Eu disse no meu Facebook, na
segunda semana de campanha, que “a bola está com o povo” e não errei. O povo português castigou os PaF, que mesmo assim tentaram disso fazer uma vitória. O povo português fortaleceu a CDU e o BE, não dando a maioria ao PS, forçando este último a, se quiser governar liderando, terá de fazer entendimentos à Esquerda.
O PS não tem maioria, nem sequer
relativa. Mas o PS tem a maioria entre as forças da Esquerda (ou seja, pode
liderar essas forças num entendimento de governo), e a Esquerda (unida jamais
será vencida!?) tem a maioria absoluta no parlamento pós eleições legislativas
de 2015.
Portanto, neste momento, em que
CDU (onde eu votei) e BE estão alinhados nas questões macro-económicas (e,
asseguro-vos, nenhuma destas forças políticas quer sair do Euro, nem no dia em
que sejam empossadas como governo de coligação com o PS, nem dois anos depois,
nem 4 anos depois – explicarei mais adiante porquê), em que os portugueses
decidiram espalhar uma maioria absoluta por três partidos que se assumem como
de Esquerda (como que a garantir que para eles governarem teriam de se
entender), se surgir um bloqueio entre as forças de Esquerda, esse bloqueio
é objectivamente gerado no PS. Se há 3 partidos e dois estão alinhados, se o terceiro
não se abre ao diálogo real e sincero para tomarem conjuntamente as rédeas do
país, ainda em profunda crise, para resolver essa crise com soluções de
esquerda (visto que as de Direita falharam), então objectivamente esse terceiro
partido não quer governar à Esquerda e, portanto, constitui o Bloqueio à
Esquerda de que tanto se fala neste país e que se costuma atribuir ao PCP.
Completando este xeque (se me
permitirem uma expressão do Xadrez), pois é em posição de xeque que o PS está
actualmente, o próprio PCP apela ao PS para se juntar à Esquerda (e não há
Direita), afirmando que o PS tem condições (ou seja, que há condições para se
forjar um acordo entre os 3 partidos da esquerda no parlamento) para retirar da
equação de governação a Direita e governar à Esquerda. O PCP afirmou que o PS
só não é governo agora se não quiser e que o PaF só será governo se o PS deixar.
O BE está em uníssono com o PCP nisto. Mas há mais…
Como é conhecido, o
centro-esquerda convencional (a Internacional Socialista) está em vias de extinção
como alternativa de governo. Repare-se que na Grécia, o PASOK desapareceu para
níveis de votação próximos do KKP (o partido comunista grego, ~6% dos votos),
sendo substituído pelo Syriza, que ocupou o centro esquerda grego de tal forma
que já nem lhes chamam radicais. Os Trabalhistas no Reino Unido não conseguem
retirar o poder aos Conservadores. Possivelmente o Podemos poderá roubar o
eleitorado do PSOE em Espanha brevemente. E sabemos bem as dificuldades do
monsieur Hollande em França (que embora no poder, pouco pode ou pode pouco) e
está sempre baixo nas sondagens. Isto acontece por várias razões.
Historicamente, os Socialistas Europeus
eram a alternativa à Esquerda para quem não queria votar nos Comunistas ligados
à URSS. Mas o Muro caiu, o mundo mudou, e a maioria dos partidos comunistas
mudando com o mundo acabaram por definhar. O PCP, que se manteve fiel a si
mesmo, é dos poucos partidos comunistas com peso real na política do seu país.
Mas agora que já não há União Soviética, qual é o papel dos Socialistas? Nesta
perspectiva, os Socialistas tiveram de mudar necessariamente e o que fizeram
foi ocupar o centro, assumindo políticas económicas de Direita num mundo onde,
aparentemente, o Capitalismo venceu a Guerra Fria. Qual o problema disto? É
simples. A casa ganha sempre! Se se vai jogar no terreno do outro, segundo as
regras do outro, é normal que o outro nos ganhe o jogo. O erro dos Socialistas
materializa-se no actual Tratado Orçamental, exclusivamente criado segundo
pressupostos económico-financeiros do Centro Direita, que não permitem aos
Socialistas (se estes o respeitarem à letra) executar políticas económicas de
Esquerda e, dessa forma, não se conseguem apresentar como uma verdadeira alternativa
às forças políticas do Centro Direita. Isto, em traços largos, explica o
definhar dos Socialistas Europeus.
Se António Costa for realmente,
como dizem e esperam muitos socialistas e simpatizantes do PS que nele votaram,
um homem politicamente inteligente e que deseja governar o país, à Esquerda
como afirmou em Campanha e como alternativa ao governo PaF, perceberá que a
única forma de transformar esta derrota eleitoral numa vitória estrondosa é
fazer cumprir a vontade da maioria absoluta em Portugal e criar um governo de
coligação PS-BE-CDU, tornando-se Primeiro-Ministro legítimo de Portugal.
Só dessa forma, Costa
poderá salvar não só a sua carreira política, como o próprio Partido Socialista
da extinção.
A primeira parte da frase acima
será fácil de perceber porquê. Costa só poderá converter esta derrota eleitoral
do PS numa vitória, se se tornar primeiro-ministro apesar dessa derrota. E pode
sê-lo, pois a CDU e o BE estão a isso abertos (e as condições que pedem, de que
falo mais abaixo, são fáceis do PS satisfazer). E só convertendo uma derrota
numa vitória, poderá Costa sobreviver como líder do PS. Reparem que se o PS se
coligar à PaF, no máximo roubará o posto de Vice Primeiro-Ministro ao Portas,
nunca poderá liderar essa solução de governo. Isto é claro e inequívoco. Mais,
se Costa sair agora derrotado, a sua carreira política acabou. Portanto, por
auto-preservação Costa tem de fazer o que Sócrates não teve coragem para fazer
em 2011: unir a Esquerda em Portugal, quebrar o bloqueio à Esquerda e, dessa
forma, governar. Esta é também a forma de Costa se descolar e distinguir do fantasma (político) de José Sócrates! É um dois em um.
Não era essa a força de Costa, ser bom a criar entendimentos?
A segunda parte da frase é
igualmente lógica. Para o PS se manter um partido de Centro-Esquerda, não pode
agora aliar-se a uma direita castigada nas eleições (pouco, na minha opinião,
mas eficazmente) em mais de 700 mil votos.
Mais, em situação de ainda crise
nacional (dívida altíssima e impagável nos moldes actuais, o desemprego
altíssimo mesmo que usemos os números oficiais e sem que o emprego cresça, um
défice descontrolado, um PIB retornado a níveis de 2001, com o Estado Social a
ser privatizado e em risco de implosão, etc…), se o PS tem oportunidade de
liderar uma maioria absoluta, pode mesmo escusar-se de o fazer perante o país
apenas na esperança de causar uma crise política mais tarde e governar
sozinho?? Não terá isso um pesado custo político?
O partido Socialista tem uma
imagem a manter (e já dizia o Salazar da sua cadeira abaixo “Política é
Perceptibilidade”) que não se pode dar ao luxo de perder: a imagem de um
partido que assume responsabilidades de governo e que é responsável. Portanto,
a sobrevivência política do PS depende, única e exclusivamente, da sua
capacidade de tomar as rédeas do país agora. Se não o fizer, não se lembrarão
disso os Portugueses daqui a dois anos? Não dirão “Esses xuxalistas só querem é
tacho! Porque não governaram logo em 2015?” E não votarão esses portugueses
então antes à esquerda no BE e na CDU, ou à direita no CDS e no PSD? Não
perderá o PS a sua posição no espectro político nacional se lançar os dados de
forma tão descuidada e abertamente interesseira? Eu acho que sim. Se o fizerem,
condenar-se-ão à implosão, como o PASOK. E acreditem, o Bloco e a CDU estarão
lá para capitalizar dessa implosão e facilmente se coligarão.
Concluindo então que, tanto
António Costa, como o próprio PS, necessitam de forjar este governo maioritário
de Esquerda para assegurar as suas respectivas sobrevivências políticas,
analisemos as condições para esse acordo de Esquerda:
1ª - as sondagens que davam a
vitória (relativa, na verdade empate técnico) ao PaF nas últimas eleições,
invariavelmente demonstravam que, ainda assim, a maioria dos portugueses
preferia um governo de coligação de Esquerda. Respeitando a vontade dessa
maioria (absoluta) de portugueses, um tal governo de Esquerda teria, não só o
apoio da maioria do povo, como também a concertação social facilitada visto
conseguir dialogar facilmente tanto com UGT como com CGTP, por razões a todos
óbvias. Mas mais que as sondagens, os votos dos portugueses são expressivos, e nisto tenho de agradecer o artigo do Daniel Oliveira no Expresso, que é
esclarecedor. O PS não perdeu por virar à Esquerda, perdeu porque muitos votos
do Centro fugiram-lhe para o BE e para a CDU que estão à esquerda do PS, visto
que a coligação perdeu votos e o próprio PS teve mais votos face ao que teve
nas eleições de 2011. Ou seja, todos os partidos de Esquerda cresceram face aos resultados de 2011,
incluindo o PS, mas o PS não foi esquerda o suficiente para convencer a maioria
desses eleitores que deixaram de votar PaF sem se absterem, e que acabaram maioritariamente por votar no Bloco de Esquerda.
Isto para clarificar que o povo (a maioria, neste momento) quer Esquerda no Governo. Logo o PS está legitimado para liderar essa solução, por mais que isso
desagrade a Cavaco, Passos e Portas et all ad noseum;
2ª - o PCP (no âmbito da CDU)
aligeirou muito o seu discurso anti-euro, afirmando claramente duas coisas:
devemos preparar a saída do Euro para termos um plano B quanto mais não seja
para o caso de não termos outra escolha; mas, nessa matéria, como em todas o
PCP (a CDU) respeitará a vontade dos portugueses. Desta forma, no ponto que
talvez fosse mais difícil o entendimento, o PCP dá todo o espaço de manobra ao
PS, não insistindo numa saída do Euro, apenas no estudo de como se fazer uma
possível saída, que pode bem nunca vir a concretizar-se se o Euro (enquanto
moeda) se aguentar. O BE há muito que tem uma posição aberta (podemos sair,
podemos ficar) quanto ao Euro, portanto não levantará nisto objecções;
3ª - há toda uma série de
políticas que ficaram por executar durante 4 anos que são comuns a toda a Esquerda
Portuguesa. Obras estruturais para alavancar a economia (renovar linhas de
caminhos de ferro, portos, estimular a pesca e a agricultura), a redução da
carga fiscal nas famílias e na restauração, a questão da co-adopção (e raios, a
adopção completa) por casais LGBT, a restituição do estatuto de isenção dos
dadores de sangue para evitar a escassez deste elemento no SNS, resolver a
questão do desperdício de plasma (de preferência lucrando disso o SNS,
tornando-se mais sustentável, e não as Farmacêuticas), a restituição do
anterior regime da IVG desfigurado pelo governo PaF, desfazer o mal que este
governo fez na Educação e na Justiça (que se se tornarem mais ágeis, actuais e
eficazes, ajudarão a estimular a economia portuguesa), fortalecer os direitos
laborais, salvaguardar as pensões, etc... Estas serão as bases para um
entendimento de governação. Dir-me-ão as vozes da Direita “E o Dinheiro vem de
onde?”! Vem dos dinheiros comunitários (porque não sairemos da UE) & da
libertação de verbas estatais do Serviço da Dívida (pagamento de juros) oriunda
de uma renegociação da dívida. E claro da captação de investimento privado.
4ª - António Costa pediu ao PS um
mandato para poder dialogar à sua Esquerda sobre a renegociação da dívida. Já
falei disto, é algo não só natural mas (e reparem como posso usar os argumentos
da Direita) NECESSÁRIO de fazer se queremos pagar a dívida e, dessa forma,
recuperar algum do nosso nível de vida e soberania nacional. As empresas fazem
renegociação das suas dívidas com toda a naturalidade quando chegam a situações
bem menos más que aquelas em que o nosso país está. Não é um bicho de 7
cabeças. E podemos e devemos fazê-lo indo ao encontro da Troika, bem
acompanhados dos nossos pares Irlandeses e Gregos, quiçá até Espanhóis e
Franceses. Pode e deve começar uma mudança na Europa, que começa a mostrar
perigosos sinais de se encaminhar cegamente para a auto-destruição. Podemos
inverter esse rumo, mas só em grupo. Aprendamos com a Grécia, não podemos ir
sozinhos enfrentar os credores;
5ª - e quanto ao Tratado
Orçamental, o Hollande (um socialista europeu) já o congelou (como o PaF por cá
fez a carreiras e pensões), por isso nós, não tendo necessariamente de o rasgar (mais uma vez espaço de manobra que BE e CDU dão ao PS), podemos
simplesmente dizer que não vamos cumpri-lo durante 4 anos para nos reerguermos
e podermos realmente ter condições de o cumprir, SE ASSIM DECIDIRMOS NO FUTURO.
Estão então reunidas as condições
dum governo maioritário de Esquerda, com o PS à sua cabeça, coligado com BE e
CDU, com uma maioria absoluta estável como o Cavaco quer/exige (embora não fosse esta
que ele quisesse). Não só estão reunidas essas condições como é do interesse do
PS e do seu actual líder, por questões óbvias de sobrevivência política, que
tal governo se venha a fazer. Até João Soares, que na altura das Primárias era
pelo Seguro(e percebe-se que os Seguristas são no PS actual a ala direita),
afirmou que Costa tem de se coligar à Esquerda. Até Cavaco, implicitamente
disse a Costa que coligar-se à Esquerda é a sua única saída, quando disse que
esperava “que os partidos” (leia-se o PS) “ coloquem à frente dos seus
interesses” (leia-se sobreviver politicamente) “os interesses de Portugal”.
Acontece que, na sua habitual cegueira sectária, Cavaco Silva se esqueceu que
prometeu ainda antes da campanha eleitoral que só empossaria um governo de
MAIORIA ABSOLUTA (que a Esquerda pode e deve fazer). Ao mesmo tempo, os
Portugueses ouviram Cavaco e deram essa maioria absoluta à União da Esquerda.
Qual é então a dúvida, senhor
Costa? Tem a bola nos pés, quer marcar golo ou auto-golo?
Eu gostava que as redes sociais se incendiassem por esta outra via, democraticamente legitimada, fazendo notar-se o seu apoio a um governo de Esquerda, só para o caso dos votos não serem suficientes. Manifs perante a fachada da sede do Partido Socialista no Rato, em Lisboa, também seriam boa ideia. Vá lá, anonymous portugueses, apartidários, indignados, independentes, simpatizantes do PS, da CDU e do BE, saltem do sofá. Está na hora duma viragem verdadeira.
‘Bora lá resolver esta embrulhada e fazer valer o Prólogo da
Constituição da República Portuguesa: toca a desengavetar o Socialismo e
faça-se cumprir Abril, porra!
Embora eu seja da opinião que um destes dias teremos um problema do caraças e
teremos de voltar a alterar os nossos calendários, ou mesmo a reestruturá-los
(como a dívida, ‘tão a ver?), porque já não teremos dias suficientes para todas
as coisas cujo celebrar queremos consagrar com um dado dia, este é um dia que
eu acho importante celebrar. E porquê?
O teatro é parte integrante de ser humano.
Não, não estou a exagerar. Quando em pequenos fazemos birra, explodindo em
choro por vezes sem razão nenhuma só para conseguirmos o que queremos, que é
isso se não um teatro? Quando mais tarde pegamos em bonecos, utensílios de
brincar ou apenas na nossa imaginação e nos tornamos em personagens de
aventuras imaginárias que nos ajudam a passar o dia e também a crescer e a
aprender, que mais estamos a fazer se não teatro? E mesmo não fazendo parte
daquela classe que ainda em adultos têm o privilégio de continuar a brincar ao
faz-de-conta, sendo para isso pagos, todos nós continuamos a ambicionar essa
magia que nos pode levar a fazer rir, chorar, saltar de pavor, deixar
melancólicos ou inspirar a mudar a nossa vida, essa magia do faz-de-conta que
nos traz ao de cima a criança que há em nós.
Pode ser que o cinema e as séries
televisivas sejam uma forma de teatro moderna, mas todos facilmente
reconhecemos que no teatro dificilmente há take 2 e que se as coisas correm
mal, ou o actor dá a volta rapidamente ao texto e os seus colegas o acompanham
ou tudo falha. Para além disso, a relação entre o público e a plateia é íntima
e não distante como as dos grande e pequeno ecrãs. Se é uma comédia que está a
ser encenada e não há risos na plateia, isso afectará negativamente o
desempenho do actor. O inverso é também verdade. Gera-se assim um espectáculo
que é influenciado pela empatia humana. É essa ligação empática, quasi-telepática,
que separa o teatro do cinema e da televisão. Além de que, claro está, o teatro
é milenar e o cinema não mais que centenário.
Também passam teatro na
televisão, por exemplo na RTP Memória as revistas à portuguesa ou mesmo os
episódios de Wrestling importados dos EUA. Mas não é a mesma coisa. Falta a
empatia. Eu percebi isso, estranhamente, graças ao Youtube. Descobri em 2012
que haviam encenado um musical de um dos meus filmes de culto favoritos, The
Evil Dead. Procurei no Youtube e encontrei a peça em questão, isto é, encontrei
uma videogravação da mesma. Embora a peça tenha feito imenso sucesso, embora eu
goste de teatro, de musicais e do material fonte, não consegui achar piada
àquilo em vídeo. Faltava a empatia, a atmosfera.
Eu já pisei um palco amador uma
vez, ainda muito novo, e quase por achar que tinha algo a provar… a coisa
correu mal e jurei para nunca mais. A minha fez teatro amador na sua juventude
e ao que parece o meu avô, seu pai, também. Eu sempre preferi encenar peças com
os meus bonecos. Mas até já essa capacidade perdi. Resta-me ver teatro… nem que
seja o Sócrates, o Passos, o Seguro e o Portas, actores que seguem o Método sem
dúvida, a mentirem ao país. É mau teatro, é pior que amador, é reles, mas é
teatro ainda assim.
É trágico que tenhamos, já que
toquei na política, um Presidente da República que vê um enorme potencial na
Língua Portuguesa (ideia errónea que desmascararei quando voltar a falar do
Acordo Ortográfico de 1990, me aguarrrdem!), um enorme potencial do Mar (no
qual nada faz para que neste se invista, sendo que já tenha no passado feito
muito para remover qualquer investimento nesta área), mas que não reconhece o
imenso potencial económico das artes cénicas. Sim, porque se isto da dinheiro
na Broadway, também o pode dar cá. Tal como o Cinema, já agora. Mas para a
Direita Portuguesa, a cultura mais não merece que uma mísera Secretaria de
Estado e os actores mais não são que “prestadores de serviços”. Quando este
governo tomou posse, um dos seus membros originais veio anunciar que a guerra
de classes havia acabado. Para tal, este governo prontificou-se a acabar com as
classes. Quase o conseguiu: destroçou ou afugentou a parte da classe média que
sobrevivera ao jugo de Sócrates e eliminou toda uma classe (a dos actores)
despojando-os para efeitos fiscais do seu nome de classe, tornando-os
indistintos prestadores de serviços. O Ruy de Carvalho, que cometeu o erro deneles votar, que o diga.
Verdade seja dita que não é só o
Ruy (e trato-o assim porque além de individuo de pleno direito, o senhor é um
tesouro nacional, o que o faz um pouquinho de todos nós) que se queixa, na
minha opinião com razão, mas várias gerações de actores.
Dá vontade de desejar muita merda
aos nossos governantes e aos seus mesquinhos e curtos horizontes, subjugá-los a
uma forçada emigração por via de uma chuva de patacas furibundas! Hey, o teatro
sempre serviu para castigar os costumes e satirizar a sociedade, revelando-lhe
os podres, certo?
Já agora, sabeis acaso, caro
leitor, porque é que é de bom tom desejar muita merda a um profissional do
teatro que tenha uma peça a estrear? Parece que em tempos idos, a nobreza ia ao
teatro de coche. Se a afluência a um dada peça fosse grande, a entrada do
teatro em questão ficaria ladrilhada de merda de cavalo. Este hábito de merdoso mas simpático desejar foi mais uma importação francesa do séc XIX.
Como disse o José
Hermano Saraiva, em relação a um dos 12 trabalhos do Hércules que consistia em
limpar os estábulos dos deuses: “Meus amigos, era muita bosta!
Mas a culpa é também nossa, do
povo. Ah pois é! Antes de mais por, em geral nós (embora voto meu, e eu voto,
jamais tenha eleito um governo), elegermos paspalhos sem ideias nem cultura,
nalguns casos que se fazem até chamar de doutor sem nem uma licenciatura terem,
que a troco dumas migalhas das grandes cortes europeias e duma boa próxima vida
após a chamada “morte política” prontamente se predispõem não só a estragar o
nosso país como a enterrar a nossa cultura e identidade. Depois, porque não
vamos ao Teatro, não apoiamos Cinema Português, etc… Agora é da crise, que até
é uma boa justificação, mas e nos tempos das vacas gordas, porque é que os
teatros eram tão pouco frequentados em terras lusas? Em Torres Novas, de onde
oriundo, havia um teatro que no meio tempo era cinema (foi onde de facto vi
tanto o meu primeiro filme e a minha primeira peça de teatro, de que me
lembre), que passou muitos anos fechado e abandonado, e foi recentemente
recuperado pela Câmara, mas é muito pouco usado. E contudo, na minha
adolescência, tive a felicidade de quase todas as semanas ir ao cinema, ver um
filme que estreava.
A imagem acima foi retirado do facebook de uma jovem actriz, que é também a miss CPLP 2013, a qual eu já tive o prazer de ver ao vivo, numa peça, podendo assim afirmar-vos que é bem mais que uma carinha laroca, até porque é excelente com uma máscara!
Embora muitas destas imagens exibam manequins vestidos com kimonos tradicionais japoneses, as fotos foram tiradas no palco do Teatro Nacional Dom Carlos, o qual visitei em 2012. As fotos das e sobre as patacas também vieram de lá.
Antes de começar a falar do teatro japonês (porque
afinal o blog é centrado no Japão), queria só, uma vez que é o Dia do Teatro,
falar-vos duma iniciativa bem portuguesa que em tudo me agrada e que está
relacionada com a imagem que abre este post. Refiro-me ao restauro do Palácio
do Bolhão, no Porto, pela a Academia Contemporânea de Espectáculo, em prol do Teatro
do Bolhão. Nesta iniciativa, sobre a qual melhor se podem informar no link
abaixo, procura-se, ao mesmo tempo que se dá uma casa à nobre arte, restaurar
um monumento nacional. Poderá haver causa cultural mais digna de ajuda? Em
troca de pequeno contributo monetário, podem ver o vosso nome imortalizado num
palácio da Invicta. Acho que é uma muito bela troca, se bem que injusta para a
iniciativa em si que recebe apenas dinheiro.;)
Na Língua Japonesa (e segundo o
tradutor da Google), Gekijō (劇場) é como se
diz Teatro (Link para ouvir Pronúncia – vale a pena, pois parece quase um
bramido de ovelha). Como em todas as grandes civilizações, o teatro é central
na cultura nipónica, tendo evoluído, tal como no caso português, em várias
formas: o Noh, o Kabuki, o Bunraku e ainda o teatro negro (não se preocupem,
nada tem de racista eheh).
O teatro Noh, cujo nome deriva da
palavra sino-nipónica para “perícia”, é uma das principais formas clássicas de
drama musical japonesas, e é encenada desde pelo menos do século XIII D.C,
sendo que a sua forma actual começou no período Muromachi. Muitas das suas
personagens estão mascaradas e os actores, sempre homens, interpretam tanto papéis
masculinos como femininos. Tradicionalmente, um “dia de teatro Noh” dura mesmo
todo o dia e consiste em cinco peças Noh, intercaladas de peças Kyogen, peças
mais curtas e humorísticas cujo o nome quer dizer literalmente “palavras
loucas” ou “discurso selvagem”. Presentemente, o teatro Noh consiste em apenas
duas peças Noh, intercaladas por uma peça Kyogen. É um campo de teatro muito
codificado e fortemente, regulado pelo sistema Iemoto, que dá prioridade à
tradição em detrimento da inovação. Mesmo assim, há quem faça reviver peças
antigas e já abandonadas, há quem componha peças novas e mesmo quem crie peças
que mescle esta variante com outras suas pares.
O teatro Kabuki, composto pelos
kanji 歌(cantar)舞(dançar)伎(habilidade), sendo por vezes
traduzido de forma simplista para “a arte de cantar e dançar”, consiste numa
forma muito estilizada de drama, com ênfase na maquilhagem dos artistas.
Julga-se que o nome derive do verbo japonês Kabuku, que pode significar
“encostar” ou “ser fora do vulgar”, sendo assim uma arte teatral que executa
peças bizarras ou experimentais, a vanguarda do teatro tradicional japonês. De
facto, o termo kabukimono é usado para designar pessoas que tenham uma forma
bizarra ou fora da norma de se vestir no sei dia a dia. É muito mais novo que o
Noh, tendo sido originado no século XVI D.C., período Edo da História do Japão,
quando Izumo no Okuno, uma sacerdotisa do Shintoísmo, em 1603 começou a
desempenhar uma nova forma de dança nos leitos secos dos rios, em Quioto. Este
é portanto o polar oposto do Noh, tendo actrizes a desempenhar os papéis
masculinos e femininos do quotidiano nipónico. Um dos factores que tornou esta
forma teatral muito apelativa foi o facto de muitas das trupes que a
desempenhavam estarem receptivas à prostituição. De facto, o kabuki tornou-se
norma no red light district de Edo, capital do Japão, actualmente conhecida
como Tóquio.
O teatro Bunraku, também chamado Ningyo Joruri, é a versão
japonesa de uma peça de marionetas. A componente física desempenhada pelos
mestres de marionetas, designados de Ningyotsukai, é acompanhada de uma componente
musical, os cantadores chamados Tayu e os tocadores de Shamisen (espécie de
banjo japonês). Por vezes, também juntam tambores taiko à peça. A combinação do
canto acompanhado pela melodia do shamisen é chamada de joruri e ningyo quer
dizer marioneta. Já o termo Bunraku surge do nome de um teatro muito conhecido
no Japão por exibir esta arte.
Por último, quero ainda referir o Teatro Negro, cuja técnica pode
também ser usada no Bunraku para colocar toda a atenção nas marionetas, e sobre
o qual deixo um exemplo em baixo, porque é deveras difícil de explicar por
palavras!
Isto foi só um lamiré, porque cada um destes estilos é um mundo, e
o mesmo pode ser dito das formas ocidentais, o drama, a comédia, a sátira, etc…
Um dia destes, aprofundarei, num post para cada uma, as formas japonesas aqui
para o blog. Quem sabe se não inspiro algum encenador a fundir alguns dos seus
elementos com os nossos estilos? Ao mesmo tempo, continuarei a veícular esta e outras iniciativas em prol da cultura e das artes.
Viva o Teatro, onde a arte não só imita a vida, como está viva, e como toda a vida merece ser protegida!
Como sempre, a Embaixada mandou-me novas e eis que as venho veícular, juntamente com outras que foram surgindo no meu radar. Este mês, como fazem às vezes, o email portador do boletim da Embaixada trouxe o link para o mesmo e não apenas o ficheiro pdf. Portanto, deixo-vos o link para o boletim, do qual vou realçar os eventos que acho pertinente fazer. Estão espalhados pelo mês e pelo país.
Antes de começarmos com os eventos, queria apenas expressar a minha tristeza pelo encerrar derradeiro da Majora, ficando ainda a esperança que num futuro mais risonho algum português pegue na marca e a relance (e aos postos de trabalho que se perderam) e voltemos a reforjar, mais forte e competitiva, o mercado de brinquedos em Portugal. Até lá, e a partir de amanhã dis 3 de Novembro, o Correio da Manhã (Jornal que tem um acordo ortográfico acordado consigo mesmo, imitando o que faz o estado português e ficando-se pelo mixordês e que eu não compro) faz-se acompanhar com jogos tradicionais da Majora:
Ataquemos então o boletim informativo, começando por Lisboa:
Eu estou particularmente interessado neste seguinte e vou pedir mais informações para o email indicado, para saber se posso assistir ao curso e quais as condições para tal:
Seguem-se os eventos que ocorrem em Lisboa mas também noutras cidades:
E assim chegamos ao Porto:
Em Gaia:
Também no Porto mas já fora da informação dada pela Embaixada, existe ainda este workshop:
Não esquecendo da Capital Europeia da Cultura e Berço da Nação:
Um pequeno à parte, só para congratular o Luís de Matos, o mais famoso ilusionista português,que foi premiado em Londres:
Além de conhecer alguns truques simples, com cartas e outros, sempre adorei a arte do ilusionismo embora não tenha ido muito longe nesse campo. O Luís é um exemplo para qualquer pessoa que sonhe em trazer magia à vida das pessoas sem as iludir sobre o facto de ser mera ilusão e engodo. O Ilusionismo é das poucas instâncias em que sabemos que estamos a ser enganados e podemos ter prazer com isso. Outra arte capaz de o fazer é a 7ª.
Quero também realçar algo que me esqueci de mencionar noutros boletins da Embaixada Japonesa, que é o papel da NCreatures em publicar e veícular Manga em Portugal.
Se gostam de anime e manga, não deixem de visitar o site da NCreatures, cuja versão portuguesa é, pelo menos há data, SEM Acordo Ortográfico de 1990:
E como eu acho que a Democracia Directa é o modelo que devemos adoptar para o futuro, uma das formas de nos irmos treinando para ela, além de nos mantermos constantemente informados pelos canais oficiais e por outros que arranjemos, é o irmos lendo e assinando petições com as quais concordemos. Eis algumas que eu subscrevi recentemente.
Eu esforço-me aqui por ir falando do drama de Fukushima e tenho um post bastante extenso sobre essa situação para escrever, baseado em várias notícias que têm saído na imprensa portuguesa e internacional. Mas esse post requer bem mais tempo e calma.
Note-se que os leões andam a ser mortos pelos ossos e para com eles fazer "poções mágicas" para melhorar performance sexual. Isto é ridículo e odioso. É por isso que não gosto de crendice e/ou superstição de qualquer tipo.
Não concordo que o pai que era presidiário foragido, que leva o filho de 13 anos para um roubo, e o coloca em ainda mais perigo fugindo à polícia, tenha direito a receber do oficial que matou essa criança durante uma perseguição qualquer montante de compensação, ainda para mais 80 mil euros. É de loucos. Qual é então o impeditivo ou a lição aprendida, que impeça este criminoso inconsciente e desumano de voltar a fazer o mesmo com outro filho(a)? Qual é a mensagem que está a ser dada a outros bandidos que lhe sigam nas pisadas?
Resta-me ainda deixar uma palavrinha para dois projectos.
O primeiro é da União Europeia que nos pergunta como é que impedimos tanto lixo de chegar aos mares? (link) E o segundo é sobre dois jovens que desejam restaurar o Palácio de Cristal do Porto. Eu sou todo a favor da manutenção e rentabilização (por oposição à venda) da nossa herança cultural, sejam material ou imaterial, por isso desejo-lhes a melhor das sortes e espero que encontrem o apoio que necessitam para tal. Todas as informações aqui.
Não se esqueçam que amanhã (dia 3 de Novembro) é dia de eclipse parcial do Sol. Vamos ver é se as nuvens cooperam e deixam ver. O apogeu será pelo 12h20 (hora de Lisboa) e pelas 13h já deve ter acabado. É o último deste ano. (link) Não olhem directamente para o sol. Usem filtros apropriados. ;)
Por agora é tudo e vejam lá se carregam na imagem lá em cima, que diz que eu não respeito o Acordo Ortográfico, e assinem por favor a Iniciativa Legislativa contra o Acordo Ortográfico de 1990.
Embora a imagem acima seja alusiva ao tópico principal desta entrada, começo com alguns breves à partes não relacionados.
Primeiro quero prestar homenagem àquele que é reconhecido como o “pai” do Judo
(a que ele gostava de chamar “o caminho suave”) Português, o Sensei Kiyoshi
Kobayashi, que morreu no Japão, esta passada quinta-feira, com 88 anos dos
quais viveu em Portugal mais de 50. Eu que sou praticante de artes marciais, embora
de Judo tenha tido muito poucas aulas e não passaram de mais que de uma mera introdução, respeito grandemente qualquer artista, mas sei de experiência pessoal as
dificuldades das Artes Marciais e também a realidade vasta do seu universo, sendo que tenho enorme estima por quem delas faz a sua obra e vida. É com prazer que honro alguém que tanto fez pelas artes marciais e pelo desporto portugueses. Que o diga Carlos Lopes!
OSS, Sensei!
Quero igualmente estender a minha solidariedade e
empatia para com as vítimas de ainda mais um sismo de grande magnitude,
novamente no Norte do Japão. Ainda não tiveram tempo de recuperar das feridas
do mega sismo de Março de 2011 (link aqui) e já sofrem um outro terramoto (notícia aqui), não tão mau, mas potente. Felizmente não veio acompanhado de um maremoto.
O que vale é o espírito nipónico do “Never say die” perante a fúria dos
elementos. Força, Japão.
Sobre os Jogos Olímpicos, quero congratular o Japão por ter sido o
país escolhido para a próxima edição do evento. E não é sem um gostinho de
vingança, pois Espanha tem andado armada em parva ultimamente, connosco sobre
as Selvagens e com os Ingleses por Gibraltar, para além de um país à beira dum
resgate estar a hipotecar-se mais para fazer um mega evento ser estúpido, na
melhor das hipóteses. Não havia outra escolha, face ao colosso económico que é
o Japão e às convulsões sociais na Espanha e na Turquia.
Mas não foi a Espanha que começou a polémica sobre estes Jogos Olímpicos.
Um jornal francês editou dois cartoons que ligam a tragédia de Fukushima aos
Jogos Olímpicos e o Governo Japonês já reagiu demonstrando-se
compreensivelmente zangado e ofendido. Vi uma notícia estrangeira sobre isso
que não mostrava os cartoons e a mesma notícia mas no Público também não o fazia.
Tal como quando da crise dos Cartoons Dinamarqueses que levaram a ameaças dos
Jidahistas contra a Dinamarca e mesmo à destruição das suas embaixadas, os
jornais ocidentais (numa completa falta de solidariedade para com o direito da
liberdade de expressão dinamarquesa) também não se atreveram a publicar os
cartoons. Assim, toda a minha gente vendia jornais a falar de Cartoons que
ninguém virafora da Dinamarca. As
situações são bem distintas. Nem se está a criticar a Jihad e o Profeta Maomé,
nem os Japoneses são zelotas religiosos (haja Deus, suspira este ateu). Ainda
mais, eu acho os cartoons descabidos e de fraca inteligência, pois brincam com
mutações provenientes de radiações (tendo em conta que é o único país que já
foi bombardeado com armas atómicas e ainda hoje estão a sofrer com isso os
sobreviventes em Fukushima) por exemplo não é algo a que ache proveito ou a
necessidade de caricaturar. Depois, numa altura em que o artigo 9 da
Constituição Japonesa está “sobre fogo” e que o maior vaso de guerra japonês
está a meter a China de nervos em franja, os Jogos Olímpicos naquela zona só
podem ser bom sinal, se nos lembrarmos da sua ancestral história. Os Jogos
Olímpicos eram consagrados em nome dos Deuses do Olimpo e durante os jogos
haviam TRÉGUAS entre todas as cidades estado da Grécia Antiga. TRÉGUAS!! É essa
a grande mais valia desses jogos, é esse espírito que deve, tem de ser honrado
e recuperado. E que melhor altura e lugar que o Japão, neste momento.
Não quero desrespeitar aquela que considero justa indignação dos
Japoneses, mas por acreditar no que Voltaire disse, sinto uma obrigação
moral e de respeito para com a Liberdade de Expressão, fazendo o que os Media
não estão dispostos a fazer por medo de ofender nem que isso defenda a liberdade que lhes permite o seu ganha-pão, publicando aqui os ditos cartoons. Eu acredito firmemente que a liberdade de expressão tem de incluir a liberdade de ofender, embora entenda que quem ofende tem de estar pronto para as consequências. Às vezes, e todos nós se não formos hipócritas o sabemos, basta dizer a verdade para ofender alguém.
Senão como poderão vocês, leitores, ter a vossa
própria opinião sobre eles? Numa Era da Imagem como a que vivemos, como é
concebível falarmos de uma polémica de imagens como polémicas e não as mostrarmos?
É ridículo e triste não termos aprendido com o que aconteceu com a Dinamarca
(disto voltarei a falar quando falar aqui dos Media e da Liberdade de Expressão
e quanto ambos estão condicionados pelos interesses económicos e quanto isto
diminui e perverte o seu papel social).
Confiando na Wikipédia, acima
está escrito (em Kanji) o artigo 9 da Constituição do Japão. Esse artigo
declara:
“ARTIGO 9: Aspirando sinceramente
a uma paz mundial baseada na Justiça e na Ordem, o Povo Japonês para sempre
renuncia à Guerra como um direito soberano da nação ou o uso da força como meio
para resolver qualquer disputa internacional. (2) Para atingir o objectivo do
parágrafo precedente, forças terrestres, marítimas ou aéreas, bem quaisquer
meios beligerantes jamais serão mantidas.”, in Wikipedia. Traduzido
directamente do inglês.
Entremos agora no tópico que dá mote ao título. Este artigo constitucional, tal como o Godzilla (link aqui), é criação conceptual directamente
consequente dos terrores da Segunda Guerra Mundial. O povo japonês, num esforço
para evitar cair no erro que então cometeu, desenvolveu este artigo
constitucional. Intelectualmente, é um acto de louvar pela sua evolução
civilizacional: consagrar uma proibição à guerra, renunciar o direito soberano
à guerra, de forma constitucional. Mas na prática, no mundo em que vivemos, nos
dias de hoje, por mais belo e moralmente avançado que seja, torna-se um acto
mais simbólico do que prático ou pragmático.
Na prática, o Japão tem forças militares. Não lhes
chamam forças armadas, mas antes Forças de Auto-Defesa Japonesas. Portanto,
desengane-se quem pense que o Japão está à mão de semear, senão provavelmente
já a China teria tomado as ilhas Senkaku no ano passado. Os Japoneses, ou pelo
menos os que escreveram a sua Constituição, sabem aquela dura verdade que levou
os Pais da Revolução Americana a consagrar na sua Constituição a emenda que
garante o direito à posse de armas a todos os cidadãos:
Contudo, o artigo 9 da
Constituição Japonesa tem o seu mérito real. Impede pela sua própria vontade o
povo Japonês de, declarar guerra a outras nações em qualquer caso. Impede-os de
construir armas nucleares (tendo o mérito de impedir a proliferação de armas de
destruição em massa), de possuir porta-aviões, ou de ter mísseis
intercontinentais, para dar alguns exemplos práticos. Na minha opinião, é um
passo enorme para a evolução futura das relações internacionais. Isto é, se
mudarmos a tónica do pensamento militar, se em vez de declararmos guerra só nos
defendermos de alguém que nos declare guerra, estaremos mais seguros de
estarmos nós a fazer o que está certo. Pelo menos, no que diz respeito às
disputas entre nações. Esta é, e sempre será, a minha posição face às artes
marciais: servem apenas para autodefesa e só são para ser usadas depois de
esgotadas todas as outras possíveis soluções. O verdadeiro praticante de artes
marciais não pratica para andar a criar problemas ou a provocar violência, mas
antes para seu auto-melhoramento e para estar preparado caso não lhe dêem outra
hipótese que não a escolha entre ser violentado e se defender pelo uso da
violência.
Quando me preparava para
escrever, pensei que há, no entanto, sérios problemas com a sua aplicação. Até
porque decorre de qualquer estratega de nível básico, que a melhor defesa é um
potente ataque. Eu considero-me não um pessimista (patente na minha e única
instável, mas não cega, fé na Humanidade), não um optimista (preparo-me sempre
para o pior, na melhor das minhas possibilidades), mas um realista e sei que há
guerras que têm de ser lutadas. Até no pacifismo é perigoso ser um fanático
e/ou zelota.
Exemplo fácil, a própria Segunda
Guerra Mundial. Mas se analisarmos seriamente essa guerra, vemos que os “bons”
(como dizem os putos), isto é aqueles que agiram em mera auto-preservação, como
reacção à agressão nua, e não com sonhos megalómanos de conquista mundial, não
declaram guerra até serem para isso provocados. Até os Estados Unidos da
América só se declaram pelos Aliados depois de Pearl Harbour. Portugal, pelas
mãos de Salazar, assumiu a única posição que podia para não ser obliterado,
pois as suas forças militares eram fracas e tinha acabado de sair de uma crise
económica estando ainda a sofrer os rigores da sua austeridade, e foi
oficialmente neutro. Não-oficialmente, Portugal esteve envolvido. Em segredo,
Salazar mantinha relações de conluio com os nossos mais antigos aliados, os
Ingleses. Quando Churchill disse a Salazar para parar com os envios de
volfrâmio que ele vendia aos nazis, este assim fez. Via Aristides Sousa Mendes,
honrado por Israel com o título “amigo dos Justos”, salvámos muitos judeus de
serem mortos, e mesmo Salazar e o seu Estado Novo permitia aos judeus que cá
chegassem que embarcassem de cá para a segurança dos EUA. Além disso, Portugal
passou fome enquanto em segredo alimentava as tropas aliadas. No Pacífico, e na
única instância histórica em que Portugal e Japão abriram hostilidades, a então
colónia portuguesa de Timor-Leste foi forçada a repelir a invasão japonesa. E
conseguiu-o com sucesso. Acho que é importante relembrar isto, a bem da
manutenção da História, especialmente no ano em que celebramos 470 anos de
Amizade com o Japão. Mas lá está, nessa instância, nós só guerreamos em
auto-defesa.
Saindo um pouco da guerra
convencional, e já vão perceber porque o faço, a guerra contra o álcool
(despoletada pelos agora membros do Tea Party, nos anos 20, na Lei Seca
americana) só pôde ser vencida com a legalização das bebidas alcoólicas. É que
as ruas já andavam ensopadas com sangue de gangsters, polícias e inocentes.
Hoje em dia, luta-se a guerra contra as drogas e parece que nada se aprendeu
com essa primeira experiência. Também essa só se irá ganhar com a legalização,
retirando o mercado aos barões da droga, elevando-se os impostos como por
exemplo fazemos ao tabaco procurando minimizar consumos, aumentando a
informação disponível sobre o produto, fazendo campanhas de sensibilização nas
escolas mas de forma certa e institucional e finalmente, disponibilizando
sempre a possibilidade para os que já nela estão enredados saírem dessa
armadilha. Será pela educação, inclusão, regulamentação e despenalização que
diminuiremos este flagelo social. No final, irá sempre haver (COMO HÁ), quem se
drogue para relaxamento, quem se drogue por vício, quem não se drogue. As
pessoas têm o direito de fazer o que quiserem com o seu corpo e não pode ser o
governo a decidir impedi-las da sua estupidez, sob risco de cairmos num estado
orwelliano em que o Big Brother nos protege de nós mesmos e não há liberdade.
Mas digresso… também estas guerras têm de ser travadas, e a sua vitória está no
melhoramento da educação, essencialmente. Formar melhores cidadãos que hajam em
consciência e que saibam que, mesmo que se queiram drogar, será menos mau fumar
um charro a meterem LSD, mas que de preferência o melhor será simplesmente
dizer NÃO. Mas falei de guerras não-convencionais para chegar aquela que marca
a actualidade: a chamada Guerra ao Terror.
Aqui a porca torce o rabo. É tão inevitável como enfrentar o Hitler.
Estamos a falar de pessoas que, potenciadas pela falta de escolhas de vida e
muitas vezes falta de instrução educacional, são doutrinadas numa religião,
“esse ópio do sofredor” citando correctamente Marx, que glorifica e de facto
apresenta como caminho para o paraíso na morte a guerra santa. Pessoas essas
que, enlouquecidas pelos ditames de livros que se tiveram valor já estão hoje
em dia descontextualizados e ultrapassados, são instrumentalizadas por outras
vontades, estas muitas vezes bem alimentadas e com ensinos superiores, mas na
mesma fanáticas e/ou simplesmente maléficas. Nunca sei se os que puxam
cordelinhos, tipo Bin Laden, Saddam e Homeini, acreditam mesmo no que pregam ou
só desejam o poder. Mas há o revés dessas moedas, desse vil metal, como por
exemplo o hipotético analista da CIA que sabia dos pilotos de aviação árabes
“naquela escola do Midwest”, e que calmamente deixou desenrolar-se o11 de
Setembro e garantiu a sua reforma em Wall Street. Esta guerra está a decorrer e
já não é uma questão de esta nação contra aquela, mas sim como no caso da WWII
(sigla inglesa), uma profunda discórdia ideológica. Por exemplo, as teocracias
islâmicas, a que Hitchens designou “fascismo com face islâmica”, são ditaduras
não só do corpo mas também da mente. Dito e feito, os fundamentalistas que a
elas se entregam, seguem ideologia messiânicas nas quais eles são os
verdadeiros servos de uma divindade inventada, à qual se submetem totalmente
como seu escravos, e que os recompensará por isso no Fim dos Tempos, se eles
até lá matarem, converterem ou subjugarem e humilharem todos os restantes. Os
direitos de homossexuais, das mulheres e de todos os que não comunguem das suas
ideias não lhes assiste. É uma guerra da civilização contra a barbárie. Uns
poucos de fanáticos, face a biliões de inocentes que apenas querem viver a sua
vida descansados.
No decorrer desta guerra, cujo nome é de si
estúpido (pois guerra já de si é o terror), aconteceu a Segunda Guerra do
Iraque. Todos nós sabemos que a sua motivação não foi apenas a libertação do
Iraque do seu sanguinário e louco ditador, mas também o desejo dos americanos
de controlarem o petróleo naquela zona. Eu sei disso, e se me perguntarem se eu
preferia que tivessem sido outros que não os americanos a combatê-la ou a
dirigir essa guerra, eu digo-vos logo: “Claro que preferia!”. Mas estamos a
falar duma situação insustentável, dum ditador que combinava o que pior havia
de Hitler e de Estaline, dum país que era vigiado diariamente pelas Nações
Unidas (NU) para evitar que este voltasse a atacar os curdos (a maior etnia
anteriormente sem estado que existe no mundo) que quase exterminara com armas
químicas ou que atacasse os seus vizinhos e irmãos de fé no Irão, que já antes
tentara invadir, enquanto que as próprias NU via sanções económicas mantinham
na miséria todo o povo iraquiano enquanto o seu ditador megalomaníaco vivia na
opulência dos seus palácios e os seus ainda mais psicóticos filhos coleccionavam
carros de luxo como se fossem o CR7. Conhecidos terroristas da Al Qaeda e afins
gozavam da sua protecção, tendo até alguns passaportes com imunidade
diplomática consagrada pelo Iraque [com os quais várias vezes escaparam à
detenção por autoridades doutros paízes] e que vinham listados nas listas
telefónicas iraquianas sem qualquer medo e com o seu nome. Portanto, falamos de
um país sob ditadura teocrática, que já tinha utilizado armas de destruição
massiva, já tinha invadido o território de vizinhos, já tinha tentado promover
o genocídio de uma etnia e dava guarida a conhecidos terroristas
internacionais. Segundo Hitchens (link aqui), e confesso que não sei de onde ele obtém esta
informação embora me pareça aceitável como ideia, o Iraque de Saddam já
preenchera as 4 condições para perder a sua soberania. Algo tinha de ser feito.
As NU deviam ter ajudado os curdos seculares, guerrilheiros socialistas e
comunistas, a derrubar o regime de Saddam. Mas a sua inacção manteve-se. Os EUA
e o Reino Unido, movidos pelos seus próprios interesses (leia-se petróleo),
agiram. O Saddam foi condenado à morte pelo seu próprio povo numa farsa de
tribunal quando devia ter sido julgado por crimes contra a Humanidade, um
completo e louco programa iraquiano de ocultação de armas foi descoberto e
foram desenterrados das areias do deserto tudo desde aviões a centrifugadoras
para o enriquecimento de urânio (a que os americanos foram levados por um
cientista iraquiano empregado pelo Saddam), foi descoberta uma ligação de venda
de armas nucleares que ligava Saddam à Coreia de Norte que se lhe preparava
para vender armas nucleares, eleições livres foram institucionalizadas no
Iraque e os curdos formaram uma sua região autónoma e secular. É claro que há
parte dessa região autónoma, o Iraque via eleições está entregue aos partidos
de Deus na mesma, e cravejado de terrorismo nas suas ruas e cidades, mas não
foi tudo em vão e a democracia é tão benéfica quanto a maioria dos seus
cidadãos o conseguem ser. Mas parafraseando Jefferson, eu prefiro uma democracia perigosa a uma ditadura passiva ou benigna.
A guerra do Iraque foi declarada unilateralmente pela auto-intitulada Coligação do Voluntários, EUA e Grã-Bretanha,
mas tal não precisava de ter sido. Podíamos apenas ter feito uma acção de
libertação, com umas Nações Unidas mesmo Unidas, ajudando a revolução que já
estava a ser levada a cabo pelo exército de libertação curdo. Exactamente como
aconteceu quando Portugal e outros ajudaram a libertar Timor Lorosae das garras
dos islamofascistas de Jacarta. Nós, levados por um sentimento de culpa por
termos abandonado essa ex-colónia ao seu destino após a Revolução dos Cravos,
deixando-a à mercê duma Indonésia teocrática, e os Australianos por exemplo
porque queriam o seu petróleo e ficaram mui magoados quando Timor optou por se
tornar país de língua oficial portuguesa ao invés de língua inglesa. Se
quiserem um cheirinho do que foi essa guerra, em forma romanceada, sugiro o mui
excelso “A Ilha das Trevas”, de José Rodrigues dos Santos. E não, não acho que
nós tenhamos lá ido pelo petróleo. Porquê? Porque são os australianos que estão
a ganhar disso e não nós. Talvez a GALP lá tenha um dedinho, confesso que não sei.
De qualquer forma, o problema
repete-se agora na Síria. Estamos à beira de gerarmos outro “Iraque II”. Se não
conseguem imaginar o filme, ei-lo: os EUA entram, desta vez completamente
sozinhos, sem tropas no terreno, bombardeando com drones e outros meios,
gerando sem dúvidas danos colaterais (= mortes de inocentes não combatentes).
Se armarem mais os rebeldes, que são da mesma ideologia do Irmandade Islâmica e
da Al Qaeda, estão potencialmente a criar mais Bin Ladens. O próprio Barack
Obama disse que não podíamos correr o risco de que o arsenal químico do Assad
ficasse nas mãos deles. Mas pior, entre os refugiados e os que não se
conseguirem refugiar e perderem familiares numa guerra que não entendem,
lembrar-se-ão das bombas e dir-lhes-ão sem recorrer à mentira que vieram da
América. Serão fáceis alvos dos recrutas das organizações islâmicas de
terrorismo. Motivados por desejo de vingança, fortificado pela crença no Alá
que lhes venderem, serão mártires jihadistas. Se a via diplomática falhar, é
isto que teremos. Mas algo tem de ser feito, dirão alguns! Concordo.
O que devia ser feito, caso a
diplomacia falhe, seria uma força multinacional da ONU, no terreno e mais que
bem equipada para a guerra química, a segurar as pontas de ambos os lados e a
restaurar a paz no país. Depois remover-se o ditador, ir-se a eleições e sair.
Dir-me-ão, depois segue-se o “Egipto II” ou um “Irão II”… aí já será problema
deles. O papel da ONU deve ser apenas proteger os inocentes, procurar parar
guerras ou genocídios, e assegurar a democracia. Nada mais.
Até porque, para mim, a guerra
contra o fundamentalismo islâmico no geral só pode ser ganha de dentro do
próprio Islão e quem terá a melhor hipótese de o fazer são as mulheres
islâmicas. Porquê? Bem, se se conseguir que elas recebam uma boa educação, de
preferência (sonho eu) secular, elas poderão melhor formar os seus filhos e
assim impedi-los que eles caiam nas garras do fundamentalismo religioso. Nenhuma
mãe digna desse nome deseja a morte do filho, mesmo por Alá. Já o policiamento
internacional imperialista por parte dos americanos ajuda os sacerdotes
islamitas a convencer os seus peões de que a guerra santa é também justa e
contra a opressão capitalista norte-americana. O que se quer é que o Islão se
torne todo moderado, como já foi no auge da sua civilização, quando inventaram
a Álgebra e avançaram a Óptica.
Por exemplo, Christopher Hitchens
falava muito de no Irão ter havido, produto da insanidade da guerra que Saddam
moveu a este país, um “baby boomerang”! A expressão de baby boom significa uma
nova geração que tenha inovado em alguma coisa face às anteriores. O baby
boomerang do Hitch significava que, quando o Saddam atacou o Irão, eliminou
muitos dos jovens iranianos. Isto levou a que os teocratas locais dissessem às
mulheres do Irão que voltassem a restabelecer as fileiras iranianas, um
“crescei e multiplicai-vos” of sorts. Agora, o Irão tem uma população
rejuvenescida mas, tendo crescido na ditadura teocrática e num país sem pais ou
avôs, é muito crítica do regime actual o que poderá levar a sua remoção. Do
Irão, já se ouviu que não desejam que o que está a acontecer na Síria lhes
aconteça a eles, que preferem fazer a sua própria revolução mas de forma
pacífica. Ainda bem para eles. Só espero que o façam antes dos seus líderes
loucos chegarem à Bomba! Portanto, uma das suas políticas de natalidade poderá
destruir o próprio regime totalitário iraniano que a criou, daí baby boomerang,
eles atiraram-no mas ele deu meia volta e acertou-lhes em cheio. Insh’Allah!
Mais uma vez, a solução é a educação pois reside nos ombros dos jovens.
Uma ironia do destino fez com que na guerra contra o Saddam Hussein, tal
como na guerra do Hitler, forças capitalistas e marxistas convergissem.
Interessante, não é?
Voltando à questão das armas e da
Constituição Norte-Americana, bem vistas as coisas, a sua 2ª Emenda tem menos
consequências benéficas práticas ou verificadas que o artigo 9 dos Japoneses.
Esta é a emenda que consagra o direito à posse de armas a um cidadão
norte-americano. Originalmente, a emenda foi feita para impedir que um povo
temesse o seu governo, que na opinião dos Pais Fundadores era o que constituía
a ditadura. Eu até comungo desse sentimento, o povo não pode temer o seu Estado,
muito menos o seu Governo. Pois bem, quando é que essa emenda serviu nesse
sentido em termos práticos? Terá sido durante a Lei Seca, durante o McChartismo
dos anos ’50 do século passado, durante a Guerra do Vietname, durante a Luta
dos Direitos Humanos, durante o vigor do Acto Patriota que já era para ter sido
revisto e contínua incólume? Não, nunca foi usado desde que os ingleses foram
corridos. E o mais engraçado é que as sondagens dos próprios americanos mostram
que 80% dos constituintes desejam mais controlo nas armas e mesmo assim a recém
criada proposta BIPARTIDÁRIA (dos dois partidos do poder) para tal efeito foi
recusada no senado americano. Liberdade democrática? Humm… não me parece que a
posse de armas a assegure. Já o Japão neste departamento, que é um país tão
democrático como os EUA ou Portugal (o que digamos quer dizer que não é
verdadeiramente democrático, apenas oligárquico, mas essa discussão fica para
outro dia), é um país sem armas. Diz o artigo que uso como fonte [aqui linkado]
que no Japão, o país com menos armas em mãos privadas do Mundo e provavelmente
o que tem mais restrições na obtenção legal de armas de fogo, teve resultados
excelentes no que diz respeito a mortes por armas de fogo. Em 2008, o Japão
teve um total de 11 homicídios por arma de fogo, enquanto que os EUA tiveram 25
mil. Mas isto é um ano mau para o Japão, pois em 2006, teve um total de duas
(2) mortes por arma de fogo e quando em 2007 o número subiu para 22 isso
tornou-se num escândalo nacional no Japão. É acrescentado que quase ninguém
possui armas de fogo no Japão, visto que a maioria é ilegal e que é comprar e
manter as restantes é um processo oneroso. Até os Yakuza, a máfia japonesa,
prefere não usar armas de fogo visto que mortes desse tipo captam demasiada
atenção noticiosa ou mediática que os gangsters nipónicos preferem evitar. Segundo
o artigo, a Lei Japonesa, 1958, proibiu a posse de qualquer arma de fogo por
parte dum cidadão, tem vindo posteriormente a abrir algumas excepções. O artigo
abre aludindo a como se podem encontrar em Waikiki, no Hawai, pessoas na rua a
distribuir panfletos publicitários, muitas vezes escritos em inglês e japonês,
para captar turístas para o Clube de Tiro local. É um choque civilizacional
quando os turistas japoneses recebem esses panfletos e quando vão ao dito clube
disparar uns tirinhos, possivelmente saberão que se estivessem na sua terra
estaria a cometer três crimes: empunhar uma arma de fogo, posse de munições não
licenciadas, e o disparo de uma arma de fogo. A primeira das 3 ofensas pode ser
punida no Japão por até 10 anos de cadeia. No Japão, as armas de fogo que um
cidadão pode obter legalmente, mas com muita dificuldade, são caçadeiras
(shotgun) e pressões de ar. O processo legal de obtenção de armas de fogo foi
descrito num ensaio de David Kopel, cidadão americano membro da National Rifle
Association (associação nacional de espingardas):
1 – o cidadão tem de frequentar
um worshop de um dia, findo o qual é testado e tem de passar no teste. O
workshop só acontece uma vez por mês;
2 – depois de passar nesse teste,
o cidadão tem de frequentar e passar um curso numa carreira de tiro;
3 – feitos os dois primeiros
passos, há que ir ao hospital fazer uma análise a estupefacientes e um testes
de sanidade mental (é dito que o Japão é único nesta imposição de exigir a
certificação da saúde mental dos potenciais possuidores de armas), os
resultados dos quais a pessoa tem depois de entregar junto de oficiais da
Polícia;
4 – finalmente tem de passar por
uma rigorosa investigação do seu passado, sobre se esteve alguma vez envolvido
em actividades ilegais, etc…;
E pronto, se passar, já pode ir
comprar a sua caçadeira. Resta-lhe apenas informar a polícia sobre o local
exacto na sua casa onde a guarda, e o mesmo se aplica às munições, sendo que a
arma e as munições têm de ser guardadas fechadas e separadamente. Depois ainda
tem de se recordar de levar a arma para inspecção policial uma vez por ano e
refazer o teste de 3 em 3 anos!! Ufa, já estou exausto…
Duvido que por lá se cace como cá
em Portugal! Seria a revolução se alguém cá quisesse fazer isso, porque diz o
Público que um (1) Português em cada três (3), está possui uma arma. Eu não me
oporia e digo isto sendo possuidor de 2 pressões de ar, uma de mola e uma de
gás, e já tendo tido a experiência de disparar uma pistola semi-automática numa
carreira de tiro.Posso dizer que não me saí nada mal e, com a experiência das minhas pistolas pressões de ar, assim que me habituei ao coice da explosão da pólvora, acertei o centro do alvo 2 vezes. A esperiência fez-me lembrar uma frase da obra de arte do Bruce Lee chamada "Enter the Dragon": "Any bloody fool can fire a gun.", traduzindo livremente: qualquer perfeito idiota pode disparar uma arma. Id est, não é preciso grande habilidade para se ser perigoso com uma arma de fogo na mão.
Não podia deixar de aproveitar este post para o
N.I.N.J.A. Samurai fazer uma intervenção participativa no recém aquecido debate
constitucional português, já que o Ministro Poiares Maduro (ex-acérrimo atacante e crítico das políticas deste governo, agora seu ávido protector), alegado ministro de Desenvolvimento Regional, para mim Ministro da Desinformação Nacional, diz que o debate sobre a Constituição não pode ser exclusivo dos Juízes. Começarei por tentar responder à pergunta chave e
idiota do senhor actual Primeiro Ministro (PM). Ei-la formulada pelo próprio:
Ora, digo que a pergunta é idiota porquê? Porque a
Constituição não assegura o trabalho a ninguém, tal como a restante Lei não o
faz, seria impossível. O que a Lei deve fazer é apenas providenciar uma base
legal que assegure os direitos do trabalhador, pois este vai estar sempre em
desvantagem negocial perante a entidade empregadora. Mas esqueçamos isso. A
Constituição não criou a Crise Económica de 2008, a Banca de Risco e a sua
avarenta e endémica toxicidade é que criaram. A crise
económica-social-estrutural do Estado Português, não foi criada pela
Constituição, foi criada pela promiscuidade do Estado com o Sector Privado, via
sucessivos governos PS-PSD, ao longo de quase 40 anos.
À PARTE: Aliás, o sector privado neste país é uma anedota
pegada. Vejam-se como quando o estado fechou torneiras à comparticipação de
medicamentos, quantas farmácias não fecharam todas elas privadas, sobrevivendo
do estado. As PPP’s e os SWAP’s que por aí andam incólumes a encher bolsos
privados, comendo directamente da dívida pública que suga os nossos impostos. A
EDP e as suas rendas intocáveis que anularam Álvaro Santos Pereira. Sector
privado onde se é o estado que está a alimentar esta gente toda?? Ah, é privado
no sentido de que os lucros não favorecem o Zé (Povinho, leia-se) mas sim o
senhor Dr José “Polvo”, cujos tentáculos estão bem firmados nos partidos do
Poder. E as empresas realmente privadas, que sobrevivem sem as benesses
estatais, são não têm espaço para crescer nacionalmente pois outras o ocupam,
gozando do proteccionismo estatal. Pensem nisso.
Mas adiante. De qualquer forma, como matriz de uma
lei que protege os direitos do trabalhador (logo e sim, de índole marxista
[como não podia deixar de ser considerando que Comunismo, Socialismo e Social
Democracia são ideologias provenientes do Marxismo]), que tem uma certa lógica sendo
que é o trabalhador (e isto inclui trabalhadores de colarinho branco e azul)
também o contribuinte do estado, pelo menos impediu o Governo actual de criar
mais não se sabe quantos novos desempregados sem, algo que até a nada
democrática União Europeia consagra como essencial, justa causa, e sem direito a
subsídio de desemprego nem nada.
Ficariam dessa forma mais
desprotegidos os funcionários públicos que os do privado. Íamos do 8 ao 80. A
constituição, shôr Passos Coelho, protege o empregado, não arranja emprego ao
desempregado. Tal como o Estado, de um ponto de vista liberal (que se julgava
ser o seu), não o faz. O Estado só tem de providenciar as condições para que
esse emprego possa surgir. Como? Ora, NÃO asfixiando a economia aumentando os
impostos tanto no Consumo como nos Rendimentos, ao mesmo tempo que promove a
baixa de salários, que inexoravelmente leva a uma perda de poder de compra,
seguida de uma baixa de comércio interno, que implica menos receitas fiscais.
Ao fim de 2 anos ainda não percebeu? Ah espera, ele antes das eleições onde foi eleito até sabia isso, não era?!? Deve ter comido queijo...
Quanto ao Tribunal Constitucional
(TC). Ora bem, o Tribunal Constitucional só serve para ver se as leis que o sr
PM e o seu ilustre e demagogo séquito aprovam em Conselho de Ministros não infringem
a Lei consagrada na Constituição. E a interpretação feita por esses juízes,
nomeados por PSD e PS essencialmente, segue regras pré-estabelecidas sobre o qual vossa
excelência não sabe puto, sendo tão ou mais leigo que eu nessa matéria. Não é
uma interpretação livre e como dá jeito, como quando se lê um poema ou a
Bíblia, ok?
Por fim de resto, a sua miserável estratégia de culpar o TC p'lo vindouro
aumento de impostos que todos sabemos aí vir, convenientemente depois das
Eleições Autárquicas (como disse o Ministro da Solidariedade muito solidário com os autarcas que quer eleger em coligações PSD-CDS por esse país fora "Não é momento de se subir impostos" [link para fonte]), é uma patranha que é preciso um completo vegetal mental
para engolir. Se até a Ferreira Leite diz, com uma (in)característica
sobriedade lógica, que mesmo que o TC tivesse aprovado a
Mobilidade Especial, o senhor PM teria de esperar 1 ano (12 meses), segundo a lei
que ele criou, antes de poder despedir fosse quem fosse. Sendo esse o caso, que é (basta ler o enunciado da Mobilidade Especial), como é que isso
influência alguma coisa o Orçamento para 2014, visto que faltam menos de 4 meses
para acabar 2013? Senhor Primeiro Ministro, "não" seja "piegas", sim?
Já agora, sabem em que artigo da Constituição Portuguesa vem estabelecido o Princípio da Igualdade que tanto tem levado o TC a contrariar o Governo?
Irónica coincidência, em Portugal também é o artigo 9 que está a ser alvejado pelo governo actual.
Mas voltando à pergunta do Passos Coelho, esquecendo as contradições do seu discurso aos zombies sem
espírito crítico que o aplaudem enquanto frequentam a sua “universidade” de
Verão laranjita, sequiosos de um futuro de “tachos” (e não me refiro na
restauração que o seu IVA insiste em destruir), avanço uma resposta directa. Eu
acho que a Constituição arranjou emprego a este cidadão, que nela se baseou
para se negar a pagar impostos na base de que tinha a prioridade de alimentar
os filhos:
Sou o único a achar estranho que
o homem há meses desempregado, depois de sair nas notícias com tanto alarido,
tenha arranjado emprego por outra razão? Se eu tivesse uma empresa e precisasse de um gestor criativo, não pensaria duas vezes a contratar este Matemático pela sua óbvia criatividade na resolução de problemas difíceis num contexto social e legal.
É possível pero no lo creyo que, ao fim de 2 anos, seja apenas coincidência acontecer quando sai nas notícias o seu, na minha opinião, espectacular gesto de cidadania pura!
Portanto, senhor Pedro Passos Coelho, meu primeiro ministro no qual não votei,
por qué no te callas?!? A Constituição arranjou emprego a 1 cidadão... quantos mandaste tu para o Desemprego? Quantos mais ainda para lá queres mandar?
Para terminar, é claro que o PM
pode opinar sobre as decisões do TC, mas a opinião avançada por Passos Coelho
só revela uma completa ignorância sobre as bases fundamentais de uma democracia
tripartida, o que não deve ajudar nada (ou não deveria num país de jeito e com
espírito crítico) ajudar a uma futura reeleição. De resto, é óbvio que a
Constituição não é imune a alterações, não é um texto sagrado. Mas depois das
trapalhices deste governo de Coligação com falta de cola e com um (In)Seguro a
chefiar o PS, é mesmo este tipo de gente que queremos a mexer na nossa
Constituição, enquanto são puxados cordelinhos de uma Troika que só quer baixar
salários para competir com a China? Serão as alturas de crise as melhores para
pensarmos friamente em que país queremos viver?
Eu posso avançar já 3 alterações:
1)que se retire a protecção extra que há para
quem momentaneamente ocupe o lugar de Presidente da República. Qualquer
cidadão, se se sente injuriado pode levar outro a tribunal por isso e é uma
questão de provar o seu caso. Que o momentâneo ocupante do posto de PR seja
mais que os outros só me parece uma reminiscência dos tempos da Outra Senhora.
Uma cláusula de não se questionar o Líder. Fuck that is what I say. “Quem quer
respeito, dá-se ao respeito”, citando o meu povo e parafraseando George RR
Martin “Quem tem de afirmar aos outros que é rei, não o é.”. Case & point,
ninguém fez abaixos assinados para demitir o Sampaio ou o Eanes, mas eles
também não disseram que eram solidários com o seu povo sofredor pois com 10 000
euros não conseguiam pagar despesas;
2)estipular-se o número de ministérios que
há, independentemente do governo que lá estiver e um número máximo razoável (veja-se
o exemplo da Alemanha por exemplo) de adjuntos, secretários, acessores e
motoristas que cada um possa ter, bem mais baixo que o actual, que cada governo
possa nomear;
3)copiarmos o artigo 9 japonês.
Aposto que o Partido do Estado
não faria nenhuma destas alterações, particularmente aquela que lhes nega a possibilidade de darem os tachos que quiserem.
Olhando para o meu próprio
raciocínio, começo eu próprio a perceber que o Artigo 9 dos Japoneses não tem
nada de sonhador e tem muito mérito pragmático para além do mérito
civilizacional (caso saibam inglês cliquem aqui para aprofundar o tópico). Não é abdicar do direito à autodefesa. Não se trata daquilo que
eu considero uma parvoíce, como a completa e unilateral desmantelação de forças
militares como quer o Bloco de Esquerda. Não é uma cláusula de não resistência
perante a agressão, como o famoso “dar a outra face” de Cristo. É apenas a
simples rejeição da violência como solução aceitável para crispações no plano
internacional e sobretudo uma rejeição da noção de que fazer guerra deve ser considerado
um direito soberano de uma nação.
Por outro lado, ao escrever este
post, consolidei também aquilo que já antes achava, que a cura da Humanidade, a
emancipação intelectual desta última, e a evolução da sua liberdade democrática
estão ligadas inexoravelmente e totalmente dependentes de um dos pilares da
nossa civilização: a Educação. Não nos esqueçamos nunca que o nicho evolutivo
que nos permitir ascender como espécie dominante deste nosso berlinde azul foi
a capacidade de aprender e raciocinar, conjugada com a partilha e contínua
transmissão de conhecimentos de geração em geração. Durante milénios, os seres
humanos tiveram uma esperança média de vida de cerca de 20 anos e pouco ou
nenhum conhecimento passava, a não ser o mais básico. Não havia experiência
acumulada, nem velhos ou outro meio para a reter. No plano civilizacional, é a
educação que permite a inovação e é também chave da competitividade económica,
por muito que vos queiram vender que essa advém apenas de baixar salários e
gerar mão-de-obra escrava ou quasi-escrava.
Se entendermos que o artigo 9 da Constituição Japonesa é um artigo progressista e sem contradições pragmáticas (pois não impede a manutenção da segurança soberana do
seu povo), é importante perceber que numa altura de grande tensão militar no
Pacífico, devido às Coreias e às ilhas Senkaku, este artigo está em perigo de
ser revogado, estando debaixo da mira do Partido Liberal Japonês, actualmente
no poder. Um partido, que tal como o nosso, anda às avessas com a constituição pela qual jurou servir a sua pátria. No caso japonês, nota-se um enorme à vontade bélico do seu actual governo, sendo que foi um dos países que apoiou o ataque norte-americano à Síria sem antes terem sido esgotadas todas as opções. Felizmente, a Rússia e os EUA já concordaram nos termos que apresentarão ao Assad para este entregar o seu arsenal químico: http://www.publico.pt/mundo/noticia/eua-e-russia-chegam-a-acordo-para-eliminacao-de-armas-quimicas-na-siria-1605822. Pode ser que desta forma se evitem os bombardeamentos e a morte de mais civis inocentes, ao mesmo tento que se esfria a nova Guerra Fria entre a Federação Russa e os EUA.
No passado dia 9 de Agosto, decorreram 68
anos desde que as Bombas caíram sobre Nagasaki e Hiroshima. Os japoneses marcam
sempre o dia dessa tragédia, para alguns totalmente desnecessária por parte dos
americanos, que já tinham a guerra ganha nessa altura. Durante o ano, muitas
vozes se elevaram em defesa do artigo 9, precisamente por se recordarem onde
leva a mania da guerra. A estas juntam-se também acções populares anuais, como
a Marcha pela Paz.
Este ano, a Marcha pela Paz
começou com cerca de mil pessoas, entre as quais a activista filipina Malaya
Fabros. A activista anti-nuclear produziu no seu blog (fonte) uma excelente introdução
ao Gensuikyo (Conselho Japonês contra as Bombas Atómica e de Hidrogénio), à
história da Marcha pela Paz, à velha estrada de Tokaido (no período Edo, era a
via que ligava Tóquio e Quioto), mas também fala das culturas diversas do Japão
por onde passa e fala do desejo de muitos japoneses de se quererem redimir
pelas acções do seu país durante a Segunda Guerra Mundial, e claro não se
esquece de mencionar os esforços para salvar o artigo 9 e as acções contra a
tecnologia nuclear. Está em inglês e é óbvio que não posso traduzir tudo, mas
continuando no tópico desta entrada, aprofundemos um pouco a Marcha da Paz.
Esta última começou em 1958, quando um monge de
Hiroshima decidiu colocar os pés ao caminho e ir a Tóquio participar da
Conferência Mundial. Pelo caminho, juntaram-se ao monge muitas pessoas que o
acompanharam, e desde então, sem nunca falhar um ano, entre 6 de Maio e 4 de
Agosto é realizada a Marcha pela Paz no Japão. Uma tradição bem mais bela e
valorosa que qualquer peregrinação a Fátima ou Santiago de Compostela, para ir
pedir favorezinhos ao ditador divino. Tem objectivos mais nobres e o seu
sucesso não assenta em crendices mas sim na mudança das ideias e vontades
humanas e terrenas.
Outros também participam desta luta, como o mestre do Anime, Hayao Miyazaki demonstrando o seu desagrado perante a posição do actual governo japonês perante o Artigo 9.
Este ano curiosa e ironicamente, de forma talvez nada inocente por parte dos organizadores, realiza-se em Novembro e no Japão, uma Conferência internacional chamada "Paz como uma Língua Global":
Por minha parte, não posso de
momento e por razões económicas ir ao Japão participar da Marcha pela Paz nem tão pouco ir à Conferência supracitada, mas
posso guerrear pela Paz no Mundo, não desejando-a meramente, de forma
politicamente correcta e superficial como um qualquer estereótipo de miss num concurso de
beleza, mas sim pensando, falando, e escrevendo sobre isso como estou a fazer. Mais,
posso reforçar a ideia do horror da Guerra, não com as minhas fracas palavras,
sem conhecimento de causa ou os laivos poéticos necessário para tal, mas sim
com as poderosas palavras daqueles que me inspiram a aspirar ser escritor.
A Poesia de Guerra é essencial
para a crítica a esse membro tão terrível dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse e
é também, ao que parece, comum por todo o mundo. Do Japão, pela caneta de
Mitsuyoshi Toge (link para a fonte em inglês), um poeta católico japonês de Hiroshima, surge “I Could Never
Forget the Flash” (Nunca Pude Esquecer o Flash):
Eu nunca consegui esquecer aquele
flash de luz,
Num momento, trinta mil pessoas
deixaram de ser,
Os gritos de cinquenta mil mortos
No fundo de uma esmagadora
escuridão;
Através de fumo amarelo que
rodopiava para a luz,
Prédios dividem-se, pontes
colapsam,
Eléctricos cheios ardidos
enquanto rolavam
Por Hiroshima, todos cheios de
montes ilimitados de brasas.
Logo depois, peles penduradas
como trapos;
Com mãos sobre os peitos;
Calcorreiam sobre os cérebros
destroçados;
Usando retalhos de pano queimado
em torno das entranhas;
Vieram fileiras incontáveis de
nus,
Todos a chorar.
Corpos no chão da parada,
espalhados como estatuetas de Jizo atiradas ao desprezo;
Multidões em pilhas à margem dos
rios, carregadas em jangadas amarradas à margem,
Transformados em cadáveres sobre
o sol escaldante.
No meio de chamas atiradas contra
o céu nocturno;
Ao largo da rua onde mãe e irmão
estavam encurralados vivos debaixo da casa ruída,
A cheia de fogo prosseguiu.
Em camas de porcaria no chão do
Arsenal,
Carradas, e Deus sabia quem eles
eram…
Carradas de meninas de escola
deitadas em recusa
De barriguitas saídas, zarolhas,
como metade da sua pele arrancada por completo.
O sol brilhou e nada se mexeu,
A não ser as moscas zumbidoras
nos alguidares metálicos
Fedendo com obscenidades
estagnadas.
Como posso eu esquecer essa
quietude
Prevalecendo contra uma cidade de
trinta milhares?
No meio dessa calma,
Como posso eu esquecer os
suplicares
De partidas mulheres e crianças
Através das suas órbitas oculares
Cortando através das nossas mentes e almas?
Ou escutando, Fernando Pessoa e
“O Menino de sua Mãe”:
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado-
Duas, de lado a lado-,
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos,
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
E cego os céus perdidos.
Tão jovem! Que jovem era!
(agora que idade tem?)
Filho unico, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
«O menino de sua mãe.»
Caiu-lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lhe a mãe. Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embainhada
De um lenço… deu-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há a prece:
“Que volte cedo, e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto e apodrece
O menino da sua mãe.
E pela potente voz de Christopher Hitchens, surge o poema de Wilfred Owens,
“Dulce et Decorum Est”:
Quando vi este vídeo do Hitch, e o ouvi recitar o
poema, viajei de imediato à minha infância, quando um episódio em particular da
série televisiva “As Crónicas do Jovem Indiana Jones” me deu pesadelos durante
semanas. É que de certeza que quem escreveu a cena que se segue, conhecia bem
este poema de Owen e foi por ele inspirado. Ora vejam:
E por fim, para aligeirar a tensão, a crítica
poética mas satírica, pelas palavras e música de Tom Lehrer, em “Who’s Next?”:
Absorvam as palavras, imaginem as
imagens. Para aqueles de nós que nunca pisaram o campo de batalha, que tiveram
essa sorte de nunca o pisar, esta é a maneira mais próxima que temos de
imaginar a sua horrenda realidade, salvo seja um filme bem feito e não
apologético ou que não tente glorificar a guerra.
Peace out, my brothers and sisters, & in times of crisis keep safe your Constitutions ,\/n
P.P.S.: Tive de adicionar este vídeo do Ricardo Araújo Pereira à última da hora. É um seu comentário a um livro, cuja história se passa durante a Primeira Guerra Mundial, mas é um livro de humor. É uma outra reflexão sobre Guerra, Morte e Vida, de uma perspectiva cómico-satírica. Fiquei com vontade de ler o livro: