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terça-feira, 6 de outubro de 2015

Atentemos ao Prólogo, ao eco de Abril

Eu disse no meu Facebook, na segunda semana de campanha, que “a bola está com o povo” e não errei. O povo português castigou os PaF, que mesmo assim tentaram disso fazer uma vitória. O povo português fortaleceu a CDU e o BE, não dando a maioria ao PS, forçando este último a, se quiser governar liderando, terá de fazer entendimentos à Esquerda.
O PS não tem maioria, nem sequer relativa. Mas o PS tem a maioria entre as forças da Esquerda (ou seja, pode liderar essas forças num entendimento de governo), e a Esquerda (unida jamais será vencida!?) tem a maioria absoluta no parlamento pós eleições legislativas de 2015.
Portanto, neste momento, em que CDU (onde eu votei) e BE estão alinhados nas questões macro-económicas (e, asseguro-vos, nenhuma destas forças políticas quer sair do Euro, nem no dia em que sejam empossadas como governo de coligação com o PS, nem dois anos depois, nem 4 anos depois – explicarei mais adiante porquê), em que os portugueses decidiram espalhar uma maioria absoluta por três partidos que se assumem como de Esquerda (como que a garantir que para eles governarem teriam de se entender), se surgir um bloqueio entre as forças de Esquerda, esse bloqueio é objectivamente gerado no PS. Se há 3 partidos e dois estão alinhados, se o terceiro não se abre ao diálogo real e sincero para tomarem conjuntamente as rédeas do país, ainda em profunda crise, para resolver essa crise com soluções de esquerda (visto que as de Direita falharam), então objectivamente esse terceiro partido não quer governar à Esquerda e, portanto, constitui o Bloqueio à Esquerda de que tanto se fala neste país e que se costuma atribuir ao PCP.
Completando este xeque (se me permitirem uma expressão do Xadrez), pois é em posição de xeque que o PS está actualmente, o próprio PCP apela ao PS para se juntar à Esquerda (e não há Direita), afirmando que o PS tem condições (ou seja, que há condições para se forjar um acordo entre os 3 partidos da esquerda no parlamento) para retirar da equação de governação a Direita e governar à Esquerda. O PCP afirmou que o PS só não é governo agora se não quiser e que o PaF só será governo se o PS deixar. O BE está em uníssono com o PCP nisto. Mas há mais…
Como é conhecido, o centro-esquerda convencional (a Internacional Socialista) está em vias de extinção como alternativa de governo. Repare-se que na Grécia, o PASOK desapareceu para níveis de votação próximos do KKP (o partido comunista grego, ~6% dos votos), sendo substituído pelo Syriza, que ocupou o centro esquerda grego de tal forma que já nem lhes chamam radicais. Os Trabalhistas no Reino Unido não conseguem retirar o poder aos Conservadores. Possivelmente o Podemos poderá roubar o eleitorado do PSOE em Espanha brevemente. E sabemos bem as dificuldades do monsieur Hollande em França (que embora no poder, pouco pode ou pode pouco) e está sempre baixo nas sondagens. Isto acontece por várias razões.
Historicamente, os Socialistas Europeus eram a alternativa à Esquerda para quem não queria votar nos Comunistas ligados à URSS. Mas o Muro caiu, o mundo mudou, e a maioria dos partidos comunistas mudando com o mundo acabaram por definhar. O PCP, que se manteve fiel a si mesmo, é dos poucos partidos comunistas com peso real na política do seu país. Mas agora que já não há União Soviética, qual é o papel dos Socialistas? Nesta perspectiva, os Socialistas tiveram de mudar necessariamente e o que fizeram foi ocupar o centro, assumindo políticas económicas de Direita num mundo onde, aparentemente, o Capitalismo venceu a Guerra Fria. Qual o problema disto? É simples. A casa ganha sempre! Se se vai jogar no terreno do outro, segundo as regras do outro, é normal que o outro nos ganhe o jogo. O erro dos Socialistas materializa-se no actual Tratado Orçamental, exclusivamente criado segundo pressupostos económico-financeiros do Centro Direita, que não permitem aos Socialistas (se estes o respeitarem à letra) executar políticas económicas de Esquerda e, dessa forma, não se conseguem apresentar como uma verdadeira alternativa às forças políticas do Centro Direita. Isto, em traços largos, explica o definhar dos Socialistas Europeus.
Se António Costa for realmente, como dizem e esperam muitos socialistas e simpatizantes do PS que nele votaram, um homem politicamente inteligente e que deseja governar o país, à Esquerda como afirmou em Campanha e como alternativa ao governo PaF, perceberá que a única forma de transformar esta derrota eleitoral numa vitória estrondosa é fazer cumprir a vontade da maioria absoluta em Portugal e criar um governo de coligação PS-BE-CDU, tornando-se Primeiro-Ministro legítimo de Portugal.
Só dessa forma, Costa poderá salvar não só a sua carreira política, como o próprio Partido Socialista da extinção.
A primeira parte da frase acima será fácil de perceber porquê. Costa só poderá converter esta derrota eleitoral do PS numa vitória, se se tornar primeiro-ministro apesar dessa derrota. E pode sê-lo, pois a CDU e o BE estão a isso abertos (e as condições que pedem, de que falo mais abaixo, são fáceis do PS satisfazer). E só convertendo uma derrota numa vitória, poderá Costa sobreviver como líder do PS. Reparem que se o PS se coligar à PaF, no máximo roubará o posto de Vice Primeiro-Ministro ao Portas, nunca poderá liderar essa solução de governo. Isto é claro e inequívoco. Mais, se Costa sair agora derrotado, a sua carreira política acabou. Portanto, por auto-preservação Costa tem de fazer o que Sócrates não teve coragem para fazer em 2011: unir a Esquerda em Portugal, quebrar o bloqueio à Esquerda e, dessa forma, governar. Esta é também a forma de Costa se descolar e distinguir do fantasma (político) de José Sócrates! É um dois em um.
Não era essa a força de Costa, ser bom a criar entendimentos?
A segunda parte da frase é igualmente lógica. Para o PS se manter um partido de Centro-Esquerda, não pode agora aliar-se a uma direita castigada nas eleições (pouco, na minha opinião, mas eficazmente) em mais de 700 mil votos.
Mais, em situação de ainda crise nacional (dívida altíssima e impagável nos moldes actuais, o desemprego altíssimo mesmo que usemos os números oficiais e sem que o emprego cresça, um défice descontrolado, um PIB retornado a níveis de 2001, com o Estado Social a ser privatizado e em risco de implosão, etc…), se o PS tem oportunidade de liderar uma maioria absoluta, pode mesmo escusar-se de o fazer perante o país apenas na esperança de causar uma crise política mais tarde e governar sozinho?? Não terá isso um pesado custo político?
O partido Socialista tem uma imagem a manter (e já dizia o Salazar da sua cadeira abaixo “Política é Perceptibilidade”) que não se pode dar ao luxo de perder: a imagem de um partido que assume responsabilidades de governo e que é responsável. Portanto, a sobrevivência política do PS depende, única e exclusivamente, da sua capacidade de tomar as rédeas do país agora. Se não o fizer, não se lembrarão disso os Portugueses daqui a dois anos? Não dirão “Esses xuxalistas só querem é tacho! Porque não governaram logo em 2015?” E não votarão esses portugueses então antes à esquerda no BE e na CDU, ou à direita no CDS e no PSD? Não perderá o PS a sua posição no espectro político nacional se lançar os dados de forma tão descuidada e abertamente interesseira? Eu acho que sim. Se o fizerem, condenar-se-ão à implosão, como o PASOK. E acreditem, o Bloco e a CDU estarão lá para capitalizar dessa implosão e facilmente se coligarão.
Concluindo então que, tanto António Costa, como o próprio PS, necessitam de forjar este governo maioritário de Esquerda para assegurar as suas respectivas sobrevivências políticas, analisemos as condições para esse acordo de Esquerda:
1ª - as sondagens que davam a vitória (relativa, na verdade empate técnico) ao PaF nas últimas eleições, invariavelmente demonstravam que, ainda assim, a maioria dos portugueses preferia um governo de coligação de Esquerda. Respeitando a vontade dessa maioria (absoluta) de portugueses, um tal governo de Esquerda teria, não só o apoio da maioria do povo, como também a concertação social facilitada visto conseguir dialogar facilmente tanto com UGT como com CGTP, por razões a todos óbvias. Mas mais que as sondagens, os votos dos portugueses são expressivos, e nisto tenho de agradecer o artigo do Daniel Oliveira no Expresso, que é esclarecedor. O PS não perdeu por virar à Esquerda, perdeu porque muitos votos do Centro fugiram-lhe para o BE e para a CDU que estão à esquerda do PS, visto que a coligação perdeu votos e o próprio PS teve mais votos face ao que teve nas eleições de 2011. Ou seja, todos os partidos de Esquerda cresceram face aos resultados de 2011, incluindo o PS, mas o PS não foi esquerda o suficiente para convencer a maioria desses eleitores que deixaram de votar PaF sem se absterem, e que acabaram maioritariamente por votar no Bloco de Esquerda. Isto para clarificar que o povo (a maioria, neste momento) quer Esquerda no Governo. Logo o PS está legitimado para liderar essa solução, por mais que isso desagrade a Cavaco, Passos e Portas et all ad noseum;
2ª - o PCP (no âmbito da CDU) aligeirou muito o seu discurso anti-euro, afirmando claramente duas coisas: devemos preparar a saída do Euro para termos um plano B quanto mais não seja para o caso de não termos outra escolha; mas, nessa matéria, como em todas o PCP (a CDU) respeitará a vontade dos portugueses. Desta forma, no ponto que talvez fosse mais difícil o entendimento, o PCP dá todo o espaço de manobra ao PS, não insistindo numa saída do Euro, apenas no estudo de como se fazer uma possível saída, que pode bem nunca vir a concretizar-se se o Euro (enquanto moeda) se aguentar. O BE há muito que tem uma posição aberta (podemos sair, podemos ficar) quanto ao Euro, portanto não levantará nisto objecções;
3ª - há toda uma série de políticas que ficaram por executar durante 4 anos que são comuns a toda a Esquerda Portuguesa. Obras estruturais para alavancar a economia (renovar linhas de caminhos de ferro, portos, estimular a pesca e a agricultura), a redução da carga fiscal nas famílias e na restauração, a questão da co-adopção (e raios, a adopção completa) por casais LGBT, a restituição do estatuto de isenção dos dadores de sangue para evitar a escassez deste elemento no SNS, resolver a questão do desperdício de plasma (de preferência lucrando disso o SNS, tornando-se mais sustentável, e não as Farmacêuticas), a restituição do anterior regime da IVG desfigurado pelo governo PaF, desfazer o mal que este governo fez na Educação e na Justiça (que se se tornarem mais ágeis, actuais e eficazes, ajudarão a estimular a economia portuguesa), fortalecer os direitos laborais, salvaguardar as pensões, etc... Estas serão as bases para um entendimento de governação. Dir-me-ão as vozes da Direita “E o Dinheiro vem de onde?”! Vem dos dinheiros comunitários (porque não sairemos da UE) & da libertação de verbas estatais do Serviço da Dívida (pagamento de juros) oriunda de uma renegociação da dívida. E claro da captação de investimento privado.
4ª - António Costa pediu ao PS um mandato para poder dialogar à sua Esquerda sobre a renegociação da dívida. Já falei disto, é algo não só natural mas (e reparem como posso usar os argumentos da Direita) NECESSÁRIO de fazer se queremos pagar a dívida e, dessa forma, recuperar algum do nosso nível de vida e soberania nacional. As empresas fazem renegociação das suas dívidas com toda a naturalidade quando chegam a situações bem menos más que aquelas em que o nosso país está. Não é um bicho de 7 cabeças. E podemos e devemos fazê-lo indo ao encontro da Troika, bem acompanhados dos nossos pares Irlandeses e Gregos, quiçá até Espanhóis e Franceses. Pode e deve começar uma mudança na Europa, que começa a mostrar perigosos sinais de se encaminhar cegamente para a auto-destruição. Podemos inverter esse rumo, mas só em grupo. Aprendamos com a Grécia, não podemos ir sozinhos enfrentar os credores;
5ª - e quanto ao Tratado Orçamental, o Hollande (um socialista europeu) já o congelou (como o PaF por cá fez a carreiras e pensões), por isso nós, não tendo necessariamente de o rasgar (mais uma vez espaço de manobra que BE e CDU dão ao PS), podemos simplesmente dizer que não vamos cumpri-lo durante 4 anos para nos reerguermos e podermos realmente ter condições de o cumprir, SE ASSIM DECIDIRMOS NO FUTURO.

Estão então reunidas as condições dum governo maioritário de Esquerda, com o PS à sua cabeça, coligado com BE e CDU, com uma maioria absoluta estável como o Cavaco quer/exige (embora não fosse esta que ele quisesse). Não só estão reunidas essas condições como é do interesse do PS e do seu actual líder, por questões óbvias de sobrevivência política, que tal governo se venha a fazer. Até João Soares, que na altura das Primárias era pelo Seguro(e percebe-se que os Seguristas são no PS actual a ala direita), afirmou que Costa tem de se coligar à Esquerda. Até Cavaco, implicitamente disse a Costa que coligar-se à Esquerda é a sua única saída, quando disse que esperava “que os partidos” (leia-se o PS) “ coloquem à frente dos seus interesses” (leia-se sobreviver politicamente) “os interesses de Portugal”. Acontece que, na sua habitual cegueira sectária, Cavaco Silva se esqueceu que prometeu ainda antes da campanha eleitoral que só empossaria um governo de MAIORIA ABSOLUTA (que a Esquerda pode e deve fazer). Ao mesmo tempo, os Portugueses ouviram Cavaco e deram essa maioria absoluta à União da Esquerda.
Qual é então a dúvida, senhor Costa? Tem a bola nos pés, quer marcar golo ou auto-golo?
Eu gostava que as redes sociais se incendiassem por esta outra via, democraticamente legitimada, fazendo notar-se o seu apoio a um governo de Esquerda, só para o caso dos votos não serem suficientes. Manifs perante a fachada da sede do Partido Socialista no Rato, em Lisboa, também seriam boa ideia. Vá lá, anonymous portugueses, apartidários, indignados, independentes, simpatizantes do PS, da CDU e do BE, saltem do sofá. Está na hora duma viragem verdadeira.
‘Bora lá resolver esta embrulhada e fazer valer o Prólogo da Constituição da República Portuguesa: toca a desengavetar o Socialismo e faça-se cumprir Abril, porra!

quinta-feira, 27 de março de 2014

Viva o Teatro!!

Hoje foi o Dia Mundial do Teatro.
Embora eu seja da opinião que um destes dias teremos um problema do caraças e teremos de voltar a alterar os nossos calendários, ou mesmo a reestruturá-los (como a dívida, ‘tão a ver?), porque já não teremos dias suficientes para todas as coisas cujo celebrar queremos consagrar com um dado dia, este é um dia que eu acho importante celebrar. E porquê?
O teatro é parte integrante de ser humano. Não, não estou a exagerar. Quando em pequenos fazemos birra, explodindo em choro por vezes sem razão nenhuma só para conseguirmos o que queremos, que é isso se não um teatro? Quando mais tarde pegamos em bonecos, utensílios de brincar ou apenas na nossa imaginação e nos tornamos em personagens de aventuras imaginárias que nos ajudam a passar o dia e também a crescer e a aprender, que mais estamos a fazer se não teatro? E mesmo não fazendo parte daquela classe que ainda em adultos têm o privilégio de continuar a brincar ao faz-de-conta, sendo para isso pagos, todos nós continuamos a ambicionar essa magia que nos pode levar a fazer rir, chorar, saltar de pavor, deixar melancólicos ou inspirar a mudar a nossa vida, essa magia do faz-de-conta que nos traz ao de cima a criança que há em nós.
Pode ser que o cinema e as séries televisivas sejam uma forma de teatro moderna, mas todos facilmente reconhecemos que no teatro dificilmente há take 2 e que se as coisas correm mal, ou o actor dá a volta rapidamente ao texto e os seus colegas o acompanham ou tudo falha. Para além disso, a relação entre o público e a plateia é íntima e não distante como as dos grande e pequeno ecrãs. Se é uma comédia que está a ser encenada e não há risos na plateia, isso afectará negativamente o desempenho do actor. O inverso é também verdade. Gera-se assim um espectáculo que é influenciado pela empatia humana. É essa ligação empática, quasi-telepática, que separa o teatro do cinema e da televisão. Além de que, claro está, o teatro é milenar e o cinema não mais que centenário.
Também passam teatro na televisão, por exemplo na RTP Memória as revistas à portuguesa ou mesmo os episódios de Wrestling importados dos EUA. Mas não é a mesma coisa. Falta a empatia. Eu percebi isso, estranhamente, graças ao Youtube. Descobri em 2012 que haviam encenado um musical de um dos meus filmes de culto favoritos, The Evil Dead. Procurei no Youtube e encontrei a peça em questão, isto é, encontrei uma videogravação da mesma. Embora a peça tenha feito imenso sucesso, embora eu goste de teatro, de musicais e do material fonte, não consegui achar piada àquilo em vídeo. Faltava a empatia, a atmosfera.
Eu já pisei um palco amador uma vez, ainda muito novo, e quase por achar que tinha algo a provar… a coisa correu mal e jurei para nunca mais. A minha fez teatro amador na sua juventude e ao que parece o meu avô, seu pai, também. Eu sempre preferi encenar peças com os meus bonecos. Mas até já essa capacidade perdi. Resta-me ver teatro… nem que seja o Sócrates, o Passos, o Seguro e o Portas, actores que seguem o Método sem dúvida, a mentirem ao país. É mau teatro, é pior que amador, é reles, mas é teatro ainda assim.
É trágico que tenhamos, já que toquei na política, um Presidente da República que vê um enorme potencial na Língua Portuguesa (ideia errónea que desmascararei quando voltar a falar do Acordo Ortográfico de 1990, me aguarrrdem!), um enorme potencial do Mar (no qual nada faz para que neste se invista, sendo que já tenha no passado feito muito para remover qualquer investimento nesta área), mas que não reconhece o imenso potencial económico das artes cénicas. Sim, porque se isto da dinheiro na Broadway, também o pode dar cá. Tal como o Cinema, já agora. Mas para a Direita Portuguesa, a cultura mais não merece que uma mísera Secretaria de Estado e os actores mais não são que “prestadores de serviços”. Quando este governo tomou posse, um dos seus membros originais veio anunciar que a guerra de classes havia acabado. Para tal, este governo prontificou-se a acabar com as classes. Quase o conseguiu: destroçou ou afugentou a parte da classe média que sobrevivera ao jugo de Sócrates e eliminou toda uma classe (a dos actores) despojando-os para efeitos fiscais do seu nome de classe, tornando-os indistintos prestadores de serviços. O Ruy de Carvalho, que cometeu o erro deneles votar, que o diga.
Verdade seja dita que não é só o Ruy (e trato-o assim porque além de individuo de pleno direito, o senhor é um tesouro nacional, o que o faz um pouquinho de todos nós) que se queixa, na minha opinião com razão, mas várias gerações de actores.
Dá vontade de desejar muita merda aos nossos governantes e aos seus mesquinhos e curtos horizontes, subjugá-los a uma forçada emigração por via de uma chuva de patacas furibundas! Hey, o teatro sempre serviu para castigar os costumes e satirizar a sociedade, revelando-lhe os podres, certo? 
Já agora, sabeis acaso, caro leitor, porque é que é de bom tom desejar muita merda a um profissional do teatro que tenha uma peça a estrear? Parece que em tempos idos, a nobreza ia ao teatro de coche. Se a afluência a um dada peça fosse grande, a entrada do teatro em questão ficaria ladrilhada de merda de cavalo. Este hábito de merdoso mas simpático desejar foi mais uma importação francesa do séc XIX.
Como disse o José Hermano Saraiva, em relação a um dos 12 trabalhos do Hércules que consistia em limpar os estábulos dos deuses: “Meus amigos, era muita bosta!
Mas a culpa é também nossa, do povo. Ah pois é! Antes de mais por, em geral nós (embora voto meu, e eu voto, jamais tenha eleito um governo), elegermos paspalhos sem ideias nem cultura, nalguns casos que se fazem até chamar de doutor sem nem uma licenciatura terem, que a troco dumas migalhas das grandes cortes europeias e duma boa próxima vida após a chamada “morte política” prontamente se predispõem não só a estragar o nosso país como a enterrar a nossa cultura e identidade. Depois, porque não vamos ao Teatro, não apoiamos Cinema Português, etc… Agora é da crise, que até é uma boa justificação, mas e nos tempos das vacas gordas, porque é que os teatros eram tão pouco frequentados em terras lusas? Em Torres Novas, de onde oriundo, havia um teatro que no meio tempo era cinema (foi onde de facto vi tanto o meu primeiro filme e a minha primeira peça de teatro, de que me lembre), que passou muitos anos fechado e abandonado, e foi recentemente recuperado pela Câmara, mas é muito pouco usado. E contudo, na minha adolescência, tive a felicidade de quase todas as semanas ir ao cinema, ver um filme que estreava.
A imagem acima foi retirado do facebook de uma jovem actriz, que é também a miss CPLP 2013, a qual eu já tive o prazer de ver ao vivo, numa peça, podendo assim afirmar-vos que é bem mais que uma carinha laroca, até porque é excelente com uma máscara!
Embora muitas destas imagens exibam manequins vestidos com kimonos tradicionais japoneses, as fotos foram tiradas no palco do Teatro Nacional Dom Carlos, o qual visitei em 2012. As fotos das e sobre as patacas também vieram de lá.



Antes de começar a falar do teatro japonês (porque afinal o blog é centrado no Japão), queria só, uma vez que é o Dia do Teatro, falar-vos duma iniciativa bem portuguesa que em tudo me agrada e que está relacionada com a imagem que abre este post. Refiro-me ao restauro do Palácio do Bolhão, no Porto, pela a Academia Contemporânea de Espectáculo, em prol do Teatro do Bolhão. Nesta iniciativa, sobre a qual melhor se podem informar no link abaixo, procura-se, ao mesmo tempo que se dá uma casa à nobre arte, restaurar um monumento nacional. Poderá haver causa cultural mais digna de ajuda? Em troca de pequeno contributo monetário, podem ver o vosso nome imortalizado num palácio da Invicta. Acho que é uma muito bela troca, se bem que injusta para a iniciativa em si que recebe apenas dinheiro. ;) 


Na Língua Japonesa (e segundo o tradutor da Google), Gekijō (劇場) é como se diz Teatro (Link para ouvir Pronúncia – vale a pena, pois parece quase um bramido de ovelha). Como em todas as grandes civilizações, o teatro é central na cultura nipónica, tendo evoluído, tal como no caso português, em várias formas: o Noh, o Kabuki, o Bunraku e ainda o teatro negro (não se preocupem, nada tem de racista eheh).
O teatro Noh, cujo nome deriva da palavra sino-nipónica para “perícia”, é uma das principais formas clássicas de drama musical japonesas, e é encenada desde pelo menos do século XIII D.C, sendo que a sua forma actual começou no período Muromachi. Muitas das suas personagens estão mascaradas e os actores, sempre homens, interpretam tanto papéis masculinos como femininos. Tradicionalmente, um “dia de teatro Noh” dura mesmo todo o dia e consiste em cinco peças Noh, intercaladas de peças Kyogen, peças mais curtas e humorísticas cujo o nome quer dizer literalmente “palavras loucas” ou “discurso selvagem”. Presentemente, o teatro Noh consiste em apenas duas peças Noh, intercaladas por uma peça Kyogen. É um campo de teatro muito codificado e fortemente, regulado pelo sistema Iemoto, que dá prioridade à tradição em detrimento da inovação. Mesmo assim, há quem faça reviver peças antigas e já abandonadas, há quem componha peças novas e mesmo quem crie peças que mescle esta variante com outras suas pares.
O teatro Kabuki, composto pelos kanji (cantar)(dançar)(habilidade), sendo por vezes traduzido de forma simplista para “a arte de cantar e dançar”, consiste numa forma muito estilizada de drama, com ênfase na maquilhagem dos artistas. Julga-se que o nome derive do verbo japonês Kabuku, que pode significar “encostar” ou “ser fora do vulgar”, sendo assim uma arte teatral que executa peças bizarras ou experimentais, a vanguarda do teatro tradicional japonês. De facto, o termo kabukimono é usado para designar pessoas que tenham uma forma bizarra ou fora da norma de se vestir no sei dia a dia. É muito mais novo que o Noh, tendo sido originado no século XVI D.C., período Edo da História do Japão, quando Izumo no Okuno, uma sacerdotisa do Shintoísmo, em 1603 começou a desempenhar uma nova forma de dança nos leitos secos dos rios, em Quioto. Este é portanto o polar oposto do Noh, tendo actrizes a desempenhar os papéis masculinos e femininos do quotidiano nipónico. Um dos factores que tornou esta forma teatral muito apelativa foi o facto de muitas das trupes que a desempenhavam estarem receptivas à prostituição. De facto, o kabuki tornou-se norma no red light district de Edo, capital do Japão, actualmente conhecida como Tóquio.
O teatro Bunraku, também chamado Ningyo Joruri, é a versão japonesa de uma peça de marionetas. A componente física desempenhada pelos mestres de marionetas, designados de Ningyotsukai, é acompanhada de uma componente musical, os cantadores chamados Tayu e os tocadores de Shamisen (espécie de banjo japonês). Por vezes, também juntam tambores taiko à peça. A combinação do canto acompanhado pela melodia do shamisen é chamada de joruri e ningyo quer dizer marioneta. Já o termo Bunraku surge do nome de um teatro muito conhecido no Japão por exibir esta arte.
Por último, quero ainda referir o Teatro Negro, cuja técnica pode também ser usada no Bunraku para colocar toda a atenção nas marionetas, e sobre o qual deixo um exemplo em baixo, porque é deveras difícil de explicar por palavras!
Isto foi só um lamiré, porque cada um destes estilos é um mundo, e o mesmo pode ser dito das formas ocidentais, o drama, a comédia, a sátira, etc… Um dia destes, aprofundarei, num post para cada uma, as formas japonesas aqui para o blog. Quem sabe se não inspiro algum encenador a fundir alguns dos seus elementos com os nossos estilos? Ao mesmo tempo, continuarei a veícular esta e outras iniciativas em prol da cultura e das artes.
Viva o Teatro, onde a arte não só imita a vida, como está viva, e como toda a vida merece ser protegida!


E agora para vos despachar com bom humor, tomodachi, fiquem com um teatrinho radiofónico, cortesia do Nuno Markl e da malta das manhãs da Comercial.
Sayonara... por agora!

sábado, 2 de novembro de 2013

Info Sociocultural II

Meus amigos, bem-vindos sejam e Novembro também.
Como sempre, a Embaixada mandou-me novas e eis que as venho veícular, juntamente com outras que foram surgindo no meu radar. Este mês, como fazem às vezes, o email portador do boletim da Embaixada trouxe o link para o mesmo e não apenas o ficheiro pdf. Portanto, deixo-vos o link para o boletim, do qual vou realçar os eventos que acho pertinente fazer. Estão espalhados pelo mês e pelo país.
Antes de começarmos com os eventos, queria apenas expressar a minha tristeza pelo encerrar derradeiro da Majora, ficando ainda a esperança que num futuro mais risonho algum português pegue na marca e a relance (e aos postos de trabalho que se perderam) e voltemos a reforjar, mais forte e competitiva, o mercado de brinquedos em Portugal. Até lá, e a partir de amanhã dis 3 de Novembro, o Correio da Manhã (Jornal que tem um acordo ortográfico acordado consigo mesmo, imitando o que faz o estado português e ficando-se pelo mixordês e que eu não compro) faz-se acompanhar com jogos tradicionais da Majora:
 Ataquemos então o boletim informativo, começando por Lisboa:


  


  
Eu estou particularmente interessado neste seguinte e vou pedir mais informações para o email indicado, para saber se posso assistir ao curso e quais as condições para tal:
Seguem-se os eventos que ocorrem em Lisboa mas também noutras cidades:

E assim chegamos ao Porto:
 Em Gaia:
 Também no Porto mas já fora da informação dada pela Embaixada, existe ainda este workshop:
Não esquecendo da Capital Europeia da Cultura e Berço da Nação:

Um pequeno à parte, só para congratular o Luís de Matos, o mais famoso ilusionista português,que foi premiado em Londres:
Além de conhecer alguns truques simples, com cartas e outros, sempre adorei a arte do ilusionismo embora não tenha ido muito longe nesse campo. O Luís é um exemplo para qualquer pessoa que sonhe em trazer magia à vida das pessoas sem as iludir sobre o facto de ser mera ilusão e engodo. O Ilusionismo é das poucas instâncias em que sabemos que estamos a ser enganados e podemos ter prazer com isso. Outra arte capaz de o fazer é a 7ª.

Quero também realçar algo que me esqueci de mencionar noutros boletins da Embaixada Japonesa, que é o papel da NCreatures em publicar e veícular Manga em Portugal.
Se gostam de anime e manga, não deixem de visitar o site da NCreatures, cuja versão portuguesa é, pelo menos há data, SEM Acordo Ortográfico de 1990:
E como eu acho que a Democracia Directa é o modelo que devemos adoptar para o futuro, uma das formas de nos irmos treinando para ela, além de nos mantermos constantemente informados pelos canais oficiais e por outros que arranjemos, é o irmos lendo e assinando petições com as quais concordemos. Eis algumas que eu subscrevi recentemente.
No campo internacional:
Eu esforço-me aqui por ir falando do drama de Fukushima e tenho um post bastante extenso sobre essa situação para escrever, baseado em várias notícias que têm saído na imprensa portuguesa e internacional. Mas esse post requer bem mais tempo e calma.
Note-se que os leões andam a ser mortos pelos ossos e para com eles fazer "poções mágicas" para melhorar performance sexual. Isto é ridículo e odioso. É por isso que não gosto de crendice e/ou superstição de qualquer tipo.

No campo nacional:
Esta fala por si.
Não concordo que o pai que era presidiário foragido, que leva o filho de 13 anos para um roubo, e o coloca em ainda mais perigo fugindo à polícia, tenha direito a receber do oficial que matou essa criança durante uma perseguição qualquer montante de compensação, ainda para mais 80 mil euros. É de loucos. Qual é então o impeditivo ou a lição aprendida, que impeça este criminoso inconsciente e desumano de voltar a fazer o mesmo com outro filho(a)? Qual é a mensagem que está a ser dada a outros bandidos que lhe sigam nas pisadas?

Resta-me ainda deixar uma palavrinha para dois projectos.
O primeiro é da União Europeia que nos pergunta como é que impedimos tanto lixo de chegar aos mares? (link) E o segundo é sobre dois jovens que desejam restaurar o Palácio de Cristal do Porto. Eu sou todo a favor da manutenção e rentabilização (por oposição à venda) da nossa herança cultural, sejam material ou imaterial, por isso desejo-lhes a melhor das sortes e espero que encontrem o apoio que necessitam para tal. Todas as informações aqui.
Deixo-vos também, via P3, mais um traço cultural japonês, à mistura com arte portuguesa no Japão:
http://p3.publico.pt/cultura/exposicoes/9716/da-fotografia-de-shomei-tomatsu-street-art-de-rigo-23

Não se esqueçam que amanhã (dia 3 de Novembro) é dia de eclipse parcial do Sol. Vamos ver é se as nuvens cooperam e deixam ver. O apogeu será pelo 12h20 (hora de Lisboa) e pelas 13h já deve ter acabado. É o último deste ano. (link) Não olhem directamente para o sol. Usem filtros apropriados. ;)

Por agora é tudo e vejam lá se carregam na imagem lá em cima, que diz que eu não respeito o Acordo Ortográfico, e assinem por favor a Iniciativa Legislativa contra o Acordo Ortográfico de 1990.
Abdi, abdi... that's all folks!

sábado, 14 de setembro de 2013

Constitucionalize-se a Paz, Legislem-se Armas, Poetize-se a Guerra

Embora a imagem acima seja alusiva ao tópico principal desta entrada, começo com alguns breves à partes não relacionados.
Primeiro quero prestar homenagem àquele que é reconhecido como o “pai” do Judo (a que ele gostava de chamar “o caminho suave”) Português, o Sensei Kiyoshi Kobayashi, que morreu no Japão, esta passada quinta-feira, com 88 anos dos quais viveu em Portugal mais de 50. Eu que sou praticante de artes marciais, embora de Judo tenha tido muito poucas aulas e não passaram de mais que de uma mera introdução, respeito grandemente qualquer artista, mas sei de experiência pessoal as dificuldades das Artes Marciais e também a realidade vasta do seu universo, sendo que tenho enorme estima por quem delas faz a sua obra e vida. É com prazer que honro alguém que tanto fez pelas artes marciais e pelo desporto portugueses. Que o diga Carlos Lopes! OSS, Sensei!
Quero igualmente estender a minha solidariedade e empatia para com as vítimas de ainda mais um sismo de grande magnitude, novamente no Norte do Japão. Ainda não tiveram tempo de recuperar das feridas do mega sismo de Março de 2011 (link aqui) e já sofrem um outro terramoto (notícia aqui), não tão mau, mas potente. Felizmente não veio acompanhado de um maremoto. O que vale é o espírito nipónico do “Never say die” perante a fúria dos elementos. Força, Japão.
Sobre os Jogos Olímpicos, quero congratular o Japão por ter sido o país escolhido para a próxima edição do evento. E não é sem um gostinho de vingança, pois Espanha tem andado armada em parva ultimamente, connosco sobre as Selvagens e com os Ingleses por Gibraltar, para além de um país à beira dum resgate estar a hipotecar-se mais para fazer um mega evento ser estúpido, na melhor das hipóteses. Não havia outra escolha, face ao colosso económico que é o Japão e às convulsões sociais na Espanha e na Turquia.
Mas não foi a Espanha que começou a polémica sobre estes Jogos Olímpicos. Um jornal francês editou dois cartoons que ligam a tragédia de Fukushima aos Jogos Olímpicos e o Governo Japonês já reagiu demonstrando-se compreensivelmente zangado e ofendido. Vi uma notícia estrangeira sobre isso que não mostrava os cartoons e a mesma notícia mas no Público também não o fazia. Tal como quando da crise dos Cartoons Dinamarqueses que levaram a ameaças dos Jidahistas contra a Dinamarca e mesmo à destruição das suas embaixadas, os jornais ocidentais (numa completa falta de solidariedade para com o direito da liberdade de expressão dinamarquesa) também não se atreveram a publicar os cartoons. Assim, toda a minha gente vendia jornais a falar de Cartoons que ninguém vira  fora da Dinamarca. As situações são bem distintas. Nem se está a criticar a Jihad e o Profeta Maomé, nem os Japoneses são zelotas religiosos (haja Deus, suspira este ateu). Ainda mais, eu acho os cartoons descabidos e de fraca inteligência, pois brincam com mutações provenientes de radiações (tendo em conta que é o único país que já foi bombardeado com armas atómicas e ainda hoje estão a sofrer com isso os sobreviventes em Fukushima) por exemplo não é algo a que ache proveito ou a necessidade de caricaturar. Depois, numa altura em que o artigo 9 da Constituição Japonesa está “sobre fogo” e que o maior vaso de guerra japonês está a meter a China de nervos em franja, os Jogos Olímpicos naquela zona só podem ser bom sinal, se nos lembrarmos da sua ancestral história. Os Jogos Olímpicos eram consagrados em nome dos Deuses do Olimpo e durante os jogos haviam TRÉGUAS entre todas as cidades estado da Grécia Antiga. TRÉGUAS!! É essa a grande mais valia desses jogos, é esse espírito que deve, tem de ser honrado e recuperado. E que melhor altura e lugar que o Japão, neste momento.

Não quero desrespeitar aquela que considero justa indignação dos Japoneses, mas por acreditar no que Voltaire disse, sinto uma obrigação moral e de respeito para com a Liberdade de Expressão, fazendo o que os Media não estão dispostos a fazer por medo de ofender nem que isso defenda a liberdade que lhes permite o seu ganha-pão, publicando aqui os ditos cartoons. Eu acredito firmemente que a liberdade de expressão tem de incluir a liberdade de ofender, embora entenda que quem ofende tem de estar pronto para as consequências. Às vezes, e todos nós se não formos hipócritas o sabemos, basta dizer a verdade para ofender alguém.
Senão como poderão vocês, leitores, ter a vossa própria opinião sobre eles? Numa Era da Imagem como a que vivemos, como é concebível falarmos de uma polémica de imagens como polémicas e não as mostrarmos? É ridículo e triste não termos aprendido com o que aconteceu com a Dinamarca (disto voltarei a falar quando falar aqui dos Media e da Liberdade de Expressão e quanto ambos estão condicionados pelos interesses económicos e quanto isto diminui e perverte o seu papel social).
第九条 日本国民は、正義と秩序を基調とする国際平和を誠実に希求し、国権の発動たる戦争と、武力による威嚇又は武力の行使は、国際紛争を解決する手段としては、永久にこれを放棄する。
二 前項の目的を達するため、陸海空軍その他の戦力は、これを保持しない。国の交戦権は、これを認めない。
Confiando na Wikipédia, acima está escrito (em Kanji) o artigo 9 da Constituição do Japão. Esse artigo declara:

“ARTIGO 9: Aspirando sinceramente a uma paz mundial baseada na Justiça e na Ordem, o Povo Japonês para sempre renuncia à Guerra como um direito soberano da nação ou o uso da força como meio para resolver qualquer disputa internacional. (2) Para atingir o objectivo do parágrafo precedente, forças terrestres, marítimas ou aéreas, bem quaisquer meios beligerantes jamais serão mantidas.”, in Wikipedia. Traduzido directamente do inglês.

Entremos agora no tópico que dá mote ao título. Este artigo constitucional, tal como o Godzilla (link aqui), é criação conceptual directamente consequente dos terrores da Segunda Guerra Mundial. O povo japonês, num esforço para evitar cair no erro que então cometeu, desenvolveu este artigo constitucional. Intelectualmente, é um acto de louvar pela sua evolução civilizacional: consagrar uma proibição à guerra, renunciar o direito soberano à guerra, de forma constitucional. Mas na prática, no mundo em que vivemos, nos dias de hoje, por mais belo e moralmente avançado que seja, torna-se um acto mais simbólico do que prático ou pragmático.
Na prática, o Japão tem forças militares. Não lhes chamam forças armadas, mas antes Forças de Auto-Defesa Japonesas. Portanto, desengane-se quem pense que o Japão está à mão de semear, senão provavelmente já a China teria tomado as ilhas Senkaku no ano passado. Os Japoneses, ou pelo menos os que escreveram a sua Constituição, sabem aquela dura verdade que levou os Pais da Revolução Americana a consagrar na sua Constituição a emenda que garante o direito à posse de armas a todos os cidadãos:

Contudo, o artigo 9 da Constituição Japonesa tem o seu mérito real. Impede pela sua própria vontade o povo Japonês de, declarar guerra a outras nações em qualquer caso. Impede-os de construir armas nucleares (tendo o mérito de impedir a proliferação de armas de destruição em massa), de possuir porta-aviões, ou de ter mísseis intercontinentais, para dar alguns exemplos práticos. Na minha opinião, é um passo enorme para a evolução futura das relações internacionais. Isto é, se mudarmos a tónica do pensamento militar, se em vez de declararmos guerra só nos defendermos de alguém que nos declare guerra, estaremos mais seguros de estarmos nós a fazer o que está certo. Pelo menos, no que diz respeito às disputas entre nações. Esta é, e sempre será, a minha posição face às artes marciais: servem apenas para autodefesa e só são para ser usadas depois de esgotadas todas as outras possíveis soluções. O verdadeiro praticante de artes marciais não pratica para andar a criar problemas ou a provocar violência, mas antes para seu auto-melhoramento e para estar preparado caso não lhe dêem outra hipótese que não a escolha entre ser violentado e se defender pelo uso da violência.
Quando me preparava para escrever, pensei que há, no entanto, sérios problemas com a sua aplicação. Até porque decorre de qualquer estratega de nível básico, que a melhor defesa é um potente ataque. Eu considero-me não um pessimista (patente na minha e única instável, mas não cega, fé na Humanidade), não um optimista (preparo-me sempre para o pior, na melhor das minhas possibilidades), mas um realista e sei que há guerras que têm de ser lutadas. Até no pacifismo é perigoso ser um fanático e/ou zelota.
Exemplo fácil, a própria Segunda Guerra Mundial. Mas se analisarmos seriamente essa guerra, vemos que os “bons” (como dizem os putos), isto é aqueles que agiram em mera auto-preservação, como reacção à agressão nua, e não com sonhos megalómanos de conquista mundial, não declaram guerra até serem para isso provocados. Até os Estados Unidos da América só se declaram pelos Aliados depois de Pearl Harbour. Portugal, pelas mãos de Salazar, assumiu a única posição que podia para não ser obliterado, pois as suas forças militares eram fracas e tinha acabado de sair de uma crise económica estando ainda a sofrer os rigores da sua austeridade, e foi oficialmente neutro. Não-oficialmente, Portugal esteve envolvido. Em segredo, Salazar mantinha relações de conluio com os nossos mais antigos aliados, os Ingleses. Quando Churchill disse a Salazar para parar com os envios de volfrâmio que ele vendia aos nazis, este assim fez. Via Aristides Sousa Mendes, honrado por Israel com o título “amigo dos Justos”, salvámos muitos judeus de serem mortos, e mesmo Salazar e o seu Estado Novo permitia aos judeus que cá chegassem que embarcassem de cá para a segurança dos EUA. Além disso, Portugal passou fome enquanto em segredo alimentava as tropas aliadas. No Pacífico, e na única instância histórica em que Portugal e Japão abriram hostilidades, a então colónia portuguesa de Timor-Leste foi forçada a repelir a invasão japonesa. E conseguiu-o com sucesso. Acho que é importante relembrar isto, a bem da manutenção da História, especialmente no ano em que celebramos 470 anos de Amizade com o Japão. Mas lá está, nessa instância, nós só guerreamos em auto-defesa.


Saindo um pouco da guerra convencional, e já vão perceber porque o faço, a guerra contra o álcool (despoletada pelos agora membros do Tea Party, nos anos 20, na Lei Seca americana) só pôde ser vencida com a legalização das bebidas alcoólicas. É que as ruas já andavam ensopadas com sangue de gangsters, polícias e inocentes. Hoje em dia, luta-se a guerra contra as drogas e parece que nada se aprendeu com essa primeira experiência. Também essa só se irá ganhar com a legalização, retirando o mercado aos barões da droga, elevando-se os impostos como por exemplo fazemos ao tabaco procurando minimizar consumos, aumentando a informação disponível sobre o produto, fazendo campanhas de sensibilização nas escolas mas de forma certa e institucional e finalmente, disponibilizando sempre a possibilidade para os que já nela estão enredados saírem dessa armadilha. Será pela educação, inclusão, regulamentação e despenalização que diminuiremos este flagelo social. No final, irá sempre haver (COMO HÁ), quem se drogue para relaxamento, quem se drogue por vício, quem não se drogue. As pessoas têm o direito de fazer o que quiserem com o seu corpo e não pode ser o governo a decidir impedi-las da sua estupidez, sob risco de cairmos num estado orwelliano em que o Big Brother nos protege de nós mesmos e não há liberdade. Mas digresso… também estas guerras têm de ser travadas, e a sua vitória está no melhoramento da educação, essencialmente. Formar melhores cidadãos que hajam em consciência e que saibam que, mesmo que se queiram drogar, será menos mau fumar um charro a meterem LSD, mas que de preferência o melhor será simplesmente dizer NÃO. Mas falei de guerras não-convencionais para chegar aquela que marca a actualidade: a chamada Guerra ao Terror.
Aqui a porca torce o rabo. É tão inevitável como enfrentar o Hitler. Estamos a falar de pessoas que, potenciadas pela falta de escolhas de vida e muitas vezes falta de instrução educacional, são doutrinadas numa religião, “esse ópio do sofredor” citando correctamente Marx, que glorifica e de facto apresenta como caminho para o paraíso na morte a guerra santa. Pessoas essas que, enlouquecidas pelos ditames de livros que se tiveram valor já estão hoje em dia descontextualizados e ultrapassados, são instrumentalizadas por outras vontades, estas muitas vezes bem alimentadas e com ensinos superiores, mas na mesma fanáticas e/ou simplesmente maléficas. Nunca sei se os que puxam cordelinhos, tipo Bin Laden, Saddam e Homeini, acreditam mesmo no que pregam ou só desejam o poder. Mas há o revés dessas moedas, desse vil metal, como por exemplo o hipotético analista da CIA que sabia dos pilotos de aviação árabes “naquela escola do Midwest”, e que calmamente deixou desenrolar-se o11 de Setembro e garantiu a sua reforma em Wall Street. Esta guerra está a decorrer e já não é uma questão de esta nação contra aquela, mas sim como no caso da WWII (sigla inglesa), uma profunda discórdia ideológica. Por exemplo, as teocracias islâmicas, a que Hitchens designou “fascismo com face islâmica”, são ditaduras não só do corpo mas também da mente. Dito e feito, os fundamentalistas que a elas se entregam, seguem ideologia messiânicas nas quais eles são os verdadeiros servos de uma divindade inventada, à qual se submetem totalmente como seu escravos, e que os recompensará por isso no Fim dos Tempos, se eles até lá matarem, converterem ou subjugarem e humilharem todos os restantes. Os direitos de homossexuais, das mulheres e de todos os que não comunguem das suas ideias não lhes assiste. É uma guerra da civilização contra a barbárie. Uns poucos de fanáticos, face a biliões de inocentes que apenas querem viver a sua vida descansados.
No decorrer desta guerra, cujo nome é de si estúpido (pois guerra já de si é o terror), aconteceu a Segunda Guerra do Iraque. Todos nós sabemos que a sua motivação não foi apenas a libertação do Iraque do seu sanguinário e louco ditador, mas também o desejo dos americanos de controlarem o petróleo naquela zona. Eu sei disso, e se me perguntarem se eu preferia que tivessem sido outros que não os americanos a combatê-la ou a dirigir essa guerra, eu digo-vos logo: “Claro que preferia!”. Mas estamos a falar duma situação insustentável, dum ditador que combinava o que pior havia de Hitler e de Estaline, dum país que era vigiado diariamente pelas Nações Unidas (NU) para evitar que este voltasse a atacar os curdos (a maior etnia anteriormente sem estado que existe no mundo) que quase exterminara com armas químicas ou que atacasse os seus vizinhos e irmãos de fé no Irão, que já antes tentara invadir, enquanto que as próprias NU via sanções económicas mantinham na miséria todo o povo iraquiano enquanto o seu ditador megalomaníaco vivia na opulência dos seus palácios e os seus ainda mais psicóticos filhos coleccionavam carros de luxo como se fossem o CR7. Conhecidos terroristas da Al Qaeda e afins gozavam da sua protecção, tendo até alguns passaportes com imunidade diplomática consagrada pelo Iraque [com os quais várias vezes escaparam à detenção por autoridades doutros paízes] e que vinham listados nas listas telefónicas iraquianas sem qualquer medo e com o seu nome. Portanto, falamos de um país sob ditadura teocrática, que já tinha utilizado armas de destruição massiva, já tinha invadido o território de vizinhos, já tinha tentado promover o genocídio de uma etnia e dava guarida a conhecidos terroristas internacionais. Segundo Hitchens (link aqui), e confesso que não sei de onde ele obtém esta informação embora me pareça aceitável como ideia, o Iraque de Saddam já preenchera as 4 condições para perder a sua soberania. Algo tinha de ser feito. As NU deviam ter ajudado os curdos seculares, guerrilheiros socialistas e comunistas, a derrubar o regime de Saddam. Mas a sua inacção manteve-se. Os EUA e o Reino Unido, movidos pelos seus próprios interesses (leia-se petróleo), agiram. O Saddam foi condenado à morte pelo seu próprio povo numa farsa de tribunal quando devia ter sido julgado por crimes contra a Humanidade, um completo e louco programa iraquiano de ocultação de armas foi descoberto e foram desenterrados das areias do deserto tudo desde aviões a centrifugadoras para o enriquecimento de urânio (a que os americanos foram levados por um cientista iraquiano empregado pelo Saddam), foi descoberta uma ligação de venda de armas nucleares que ligava Saddam à Coreia de Norte que se lhe preparava para vender armas nucleares, eleições livres foram institucionalizadas no Iraque e os curdos formaram uma sua região autónoma e secular. É claro que há parte dessa região autónoma, o Iraque via eleições está entregue aos partidos de Deus na mesma, e cravejado de terrorismo nas suas ruas e cidades, mas não foi tudo em vão e a democracia é tão benéfica quanto a maioria dos seus cidadãos o conseguem ser. Mas parafraseando Jefferson, eu prefiro uma democracia perigosa a uma ditadura passiva ou benigna.
A guerra do Iraque foi declarada unilateralmente pela auto-intitulada Coligação do Voluntários, EUA e Grã-Bretanha, mas tal não precisava de ter sido. Podíamos apenas ter feito uma acção de libertação, com umas Nações Unidas mesmo Unidas, ajudando a revolução que já estava a ser levada a cabo pelo exército de libertação curdo. Exactamente como aconteceu quando Portugal e outros ajudaram a libertar Timor Lorosae das garras dos islamofascistas de Jacarta. Nós, levados por um sentimento de culpa por termos abandonado essa ex-colónia ao seu destino após a Revolução dos Cravos, deixando-a à mercê duma Indonésia teocrática, e os Australianos por exemplo porque queriam o seu petróleo e ficaram mui magoados quando Timor optou por se tornar país de língua oficial portuguesa ao invés de língua inglesa. Se quiserem um cheirinho do que foi essa guerra, em forma romanceada, sugiro o mui excelso “A Ilha das Trevas”, de José Rodrigues dos Santos. E não, não acho que nós tenhamos lá ido pelo petróleo. Porquê? Porque são os australianos que estão a ganhar disso e não nós. Talvez a GALP lá tenha um dedinho, confesso que não sei.
De qualquer forma, o problema repete-se agora na Síria. Estamos à beira de gerarmos outro “Iraque II”. Se não conseguem imaginar o filme, ei-lo: os EUA entram, desta vez completamente sozinhos, sem tropas no terreno, bombardeando com drones e outros meios, gerando sem dúvidas danos colaterais (= mortes de inocentes não combatentes). Se armarem mais os rebeldes, que são da mesma ideologia do Irmandade Islâmica e da Al Qaeda, estão potencialmente a criar mais Bin Ladens. O próprio Barack Obama disse que não podíamos correr o risco de que o arsenal químico do Assad ficasse nas mãos deles. Mas pior, entre os refugiados e os que não se conseguirem refugiar e perderem familiares numa guerra que não entendem, lembrar-se-ão das bombas e dir-lhes-ão sem recorrer à mentira que vieram da América. Serão fáceis alvos dos recrutas das organizações islâmicas de terrorismo. Motivados por desejo de vingança, fortificado pela crença no Alá que lhes venderem, serão mártires jihadistas. Se a via diplomática falhar, é isto que teremos. Mas algo tem de ser feito, dirão alguns! Concordo.
O que devia ser feito, caso a diplomacia falhe, seria uma força multinacional da ONU, no terreno e mais que bem equipada para a guerra química, a segurar as pontas de ambos os lados e a restaurar a paz no país. Depois remover-se o ditador, ir-se a eleições e sair. Dir-me-ão, depois segue-se o “Egipto II” ou um “Irão II”… aí já será problema deles. O papel da ONU deve ser apenas proteger os inocentes, procurar parar guerras ou genocídios, e assegurar a democracia. Nada mais.

Até porque, para mim, a guerra contra o fundamentalismo islâmico no geral só pode ser ganha de dentro do próprio Islão e quem terá a melhor hipótese de o fazer são as mulheres islâmicas. Porquê? Bem, se se conseguir que elas recebam uma boa educação, de preferência (sonho eu) secular, elas poderão melhor formar os seus filhos e assim impedi-los que eles caiam nas garras do fundamentalismo religioso. Nenhuma mãe digna desse nome deseja a morte do filho, mesmo por Alá. Já o policiamento internacional imperialista por parte dos americanos ajuda os sacerdotes islamitas a convencer os seus peões de que a guerra santa é também justa e contra a opressão capitalista norte-americana. O que se quer é que o Islão se torne todo moderado, como já foi no auge da sua civilização, quando inventaram a Álgebra e avançaram a Óptica.
Por exemplo, Christopher Hitchens falava muito de no Irão ter havido, produto da insanidade da guerra que Saddam moveu a este país, um “baby boomerang”! A expressão de baby boom significa uma nova geração que tenha inovado em alguma coisa face às anteriores. O baby boomerang do Hitch significava que, quando o Saddam atacou o Irão, eliminou muitos dos jovens iranianos. Isto levou a que os teocratas locais dissessem às mulheres do Irão que voltassem a restabelecer as fileiras iranianas, um “crescei e multiplicai-vos” of sorts. Agora, o Irão tem uma população rejuvenescida mas, tendo crescido na ditadura teocrática e num país sem pais ou avôs, é muito crítica do regime actual o que poderá levar a sua remoção. Do Irão, já se ouviu que não desejam que o que está a acontecer na Síria lhes aconteça a eles, que preferem fazer a sua própria revolução mas de forma pacífica. Ainda bem para eles. Só espero que o façam antes dos seus líderes loucos chegarem à Bomba! Portanto, uma das suas políticas de natalidade poderá destruir o próprio regime totalitário iraniano que a criou, daí baby boomerang, eles atiraram-no mas ele deu meia volta e acertou-lhes em cheio. Insh’Allah! Mais uma vez, a solução é a educação pois reside nos ombros dos jovens.
Uma ironia do destino fez com que na guerra contra o Saddam Hussein, tal como na guerra do Hitler, forças capitalistas e marxistas convergissem. Interessante, não é?
Voltando à questão das armas e da Constituição Norte-Americana, bem vistas as coisas, a sua 2ª Emenda tem menos consequências benéficas práticas ou verificadas que o artigo 9 dos Japoneses. Esta é a emenda que consagra o direito à posse de armas a um cidadão norte-americano. Originalmente, a emenda foi feita para impedir que um povo temesse o seu governo, que na opinião dos Pais Fundadores era o que constituía a ditadura. Eu até comungo desse sentimento, o povo não pode temer o seu Estado, muito menos o seu Governo. Pois bem, quando é que essa emenda serviu nesse sentido em termos práticos? Terá sido durante a Lei Seca, durante o McChartismo dos anos ’50 do século passado, durante a Guerra do Vietname, durante a Luta dos Direitos Humanos, durante o vigor do Acto Patriota que já era para ter sido revisto e contínua incólume? Não, nunca foi usado desde que os ingleses foram corridos. E o mais engraçado é que as sondagens dos próprios americanos mostram que 80% dos constituintes desejam mais controlo nas armas e mesmo assim a recém criada proposta BIPARTIDÁRIA (dos dois partidos do poder) para tal efeito foi recusada no senado americano. Liberdade democrática? Humm… não me parece que a posse de armas a assegure. Já o Japão neste departamento, que é um país tão democrático como os EUA ou Portugal (o que digamos quer dizer que não é verdadeiramente democrático, apenas oligárquico, mas essa discussão fica para outro dia), é um país sem armas. Diz o artigo que uso como fonte [aqui linkado] que no Japão, o país com menos armas em mãos privadas do Mundo e provavelmente o que tem mais restrições na obtenção legal de armas de fogo, teve resultados excelentes no que diz respeito a mortes por armas de fogo. Em 2008, o Japão teve um total de 11 homicídios por arma de fogo, enquanto que os EUA tiveram 25 mil. Mas isto é um ano mau para o Japão, pois em 2006, teve um total de duas (2) mortes por arma de fogo e quando em 2007 o número subiu para 22 isso tornou-se num escândalo nacional no Japão. É acrescentado que quase ninguém possui armas de fogo no Japão, visto que a maioria é ilegal e que é comprar e manter as restantes é um processo oneroso. Até os Yakuza, a máfia japonesa, prefere não usar armas de fogo visto que mortes desse tipo captam demasiada atenção noticiosa ou mediática que os gangsters nipónicos preferem evitar. Segundo o artigo, a Lei Japonesa, 1958, proibiu a posse de qualquer arma de fogo por parte dum cidadão, tem vindo posteriormente a abrir algumas excepções. O artigo abre aludindo a como se podem encontrar em Waikiki, no Hawai, pessoas na rua a distribuir panfletos publicitários, muitas vezes escritos em inglês e japonês, para captar turístas para o Clube de Tiro local. É um choque civilizacional quando os turistas japoneses recebem esses panfletos e quando vão ao dito clube disparar uns tirinhos, possivelmente saberão que se estivessem na sua terra estaria a cometer três crimes: empunhar uma arma de fogo, posse de munições não licenciadas, e o disparo de uma arma de fogo. A primeira das 3 ofensas pode ser punida no Japão por até 10 anos de cadeia. No Japão, as armas de fogo que um cidadão pode obter legalmente, mas com muita dificuldade, são caçadeiras (shotgun) e pressões de ar. O processo legal de obtenção de armas de fogo foi descrito num ensaio de David Kopel, cidadão americano membro da National Rifle Association (associação nacional de espingardas):

1 – o cidadão tem de frequentar um worshop de um dia, findo o qual é testado e tem de passar no teste. O workshop só acontece uma vez por mês;
2 – depois de passar nesse teste, o cidadão tem de frequentar e passar um curso numa carreira de tiro;
3 – feitos os dois primeiros passos, há que ir ao hospital fazer uma análise a estupefacientes e um testes de sanidade mental (é dito que o Japão é único nesta imposição de exigir a certificação da saúde mental dos potenciais possuidores de armas), os resultados dos quais a pessoa tem depois de entregar junto de oficiais da Polícia;
4 – finalmente tem de passar por uma rigorosa investigação do seu passado, sobre se esteve alguma vez envolvido em actividades ilegais, etc…;
E pronto, se passar, já pode ir comprar a sua caçadeira. Resta-lhe apenas informar a polícia sobre o local exacto na sua casa onde a guarda, e o mesmo se aplica às munições, sendo que a arma e as munições têm de ser guardadas fechadas e separadamente. Depois ainda tem de se recordar de levar a arma para inspecção policial uma vez por ano e refazer o teste de 3 em 3 anos!! Ufa, já estou exausto…
Duvido que por lá se cace como cá em Portugal! Seria a revolução se alguém cá quisesse fazer isso, porque diz o Público que um (1) Português em cada três (3), está possui uma arma. Eu não me oporia e digo isto sendo possuidor de 2 pressões de ar, uma de mola e uma de gás, e já tendo tido a experiência de disparar uma pistola semi-automática numa carreira de tiro.Posso dizer que não me saí nada mal e, com a experiência das minhas pistolas pressões de ar, assim que me habituei ao coice da explosão da pólvora, acertei o centro do alvo 2 vezes. A esperiência fez-me lembrar uma frase da obra de arte do Bruce Lee chamada "Enter the Dragon": "Any bloody fool can fire a gun.", traduzindo livremente: qualquer perfeito idiota pode disparar uma arma. Id est, não é preciso grande habilidade para se ser perigoso com uma arma de fogo na mão.

Não podia deixar de aproveitar este post para o N.I.N.J.A. Samurai fazer uma intervenção participativa no recém aquecido debate constitucional português, já que o Ministro Poiares Maduro (ex-acérrimo atacante e crítico das políticas deste governo, agora seu ávido protector), alegado ministro de Desenvolvimento Regional, para mim Ministro da Desinformação Nacional, diz que o debate sobre a Constituição não pode ser exclusivo dos Juízes. Começarei por tentar responder à pergunta chave e idiota do senhor actual Primeiro Ministro (PM). Ei-la formulada pelo próprio:
Ora, digo que a pergunta é idiota porquê? Porque a Constituição não assegura o trabalho a ninguém, tal como a restante Lei não o faz, seria impossível. O que a Lei deve fazer é apenas providenciar uma base legal que assegure os direitos do trabalhador, pois este vai estar sempre em desvantagem negocial perante a entidade empregadora. Mas esqueçamos isso. A Constituição não criou a Crise Económica de 2008, a Banca de Risco e a sua avarenta e endémica toxicidade é que criaram. A crise económica-social-estrutural do Estado Português, não foi criada pela Constituição, foi criada pela promiscuidade do Estado com o Sector Privado, via sucessivos governos PS-PSD, ao longo de quase 40 anos.
À PARTE: Aliás, o sector privado neste país é uma anedota pegada. Vejam-se como quando o estado fechou torneiras à comparticipação de medicamentos, quantas farmácias não fecharam todas elas privadas, sobrevivendo do estado. As PPP’s e os SWAP’s que por aí andam incólumes a encher bolsos privados, comendo directamente da dívida pública que suga os nossos impostos. A EDP e as suas rendas intocáveis que anularam Álvaro Santos Pereira. Sector privado onde se é o estado que está a alimentar esta gente toda?? Ah, é privado no sentido de que os lucros não favorecem o Zé (Povinho, leia-se) mas sim o senhor Dr José “Polvo”, cujos tentáculos estão bem firmados nos partidos do Poder. E as empresas realmente privadas, que sobrevivem sem as benesses estatais, são não têm espaço para crescer nacionalmente pois outras o ocupam, gozando do proteccionismo estatal. Pensem nisso.
Mas adiante. De qualquer forma, como matriz de uma lei que protege os direitos do trabalhador (logo e sim, de índole marxista [como não podia deixar de ser considerando que Comunismo, Socialismo e Social Democracia são ideologias provenientes do Marxismo]), que tem uma certa lógica sendo que é o trabalhador (e isto inclui trabalhadores de colarinho branco e azul) também o contribuinte do estado, pelo menos impediu o Governo actual de criar mais não se sabe quantos novos desempregados sem, algo que até a nada democrática União Europeia consagra como essencial, justa causa, e sem direito a subsídio de desemprego nem nada.
Ficariam dessa forma mais desprotegidos os funcionários públicos que os do privado. Íamos do 8 ao 80. A constituição, shôr Passos Coelho, protege o empregado, não arranja emprego ao desempregado. Tal como o Estado, de um ponto de vista liberal (que se julgava ser o seu), não o faz. O Estado só tem de providenciar as condições para que esse emprego possa surgir. Como? Ora, NÃO asfixiando a economia aumentando os impostos tanto no Consumo como nos Rendimentos, ao mesmo tempo que promove a baixa de salários, que inexoravelmente leva a uma perda de poder de compra, seguida de uma baixa de comércio interno, que implica menos receitas fiscais. Ao fim de 2 anos ainda não percebeu? Ah espera, ele antes das eleições onde foi eleito até sabia isso, não era?!? Deve ter comido queijo...
Quanto ao Tribunal Constitucional (TC). Ora bem, o Tribunal Constitucional só serve para ver se as leis que o sr PM e o seu ilustre e demagogo séquito aprovam em Conselho de Ministros não infringem a Lei consagrada na Constituição. E a interpretação feita por esses juízes, nomeados por PSD e PS essencialmente, segue regras pré-estabelecidas sobre o qual vossa excelência não sabe puto, sendo tão ou mais leigo que eu nessa matéria. Não é uma interpretação livre e como dá jeito, como quando se lê um poema ou a Bíblia, ok?
Por fim de resto, a sua miserável estratégia de culpar o TC p'lo vindouro aumento de impostos que todos sabemos aí vir, convenientemente depois das Eleições Autárquicas (como disse o Ministro da Solidariedade muito solidário com os autarcas que quer eleger em coligações PSD-CDS por esse país fora "Não é momento de se subir impostos" [link para fonte]), é uma patranha que é preciso um completo vegetal mental para engolir. Se até a Ferreira Leite diz, com uma (in)característica sobriedade lógica, que mesmo que o TC tivesse aprovado a Mobilidade Especial, o senhor PM teria de esperar 1 ano (12 meses), segundo a lei que ele criou, antes de poder despedir fosse quem fosse. Sendo esse o caso, que é (basta ler o enunciado da Mobilidade Especial), como é que isso influência alguma coisa o Orçamento para 2014, visto que faltam menos de 4 meses para acabar 2013? Senhor Primeiro Ministro, "não" seja "piegas", sim?
Já agora, sabem em que artigo da Constituição Portuguesa vem estabelecido o Princípio da Igualdade que tanto tem levado o TC a contrariar o Governo?
Irónica coincidência, em Portugal também é o artigo 9 que está a ser alvejado pelo governo actual.
Mas voltando à pergunta do Passos Coelho, esquecendo as contradições do seu discurso aos zombies sem espírito crítico que o aplaudem enquanto frequentam a sua “universidade” de Verão laranjita, sequiosos de um futuro de “tachos” (e não me refiro na restauração que o seu IVA insiste em destruir), avanço uma resposta directa. Eu acho que a Constituição arranjou emprego a este cidadão, que nela se baseou para se negar a pagar impostos na base de que tinha a prioridade de alimentar os filhos:

Sou o único a achar estranho que o homem há meses desempregado, depois de sair nas notícias com tanto alarido, tenha arranjado emprego por outra razão? Se eu tivesse uma empresa e precisasse de um gestor criativo, não pensaria duas vezes a contratar este Matemático pela sua óbvia criatividade na resolução de problemas difíceis num contexto social e legal.
É possível pero no lo creyo que, ao fim de 2 anos, seja apenas coincidência acontecer quando sai nas notícias o seu, na minha opinião, espectacular gesto de cidadania pura! Portanto, senhor Pedro Passos Coelho, meu primeiro ministro no qual não votei, por qué no te callas?!? A Constituição arranjou emprego a 1 cidadão... quantos mandaste tu para o Desemprego? Quantos mais ainda para lá queres mandar?

Para terminar, é claro que o PM pode opinar sobre as decisões do TC, mas a opinião avançada por Passos Coelho só revela uma completa ignorância sobre as bases fundamentais de uma democracia tripartida, o que não deve ajudar nada (ou não deveria num país de jeito e com espírito crítico) ajudar a uma futura reeleição. De resto, é óbvio que a Constituição não é imune a alterações, não é um texto sagrado. Mas depois das trapalhices deste governo de Coligação com falta de cola e com um (In)Seguro a chefiar o PS, é mesmo este tipo de gente que queremos a mexer na nossa Constituição, enquanto são puxados cordelinhos de uma Troika que só quer baixar salários para competir com a China? Serão as alturas de crise as melhores para pensarmos friamente em que país queremos viver?
Eu posso avançar já 3 alterações:
1)      que se retire a protecção extra que há para quem momentaneamente ocupe o lugar de Presidente da República. Qualquer cidadão, se se sente injuriado pode levar outro a tribunal por isso e é uma questão de provar o seu caso. Que o momentâneo ocupante do posto de PR seja mais que os outros só me parece uma reminiscência dos tempos da Outra Senhora. Uma cláusula de não se questionar o Líder. Fuck that is what I say. “Quem quer respeito, dá-se ao respeito”, citando o meu povo e parafraseando George RR Martin “Quem tem de afirmar aos outros que é rei, não o é.”. Case & point, ninguém fez abaixos assinados para demitir o Sampaio ou o Eanes, mas eles também não disseram que eram solidários com o seu povo sofredor pois com 10 000 euros não conseguiam pagar despesas;
2)      estipular-se o número de ministérios que há, independentemente do governo que lá estiver e um número máximo razoável (veja-se o exemplo da Alemanha por exemplo) de adjuntos, secretários, acessores e motoristas que cada um possa ter, bem mais baixo que o actual, que cada governo possa nomear;
3)      copiarmos o artigo 9 japonês.
Aposto que o Partido do Estado não faria nenhuma destas alterações, particularmente aquela que lhes nega a possibilidade de darem os tachos que quiserem.
Olhando para o meu próprio raciocínio, começo eu próprio a perceber que o Artigo 9 dos Japoneses não tem nada de sonhador e tem muito mérito pragmático para além do mérito civilizacional (caso saibam inglês cliquem aqui para aprofundar o tópico). Não é abdicar do direito à autodefesa. Não se trata daquilo que eu considero uma parvoíce, como a completa e unilateral desmantelação de forças militares como quer o Bloco de Esquerda. Não é uma cláusula de não resistência perante a agressão, como o famoso “dar a outra face” de Cristo. É apenas a simples rejeição da violência como solução aceitável para crispações no plano internacional e sobretudo uma rejeição da noção de que fazer guerra deve ser considerado um direito soberano de uma nação.
Por outro lado, ao escrever este post, consolidei também aquilo que já antes achava, que a cura da Humanidade, a emancipação intelectual desta última, e a evolução da sua liberdade democrática estão ligadas inexoravelmente e totalmente dependentes de um dos pilares da nossa civilização: a Educação. Não nos esqueçamos nunca que o nicho evolutivo que nos permitir ascender como espécie dominante deste nosso berlinde azul foi a capacidade de aprender e raciocinar, conjugada com a partilha e contínua transmissão de conhecimentos de geração em geração. Durante milénios, os seres humanos tiveram uma esperança média de vida de cerca de 20 anos e pouco ou nenhum conhecimento passava, a não ser o mais básico. Não havia experiência acumulada, nem velhos ou outro meio para a reter. No plano civilizacional, é a educação que permite a inovação e é também chave da competitividade económica, por muito que vos queiram vender que essa advém apenas de baixar salários e gerar mão-de-obra escrava ou quasi-escrava.
Se entendermos que o artigo 9 da Constituição Japonesa é um artigo progressista e sem contradições pragmáticas (pois não impede a manutenção da segurança soberana do seu povo), é importante perceber que numa altura de grande tensão militar no Pacífico, devido às Coreias e às ilhas Senkaku, este artigo está em perigo de ser revogado, estando debaixo da mira do Partido Liberal Japonês, actualmente no poder. Um partido, que tal como o nosso, anda às avessas com a constituição pela qual jurou servir a sua pátria. No caso japonês, nota-se um enorme à vontade bélico do seu actual governo, sendo que foi um dos países que apoiou o ataque norte-americano à Síria sem antes terem sido esgotadas todas as opções. Felizmente, a Rússia e os EUA já concordaram nos termos que apresentarão ao Assad para este entregar o seu arsenal químico: http://www.publico.pt/mundo/noticia/eua-e-russia-chegam-a-acordo-para-eliminacao-de-armas-quimicas-na-siria-1605822. Pode ser que desta forma se evitem os bombardeamentos e a morte de mais civis inocentes, ao mesmo tento que se esfria a nova Guerra Fria entre a Federação Russa e os EUA.
No passado dia 9 de Agosto, decorreram 68 anos desde que as Bombas caíram sobre Nagasaki e Hiroshima. Os japoneses marcam sempre o dia dessa tragédia, para alguns totalmente desnecessária por parte dos americanos, que já tinham a guerra ganha nessa altura. Durante o ano, muitas vozes se elevaram em defesa do artigo 9, precisamente por se recordarem onde leva a mania da guerra. A estas juntam-se também acções populares anuais, como a Marcha pela Paz.
Este ano, a Marcha pela Paz começou com cerca de mil pessoas, entre as quais a activista filipina Malaya Fabros. A activista anti-nuclear produziu no seu blog (fonte) uma excelente introdução ao Gensuikyo (Conselho Japonês contra as Bombas Atómica e de Hidrogénio), à história da Marcha pela Paz, à velha estrada de Tokaido (no período Edo, era a via que ligava Tóquio e Quioto), mas também fala das culturas diversas do Japão por onde passa e fala do desejo de muitos japoneses de se quererem redimir pelas acções do seu país durante a Segunda Guerra Mundial, e claro não se esquece de mencionar os esforços para salvar o artigo 9 e as acções contra a tecnologia nuclear. Está em inglês e é óbvio que não posso traduzir tudo, mas continuando no tópico desta entrada, aprofundemos um pouco a Marcha da Paz.
Esta última começou em 1958, quando um monge de Hiroshima decidiu colocar os pés ao caminho e ir a Tóquio participar da Conferência Mundial. Pelo caminho, juntaram-se ao monge muitas pessoas que o acompanharam, e desde então, sem nunca falhar um ano, entre 6 de Maio e 4 de Agosto é realizada a Marcha pela Paz no Japão. Uma tradição bem mais bela e valorosa que qualquer peregrinação a Fátima ou Santiago de Compostela, para ir pedir favorezinhos ao ditador divino. Tem objectivos mais nobres e o seu sucesso não assenta em crendices mas sim na mudança das ideias e vontades humanas e terrenas.
Outros também participam desta luta, como o mestre do Anime, Hayao Miyazaki demonstrando o seu desagrado perante a posição do actual governo japonês perante o Artigo 9.
Este ano curiosa e ironicamente, de forma talvez nada inocente por parte dos organizadores, realiza-se em Novembro e no Japão, uma Conferência internacional chamada "Paz como uma Língua Global":
Por minha parte, não posso de momento e por razões económicas ir ao Japão participar da Marcha pela Paz nem tão pouco ir à Conferência supracitada, mas posso guerrear pela Paz no Mundo, não desejando-a meramente, de forma politicamente correcta e superficial como um qualquer estereótipo de miss num concurso de beleza, mas sim pensando, falando, e escrevendo sobre isso como estou a fazer. Mais, posso reforçar a ideia do horror da Guerra, não com as minhas fracas palavras, sem conhecimento de causa ou os laivos poéticos necessário para tal, mas sim com as poderosas palavras daqueles que me inspiram a aspirar ser escritor.
A Poesia de Guerra é essencial para a crítica a esse membro tão terrível dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse e é também, ao que parece, comum por todo o mundo. Do Japão, pela caneta de Mitsuyoshi Toge (link para a fonte em inglês), um poeta católico japonês de Hiroshima, surge “I Could Never Forget the Flash” (Nunca Pude Esquecer o Flash):

Eu nunca consegui esquecer aquele flash de luz,
Num momento, trinta mil pessoas deixaram de ser,
Os gritos de cinquenta mil mortos
No fundo de uma esmagadora escuridão;
Através de fumo amarelo que rodopiava para a luz,
Prédios dividem-se, pontes colapsam,
Eléctricos cheios ardidos enquanto rolavam
Por Hiroshima, todos cheios de montes ilimitados de brasas.
Logo depois, peles penduradas como trapos;
Com mãos sobre os peitos;
Calcorreiam sobre os cérebros destroçados;
Usando retalhos de pano queimado em torno das entranhas;
Vieram fileiras incontáveis de nus,
Todos a chorar.
Corpos no chão da parada, espalhados como estatuetas de Jizo atiradas ao desprezo;
Multidões em pilhas à margem dos rios, carregadas em jangadas amarradas à margem,
Transformados em cadáveres sobre o sol escaldante.
No meio de chamas atiradas contra o céu nocturno;
Ao largo da rua onde mãe e irmão estavam encurralados vivos debaixo da casa ruída,
A cheia de fogo prosseguiu.
Em camas de porcaria no chão do Arsenal,
Carradas, e Deus sabia quem eles eram…
Carradas de meninas de escola deitadas em recusa
De barriguitas saídas, zarolhas, como metade da sua pele arrancada por completo.
O sol brilhou e nada se mexeu,
A não ser as moscas zumbidoras nos alguidares metálicos
Fedendo com obscenidades estagnadas.
Como posso eu esquecer essa quietude
Prevalecendo contra uma cidade de trinta milhares?
No meio dessa calma,
Como posso eu esquecer os suplicares
De partidas mulheres e crianças
Através das suas órbitas oculares
Cortando através das nossas mentes e almas?


Ou escutando, Fernando Pessoa e “O Menino de sua Mãe”:

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.

Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»

Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe.



E pela potente voz de Christopher Hitchens, surge o poema de Wilfred Owens, “Dulce et Decorum Est”:

Quando vi este vídeo do Hitch, e o ouvi recitar o poema, viajei de imediato à minha infância, quando um episódio em particular da série televisiva “As Crónicas do Jovem Indiana Jones” me deu pesadelos durante semanas. É que de certeza que quem escreveu a cena que se segue, conhecia bem este poema de Owen e foi por ele inspirado. Ora vejam:
E por fim, para aligeirar a tensão, a crítica poética mas satírica, pelas palavras e música de Tom Lehrer, em “Who’s Next?”:

Absorvam as palavras, imaginem as imagens. Para aqueles de nós que nunca pisaram o campo de batalha, que tiveram essa sorte de nunca o pisar, esta é a maneira mais próxima que temos de imaginar a sua horrenda realidade, salvo seja um filme bem feito e não apologético ou que não tente glorificar a guerra.
Peace out, my brothers and sisters, & in times of crisis keep safe your Constitutions ,\/n

P.P.S.: Tive de adicionar este vídeo do Ricardo Araújo Pereira à última da hora. É um seu comentário a um livro, cuja história se passa durante a Primeira Guerra Mundial, mas é um livro de humor. É uma outra reflexão sobre Guerra, Morte e Vida, de uma perspectiva cómico-satírica. Fiquei com vontade de ler o livro:
O Bom Soldado Švejk | FNAC Colombo 13.12.2012
P.P.P.S.: Mais uma pérola do Ricardo Araújo Pereira que aqui me parece pertinente citar: