempo para traduzir os vídeos ou o resumo. Contudo, deixo-vos 6 pequenos vídeos, retirados de outros mais longos vídeos de palestras e entrevistas do Hitch sobre a sua batalha com Kissinger, só para terem uma breve noção do que esta foi. Estes foram traduzidos por mim. De seguida continuo a explanação histórica.


Kissinger contou ao jovem Nakasone, que viria a tornar-se primeiro-ministro três décadas mais tarde, um segredo. Muito em breve, os EUA iriam partilhar o seu conhecimento nuclear com países interessados não em fazer bombas, mas sim em criar centrais nucleares. Em Dezembro de 1953, o presidente Eisenhower anunciou a sua iniciativa “Átomos pela Paz”. Nakasone tinha já avisado os seus amigos no Japão, incluindo cientistas do antigo programa nuclear japonês, que muito em breve teriam acesso a tecnologia nuclear norte-americana para construir reactores nucleares. Mas havia um obstáculo. A população japonesa ainda não esquecera que “nuclear” queria dizer, antes de mais nada, a devastação de Hiroshima e Nagasaki. O que Nakasone e companhia precisavam então era de uma mente que pensasse como eles nos Media, que trabalhasse afincadamente para veicular a mensagem deles. Eis que surge Matsutaro Shoriki. Aprisionado como um criminoso de guerra classe A mas libertado antes de ser julgado, Shoriki era uma figura imponente que dirigia o jornal Yomiuri  Shimbun (que com a circulação reportada de 10 milhões de cópias por dia, afirma ser o maior jornal do mundo). Por 1954, as suas raivosas visões anti-comunistas eram projectadas não só no Yomiuri como na Nippon TV, uma das primeiras estações televisivas japonesas, que ele também dirigia. Como o jornalista freelancer Tetsuo Arima detalha no seu livro “Genpatsu, Shoriki, CIA” (Energia Nuclear, Shoriki, CIA), Shoriki era também um amigo da CIA e um ardente defensor do nuclear. Com a ajuda de Nakasone, Shoriki usou o seu jornal como um organismo virtual de relações públicas para a energia nuclear. A manchete do Yomiuri no dia de Ano Novo de 1954 era “Finalmente o Sol foi Capturado”. Era o primeiro de muitos artigos a argumentar o abraçar desta nova forma de energia e o começo de uma longa e entusiástica campanha daquele jornal que, de uma forma menos berrante, continua até aos dias de hoje.
Contudo, mesmo quando este pequeno mas influente lobby composto por Nakasone e Shoriki, com o seu altifalante Yomiuri, começava a ganhar momento, a tragédia atacou. A 1 de Março de 1954, 23 pescadores japoneses, a bordo do seu barco o Daigo Fukuryu Maru (tradução: Dragão Sortudo Cinco), foram expostos a precipitação ou poeiras radioactivas provenientes duma explosão nuclear levada a cabo pelos americanos no Atol Bikini. Ainda assim, dias depois e embrulhado em segredo, o parlamento do Japão (sob orientação de Nakasone) aprovou o primeiro orçamento destinado à pesquisa nuclear, um orçamento de 235 milhões de yen. O primeiro passo para as centrais nucleares fora tomado.
Sem se deixar demover pela preocupação do público sobre o caso do Daigo Fukuryu Maru, O jornal Yomiuri continuou a sua campanha de propaganda. Shoriki ajudou a patrocinar uma exibição em Tóquio no ano de 1955, que apresentava as maravilhas do poder nuclear, e, por esta altura, uma das personalidade mais mediáticas do Japão juntou-se ao lado Pró-Nuclear.
Zensaku Azuma era conhecido pelo público japonês como um espalhafatoso piloto que voo sozinho sobre a Europa, os Estados Unidos e a Ásia em 1930. Em meados dos anos ‘50, ele era uma bem conhecida celebridade que se sentia intrigada pela energia nuclear. Em 1955, ele encontrou depósitos de Urânio na fronteira entre as prefeituras de Okinawa e Tottori. Ele andou em digressão pelo Japão a comer comida carregada de Urânio antes de morrer de cancro 10 anos depois, aos 74. (provavelmente, se não fosse parvo teria chegado aos 100 :). Contudo, após a descoberta de que o Japão tinha depósitos nacionais de Urânio, o país ganhou uma febre por Urânio. As pessoas compravam contadores Geiger e escavavam os quintais em busca do minério. Quintas anunciavam que vegetais nascidos em campos que tivessem traços de urânio eram melhores para a saúde. Uma mulher da prefeitura de Gifu, vendia vinho de arroz japonês com traços de urânio. Mas como todas as modas, esta depressa acabou por esmorecer e desaparecer (para bem dos japoneses e da sua saúde diria eu).
Contudo, pela altura em que a maluqueira pelo urânio desapareceu, Shoriki já tinha sido nomeado, em 1956, para a primeira Comissão Japonesa de Energia Atómica, independentemente de ele não ter quaisquer conhecimentos de física nuclear (hein?, é igual em todo o mundo… a merda rola monte a cima na puta da política!). De qualquer forma, a aceitação pelo público japonês da energia atómica enquanto fonte energética pacífica estava a espalhar-se. Contudo, o governo tinha outros obstáculos à construção das centrais nucleares, um dos quais podia levar o país à bancarrota!
Em 1960, o Fórum Industrial Atómico Japonês, um lobby industrial, foi secretamente comissionado pela Agência da Ciência e Tecnologia para desenvolver uma estimativa do custo, baseada numa pergunta a qual não se queria dar a conhecer ao público: “Quanto teria a administração japonesa de pagar em compensações face a queixas derivadas a acidentes nucleares?” (eu não vos digo? Merda é merda em todo o lado, só eventualmente muda a cor. E antes que me chamem racista, refiro-me a cores político partidárias, ok? ) O Fórum apresentou uma série de cenários possíveis, mas no pior dos casos o governo teria de pagar 3.7 triliões de yen em compensações. Isto numa altura em que o orçamento nacional japonês era de 1.7 triliões de yen!
O governo escondeu o relatório durante 40 anos, até este vir à luz em 1999 (Estranhamente, este foi o ano em que estreou o The Matrix. Espero não precisar de explicar a gigantesca metáfora sócio-política que esse filme é). Mas o Fórum foi claramente a razão que levou o governo passar em 1960, o decreto-lei sobre Compensação para Danos Nucleares, que isentava os operadores de centrais nucleares do pagamento de compensações “no caso do dano ser causado por uma catástrofe natural de carácter excepcional”. Com isso, um dos últimos obstáculos à construção de centrais nucleares havia sido superado. Esta lei viria a permanecer mera teoria até o desastre de Fukushima em Março de 2011 forçar o governo e o público a tomar consciência das suas reais ramificações.
O primeiro reactor nuclear japonês foi construído perto de Tóquio em 1961 e entrou em operação apenas 5 anos mais tarde em 1966. Mas a verdadeira alvorada da era nuclear no Japão, surgiria a 14 de Março de 1970, na abertura da Expo de Osaka. Nesse dia, os visitantes eram recebidos com sinais que proclamavam orgulhosamente que a central Nª1 de Tsugura, na perfeitura de Fukui estava a auxiliar a fornecer energia para a Expo.
A Expo de Osaka tomou lugar mesmo quando as questões ambientais estavam a ganhar proeminência. Respondendo aos horrores de envenenamento por mercúrio em Minamata e a tenebrosa realidade da poluição do ar derivada do boom económico (como tem vindo recentemente a acontecer no Brasil, na China e na Índia) dos anos ‘60, combinado com a crescente tomada de consciência de que a energia nuclear nasceu das armas nucleares, nasceu um movimento político Anti-nuclear poderoso e vocalizado. Ao mesmo tempo, a política do Governo era construir centrais nucleares próximas de pequenas vilas, que tinham o direito democrático de as rejeitar se assim quisessem. Para o governo, tornou-se uma alta prioridade garantir que tal não acontecesse, especialmente depois de o processo legal movido em Ikata (prefeitura de Ehime) contra uma proposta central ter dado o tiro de aviso. Mas o que fazer? Felizmente para o lobby pró-nuclear o primeiro-ministro da altura tinha um plano.
Kahuei Tanaka elevou-se de origens humildes na longínqua prefeitura de Niigata, na zona costeira do Japão, para se tornar no mais popular e controverso primeiro-ministro Japonês. Nos anos 1970, ele governou o país como poucos fizeram desde essa altura, primariamente porque assegurou que as províncias japonesas, extremamente subdesenvolvidas, receberam pelo menos alguma parte da riqueza nacional.
Reconhecendo que o que muitas das vilas piscatórias da costa japonesa precisavam, e queriam, eram projectos de obras públicas, Tanaka fez aprovar 3 leis em 1974 garantindo fundos de Tóquio aos governos locais caso estes concordassem em hospedar uma centrar nuclear na sua zona. Durante as décadas que se seguiram, as prefeituras de Ishikawa, Fukui, Shimane, e, claro está, a própria terra de Tanaka, Niigata, entre outras, abriram as portas a centrais nucleares em troca de dinheiro para construir estradas, pontes, centros comunitários, estações de comboio, e sistemas de esgotos modernos. E assim que a central nuclear estava construída, havia mais dinheiro a ser ganho localmente, trabalhando partime na central nuclear durante os períodos de inspecção, ou a providenciar comida, abrigo e transporte às hordas visitantes de técnicos especializados e agentes governamentais.
Contudo, nem toda a gente estava convencida de que o nuclear era a solução. Em 1975, o Centro de Informação Nuclear dos Cidadãos foi fundado pelo professor de Química Jinzaburo Takagi, como uma forma para educar o povo sobe aquele tópico. Ambos o acidente de Three Mile Island(1979) e de Chernobyl (1986) fizeram com que subitamente um grande número de japoneses compreendesse que a energia nuclear não era assim tão segura como lhes havia sido publicitado.
Isto levou ao rebentar de um esforço por parte dos cidadãos para afastar o Japão do caminho do nuclear. Em 1988, reuniram 3.6 milhões de assinaturas que apoiava uma nova lei para fechar todas as centrais nucleares. Mas o governo Japonês, sobretudo Yasuhiro Nakasone, ignorou a campanha, tal como fez o partido do governo de então, o Partido Liberal Democrático(Lá liberal até pode ser, deu-se à liberdade de os ignorar, já democrático… eh! Afinal, não houve um único fascista que não se dissesse amante da liberdade. “Palavras são vento”, diz-nos George R R Martin). Entretanto, foi dito ao povo que havia poucas opções (a história é sempre a mesma). As energias renováveis diziam-se ser ainda demasiado dispendiosas e de pouca confiança (um argumento ainda usado nos dias de hoje pelo lobby pró nuclear), enquanto medos de outra crise de petróleo como a de 1973 permitiu que o lobby pró nuclear argumentasse contra uma mudança de energia nuclear para energia baseada no petróleo, dizendo ser uma má ideia (realmente, venha o diabo e escolha. Se bem que a do petróleo acaba por ser menos problemática em termos de segurança).
Outros esforços para libertar o Japão do Poder Nuclear, foram desenvolvidos ao longo dos anos ’90. Por essa altura, décadas de energia nuclear haviam criado um vício a essa forma de energia nas cidades que consumiam electricidade por ela providenciada (a custos baixos, era dito ao povo), e também nas vilas, onde as centrais nucleares se haviam tornado nas galinhas dos ovos de ouro locais e lhes providenciavam as mesmas, se não melhores, infra-estruturas e transportes que os dos primos das cidades.
Sinais de perigo, tais como uma fuga de sódio em 1995, um fogo no reactor de plutónio no monte Monju, foram ignorados, tal como o foi um acidente na central de Tokai-mura, perto de Tóquio, em 1999, que matou 2 trabalhadores e expôs medidas de segurança defeituosas. Seguiram-se outros incidentes: em Agosto de 2004, a tragédia surgiu quando uma tubagem de vapor corroída, que nunca fora inspeccionada em 28 anos de utilização, explodiu matando quatro trabalhadores; no início de 2007, foi revelado que a Companhia de Energia Eléctrica de Tóquio (TEPCO, sigla em inglês) falsificara dados de segurança nas suas centrais nucleares em cerca de 200 inconformidades. Nesse verão, a central Kashiwazaki-Kariwa, em Niigata, da TEPCO foi danificada após um terramoto de magnitude 6.6, com epicentro a 19 quilómetros de distância. Não houve fatalidades, mas a TEPCO admitiu que 3 dos 7 reactores abanaram a ritmos muito acima dos valores especificados em projecto.
Ainda assim, a TEPCO e a aldeia nuclear negaram a possibilidade de um incidente de grande porte. Ao invés, concluíram que o terramoto de 2007 provara que as centrais eléctricas japonesas eram de facto à prova de sismo e de que a tecnologia japonesa de energia nuclear e a sua gestão era a melhor do mundo.
A História, estavam eles confiantes, havia comprovado que a decisão tomado nos anos ’50, para abraçar a energia nuclear fora a correcta, para uma nação pobre em combustíveis fosseis como o Japão. A TEPCO afirmou, após o susto trémulo de 2007, que eventualmente as centrais de Kashiwazaki-Kariwa iriam ser tornadas ainda mais seguras face a tremores de terra. Assim como também aconteceria com 4 reactores que operavam numa prefeitura chamada Fukushima. Mas entretanto, a aldeia nuclear do Japão assegurava com confiança a nação e o Mundo de que nada havia com que se preocupar.
Coloquei esta perspectiva histórica em itálico pois foi praticamente toda traduzida de um documento, cujo pdf debate a questão do nuclear no Japão:
Fresh Currents
Quanto a Fukushima, quando vi o documentário Children of the Tsunami, que muito me impressionou, tanto pela positiva como pela negativa (e sobre o qual é provável que venha a fazer uma crítica alongada e análise aprofundada num futuro post), onde as crianças viviam em zonas radioactivas, em que os pais estão constantemente a medir os níveis de radiação para as deixar brincar na rua, fiquei de imediato com a impressão de que nada de bom ia sair daquilo. O próprio governo parece estar a usá-las como os proverbiais ou históricos “canários na mina de cobre”. Posso estar a ser injusto, mas foi a impressão com que fiquei e então permaneci atento às notícias. Eis as manchetes (links) que vieram a confirmar o meu medo:



Ora, a evolução genética da Borboleta há-de ser mais rápida que a do homem, são criaturas efémeras, vidas inteiras em apenas 24 horas nalgumas espécies, logo é normal que evoluam de acordo com o seu ambiente mais rapidamente, daí já estarem a mutar. Uma criança humana poderá demorar muito tempo até demonstrar problemas ou deformações geradas pela radioactividade a que é exposta. Pode até só saber de que há algum problema, quando o seu primeiro filho nascer com alguma deficiência genética ou quando descobrir que afinal é estéril pela radiação ter deformado o seu aparelho reprodutivo. Por isso, é de loucos deixar aquele pessoal continuar a viver naquela zona, pelo menos até a descontaminarem minimamente, o que pode levar muitos anos.
Agora, retornando à questão energética. A catástrofe social, não menor que a natural que a causou, que se abateu sobre Fukushima, empurrou uma bola de neve de médio tamanho pela montanha abaixo e criou uma avalanche de sentimento anti-nuclear.


Ora, que tenho eu a dizer sobre isto?
Bem, primeiro sejamos historicamente justos. Embora deteste como a energia nuclear foi “vendida” ao povo japonês, mediante propaganda e lobbies, não posso ter a certeza, mas duvido com grande convicção de que o Japão se tivesse tornado na quarta economia mundial hoje em dia sem ter tido a sua era atómica como teve. A independência energética é essencial para gerar um país tecnologicamente avançado e rico.
Dito isto, eu nunca fui defensor das centrais nucleares. Para além de criarem lixos radioactivos, dos quais muitos barris acabam no fundo dos nossos oceanos ou em aterros secretos e nada seguros, que podem ser geradores de toda uma quantidade de problemas no nosso futuro enquanto Humanidade, considero-as demasiado perigosas no presente. É claro que o risco pode ser diminuído consideravelmente através de correctas medidas de segurança, da contínua execução de vistorias e fiscalizações sérias e independentes, de uma contínua actualização da tecnologia de segurança utilizada, e particularmente dos locais onde são construídas. Ora, o caso geográfico do Japão é terrivelmente mau para albergar centrais nucleares, como de resto já se pôde ver, graças ao terramoto.
Tendo em conta o quanto o nuclear caiu em desfavor na opinião pública japonesa, ou o quanto parecem a sociedade e mesmo algum do tecido empresarial japonês estarem ansiosos por uma evolução para as energias renováveis e limpas, eu diria que a melhor opção para o Japão é começar uma substituição gradual das suas fontes energéticas. E óbvio que não pode ser drástico, pois há que garantir a economia japonesa, bem como as necessidades energéticas do povo japonês. Mas podem ir substituindo gradualmente as centrais mais antigas e/ou em zonas de maior risco sísmico.
Estranhamente, Portugal e Japão, mais uma vez poderiam ajudar-se mutuamente. Portugal precisa drasticamente de aumentar a sua produtividade. Nada tem a ver com trabalharmos mais, não somos mandriões como os idiotas dos nossos governantes (e não a Troika) parecem pelas suas atitudes achar, mas sim em conseguirmos produzir bem valiosos para os mercados externos que façam entrar investimento e lucros no país mediante exportações. Ora, nós somos o país europeu com mais produção energética via energias renováveis, temos projectos e/ou parcerias pioneiras de sistemas que aproveitam as ondas do mar (algo que o Japão também tem em abundância) e também em geradores eólicos.




Seria óptimo para os nossos estaleiros e mesmo para novas empresas que desse novo nicho de mercado surgissem, que conseguíssemos ajudar os nossos amigos de há muito no seu processo de adaptação energética, ao mesmo tempo que nos tornávamos mais produtivos. Este seria um excelente sentido a dar à nossa política externa e política de economia interna, sendo que talvez pudéssemos também servir de mediadores na rixa das ilhas Senkaku, dadas as nossas amizades tanto com o Japão como com a China. Uma guerra daí proveniente não favorece nada nem Portugal nem o Mundo. Ainda assim, creio estar a sonhar alto, considerando o actual Ministro de Negócios Estrangeiros português.
Mas disso (das ilhas Senkaku) falarei no próximo post, pois como sempre já me alonguei demasiado por hora...

Sayonara, tomodachi! ;)

domingo, 22 de abril de 2012

Os Meus Versículos Satânicos


Salman Rushdie escreveu os seus Versículos Satânicos na forma de um romance, em que dois dos mais importantes anjos das religiões monoteístas, sob forma humana e absolutamente convencidos da sua humanidade de tal forma que ambos no romance são ateus, são usados para criar um palco onde muito artisticamente se critica o Islamismo. Isso granjeou-lhe a edição duma Fatuah (uma sentença de morte a cumprir por qualquer “bom” muçulmano). Nada temam, eu não venho fazer o mesmo para com o Cristianismo. Não hoje, pelo menos. De qualquer forma, os Católicos já não perseguem ninguém até à morte… acho eu! A Inquisição já acabou, né?
Mas tal como os Versículos de Rushdie, eu venho criticar a civilização de onde venho, pela retórica, pela ironia e pelo sarcasmo. Rushdie centrou a sua crítica na Índia e na Inglaterra, sendo essas as suas origens. Eu centrar-me-ei no meu Portugal. Quanto a usar anjos (caídos ou não), prefiro usar um mito mais próximo do Homem: o Vampiro.
Por uma questão de formalismo teórico, comecemos por definir o que é ser vampiro. Bem, na cultura popular, um pouco por todo o mundo, existe o mito de uma criatura que vagueia na escuridão da noite, sedenta de sangue, um parasita de outros seres vivos, não diferente dos seus homónimos do mundo natural como a pulga, a carraça, o mosquito, e o morcego chupador de sangue. Por exemplo, na Roménia, de onde Bram Stocker (que fez no passado dia vinte deste mês 100 anos de morto) importou o mito do Vampiro e o popularizou no seu romance histórico Drácula, os vampiros são denominados de pricolici. Já a origem do termo nosferatu, usado por Stocker, é incerto e pode mesmo ter sido liberdade poética do autor. O termo grego é vrykolakas. No México temos o ilustre Chupa-Cabra, uma besta chupadora de sangue. No Japão temos o Kappa, um exemplo vampiresco deveras estranho, e cito a Super Interessante “Esta criatura humanóide, pequena e verde, como uma criança, mas também se assemelha a um sapo ou um lagarto. Ataca animais e suga-lhes o sangue pelo anûs. Aos humanos, rouba o fígado e viola as mulheres.” o-O Seja como for o mito de seres sobrenaturais que sugam sangue existe espalhado pelo mundo. Mais recentemente, num mundo onde cada vez mais a ciência ganha o seu espaço como um saber sério, objectivo e não só explicativo do mundo natural mas também desmistificador do mundo sobrenatural, o termo “vampirismo” foi usado para denominar uma doença do fórum psicológico que consiste numa sede patológica por sangue. Por outro lado, do ponto de vista da metafísica, há quem defenda algo chamado “vampiros psíquicos”, que são definidos como seres humanos que, pela sua própria natureza, sugam energia psicológica de seres humanos que os rodeiem.
Portanto, temos pelo menos 4 definições para vampiro: a mitológica/sobrenatural, a natural (parasitismo) e a psicológica (patologia obcessiva) que são ambas científicas, e a metafísica (sugadores de energias psíquicas).
Estamos agora preparados para entrar na parte mais controversa deste meu monólogo. Pretendo apresentar-vos o caso de que os políticos que nos (des)governam são eles próprios vampiros. Quero recordar que para tal, apenas tenho de os enquadrar, em termos lógicos e racionais, numa das definições que distingui acima. Ora bom, como eu sou ateu vou dar-me ao luxo de deixar a definição mitológica/sobrenatural para último! Eheheh
Comecemos então pela definição metafísica, que confesso ser a mais fácil, porque me bastará tornar-vos conscientes de um fenómeno que afecta quaisquer cidadãos interessados deste país e conscienciosos da nossa actual situação. É ou não é verdade que hoje em dia basta vermos os telejornais e/ou ler jornais para nos inteirarmos de frases dos nossos ilustres governantes que pura e simplesmente nos retiram energia mental? Que de facto pelas continuadas mentiras que hoje são, amanhã já não e no outro dia “Bem, talvez!”, pelas promessas eleitorais não cumpridas, pelos falhanços de cumprir as metas pelas quais andamos todos a sofrer (falhanços tão fracamente justificados, diga-se), nós sentamo-nos a olhar para tudo aquilo e sentimos asco, revolta, medo, fúria, incerteza para lá do razoável, tristeza e, no limite, desespero? A mim basta-me ver e ouvir o ministro das finanças na TV, esse não só vampiro mas também Gaspar the NOT so friendly ghost, para me sentir sugado de quase todas as minhas reservas de energia positiva ou de pensamento positivo para o futuro. Não vos acontece o mesmo? Comprova-se então que são, pelo menos, vampiros psicológicos.
Passemos então, à definição científica. Comecemos pelo parasitismo. Numa relação de parasitismo, o parasita vive do organismo hospedeiro enquanto nada de positivo surte dessa relação para este último. É preciso dizer mais? Estes tipos ganham bem (bem demais para a merda que fazem!!), têm mobilidade paga e assegurada pelos nossos impostos e pela dívida que colocam nas cabeças de todos os portugueses e que só têm feito crescer, enquanto vendem a preço de saldo o património estatal que nos restava, têm casa paga e, cumprindo dois mandatos em certos casos, têm uma reforma com todos os benefícios e mais alguns, a ser passível de executar de imediato (caga lá nos 65 anos) INDEPENDENTEMENTE de se fizeram um bom trabalho ou simplesmente afundaram ainda mais o país. Parasitismo comprovado.
Quanto ao vampiro patológico, bem isso depende de se eles realmente fazem o que fazem porque são completamente malucos da cabeça e acham que este é mesmo o caminho (continuadamente fazer dívidas para pagar dívidas, criar miséria na esperança de que isso promova uma retoma económica, propagar uma cultura de jobs for the boys ao mesmo tempo que defendem a transparência na política e o combate à corrupção, etc…) ou se nos estão só a pedalar mentiras para manterem o statu quo, assegurando a sua continuada existência parasita! No lugar deles, eu esperaria que fossem patológicos, ao menos assim podiam alegar defesa por insanidade temporal. (esta deixo por provar, não sou psicólogo :)
Mas, a partir de Janeiro deste ano, os nossos vampiros eleitos deram um passo importantíssimo. Decidiram abraçar na totalidade a sua natureza mitológica e começaram a desejar o nosso sangue de forma literal. Pois foi este ano que negaram a Isenção de Taxas Moderadoras aos Dadores de Sangue.

“QED, Pateta, velho compincha.”, citação directa da versão portuguesa de “Versículos Satânicos” de Salman Rushdie. A nota de rodapé indica que QED é uma sigla para Quod Erat Demonstrandum == aquilo que se pretendia demonstrar.

E porquê? Porque retiraram a isenção aos dadores?
1) Porque os dadores de sangue ganham todos quantidades obscenas de dinheiro e como tal não precisam?
2) Porque os dadores de sangue davam prejuízo ao Serviço Nacional de Saúde (SNS) por terem essa benesse e devido à necessidade (discutível) de Austeridade é imperativo acabar com ela?
3) Porque é imoral (isto vindo destes vampiros é delicioso) pagar de alguma forma pelo sangue que é doado?
4) Ou será que é porque os dadores de sangue estão apenas a cumprir o seu dever?
5) Porque a dádiva deve ser algo altruísta e querer essa isenção é egoísta?

Bem, todas estas perguntas são válidas. Eu sou… era um dador de sangue e quero voltar a ser. Na verdade, ser um dador de sangue constitui, acreditem ou não, grande parte da minha identidade pessoal. Eu uso um fio de prata ao pescoço quase todos os dias, do qual pende não um crucifixo mas uma placa que tem o meu grupo sanguíneo e a sua polaridade, que a minha mãe me deu. Costumo brincar e dizer que pela minha natureza genética em si eu não tenho escolha senão ser um dador, um positivista e manter-me sempre positivo, pois a verdade é que o meu sangue é O+, o dador universal positivo por excelência. Se calhar por isso nutro prazer em dar aos outros e consigo manter um espírito positivo em qualquer luta, mesmo que possa parecer que seja uma guerra que não consigo ganhar, desde que ache que a causa é justa. Lembrei-me agora que posso ser mesmo a antítese natural ao vampiro! Ahaahah! Vamos lá então tentar responder às perguntas:

1) Eu não ganho quantidades obscenas de dinheiro. O meu pai é dador de sangue há bem mais anos que eu (e foi o exemplo dele que me levou a querer também ser um dador) e o meu pai infelizmente nunca ganhou acima dos 200 contos ou 1000 euros, sozinho. Atrever-me-ia a dizer que a grande maioria dos dadores de sangue pertencem à classe média, isto tendo em conta as pessoas com quem me cruzei que sei serem dadoras ou que via lá no Centro de Recolha quando lá ia. Sim, essa classe quase destruída por completo. O Sócrates aniquilou a média baixa, o Passos está a dar cabo do que resta. Ainda se admiram da retirada da isenção ter sido a gota de água que fez transbordar o copo?
2) Quanto ao prejuízo. Ouçam, antes desta idiotice de nos negarem a isenção, Portugal não só não tinha falta de sangue no Instituto Português de Sangue (IPS), como éramos uma nação exportadora de sangue. Literalmente, o IPS vendia sangue ao estrangeiro. Como se veio a saber, éramos aparentemente tão ricos, que nos dávamos ao luxo enquanto país de desperdiçar um dos subprodutos da recolha de sangue, o plasma! Nesta notícia, calcula-se que se poderia poupar muito se aproveitássemos o plasma para fazer medicamentos que assim temos de importar ao estrangeiro (isto sim é prejuízo, é defeito estrutural e ainda não foi resolvido). http://www.publico.pt/Sociedade/plasma-portugues-continua-a-ir-para-o-lixo-1532411
Cito o acima indicado artigo:
"Álvaro Beleza afirma que a maioria dos países ou escolhe exportar o seu plasma ou o fracciona para depois ser transformado em derivados (como por exemplo os factores de coagulação VIII e IX, que são usados no tratamento dos hemofílicos). "Portugal paga 30 milhões de euros pela importação de derivados de plasma", diz, notando que o plasma pode ser uma fonte de receita que abate na despesa.
Por outro lado, se eu usei a minha isenção 4 vezes em 8 anos foi o muito. E 3 delas foi no ano passado porque tive uma infecção num dente que chegou ao limite do suportável a um sábado. Fui às urgências. Eu não vou ao médico, qualquer médico, sem que algo de grave me obrigue a ir lá. Amigos, eu tive gripe A e curei-a em casa, sozinho em Lisboa, com analgésicos, muitos e muitos líquidos e o meu sistema imunitário. Além disso, os dadores de sangue são pessoas normalmente saudáveis. Nós somos monitorizados a nível sanguíneo e de pressão arterial sempre que lá vamos. Por exemplo, uma das minhas dádivas que não contou porque as análises mostraram que havia algo mal com o meu fígado. Foi no ano passado e no despiste esse desvio da norma já tinha desaparecido. Em conversação com o médico, deduzimos os dois que foi um efeito secundário do antibiótico que tomei devido ao dente. Não dei tempo suficiente para o organismo retomar funcionamento normal antes de ir dar sangue. Eu nunca me lembro do meu pai estar internado ou mesmo de ter ido às urgências por ele próprio. Nós não éramos fonte de prejuízo, mas fomos fonte de lucro mal ou sub aproveitado pelo IPS, pelo SNS, pelos sucessivos governos portugueses. E já agora, se os dadores não derem o sangue isso não significa que o SNS não vá ter de o ter, só significa que o Estado Português deixará de ser exportador de sangue e passará a ter mais uma fonte de gasto passando a ser importador de sangue, como tantos países são, até alguns dos que se diriam mais avançados que nós.
3) Bem, não fosse a situação tão séria e houvesse vidas em jogo, a ironia desta pergunta seria de partir o caco. Quando um utente do SNS recebe uma transfusão de sangue, paga a taxa moderadora. PAGA o serviço e o sangue. O SNS VENDE SANGUE!!!! E esta isenção que os dadores tinham não se prendia com pagamento, prende-se com um simples raciocínio lógico. Primeiro, se eu dador precisar duma transfusão é justo que tenha de pagar por sangue que possivelmente eu dei?? É moral? É justo? Segundo, o que esta isenção diz e pratica é: mesmo que não tenha dinheiro, o dador de sangue será sempre tratado pelo SNS, entidade que o dador ajuda a manter e a ser sustentável, porque é do próprio interesse do SNS mantê-lo saudável e continuar a receber a sua contínua dádiva. Right?? Nada mais lógico, correcto, justo que isto!
Já agora, nos EUA (que em matéria de estado social não são exemplo para ninguém) as pessoas recebem dinheiro por cada dádiva de sangue. De facto, há pessoas que entre a dádiva de sangue e outra de esperma ou óvulos, a cada 3 meses sacam outro ordenado. Isto, segundo valores morais religiosos portugueses convencionais, poderá parecer-vos imoral. Eu vejo-o por aquilo que é. The american way of life, capitalism! Não me ofende, mas prefiro o sistema que tínhamos em que há uma relação de MUTUALISMO entre dadores e SNS. Nada mais moral que isto, até porque simplesmente nessa relação o vil metal não era transaccionado.
4) Não é um dever, nem obrigação, de cidadão. De facto, à parte das pessoas que por condição física não podem dar sangue (Anémicos, pessoas com doenças como SIDA ou hepatite, pessoas que pesem menos de 50 kg, hipertensos, etc…) a vasta maioria do nosso universo nacional de 10,5 milhões de pessoas não dá sangue. E uma pequena parte dos que davam antes desta alteração de regime, davam esporadicamente. Isto é, se fossem ter com eles ao local de trabalho, até davam. Se vissem a carrinha de recolha na rua e tivessem tempo, até davam. Já dadores como eu, como o meu pai, como muitos outros, doávamos regularmente. Do nosso próprio bolso e transporte, predispúnhamo-nos a ir ao hospital fazer a dádiva. Ou seja, durante oito anos contribuí para manter os bancos de sangue atestados, fazendo nenhum prejuízo ao SNS, mas tendo eu prejuízo pessoal porque o Estado não me atestava o carro. E mesmo assim, regularmente, ou o mais regularmente que me era possível, eu lá ia dar-lhes sangue com todo o gosto. Esta ideia da dádiva regular é importante, como demonstrarei posteriormente. É que para se ter aquela isenção, precisávamos de ter sempre, no espaço temporal de 12 meses, duas dádivas. Percebem a importância que o Estado, ao impor este mínimo de dádivas, dá à regularidade da dádiva?? É que sem essa regularidade, é impossível assegurar que os níveis de sangue disponíveis ao SNS se mantenham sustentáveis. Mas seja como for, dar sangue regularmente é ir mais longe que o mero dever do cidadão. Que isso fique bem claro, pois isso em si mesmo já merece a benesse acrescida da isenção face ao comum cidadão.
5) Coloquei esta pergunta e aqui lhe respondo porque parece haver muito essa ideia. Ou seja colocam o ónus da responsabilidade no dador, mesmo e especialmente pessoas que não são dadoras. Ma friends, mellon nîn (como diriam os elfos de Tolkien), viver em sociedade nada tem de altruísta. O altruísmo social é tão verdadeiro como a utopia comunista. Simplesmente não existe. Porquê? O que é o altruísmo social? É servir os outros sem esperar nada em troca. Mas isto é possível? Quando vocês ajudam alguém, não se sentem de imediato inundados por uma profunda sensação de bem-estar psicológico? É que, para o ser humano normal, sabe bem ser útil aos outros, ser prestável. Sabe ainda melhor, quando os outros nos agradecem essa prestação. Sabe ainda melhor quando noutra ocasião posterior alguém nos ajuda a nós. Nós fazemos as coisas motivados por essa sensação de bem-estar pessoal, de auto-realização, e porque esperamos (temos fé, atrever-me-ia a dizer) de que quando precisarmos alguém estará lá por nós ou por aqueles que amamos e/ou estimamos. Na pior das hipóteses, podemos fazer o bem, o que achamos estar certo, porque temos medo de ir parar ao Inferno. Ou seja, quando fazemos algo de bom, ganhamos sempre algo no processo, quanto mais não seja paz de espírito ou um positive boost no ego. Isto não é metafísico, é verificável experimentalmente. E isto é simplesmente ser humano e viver em sociedade. É esta visão egoísta? Não. Egoísmo é querermos tudo só para nós, é nem sequer pensarmos nos que nos rodeiam quando agimos, é só pensarmos em nós próprios… diria eu, como fazem os nossos vampiros!
Mas sabe pessimamente quando ajudamos alguém e percebemos que na verdade fomos mas é usados. A nossa boa natureza abusada por outro que não sabe viver em sociedade. Isso magoa o nosso ego. É a origem do sentimento de revolta face à injustiça. Ora, quando após anos de serviço, me negam uma benesse, que eu não uso com a mesma regularidade com que presto o serviço, apenas porque vem escrito no Evangelho da FMIta segundo Merkl e Sarkozy, via Troika, eu fico fulo da vida! Sinto-me explorado e raios me partam se não vou tomar uma atitude de resistência sobre esta governação baseada numa fé cega para com a alegada sapiência de pessoas que não conhecem a realidade do meu país! Possivelmente, nem a realidade da do deles.


Estão respondidas as perguntas que poderiam justificar a posição assumida por este governo vampiresco, que até do ponto de vista económico só sabe sugar, sugar, sugar! É este o seu mantra diabólico. Declaro-me assim antagónico a esta medida que considero, injusta, imoral, “associal”, desnecessária e perigosa para a nossa sociedade, uma vez que os dadores de sangue não estão aqui para ser abusados pelos demais e que há pessoas que precisam vitalmente da nossa colaboração. Como cidadãos e como minoria que somos, a nossa única forma de luta é reter a dádiva. Mas a responsabilidade de repor o sistema de recolhas de sangue de volta em pleno funcionamento não é dos dadores, é sim do governo, que para isso apenas terá de admitir o seu erro e retroceder. Ninguém espera que sejam infalíveis, meus senhores, mas seria bom para variar termos um governo que saiba quando errou e que admita outra via. Mas serão eles capazes? Ou serão eles demasiado dogmáticos para tal?
Bem, vejamos as notícias desde o início desta interrupção da relação IPS-dadores (este sanguinus interruptus, se quiserem!):

Os 3 primeiros artigos que coloquei nesta lista estão lá apenas para dar exemplo de quão profundamente mal direccionada e “às escuras” está a ser levada a cabo a dita reestruturação do SNS. Alguns daqueles artigos baseiam-se em estudos que o próprio governo encomendou.
O quarto artigo coloquei-o porque acho que os bombeiros têm razão. Assim como os polícias se poderão queixar do mesmo. Os militares não necessitam porque têm hospitais próprios. Se nós esperamos que estas pessoas nos mantenham seguros de fogos e criminosos, de terroristas ou que lutem as nossas guerras, não é então do nosso interesse que eles tenham a saúde assegurada? É claro que essas benesses não se devem estender a familiares, como já aconteceu no passado, mas aos agentes em si porque não?
As notícias seguintes dão início à nossa (dos dadores) luta social com uma petição e com o fim dos esforços das associações de dadores na recolha de sangue. Depois surgem as notícias a dizer que os níveis de sangue armazenados estão perigosamente baixos. O ministro da saúde, não querendo admitir o erro que mandou executar, diz que tudo está bem e que as alterações nas isenções não vão causar problemas. Contudo, depois vem o colega de governo, mas não de clube partidário, pedir que dêem sangue. “Tudo está óptimo, mas é melhor virem depressa, tá?” e lá foi ele na sua scooter “para inglês ver” dar sangue. Depois disso, os vampiros desesperaram mesmo, como é demonstrado pelo que fizeram a seguir. Foram à Igreja. Ah pois é! Esqueçam que eles não gostam do crucifixo, eles adoram-no, especialmente estando desesperados.
Finalmente, a 15 de Março o site do IPS deixa de mostrar informação sobre os níveis de sangue. Really!? That bad?? Estes senhores não querem admitir o seu erro, muito embora os apelos desesperados continuem. A minha mãe disse-me que viu no telejornal que eles até andam a mandar mensagens para os dadores a pedir que dêem sangue. Se restutuirem o Estado Social nem precisam de pedir. Mas eles darem o braço a torcer? 'Tá quieto! Estes senhores são um perigo para a nossa nação. Mas que mais podemos esperar de vampiros que nem Sol nem Cruz temem?
O mais engraçado é que depois de me terem negado a isenção por uma acção que eu fazia benéfica para o Estado Social, deram-me, SEM EU A PEDIR (ao contrário do milhão de pessoas que entupiu os centros de saúde de Norte a Sul do país), chegou-me por correio, uma carta (que aqui posto com as reservas óbvias de ter vindo com a merda do AO90) que me dá isenção de taxa moderadora até Setembro, presumo eu por falta de rendimentos. Ou seja, sendo que não estou em posição de contribuir mais em impostos tenho direito a essa isenção, mas por contribuir mais em sangue que o comum dos mortais, acção para a qual a minha saúde pessoal é indispensável, já não tenho direito. Isto faz sentido? Bem, não é esta peninha fictícia pelo pobre que me vai calar, especialmente quando são estes vampiros que andam a distribuir miséria como se não houvesse amanhã, enquanto engordam figurativamente nos seus poleiros dourados no topo desse Olimpo a que chamamos Assembleia da República! Aliás, alegarem Crise e Austeridade necessária foi a única maneira de irem para o governo. Quando estava lá o Sócrates, o Passos andava a gritar “Bancarrota! Bancarrota!” por toda a Europa. Se alguém agora o fizer, ele é o primeiro a dizer que isso é anti-patriótico! Double standard much?? Esta minha revolta não é egoísta, nem altruísta, por isso não me calam apenas por que sou pobre o suficiente para continuar isento! Eu quero que os dadores de sangue tenham a isenção, para regressarmos à relação de mutualismo que tínhamos com o SNS e assim assegurar uma peça vital da engrenagem desta maquinaria essencial ao estado social. Na verdade, estou a pensar tanto em mim como em todos nós, e só não vê isso quem quer ser cego.

Como estes versículos se querem satânicos, não posso deixar de abordar outro assunto. No outro dia, também no site do Público, estava eu a ler um qualquer artigo de cujo o assunto não me recordo, e li um comentário (gosto sempre de ler as opiniões dos meus conterrâneos) que dizia em desespero, e parafraseio:
“Direita?? Mas isto não é um governo de direita!!”. Eu retorqui a este comentário dizendo, não sem uma ponta de ironia que apenas para um apartidário como eu seria máxima: “Oh, eles são a Direita, meu amigo! Se calhar você é que não!”. Mas depois fiquei a matutar naquilo mais seriamente. E acho que o tal senhor tinha razão e contudo eu também! Deixem-me explicar.
Eles não são a direita que se esperava, pela qual se fazem passar, e na qual a maioria (não absoluta) votou. Eles não são a Social Democracia, basta olharem para qualquer país da Social Democracia Nórdica. Mas continuam a ser Direita, porque a política deles não podia estar mais longe da Esquerda, no espectro político. Então que bicho é este? É simples, é a Direita Católica. E de facto nesse ponto, e talvez apenas nesse, o CDS é (dos partidos que compõem o actual governo) o mais verdadeiro. Diga-se de passagem que não precisa de muito para o ser, mas pelo menos assume-se como Direita Católica… não está no armário, né Paulinho das Feiras?
“O que é que ele quer dizer com aquilo, pá?”
“Shiu, Cala-te, cala-te, deixa-me ouvir!”
Reparem como ministros do PSD, seguindo com Fé Cega (realço) o Evangelho (apocalítico) da FMIta segundo Merkl e Sarkozy via Troika, alienaram vastos sectores da nossa sociedade, sectores que contribuem mais que o comum dos cidadãos (dadores de sangue e bombeiros, por exemplo e continuidade) para a manutenção da mesma e depois foram literalmente pedir milagres aos padres, para que estes conduzissem o rebanho da missa para a recolha do sangue. Será que vão pedir nas missas também que as pessoas destreinadas vão combater os fogos infernais que flagelam o nosso belo país verde todos os anos? Fiem-se na Virgem e não corram, não!!
Mas falar assim da Direita Católica parecer-vos-á talvez como que um mesquinho sentimento anti-católico vindo de um confesso ateu. Nada a ver. Os padres e bispos portugueses bem que têm tentado levar estes vampiros para melhores rumos, mas nem a Santa Sé parece ter mão neles. Ainda assim, quem é a Direita Católica historicamente?
Bem, quem eles são agora são aqueles que vos dizem para temer o comunista debaixo da vossa cama! :D , uma vez que o Lenine e o Estaline eram monstros! De facto, assim é, o Lenine e o Estaline não interessavam a ninguém, nem (como diz o meu povo) “ao menino Jesus”. Péssimos exemplos de seres humanos. Contudo, vejamos que exemplos tem a Direita Católica a oferecer-nos. Comecemos pelo o mais próximo, o rapa-tachos em pessoa, esse amante da Austeridade inventor gracioso do termo Encarnado, o maior dos portugueses (assim votado num programa da RTP), António Salazar. Lembrem-se que o senhor fazia os meninos na escola rezarem pela sua alminha antes de começarem o dia escolar e que o fenómeno de Fátima foi gerado e aproveitado pelo Estado Novo ainda nos dias de governo deste ilustre. Teve uma coisa boa, salvou-nos do Acordo Ortográfico certa vez! Mas continuemos e visitemos nuestros hermanos e lembremos El Generalíssimo, o Franco. Saltando por cima de França, aterramos na Itália e temos o Mussolini. Em sua companhia e através dele, o Hitler assinou uma concordata com a Igreja Católica. Afinal, qualquer tipo disposto a perseguir e matar judeus e comunistas tem de ser bom, né? Não? A sério? Oh pá!! E parece não ser só jogada, pois até no Mein Kampf o ignóbil e neurótico 666 diz acreditar em Deus. Os tropas nazis tinham no seu cinto Gott Mit Uns (Deus do nosso lado). Pelos números fornecidos pelos registos da própria igreja Católica, 20% dos agentes da SS eram confessos católicos. Nenhum foi excomungado, apesar dos seus crimes desumanos contra a Humanidade. Mas o Ministro da Propaganda do Hitler, Joseph Goebbels foi. Sabem porquê? Ahahah, porque se casou com uma protestante!!! Até os católicos têm os seus standards! Ou seja o Anti-Cristo em pessoa era um representante da Direita Católica. E reparem que o Hitler até é bastante próximo da nossa actual Direita Católica, esta de que vos falo. Ele próprio era membro duma irmandade secreta de índole pagã, à lá Maçonaria, de onde tirou as ideias da Suástica (runa hindu que simbolizava apenas o movimento perpétuo do Universo muito antes de ser símbolo nazi) e as tolices arianas. O nosso governo está cheio de Maçons. De facto, o ministro de propaganda do nosso governo é um Maçon. Conseguem adivinhar a quem me refiro? Podemos excomungá-lo? Mas assim tipo pá Lua?? Reparem como este governo já começa a estender os tentáculos da supressão de informação e mesmo afectar outras áreas que precisam de livre expressão, exactamente como acusou o seu antecessor de fazer. Na lista de notícias acima dada, é mencionado o cancelar da contínua informação dos níveis de sangue em armazém. Aquando da última greve, o governo disse que não publicaria os números da greve no seu site. Depois veio a notícia de que afinal publicariam mas só no final do mês. O final do mês veio e foi-se e nunca mais. Na RTP, a que eu hoje de coração pesado chamo Relvas Televisão Portuguesa, até o programa “5 pra Meia Noite” foi tocado por esta versão dissimulada de lápis azul. O Nilton, no seguimento duma piada que volvia em saber a reacção de Portugal face à sua morte, colocou no ecrã imagens dos debates das últimas eleições. Vimos Gerónimo vs Louçã, vimos Portas vs Sócrates, todos os quatro fracamente gozados pelo Nilton, mas o Dear Leader Passos Coelho não vimos em nenhuma das imagens. Quando os comediantes têm medo de falar do líder, é para começarmos a levar a coisa a sério. E verdade seja dita, a piada era fraca e o gozo para com os políticos foi inofensivo. Mesmo que Passos Coelho lá aparecesse, não teria sido ofendido. Reparem ao que já chega o receio. Relembro também a polémica daquele programa de rádio que foi prontamente cancelado por defender em alto e bom som uma posição antagónica à posição deste governo perante Angola, salvo erro. Felizmente não parecem ter mais parecenças, mas já são semelhanças suficientes para me arrepiar todinho!
O mais engraçado é que estes gajos todos, e refiro-me a todos os ditadores do século passado, se aliam com a religião mais numerosa ou poderosa de que disponham na área que querem dominar, não sem antes gritar ou alegar necessitarem de poderes de emergência para fazer face a Crises. O Estaline tinha um acordo com a Igreja Ortodoxa Russa, que agora é o braço religioso de Putin e de facto recentemente têm criado e feito circular estatuetas de Estaline com um halo de santo na cabeça!!! O Sadam Hussein, por exemplo, que surgiu no partido socialista iraquiano, era um sunita. Na Coreia do Norte, o Great Leader é ainda o chefe de estado, embora tenha morrido já há alguns anos. Foi declarado líder eterno após a sua morte. Temos então aqui a primeira "Necrocracia" do mundo! O seu filho, o Dear Leader, é o chefe do partido e das forças armadas, apenas. Reparem como estão a um passo de uma Santa Trindade, o pai no Céu, o filho na Terra… Tão ridículo, mas faz sofrer e manter na escuridão do espírito e do corpo tanta gente inocente. Onde quero eu chegar com isto?
Para haver liberdade democrática, numa república democrática, tem obrigatoriamente de haver separação entre o Estado e a Religião. Dessa forma, como percebeu Thomas Jefferson quando escreveu (com outros) a 1ª emenda da constituição norte-americana, que assegura liberdade de religião, o estado não pode oferecer estatuto especial a nenhuma religião ou denominação, o que implica que também não há perseguições religiosas pelo Estado. Pois se não apoia nenhuma, não está contra nenhuma. É a única maneira de haver verdadeira liberdade religiosa ou espiritual.
Quando Thomas Jefferson estava a escrever as emendas, houve um grupo religioso, a Danbury Baptists Association, que eram uma minoria religiosa no Conneticut, que lhe escreveu uma carta onde revelava medo de perseguição por parte de outro e maior grupo religioso, pois achavam que os seus direitos religiosos não eram vistos como certos e imutáveis, mas antes como um direito concedido por legislação. Na sua resposta, Jefferson disse-lhes para estarem certos de que iria sempre existir uma parede/muro/muralha (wall) entre a igreja e o estado. Daí surgiu a noção que ainda hoje vinga na América, ainda que de forma imperfeita, que é a Separação entre o Estado e a Igreja. Igreja aqui deve ser entendido como Religião. Eu soube deste episódio através do que para mim era um dos mais intrépidos jornalistas dos nossos dias e também um campeão pelas Liberdades do Indivíduo, infelizmente vitimado por um cancro em Dezembro do ano passado. O seu nome era Christopher Hitchens, grande amigo do Salman Rushdie, e os Meus Versículos Satânicos não estariam completos sem citar o slogan criado e propagado pelo Hitch:

“Mr Jefferson, build up that wall!”


O Hitch, como humanista que era, muitas vezes falava em necessitarmos de conceber a Cidade Justa e de implementá-la. Uma nação onde as liberdades e os direitos eram absolutamente respeitados. Nessa Cidade eu estaria a favor do governo que a mantivesse e continuamente melhorasse. Mas enquanto os governos se portarem com este abandono, com esta irresponsabilidade, com esta falta de capacidade de ouvir, com esta fé cega em quem tem o dinheiro, com este contínuo abraçar de uma cultura que protege o corrupto e fomenta a corrupção, eu estarei, como diriam os Resistência na canção “Esta Cidade”, «…sempre do outro lado da luta!». Na verdade, sinto mesmo a necessidade daqui citar mais dos versos dessa música, se calhar compelido por um poder maior! Ahahah


“Quero eu queira, quero não queira
No meio desta liberdade
Filhos da Puta sem razão e sem sentido
No meio da rua nua, crua e bruta
Eu luto sempre do outro lado da Luta!”

Para terminar quero deixar um apelo às pessoas deste país, aos meus conterrâneos, meus concidadãos, independentemente de credo, género, cor política, estrato etário, etnia e classe social. Peço-vos que entendam a posição dos dadores que escolheram lutar por um Estado Social de maior Justiça! Mais que isso, peço-vos que se mobilizem em nosso socorro, porque nós temos estado cá por vós, e se vocês estiverem cá por nós nesta nossa hora negra, no futuro nós voltaremos a estar cá por vós! Até lá, o meu blog vai ter o pin da Associação Portuguesa de Dadores de Sangue de pernas ao ar (sinal internacional de socorro) na sua lapela, onde desde início tenho tido uma imagem composta por mim a que chamei Shinobi Moon (vidé imagem abaixo)! (se usasse fato, este seria o pin que usaria na lapela). Diga-se de passagem que coisas invertidas costumam ser, por católicos, tomadas como satânicas. Por exemplo, o crucifixo voltado ao contrário deixa de ser sinal de Cristo, para ser sinal do Diabo, que assim goza com ele... este é o lore dessa mitologia, não culpem o mensageiro! Aliás, sabiam que anjo descende directamente do termo homólogo em grego antigo que quer dizer simplesmente "mensageiro"?
Deixo-vos então, espero que com muito para pensar, e também com outra música a condizer e, infelizmente, tão apropriada com a época que atravessamos agora, que me serviu de inspiração primária para estes meus Versículos. Afinal, "quem canta seu mal espanta"!
Até à próxima, meus/minhas caro(a)s!



Post Scriptum (ponho por extenso para não haver confusões ;): perguntar-se-ão vós acaso porque raio eu me dou ao trabalho de escrever estas coisas? Será que vivo na ilusão que toda a Lusofonia com acesso à net me lê e que desse universo todo uma maioria siginificativa concordaria comigo? Não! Não tenho ilusões de conseguir mudar o mundo sozinho. Mas também não tenho feitio para ficar impávido enquanto estes acontecimentos acontecem no meu/nosso mundo sem pelo menos tornar pública e clara a minha posição sem medos de represálias, visto que hoje temos meios baratos e fáceis de o fazer. Diria mesmo, meios (por enquanto) altamente democratizados. Além disso, ao escrever as coisas que penso obtenho uma maior clareza nesses próprios pensamentos & se me contestarem as ideias terei a possibilidade de aprimorar um argumento que doutra forma poderá ser um erro perpétuo ou nunca atingir o seu potencial máximo. Acima de tudo, faço-o porque desta forma exorcizo os meus demónios internos, os meus medos, as minhas dúvidas… desta forma luto, desta forma pelo menos acrescento algo, desta forma penso e existo.
PPS: Acrescento só que embora por resistência estou a não dar sangue, contínuo registado e pronto a doar medula. Há uns 3 anos, lembrei-me de perguntar o que precisava de fazer para ser também dador de medula. Nunca ninguém mo tinha proposto. Não ganhei mais por isso que uma caneta e um cartão de dador, ambos que não pedi nem esperava. A minha única pena é haver tanta gente a precisar e nunca me terem chamado para dar. Essa dádiva não retenho. E a do sangue só retenho porque há gente muita parva neste mundo e precisamos de combater essa parvoíce com as poucas armas que possuímos, em prole dum melhor futuro.
PPPS: Por outro lado, se tornarem AMANHÃ o SNS gratuito para todos, de bom grado retornarei a dar sangue regularmente!
PPPPS: Just kidding, não tenho mais nada a acrescentar! Ahhaha Bye bye, 4 now! ;)