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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Atentemos ao Prólogo, ao eco de Abril

Eu disse no meu Facebook, na segunda semana de campanha, que “a bola está com o povo” e não errei. O povo português castigou os PaF, que mesmo assim tentaram disso fazer uma vitória. O povo português fortaleceu a CDU e o BE, não dando a maioria ao PS, forçando este último a, se quiser governar liderando, terá de fazer entendimentos à Esquerda.
O PS não tem maioria, nem sequer relativa. Mas o PS tem a maioria entre as forças da Esquerda (ou seja, pode liderar essas forças num entendimento de governo), e a Esquerda (unida jamais será vencida!?) tem a maioria absoluta no parlamento pós eleições legislativas de 2015.
Portanto, neste momento, em que CDU (onde eu votei) e BE estão alinhados nas questões macro-económicas (e, asseguro-vos, nenhuma destas forças políticas quer sair do Euro, nem no dia em que sejam empossadas como governo de coligação com o PS, nem dois anos depois, nem 4 anos depois – explicarei mais adiante porquê), em que os portugueses decidiram espalhar uma maioria absoluta por três partidos que se assumem como de Esquerda (como que a garantir que para eles governarem teriam de se entender), se surgir um bloqueio entre as forças de Esquerda, esse bloqueio é objectivamente gerado no PS. Se há 3 partidos e dois estão alinhados, se o terceiro não se abre ao diálogo real e sincero para tomarem conjuntamente as rédeas do país, ainda em profunda crise, para resolver essa crise com soluções de esquerda (visto que as de Direita falharam), então objectivamente esse terceiro partido não quer governar à Esquerda e, portanto, constitui o Bloqueio à Esquerda de que tanto se fala neste país e que se costuma atribuir ao PCP.
Completando este xeque (se me permitirem uma expressão do Xadrez), pois é em posição de xeque que o PS está actualmente, o próprio PCP apela ao PS para se juntar à Esquerda (e não há Direita), afirmando que o PS tem condições (ou seja, que há condições para se forjar um acordo entre os 3 partidos da esquerda no parlamento) para retirar da equação de governação a Direita e governar à Esquerda. O PCP afirmou que o PS só não é governo agora se não quiser e que o PaF só será governo se o PS deixar. O BE está em uníssono com o PCP nisto. Mas há mais…
Como é conhecido, o centro-esquerda convencional (a Internacional Socialista) está em vias de extinção como alternativa de governo. Repare-se que na Grécia, o PASOK desapareceu para níveis de votação próximos do KKP (o partido comunista grego, ~6% dos votos), sendo substituído pelo Syriza, que ocupou o centro esquerda grego de tal forma que já nem lhes chamam radicais. Os Trabalhistas no Reino Unido não conseguem retirar o poder aos Conservadores. Possivelmente o Podemos poderá roubar o eleitorado do PSOE em Espanha brevemente. E sabemos bem as dificuldades do monsieur Hollande em França (que embora no poder, pouco pode ou pode pouco) e está sempre baixo nas sondagens. Isto acontece por várias razões.
Historicamente, os Socialistas Europeus eram a alternativa à Esquerda para quem não queria votar nos Comunistas ligados à URSS. Mas o Muro caiu, o mundo mudou, e a maioria dos partidos comunistas mudando com o mundo acabaram por definhar. O PCP, que se manteve fiel a si mesmo, é dos poucos partidos comunistas com peso real na política do seu país. Mas agora que já não há União Soviética, qual é o papel dos Socialistas? Nesta perspectiva, os Socialistas tiveram de mudar necessariamente e o que fizeram foi ocupar o centro, assumindo políticas económicas de Direita num mundo onde, aparentemente, o Capitalismo venceu a Guerra Fria. Qual o problema disto? É simples. A casa ganha sempre! Se se vai jogar no terreno do outro, segundo as regras do outro, é normal que o outro nos ganhe o jogo. O erro dos Socialistas materializa-se no actual Tratado Orçamental, exclusivamente criado segundo pressupostos económico-financeiros do Centro Direita, que não permitem aos Socialistas (se estes o respeitarem à letra) executar políticas económicas de Esquerda e, dessa forma, não se conseguem apresentar como uma verdadeira alternativa às forças políticas do Centro Direita. Isto, em traços largos, explica o definhar dos Socialistas Europeus.
Se António Costa for realmente, como dizem e esperam muitos socialistas e simpatizantes do PS que nele votaram, um homem politicamente inteligente e que deseja governar o país, à Esquerda como afirmou em Campanha e como alternativa ao governo PaF, perceberá que a única forma de transformar esta derrota eleitoral numa vitória estrondosa é fazer cumprir a vontade da maioria absoluta em Portugal e criar um governo de coligação PS-BE-CDU, tornando-se Primeiro-Ministro legítimo de Portugal.
Só dessa forma, Costa poderá salvar não só a sua carreira política, como o próprio Partido Socialista da extinção.
A primeira parte da frase acima será fácil de perceber porquê. Costa só poderá converter esta derrota eleitoral do PS numa vitória, se se tornar primeiro-ministro apesar dessa derrota. E pode sê-lo, pois a CDU e o BE estão a isso abertos (e as condições que pedem, de que falo mais abaixo, são fáceis do PS satisfazer). E só convertendo uma derrota numa vitória, poderá Costa sobreviver como líder do PS. Reparem que se o PS se coligar à PaF, no máximo roubará o posto de Vice Primeiro-Ministro ao Portas, nunca poderá liderar essa solução de governo. Isto é claro e inequívoco. Mais, se Costa sair agora derrotado, a sua carreira política acabou. Portanto, por auto-preservação Costa tem de fazer o que Sócrates não teve coragem para fazer em 2011: unir a Esquerda em Portugal, quebrar o bloqueio à Esquerda e, dessa forma, governar. Esta é também a forma de Costa se descolar e distinguir do fantasma (político) de José Sócrates! É um dois em um.
Não era essa a força de Costa, ser bom a criar entendimentos?
A segunda parte da frase é igualmente lógica. Para o PS se manter um partido de Centro-Esquerda, não pode agora aliar-se a uma direita castigada nas eleições (pouco, na minha opinião, mas eficazmente) em mais de 700 mil votos.
Mais, em situação de ainda crise nacional (dívida altíssima e impagável nos moldes actuais, o desemprego altíssimo mesmo que usemos os números oficiais e sem que o emprego cresça, um défice descontrolado, um PIB retornado a níveis de 2001, com o Estado Social a ser privatizado e em risco de implosão, etc…), se o PS tem oportunidade de liderar uma maioria absoluta, pode mesmo escusar-se de o fazer perante o país apenas na esperança de causar uma crise política mais tarde e governar sozinho?? Não terá isso um pesado custo político?
O partido Socialista tem uma imagem a manter (e já dizia o Salazar da sua cadeira abaixo “Política é Perceptibilidade”) que não se pode dar ao luxo de perder: a imagem de um partido que assume responsabilidades de governo e que é responsável. Portanto, a sobrevivência política do PS depende, única e exclusivamente, da sua capacidade de tomar as rédeas do país agora. Se não o fizer, não se lembrarão disso os Portugueses daqui a dois anos? Não dirão “Esses xuxalistas só querem é tacho! Porque não governaram logo em 2015?” E não votarão esses portugueses então antes à esquerda no BE e na CDU, ou à direita no CDS e no PSD? Não perderá o PS a sua posição no espectro político nacional se lançar os dados de forma tão descuidada e abertamente interesseira? Eu acho que sim. Se o fizerem, condenar-se-ão à implosão, como o PASOK. E acreditem, o Bloco e a CDU estarão lá para capitalizar dessa implosão e facilmente se coligarão.
Concluindo então que, tanto António Costa, como o próprio PS, necessitam de forjar este governo maioritário de Esquerda para assegurar as suas respectivas sobrevivências políticas, analisemos as condições para esse acordo de Esquerda:
1ª - as sondagens que davam a vitória (relativa, na verdade empate técnico) ao PaF nas últimas eleições, invariavelmente demonstravam que, ainda assim, a maioria dos portugueses preferia um governo de coligação de Esquerda. Respeitando a vontade dessa maioria (absoluta) de portugueses, um tal governo de Esquerda teria, não só o apoio da maioria do povo, como também a concertação social facilitada visto conseguir dialogar facilmente tanto com UGT como com CGTP, por razões a todos óbvias. Mas mais que as sondagens, os votos dos portugueses são expressivos, e nisto tenho de agradecer o artigo do Daniel Oliveira no Expresso, que é esclarecedor. O PS não perdeu por virar à Esquerda, perdeu porque muitos votos do Centro fugiram-lhe para o BE e para a CDU que estão à esquerda do PS, visto que a coligação perdeu votos e o próprio PS teve mais votos face ao que teve nas eleições de 2011. Ou seja, todos os partidos de Esquerda cresceram face aos resultados de 2011, incluindo o PS, mas o PS não foi esquerda o suficiente para convencer a maioria desses eleitores que deixaram de votar PaF sem se absterem, e que acabaram maioritariamente por votar no Bloco de Esquerda. Isto para clarificar que o povo (a maioria, neste momento) quer Esquerda no Governo. Logo o PS está legitimado para liderar essa solução, por mais que isso desagrade a Cavaco, Passos e Portas et all ad noseum;
2ª - o PCP (no âmbito da CDU) aligeirou muito o seu discurso anti-euro, afirmando claramente duas coisas: devemos preparar a saída do Euro para termos um plano B quanto mais não seja para o caso de não termos outra escolha; mas, nessa matéria, como em todas o PCP (a CDU) respeitará a vontade dos portugueses. Desta forma, no ponto que talvez fosse mais difícil o entendimento, o PCP dá todo o espaço de manobra ao PS, não insistindo numa saída do Euro, apenas no estudo de como se fazer uma possível saída, que pode bem nunca vir a concretizar-se se o Euro (enquanto moeda) se aguentar. O BE há muito que tem uma posição aberta (podemos sair, podemos ficar) quanto ao Euro, portanto não levantará nisto objecções;
3ª - há toda uma série de políticas que ficaram por executar durante 4 anos que são comuns a toda a Esquerda Portuguesa. Obras estruturais para alavancar a economia (renovar linhas de caminhos de ferro, portos, estimular a pesca e a agricultura), a redução da carga fiscal nas famílias e na restauração, a questão da co-adopção (e raios, a adopção completa) por casais LGBT, a restituição do estatuto de isenção dos dadores de sangue para evitar a escassez deste elemento no SNS, resolver a questão do desperdício de plasma (de preferência lucrando disso o SNS, tornando-se mais sustentável, e não as Farmacêuticas), a restituição do anterior regime da IVG desfigurado pelo governo PaF, desfazer o mal que este governo fez na Educação e na Justiça (que se se tornarem mais ágeis, actuais e eficazes, ajudarão a estimular a economia portuguesa), fortalecer os direitos laborais, salvaguardar as pensões, etc... Estas serão as bases para um entendimento de governação. Dir-me-ão as vozes da Direita “E o Dinheiro vem de onde?”! Vem dos dinheiros comunitários (porque não sairemos da UE) & da libertação de verbas estatais do Serviço da Dívida (pagamento de juros) oriunda de uma renegociação da dívida. E claro da captação de investimento privado.
4ª - António Costa pediu ao PS um mandato para poder dialogar à sua Esquerda sobre a renegociação da dívida. Já falei disto, é algo não só natural mas (e reparem como posso usar os argumentos da Direita) NECESSÁRIO de fazer se queremos pagar a dívida e, dessa forma, recuperar algum do nosso nível de vida e soberania nacional. As empresas fazem renegociação das suas dívidas com toda a naturalidade quando chegam a situações bem menos más que aquelas em que o nosso país está. Não é um bicho de 7 cabeças. E podemos e devemos fazê-lo indo ao encontro da Troika, bem acompanhados dos nossos pares Irlandeses e Gregos, quiçá até Espanhóis e Franceses. Pode e deve começar uma mudança na Europa, que começa a mostrar perigosos sinais de se encaminhar cegamente para a auto-destruição. Podemos inverter esse rumo, mas só em grupo. Aprendamos com a Grécia, não podemos ir sozinhos enfrentar os credores;
5ª - e quanto ao Tratado Orçamental, o Hollande (um socialista europeu) já o congelou (como o PaF por cá fez a carreiras e pensões), por isso nós, não tendo necessariamente de o rasgar (mais uma vez espaço de manobra que BE e CDU dão ao PS), podemos simplesmente dizer que não vamos cumpri-lo durante 4 anos para nos reerguermos e podermos realmente ter condições de o cumprir, SE ASSIM DECIDIRMOS NO FUTURO.

Estão então reunidas as condições dum governo maioritário de Esquerda, com o PS à sua cabeça, coligado com BE e CDU, com uma maioria absoluta estável como o Cavaco quer/exige (embora não fosse esta que ele quisesse). Não só estão reunidas essas condições como é do interesse do PS e do seu actual líder, por questões óbvias de sobrevivência política, que tal governo se venha a fazer. Até João Soares, que na altura das Primárias era pelo Seguro(e percebe-se que os Seguristas são no PS actual a ala direita), afirmou que Costa tem de se coligar à Esquerda. Até Cavaco, implicitamente disse a Costa que coligar-se à Esquerda é a sua única saída, quando disse que esperava “que os partidos” (leia-se o PS) “ coloquem à frente dos seus interesses” (leia-se sobreviver politicamente) “os interesses de Portugal”. Acontece que, na sua habitual cegueira sectária, Cavaco Silva se esqueceu que prometeu ainda antes da campanha eleitoral que só empossaria um governo de MAIORIA ABSOLUTA (que a Esquerda pode e deve fazer). Ao mesmo tempo, os Portugueses ouviram Cavaco e deram essa maioria absoluta à União da Esquerda.
Qual é então a dúvida, senhor Costa? Tem a bola nos pés, quer marcar golo ou auto-golo?
Eu gostava que as redes sociais se incendiassem por esta outra via, democraticamente legitimada, fazendo notar-se o seu apoio a um governo de Esquerda, só para o caso dos votos não serem suficientes. Manifs perante a fachada da sede do Partido Socialista no Rato, em Lisboa, também seriam boa ideia. Vá lá, anonymous portugueses, apartidários, indignados, independentes, simpatizantes do PS, da CDU e do BE, saltem do sofá. Está na hora duma viragem verdadeira.
‘Bora lá resolver esta embrulhada e fazer valer o Prólogo da Constituição da República Portuguesa: toca a desengavetar o Socialismo e faça-se cumprir Abril, porra!

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Os Meus Versículos Satânicos - Ressurreição

Um recente post por parte do ilustre crítico de cinema britânico Mark Kermode, fez-me pensar sobre zombies.
Estive indeciso entre chamar a esta entrada “Os Meus Versículos Satânicos: Ressurreição”, ou em deixar os dois tópicos separados e optar por citar uma frase do filme Land of the Dead. Essa deixa pertence ao vilão da história, um político demagogo e ditatorial num mundo pós apocalíptico, encarnado por Dennis Hopper (aos 18 segundos):

Mas a estrutura deste post é tão parecida com a do "Os Meus Versículos Satânicos", post este que poderão encontrar de imediato simplesmente clicando com o cursor sobre a imagem da lapela do site (ver acima), que não resisti em torná-la numa adenda a esse post.
O que são afinal zombies? Mitos e lendas? Histórias de terror? Matéria para filmes passíveis de serem feitos com baixos orçamentos e pequeníssimos guiões? Metáfora social mascarada de filme de terror? Ou, como muitas vezes surge na escolha múltipla, todas as respostas anteriores?
Procuremos, como talvez diriam uns quantos de gatos fedorentos, esmiuçar o assunto.
Começo por apresentar-vos o post do Dr Kay, que me meteu a pensar nisto:

Portanto, será seguro, tendo em conta a lógica deste videoblog, assumirmos que um zombie pode ser, e é, usado como metáfora para crítica social. Mas quais as suas origens?
No cinema, são apenas mais um monstro, como o vampiro, o lobisomem, e outros que tais. Criaturas que começam por ser meros humanos, com tu ou eu, mas que ao receberem uma mordidela ficam infectados com um mal, tradicionalmente sobrenatural mas recentemente virulento e pseudo-científico, que os consome e os transforma numa criatura pérfida e/ou psicologicamente desumana, que existe apenas para saciar necessidades primais. Mas será que os zombies também existem no mundo real?
Bem, convenhamos que por enquanto ainda ninguém congeminou um T-virus e esperemos que assim se mantenha. E não há maldição que nos transforme em tal besta ou se há o seu segredo foi bem escondido. Talvez, como postula George R R Martin, a magia só exista quando existem dragões vivos. Têm visto algum?? oO
Contudo, o zombie tem, como o próprio vampiro, um fundo histórico e verdadeiro. Pois tal como é dado histórico que Vlad Tepes (pronunciado tzé-pesh e querendo dizer “empalador”), bebia o sangue dos seus inimigos, é facto histórico que zombies andaram pela Terra, não por meio duma estranha virose ou maldição capaz de nos dar uma espécie muito desagradável de morte para além da vida, mas antes por uma antiga e estranha prática exercida ao mais alto nível nos meandros daquele aglomerado de superstições e crenças a que chamamos Voodoo. Nos países em que os sacerdotes voodoo controlam as mentes das pessoas pelo medo, o castigo mais alto, mais temido, é o de te tornarem num zombie. Reparem que aquelas pessoas não têm medo dos zombies em si, têm medo é que venham a ser transformados num zombie elas próprias. Estes zombies reais nunca morrem e voltam à vida, mas isso é contudo o que os crentes no Voodoo acreditam, pois o ritual leva os sacerdotes a administrarem uma certa poção, tida como mágica, feita com algumas toxinas naturais, uma tirada do peixe balão por exemplo, que deixam o condenado num estado quasi-catatónico, aparentando a morte. Ele fica incapaz de se mexer, o ritmo cardíaco baixa consideravelmente, a respiração é mínima ou inexistente, enfim o suficiente para ao primeiro e descuidado exame parecer morto. Depois, “como manda a lei”, enterram-no enquanto nesse estado. Durante a sua “morte”, o condenado sofre privação de ar no cérebro, cujo efeito é, não querendo ofender o Egas Moniz (um dos nossos poucos prémios Nobel), em tudo parecido com o duma lobotomia. Basicamente, quando o condenado é desenterrado e os sacerdotes o reanimam, ele “ressuscita” um zombie: uma pessoa sem vontade própria… o perfeito escravo. Não pensa de forma crítica ou mesmo auto-servente, não raciocina, não sente, é influenciado por qualquer pessoa que passe por ele na rua. Não tem autonomia. Eu também temeria ser transformado num zombie se vivesse num país com essa religião. É claro que este castigo, este intolerável crime contra a humanidade, é reservado para os que ousam contrariar os desígnios dos sacerdotes do Voodoo. Os criminosos a sério, que praticam todos os crimes que não esse “crime sem vítima” que é a Blasfémia, são deixados às autoridades normais. Por comparação, os outros líderes religiosos são uns meninos, uns “copinhos de leite”.
Há a possibilidade de isto ainda existir nos dias de hoje, em sítios como o Haiti ou a Jamaica, muito embora possa ser oficial e legalmente criminalizado. A primeira vez que me deparei com esta realidade foi através dum documentário que não acabei de ver, onde um actor vai falar com os representantes dum sacerdote Voodoo e lhes encomenda um zombie. Chega-se mesmo a falar de raptar uma pessoa para a “zombificar”. O actor escolhido foi o que encarnava o Mr Giles na série “Buffy, a Caçadora de Vampiros”, e a certa altura ele vira-se para a câmara e diz mesmo que não acredita que estão mesmo a discutir aquele assunto como se mais não fosse que um mero negócio do quotidiano.
Este é o retrato do zombie histórico, do zombie original, da fonte do mito. E não, ele não é perigoso por si mesmo. Qualquer pessoa o pode mandar matar-se e ele provavelmente vai, desde que o seu cérebro retenha a capacidade para perceber o que lhe é dito.
Nos dias de hoje, a palavra pode também ser usada para definir um tipo de atitude desumana levada a cabo por humanos, crédulos nas fantasias que outros lhes “venderam”. Passo a citar e traduzir Christopher Hitchens, na introdução do seu livro “Arguably”, uma colectânea de artigos que escreveu:
“Especialmente no decurso dos últimos dez anos, a palavra «mártir» tem sido completamente degradada pela imagem lupina de Mohamed Atta: um zombie frio e sem vida – um assassino suicida – que levou com ele tantos inocentes quantos conseguiu. As organizações que encontram e treinam homens como Atta foram desde então responsabilizadas por crimes inomináveis em muitos países e sociedades, desde a Inglaterra ao Iraque, na sua tentativa de criar um sistema onde o zombie frio e sem vida fosse a norma e a cultura estivesse morta. Eles clamam que irão vencer pois amam mais a morte que a vida, e porque os amantes da vida são fracos e degenerados. Praticamente todas as palavras que escrevi desde 2001, têm sido explícita ou implicitamente dedicadas a refutar e a derrotar aquelas odiosas e niilistas proposições, e todos aqueles entre nós que as tentam explicar.” Fim de citação. Assim, o zombie é passível de ser transformado numa poderosa ferramenta do mal, pois está sempre apto a seguir as ideias de outros, sem as considerar de forma crítica ou moral.
Ao preparar-me para aqui trazer este tópico, procurei, para fazer a ligação à essência geral do N.I.N.J.A. Samurai, pela forma japonesa da palavra zombie. Descobri que é muito simplesmente Zombi, embora exista também um termo japonês que indica “um morto-vivo ou um morto reanimado” e que é Kyonshi. Na busca por esta curiosidade linguística, encontrei por acaso outra definição para zombie, desta volta sendo a palavra utilizada na gíria ou no jargão técnico da Economia. Isto para mim foi ouro sobre azul. Encontrei vários links para posts de opinião e também para um artigo de ciência económica, que parecem afirmar e contra-argumentar sobre se o Japão é um país zombie ou não. “Oh Diabo!”, pensei eu de imediato “Então mas já destruíram os 7 selos? Já soou a trombeta do Gabriel? Já rasgaram os céus as montadas aladas dos cavaleiros do apocalipse? Ter-se-ão as águas do Pacífico metamorfoseado em sangue? E os céus do país do Sol Nascente terão entrado em combustão? Será que os mortos andam animados pelo Japão, como acontece na Cuba do filme Juan of the Dead? Que pasa?” Na verdade, não é tão fantasioso mas sim bem mais real. O termo é usado para definir empresas e/ou corporações, que sobrevivem apenas através de crédito, sem o qual ruiriam. Essas empresas estão constantemente a sangrar os bancos, que por pressão política (pressões no sentido de emprestarem mais dinheiro às PME’s para poder estimular crescimento económico) e mesmo popular (a perceptibilidade de que se os bancos recusam dinheiro às empresas necessitadas a economia não avança) continuam a financiá-las com juros de empréstimos que não acompanham o risco dos créditos a que estão agregados e como tal não servem de dissuasor a esse mesmo crédito nem trazem lucros aos bancos. Esta prática é tida como tendo um efeito nefasto na economia do Japão (ou assim alega o documento), sendo que o fenómeno foi de facto primeiro detectado por académicos japoneses, num artigo científico de Hoshi. Segundo o artigo, o efeito é castrador. A economia não cresce, estagna. Vou citar e traduzir só uma pequena parte do artigo cujo link vos deixarei se quiserem pesquisar mais aprofundadamente:
“Mantendo estes devedores que não dão lucro (a que chamamos zombies) vivos, os bancos permitem-lhes distorcer a competição por toda a restante economia. As distorções dos zombies surgem em várias formas, incluindo a depressão dos preços de mercado dos seus produtos, o aumento dos salários do mercado mantendo os trabalhadores cuja produtividade nas actuais firmas declinou, e, de forma mais geral, congestionando os mercados nos quais participam. Efectivamente, a crescente obrigação financeira do governo proveniente de garantir os depósitos dos bancos que suportam os zombies serve como uma muito ineficiente política de combate ao desemprego. Assim, o normal desfecho competitivo no qual os zombies despediriam os empregados e sofreriam desvalorização das acções é evitado. Mais importante, os baixos preços e altos salários reduzem os lucros e colaterais que firmas novas e mais produtivas poderiam gerar, desencorajando dessa forma a sua entrada e investimento. Assim sendo, até bancos solventes não viram boas oportunidades de empréstimo no Japão.” Fim de Citação. [Link: http://economics.mit.edu/files/3770]
Mais alguns links sobre este assunto:
Eu não sei se concordo com o artigo citado tendo em conta que, não sendo especialista em economia, mas assumindo a premissa de que a economia japonesa estagnou, tenho que me perguntar se isso é bom ou mau, ao contrário de automaticamente presumir que é mau. O facto é que sacrificando-se maiores lucros, atingiu-se um equilíbrio (uma vez que o Japão era até recentemente e salvo erro a 4ª maior economia a nível mundial) que permite aos japoneses combater o desemprego, terem altos salários e produtos a baixos preços, o que a ser verdade implica grande poder de compra e contínua circulação do capital. Quem me dera isso em Portugal e com os mesmos resultados! Contudo, o que temos em Portugal é um BPN a sugar o Estado para proveito de ninguém e para flagelo duma população cada vez mais desempregada, cada vez com menos poder de compra e uma sociedade com cada vez menos circulação de capitais, sempre a endividar-se cada vez mais para com aqueles a que chamamos de amigos. O meu pai sempre me ensinou: “Queres perder um amigo? Pede-lhe dinheiro emprestado.” Vidé Grécia! Por isso, acho que concluo que ter zombies económicos talvez não seja assim tão mau, se assumirmos a perspectiva de criar uma economia rica para muitos, mas não centralizada no lucro de poucos. Provavelmente não poderá é durar? Ou poderá? A ver vamos… De qualquer forma, cada vez mais sabemos que vivemos num mundo finito, com recursos a serem usados demasiado depressa e sem ser ao serviço do bem da Humanidade, mas antes para dar lucros ao 1%. Pois não há famintos por todo o mundo e infelizmente até mesmo em Portugal, que se diz de primeiro mundo? O consumismo e a filosofia do lucro ser riqueza são parte do que coloca em risco o futuro da Humanidade. E se os recursos são finitos, não devemos nós usá-los de forma mais sóbria do que para alimentar e fazer crescer a "máquina fazedora de lucros"? Mais uma vez corremos o risco de nos destruirmos a nós mesmos e mais uma vez por algo que é apenas conceptual e criado por mentes humanas para ganhar poder sobre outras mentes humanas. Pensem nisso.

Temos então 4 definições actuais de zombie:
1) o cinematográfico;
2) o histórico;
3) o mártir terrorista;
4) o económico.
Mas eu aventurar-me-ia a aproveitar as definições de zombie para gerar uma metáfora para um quinto tipo de zombie: o Zombie Social.
Vastos segmentos da população mundial são de facto zombies, pessoas que vivem sob a influência dos outros, dos media, dos lobbies, incapazes de pensar por si mesmas, de sentir solidariedade pelo seu congénere. Pessoas cujo único objectivo é o consumismo e/ou a satisfação das suas próprias e necessidades básicas, que não se preocupam com o que é decidido por eles pelos seus governantes ou mesmo que outras pessoas decidam quem são os seus governantes sem que eles contribuam nessa decisão. Vivem eternamente “ao sabor do vento que prevaleça”. A sua mantra colectiva incluiu tais ditados como “Se não os podes vencer, junta-te a eles.”, “A ignorância é uma bênção.” e “Ah, sempre foi assim e sempre há-de ser!”.
São aquelas massas silenciosas que esperam ser libertadas do cativeiro duma ditadura, mas que não estão dispostas a arriscar a própria vida nessa causa, por exemplo. São pessoas inundadas de apatia social, incapazes de criar o seu próprio estilo, mortinhas (full pun intended) por ingressar num grupo que as defina ou de usar as roupas que vêem outros usar na televisão, ávidos seguidores das modas que lhes impõem. Na sua maioria optam por ser neutrais a quaisquer discussões que estejam a acontecer na sua sociedade. Exempli gratia, o caso do acordo ortográfico na nossa sociedade. Já saberão que sou contra o AO90, mas que respeito, embora discorde, com a posição contrária. Os zombies são aqueles para quem pura e simplesmente o assunto não interessa, como se nada fosse com eles. Que se estão marimbando para o facto da sua identidade cultural e daquela que os seus filhos e netos, se os tiverem, irão herdar, estar a ser decidida no presente.
O zombie social é o auge do servo ao Poder, mesmo numa sociedade que respeite os direitos básicos duma democracia. É aquele que segue de olhos fechados, desde que se possa alimentar pelo caminho. E dessa forma coloca em risco a própria estrutura de um estado democrático e laico, pela mera falta de interesse, pela mera inacção, pela falta de opinião, por nada contribuir ao nível intelectual para nação. Quantas vezes não ouvi eu já “A abstenção é enorme.” na cobertura noticiosa de eleições, antes e depois de eu ter idade para votar?
O zombie social, que está no centro dos problemas das sociedades actuais, serve de marioneta dos, ou como a desculpa usada pelos, vampiros (políticos) que usam os seus cargos em proveito próprio ao invés de servirem a nação. Ou pior ainda, quando os comentadores políticos (cujo o nível de parasitismo igualo àqueles peixes que acompanham os tubarões e subsistem a comer os micróbios e parasitas das peles dos tubarões, mas sem sequer terem essa purificadora qualidade que poderia trazer alguma redenção à sua existência) dizem que os portugueses merecem os líderes que têm pois não se interessam pelos problemas da nação. E o problema é que é verdade, há muitos que não se interessam… há muito zombie por aí. Ainda recentemente li uma entrevista do Boss AC onde este dizia, e parafraseio, “O que mais me chateia é a apatia do povo português!”. Agrada-me o pensamento, se bem que há algo que me chateia ainda mais. As pessoas que não têm solidariedade para com as outras. Concretizando, aquelas pessoas que quando vêem alguém fazer greve e essa greve não lhes diz respeito nem as afecta, ignoram-na, talvez ainda pensando “Que cambada de idiotas”. Mas que quando essa greve impede a sua vidinha quotidiana, como por exemplo não ter autocarro para ir para o trabalho (necessidade básica), a pessoa não-solidária fica toda chateadinha e não só não tem essa solidariedade social para com o grevista ou manifestante, ajudando-o a conseguir uma qualquer reivindicação ou pelo menos respeitando o direito deste último de o fazer, que ainda usa todo e qualquer argumento para dizer que essa pessoa que exerce o seu direito democrático de lutar pelos seus direitos é um crápula e um vilão. Morde então na casaca daqueles que provavelmente também lutarão por ele, quando o patrão o despedir daí a uns tempos. Zombie! No seguimento, é interessante também analisar que nos países mais evoluídos do mundo, ou pelo menos assim tidos como, os da Social Democracia Nórdica, têm 60% de trabalhadores sindicalizados e níveis de desemprego abaixo dos 7%. Não admira que lá haja menos corrupção, se os políticos lá se portarem como os nossos se portam cá, descobrem que o poder está mesmo nas ruas, pois está organizado e funciona. Por cá temos 30% de trabalhadores sindicalizados, e uma grande parte destes últimos ou dessas organizações sindicais está sempre disposta a aceder às propostas do 1% governante, abandonando o protesto e fazendo uma tímida paz social, a que cobardemente chamam tréguas para parecer que ainda não se renderam.
Por outro lado, vivo num país, igual a tantos outros, onde não se gera riqueza mas sim ricos. Onde os poderosos se ajudam uns aos outros a sugar a vida dos numerosos mais fracos. http://www.publico.pt/Pol%C3%ADtica/combate-a-corrupcao-em-portugal-esta-abaixo-do-normal-e-ha-leis-viciadas-a-partida-1544831 Onde essa corrupção intrínseca dos mais altos níveis de governo já não é nem criticada nem combatida, excepto na retórica uber inflamada mas de todo vazia dos próprios hipócritas que a suportam e criaram, mas até é tida pelos zombies como expectável… “sempre assim foi e sempre há-de ser”, lembram-se? É esta permissividade dos zombies perante a corrupção que dá poder aos Vampiros, esta falta de energia para qualquer tipo de resistência ao que está errado. E por isso mesmo o Zombie social, como o seu primo da 7ª arte, só é problemático quando em grandes números… fossem eles uma minoria e a coisa seria diferente. Mas não, são uma horda de mortos vivos, ou uma manada (como lhes chamaram na banda desenhada homóloga que originou a série televisiva “The Walking Dead”), o que é engraçado uma vez que a própria Igreja Católica chama aos seus fiéis rebanho e aos seus sacerdotes pastores.
Não admira então que os Vampiros sejam mais audazes em terras lusas inundadas de Sol do que nas latitudes onde durante 6 meses é noite! Gaita, eles cá até oram ao Grande Arquitecto! Onde o Zombie é numeroso, o Vampiro reina supremo. Logo, podemos concluir que o zombie é o perfeito escravo do, e não um problema para o, vampiro. E que ambos são maldições sociais para os Vivos.
Mas hey, aqui este ateu permite-se a ter fé na Humanidade a que pertence. Não uma fé cega, mas baseada precisamente nesses exemplos existentes de como podemos ser melhores. Na noção de que podemos, devemos, temos de exigir mais e melhor tanto de nós mesmos como dos nossos governantes.
Sempre houve os que resistem, os que lutam, e alegra-me ver que tanto em Portugal, como no Mundo, o número desses cresce. Antes que atirem a primeira pedra, aviso já que não me refiro ao crescimento do número de ateus, mas sim ao número de cidadãos, trabalhadores e desempregados, jovens e velhos, de todos os credos e cores políticas (ou sem cor política nem credo), de ambos os sexos e das várias orientações sexuais, e de qualquer etnia, que saem às ruas para manifestar o seu desagrado, que assumem posições e as defendem em debate racional, que criticam e objectam de forma visível e audível contra o que acham estar mal, que lutam para manterem direitos que outros conquistaram para eles em tempos idos, que se organizam e usam a tecnologia e sem dúvida a solidariedade civil para gerar movimentos sociais com o objectivo de obter maior justiça social, e que o fazem pela via pacífica e democrática enquanto para isso tiverem liberdade. E, junto a estes, aqueles que vivem em lugares onde lhes são negadas tais liberdades, mas que lutam por elas arriscando até a sua própria vida. Esses, espalhados por todo o mundo, que falam nas mais diversas línguas, são todos eles o meu povo, a humanidade que não só sobrevive mas que procura viver. Pertenço aos Vivos e não aos Zombies, que já morreram por dentro só que ainda ninguém lhes disse nem eles se aperceberam. Eu pertenço àqueles que dizem “eu estou cá para servir o próximo”, mas que se questionam, não sem ironia, como questionou alguém cujo nome agora não recordo, “mas para que raio está o próximo cá?” ahahaha
Nos últimos tempos, muitos cidadãos portugueses externos a partidos políticos, começaram a organizar-se espontaneamente para procurarem influenciar activamente a política em Portugal, cansados que estão de estar entregues a sanguessugas. A Geração À Rasca entrou em movimento. Uma geração da era da tecnologia e da informação, mais bem formada academicamente que qualquer geração que a precedeu, procura agora através do protesto, de petições, de iniciativas de cidadãos, melhorar o país. Por outro lado, existe o movimento dos hacktivistas, entre os quais destaco os Anonymous Portugal, que funcionam em conjunto com os Anonymous espalhados pelo mundo e que recentemente pregaram uma partida ao site do partido do governo. O seu anonimato permite-lhes levar o seu protesto um pouco mais além, mas ainda assim fazem-no pela via pacífica e por isso merecem respeito. E nota-se que os Vampiros já começaram a tremer, porque os números dos Vivos começam a crescer e os números dos Zombies a diminuir!
Recentemente vi um vídeo no Facebook, partilhado por uma amiga minha, que tenho agora de partilhar convosco. É um manual sobre como estupidificar, quiçá zombificar, uma nação. Deixo-o aqui ao vosso critério:

Relembro-vos só uma frase do senhor Franklin, aquando da construção de um estado democrático a que hoje chamamos USA: "A republic if you can keep it!".
Numa nota pessoal, já que o site é meu e tal, ainda não há pouco tempo, um dos meus melhores amigos e eu entrámos em debate, porque ele achou que eu criticava demasiado o governo. Achava ainda que me preocupava demais com coisas que não podia controlar. “Carpe diem”, disse-me ele a certa altura “foste tu que me ensinaste isso.” Eu fingi-me de parvo e disse “Não percebo a ligação.”, procurando que ele elaborasse não querendo presumir nada. E ele disse que o que queria era que os seus estivessem bem, que queria era ver o mundo e poder divertir-se e que o resto se lixasse e, aparentemente, queria que eu pensasse da mesma forma. Eu disse-lhe simplesmente que para mim o poder criticar o que considero mal numa sociedade, o poder debater todo e qualquer assunto, por vezes até reconhecendo mérito no argumento da posição que me é contrária ou mesmo aceitando que estava errado e dar razão a essa mesma posição, não é para mim um fardo mas sim uma alegria. Reconheço que sou um privilegiado, que nunca viveu sob o jugo de uma ditadura de qualquer tipo, sendo que até me foi permitido escolher qual fé, se alguma, eu seguiria quando fosse adulto. Mas esse reconhecimento dá-me ganas de me bater pelos meus direitos, ou ajudar outros a fazer o mesmo pelos seus quando posso, ou mesmo entrar em debate nestes assuntos que, sem dúvida, não posso sozinho resolver ou mesmo influenciar e ainda bem (ninguém deve ter tamanho poder). Tudo isso faz para mim parte dessa majestosa filosofia de aproveitar o momento, de viver em pleno, de viver a vida consciente e acordado, e não passá-la a dormir esperando uma fátua recompensa no Além ou simplesmente imerso em prazeres que adormeçam os sentidos para não sentir dor ou para ignorar o sofrimento que afecta tantos dos meus congéneres.
O que eu posso fazer, faço, e sem que seja necessário que me paguem para isso. Não é altruísta, mas sim na esperança que outro, um dia que eu precise, esteja lá também por mim. Essa é a essência de uma sociedade. Voto, assino as petições que com as quais concordo, participo de protestos e manifestações que ache pertinentes e, por exemplo, escrevo este blog sem assumir que alguém me lê, mas para que quem o queira fazer, que tenha net, saiba ler português, e tenha interesse nos assuntos que trato, o possa fazer. De facto, até a Google mudar os mecanismos internos do Blospot, que agora dão estatísticas sobre quantas pessoas nos lêem e de onde surge actividade online no nosso blog pelo globo terrestre, eu não fazia a mínima ideia de que mais alguém me lia além dos meus dois seguidores. Gostei de descobrir, admito, que tenho uma modesta mas continuada audiência espalhada por todo o mundo, acreditando nas estatísticas da Google, claro. Considerando que no Facebook (meu único meio de partilhar os posts) só tenho 88 pessoas adicionadas, fiquei alegremente espantado. Mas isso não me estimula nem mais nem menos a escrever, é apenas um bónus, uma alegria.
Eu convido o debate e a que me contrariem pois só assim posso eu evoluir também. É por isso que me orgulho de dizer que os meus amigos, poucos mas bons, são pessoas que têm sempre algo a ensinar-me, que têm visões de mundo diferentes da minhas e com quem posso partilhar não só copos e noitadas, mas especialmente debates políticos, filosóficos, problemas da vida quotidiana, nunca me preocupando se eles concordam comigo ou não (pois duma forma ou doutra, sei que estão lá) e sempre aberto a verdadeiramente escutar e analisar os argumentos e raciocínios deles. Orgulho-me ainda de dizer que ao longo dos tempos, mudei as minhas ideias espero que para melhor, com base em demonstrações científicas ou lógicas que superaram as mantinha anteriormente. De facto, agora que penso nisso, as pessoas que me atraem são as diferentes de mim, as que detêm outros saberes, mas que sabem expô-los de forma racional e lógica, e que estão abertos ao debate e a aprender com esse debate.
Mas sou apenas humano e confesso que nutri alegria do facto de ter descoberto recentemente tantas pessoas contra o AO90, quando eu pensava, até à mudança no CCB, que já não havia mais ninguém que se importasse como eu me importo e que quisesse lutar. Até a mim, que procuro sempre ler nas entrelinhas, os Mass Media portugueses afectaram negativamente. Não podemos baixar a guarda com estes gajos…
Outra coisa que me trouxe alegria foi o facto de os ateus estarem a crescer em número pelo mundo, provavelmente porque durante muito tempo via amigos e colegas meus na catequese, em baptizados ou a terem Religião e Moral na escola (os meus pais perguntaram-me se eu queria ter, eu disse que não), e achava-me a mim mesmo uma Ave Rara. Felizmente há mais como eu, só que nós não sentimos a necessidade de nos agregarmos para reforçar fés que testam toda a lógica.
É humano sentir a necessidade de pertencer ou pelo menos de não estarmos sozinhos na nossa visão de mundo, mas é preciso ter a coragem e talvez o estoicismo para fazer o que achamos certo mesmo quando todo o mundo parece estar contra nós, ou que simplesmente somos os únicos a pensar dessa forma, porque sem isso perdemos a Humanidade, a individualidade, e tornamo-nos em apenas mais um Zombie numa manada desmiolada e facilmente guiada pelos interesses maquiavélicos de alguns, eternamente vagueando em busca da próxima dentada.
Antes de terminar, só duas curiosidades:
Uma outra curiosidade de zombies no Japão é a torre da mina de carvão Shime, na Prefeitura de Fukuoka. A mina já não funciona desde 1964, contudo ficou recentemente conhecida na Internet como a estrutura anti-zombies preferida dos cibernautas. O governo japonês considera o local e a estrutura um monumento, mas um mero post no site Reddit, onde se partilham imagens e comentários, no qual se elaborava sobre as qualidades de abrigo anti-zombie que o edifício tem, foi o que lhe granjeou fama online. Seria interessante gravar lá um filme de zombies. Fica a ideia.


A segunda curiosidade é a curta-metragem portuguesa “I’ll see you in my dreams”, que é até à data o único filme de zombies português. Conta com participações de São José Correia (que já foi minha vizinha :), Sofia Aparício, João Didelet e Rui Unas, entre outros, tendo sido realizada por Miguel Ángel Vivas, e escrita por este último e por Filipe Melo. Deixo-vos o trailer, creio que o DVD ainda está à venda:

Não digresso mais. Termino com a música Zombie dos The Cranberries, que é, se prestarem atenção, ainda outro uso desta palavra para criticar uma determinada atitude humana… ou desumana neste caso:

Alex, signing off, hoping for a better tomorrow, where the living can live and not only survive, and the dead don’t bother them @ all!



quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

OCdS: Espírito de Guerreiro



“Nunca negligenciar o Espírito Combativo”


É este o título da secção do Código do Samurai que abordo aqui hoje. O livro dá exemplos da sua época, uma época medieval, em que imperava a lei da espada. Fala-nos do carácter guerreiro do Japão, dizendo que até os membros das castas mais baixas (segunda a perspectiva japonesa da época) os agricultores, artesãos e comerciantes, gostavam de possuir uma espada. Indica que o samurai, mesmo e/ou especialmente em tempos de paz, nunca se deve separar das suas espadas. De facto, afirma até que o melhor dos samurais faz-se acompanhar duma espada sem gume ou de madeira até quando toma banho. Aconselha, por intermédio dum ditado, que se agimos assim em casa, devemos duplamente fazê-lo ao sair da segurança desta, pois “no caminho pode sair algum ébrio ou insensato que eventualmente ocasione um confronto inesperado”:
“Há um velho ditado: «Quando sais pela tua porta, age como se estivesse à vista um inimigo.»”
Diz por último que se o Samurai de espada à cinta mantiver presente a noção da morte sempre à espreita (algo que já abordámos em posts posteriores), então manterá o espírito combativo. Mas aquele que assim não agir/pensar, mesmo que armado, não passará dum mero agricultor ou comerciante mascarado de guerreiro.
Como é que estes conselhos se adaptam aos nossos tempos? Infelizmente, com demasiada facilidade. Hoje vivemos num mundo muito diferente do dos Samurais e contudo potencialmente tão ou mais perigoso que o deles. É óbvio que não sugiro que andemos armados, seja de espadas, seja com outras armas. Ainda não chegámos a esse ponto, pelo menos em Portugal. Contudo, com o Desemprego a subir em flecha, o desespero das pessoas a chegar ao limite, o poder de compra drasticamente diminuído, o elemento criminoso vai crescer em número e a sua actividade vai drasticamente aumentar. Já se vêem os primeiros sinais. Houve recentemente uma notícia de um assaltante armado que matou a tiro um homem, enquanto assaltava um casal. A vítima, provavelmente sem saber que o outro estava armado, tentou impedi-lo de levar a mala da esposa e acabou morto a tiro. Não satisfeito com isto, o assaltante foi imediatamente interpelar outro transeunte perto do local do assassinato e disse friamente (parafraseando): “Passa para cá a narta, que eu já matei ali um, e vê lá se não queres ser o próximo!”. Contudo, dessa vez, as coisas não lhe correram de feição. O segundo abordado sabia artes marciais e soube agir rápida e decisivamente, desarmando o bandido e colocando-o em fuga. Notificada a polícia, esta pela descrição e batendo a zona, descobriram o assassino e prenderam-no. O homem em questão era procurado no Brasil por homicídio triplo. Belo trabalho do SEF ao deixá-lo entrar no país…
O mundo continua deveras perigoso e é importante estarmos prontos, mantermos uma proverbial espada à cintura onde quer que andemos. As artes marciais em geral são perfeitas para isso, quando praticadas regularmente, com empenho e seriedade. Mais que isso, a Lei portuguesa prevê que um homem pode usar força em defesa pessoal legalmente sempre que se ache em desvantagem técnica. Isto é, se alguém armado ameaça a tua integridade física com intuito de te lesar, podes partir-lhe a boca, os braços, o que for preciso para assegurares a tua segurança. Se estiveres em desvantagem numérica e te quiserem lesar, podes se souberes como defender-te usando força bruta. Contudo, se houver uma igualdade de meios ou números, aí já é mais complicado provar autodefesa em tribunal, se de todo possível.
Hoje em dia precisamos também de pensar doutra forma. No tempo dos samurais, se te atacassem, matavas o outro ou eras morto. Hoje em dia, necessitas de te proteger e/ou aos teus, mas procurando não matar o agressor. Caso contrário, dependendo das circunstâncias, poderás ir preso. Mais que nunca, precisamos hoje em dia de saber usar a cabeça e o corpo, pois exige-se ao samurai do Século XXI, pela Lei e pelas circunstâncias, que obtenha vitória sem matar. É muito mais difícil, especialmente quando a nossa vida ou a de alguém de quem gostamos, está em perigo. A resposta eficaz, sem hesitações e decisiva que tais situações exigem pode apenas ser dada após muitas horas de treino e condicionalismo físico e mental. Armem-se!
Por outro lado, também enquanto cidadãos, hoje mais que nunca, precisamos de ser combativos. De manter o guerreiro dentro de nós vivo. Pois quando tudo se parece voltar contra nós, quando o mundo parece desabar, quando o nosso próprio Governo parece querer deitar-nos ainda mais para baixo, devemos conseguir erguer o queixo e resistir. Aí o combate não será de força física, mas sobretudo mental. As armas não serão espadas, mas canetas, emails, cartazes, manifestações, abaixo-assinados, petições, etc… Lutem pelos vossos direitos, sem esquecerem os vossos deveres! Exijam do Governo, com a mesma veemência que ele exige de vós! Ouçam o que diz um dos nossos melhores pensadores livres do século passado:




E enquanto cidadãos mundiais, há também outras guerras a lutar. Neste momento, por exemplo querem fragmentar a Internet com as SOPA’s, as PIPA’s e as ACTA’s e outros que tais. Lutem por ela, pois nos tempos que corre a Internet é a instituição mais democrática que temos. Como lutamos por ela? Os Anonymous, pensadores livres actuais, dizem-nos como:



Por isso “armem-se”, com informação, com conhecimentos, com habilidades físicas, porque hoje mais que nunca, somos forçados a lutar. Não só por um povo, não só por um país, mas também por um Mundo, pelo Futuro da nossa espécie, a que chamamos Humanidade sem ainda completamente merecermos tal título. Estejam prontos e preparados para o que der e vier. Mantenham o espírito combativo e… hasta la vitoria siempre!


Até porque, por vezes o guerreiro que se mantém positivo, que não desiste perante uma batalha que parece perdida de início obtém uma vitória. E batalha a batalha pode ser que ganhe a guerra. Este blog é contra o presente (des)Acordo Ortográfico e finalmente, graças aos esforços encabeçados por Graça Moura & Outros, às muitas pessoas que ainda não desistiram de apontar as muitas fraquezas do documento e o que este destrói na Língua Portuguesa, e a todos os que assinaram as petições a pedir a revogação do AO e um referendo sobre o mesmo, eis que surge um raio pequenino de esperança, mas ainda assim um passo numa melhor direcção:

http://www.publico.pt/Cultura/viegas-admite-aperfeicoar-regras-do-acordo-ortografico-ate-2015-1535754


Alex, signing off, deixando-vos com uma música que eu acho ser um hino ao espírito de guerreiro!
(: prestem a devida atenção ao significado da letra :)