Eu disse no meu Facebook, na
segunda semana de campanha, que “a bola está com o povo” e não errei. O povo português castigou os PaF, que mesmo assim tentaram disso fazer uma vitória. O povo português fortaleceu a CDU e o BE, não dando a maioria ao PS, forçando este último a, se quiser governar liderando, terá de fazer entendimentos à Esquerda.
O PS não tem maioria, nem sequer
relativa. Mas o PS tem a maioria entre as forças da Esquerda (ou seja, pode
liderar essas forças num entendimento de governo), e a Esquerda (unida jamais
será vencida!?) tem a maioria absoluta no parlamento pós eleições legislativas
de 2015.
Portanto, neste momento, em que
CDU (onde eu votei) e BE estão alinhados nas questões macro-económicas (e,
asseguro-vos, nenhuma destas forças políticas quer sair do Euro, nem no dia em
que sejam empossadas como governo de coligação com o PS, nem dois anos depois,
nem 4 anos depois – explicarei mais adiante porquê), em que os portugueses
decidiram espalhar uma maioria absoluta por três partidos que se assumem como
de Esquerda (como que a garantir que para eles governarem teriam de se
entender), se surgir um bloqueio entre as forças de Esquerda, esse bloqueio
é objectivamente gerado no PS. Se há 3 partidos e dois estão alinhados, se o terceiro
não se abre ao diálogo real e sincero para tomarem conjuntamente as rédeas do
país, ainda em profunda crise, para resolver essa crise com soluções de
esquerda (visto que as de Direita falharam), então objectivamente esse terceiro
partido não quer governar à Esquerda e, portanto, constitui o Bloqueio à
Esquerda de que tanto se fala neste país e que se costuma atribuir ao PCP.
Completando este xeque (se me
permitirem uma expressão do Xadrez), pois é em posição de xeque que o PS está
actualmente, o próprio PCP apela ao PS para se juntar à Esquerda (e não há
Direita), afirmando que o PS tem condições (ou seja, que há condições para se
forjar um acordo entre os 3 partidos da esquerda no parlamento) para retirar da
equação de governação a Direita e governar à Esquerda. O PCP afirmou que o PS
só não é governo agora se não quiser e que o PaF só será governo se o PS deixar.
O BE está em uníssono com o PCP nisto. Mas há mais…
Como é conhecido, o
centro-esquerda convencional (a Internacional Socialista) está em vias de extinção
como alternativa de governo. Repare-se que na Grécia, o PASOK desapareceu para
níveis de votação próximos do KKP (o partido comunista grego, ~6% dos votos),
sendo substituído pelo Syriza, que ocupou o centro esquerda grego de tal forma
que já nem lhes chamam radicais. Os Trabalhistas no Reino Unido não conseguem
retirar o poder aos Conservadores. Possivelmente o Podemos poderá roubar o
eleitorado do PSOE em Espanha brevemente. E sabemos bem as dificuldades do
monsieur Hollande em França (que embora no poder, pouco pode ou pode pouco) e
está sempre baixo nas sondagens. Isto acontece por várias razões.
Historicamente, os Socialistas Europeus
eram a alternativa à Esquerda para quem não queria votar nos Comunistas ligados
à URSS. Mas o Muro caiu, o mundo mudou, e a maioria dos partidos comunistas
mudando com o mundo acabaram por definhar. O PCP, que se manteve fiel a si
mesmo, é dos poucos partidos comunistas com peso real na política do seu país.
Mas agora que já não há União Soviética, qual é o papel dos Socialistas? Nesta
perspectiva, os Socialistas tiveram de mudar necessariamente e o que fizeram
foi ocupar o centro, assumindo políticas económicas de Direita num mundo onde,
aparentemente, o Capitalismo venceu a Guerra Fria. Qual o problema disto? É
simples. A casa ganha sempre! Se se vai jogar no terreno do outro, segundo as
regras do outro, é normal que o outro nos ganhe o jogo. O erro dos Socialistas
materializa-se no actual Tratado Orçamental, exclusivamente criado segundo
pressupostos económico-financeiros do Centro Direita, que não permitem aos
Socialistas (se estes o respeitarem à letra) executar políticas económicas de
Esquerda e, dessa forma, não se conseguem apresentar como uma verdadeira alternativa
às forças políticas do Centro Direita. Isto, em traços largos, explica o
definhar dos Socialistas Europeus.
Se António Costa for realmente,
como dizem e esperam muitos socialistas e simpatizantes do PS que nele votaram,
um homem politicamente inteligente e que deseja governar o país, à Esquerda
como afirmou em Campanha e como alternativa ao governo PaF, perceberá que a
única forma de transformar esta derrota eleitoral numa vitória estrondosa é
fazer cumprir a vontade da maioria absoluta em Portugal e criar um governo de
coligação PS-BE-CDU, tornando-se Primeiro-Ministro legítimo de Portugal.
Só dessa forma, Costa
poderá salvar não só a sua carreira política, como o próprio Partido Socialista
da extinção.
A primeira parte da frase acima
será fácil de perceber porquê. Costa só poderá converter esta derrota eleitoral
do PS numa vitória, se se tornar primeiro-ministro apesar dessa derrota. E pode
sê-lo, pois a CDU e o BE estão a isso abertos (e as condições que pedem, de que
falo mais abaixo, são fáceis do PS satisfazer). E só convertendo uma derrota
numa vitória, poderá Costa sobreviver como líder do PS. Reparem que se o PS se
coligar à PaF, no máximo roubará o posto de Vice Primeiro-Ministro ao Portas,
nunca poderá liderar essa solução de governo. Isto é claro e inequívoco. Mais,
se Costa sair agora derrotado, a sua carreira política acabou. Portanto, por
auto-preservação Costa tem de fazer o que Sócrates não teve coragem para fazer
em 2011: unir a Esquerda em Portugal, quebrar o bloqueio à Esquerda e, dessa
forma, governar. Esta é também a forma de Costa se descolar e distinguir do fantasma (político) de José Sócrates! É um dois em um.
Não era essa a força de Costa, ser bom a criar entendimentos?
A segunda parte da frase é
igualmente lógica. Para o PS se manter um partido de Centro-Esquerda, não pode
agora aliar-se a uma direita castigada nas eleições (pouco, na minha opinião,
mas eficazmente) em mais de 700 mil votos.
Mais, em situação de ainda crise
nacional (dívida altíssima e impagável nos moldes actuais, o desemprego
altíssimo mesmo que usemos os números oficiais e sem que o emprego cresça, um
défice descontrolado, um PIB retornado a níveis de 2001, com o Estado Social a
ser privatizado e em risco de implosão, etc…), se o PS tem oportunidade de
liderar uma maioria absoluta, pode mesmo escusar-se de o fazer perante o país
apenas na esperança de causar uma crise política mais tarde e governar
sozinho?? Não terá isso um pesado custo político?
O partido Socialista tem uma
imagem a manter (e já dizia o Salazar da sua cadeira abaixo “Política é
Perceptibilidade”) que não se pode dar ao luxo de perder: a imagem de um
partido que assume responsabilidades de governo e que é responsável. Portanto,
a sobrevivência política do PS depende, única e exclusivamente, da sua
capacidade de tomar as rédeas do país agora. Se não o fizer, não se lembrarão
disso os Portugueses daqui a dois anos? Não dirão “Esses xuxalistas só querem é
tacho! Porque não governaram logo em 2015?” E não votarão esses portugueses
então antes à esquerda no BE e na CDU, ou à direita no CDS e no PSD? Não
perderá o PS a sua posição no espectro político nacional se lançar os dados de
forma tão descuidada e abertamente interesseira? Eu acho que sim. Se o fizerem,
condenar-se-ão à implosão, como o PASOK. E acreditem, o Bloco e a CDU estarão
lá para capitalizar dessa implosão e facilmente se coligarão.
Concluindo então que, tanto
António Costa, como o próprio PS, necessitam de forjar este governo maioritário
de Esquerda para assegurar as suas respectivas sobrevivências políticas,
analisemos as condições para esse acordo de Esquerda:
1ª - as sondagens que davam a
vitória (relativa, na verdade empate técnico) ao PaF nas últimas eleições,
invariavelmente demonstravam que, ainda assim, a maioria dos portugueses
preferia um governo de coligação de Esquerda. Respeitando a vontade dessa
maioria (absoluta) de portugueses, um tal governo de Esquerda teria, não só o
apoio da maioria do povo, como também a concertação social facilitada visto
conseguir dialogar facilmente tanto com UGT como com CGTP, por razões a todos
óbvias. Mas mais que as sondagens, os votos dos portugueses são expressivos, e nisto tenho de agradecer o artigo do Daniel Oliveira no Expresso, que é
esclarecedor. O PS não perdeu por virar à Esquerda, perdeu porque muitos votos
do Centro fugiram-lhe para o BE e para a CDU que estão à esquerda do PS, visto
que a coligação perdeu votos e o próprio PS teve mais votos face ao que teve
nas eleições de 2011. Ou seja, todos os partidos de Esquerda cresceram face aos resultados de 2011,
incluindo o PS, mas o PS não foi esquerda o suficiente para convencer a maioria
desses eleitores que deixaram de votar PaF sem se absterem, e que acabaram maioritariamente por votar no Bloco de Esquerda.
Isto para clarificar que o povo (a maioria, neste momento) quer Esquerda no Governo. Logo o PS está legitimado para liderar essa solução, por mais que isso
desagrade a Cavaco, Passos e Portas et all ad noseum;
2ª - o PCP (no âmbito da CDU)
aligeirou muito o seu discurso anti-euro, afirmando claramente duas coisas:
devemos preparar a saída do Euro para termos um plano B quanto mais não seja
para o caso de não termos outra escolha; mas, nessa matéria, como em todas o
PCP (a CDU) respeitará a vontade dos portugueses. Desta forma, no ponto que
talvez fosse mais difícil o entendimento, o PCP dá todo o espaço de manobra ao
PS, não insistindo numa saída do Euro, apenas no estudo de como se fazer uma
possível saída, que pode bem nunca vir a concretizar-se se o Euro (enquanto
moeda) se aguentar. O BE há muito que tem uma posição aberta (podemos sair,
podemos ficar) quanto ao Euro, portanto não levantará nisto objecções;
3ª - há toda uma série de
políticas que ficaram por executar durante 4 anos que são comuns a toda a Esquerda
Portuguesa. Obras estruturais para alavancar a economia (renovar linhas de
caminhos de ferro, portos, estimular a pesca e a agricultura), a redução da
carga fiscal nas famílias e na restauração, a questão da co-adopção (e raios, a
adopção completa) por casais LGBT, a restituição do estatuto de isenção dos
dadores de sangue para evitar a escassez deste elemento no SNS, resolver a
questão do desperdício de plasma (de preferência lucrando disso o SNS,
tornando-se mais sustentável, e não as Farmacêuticas), a restituição do
anterior regime da IVG desfigurado pelo governo PaF, desfazer o mal que este
governo fez na Educação e na Justiça (que se se tornarem mais ágeis, actuais e
eficazes, ajudarão a estimular a economia portuguesa), fortalecer os direitos
laborais, salvaguardar as pensões, etc... Estas serão as bases para um
entendimento de governação. Dir-me-ão as vozes da Direita “E o Dinheiro vem de
onde?”! Vem dos dinheiros comunitários (porque não sairemos da UE) & da
libertação de verbas estatais do Serviço da Dívida (pagamento de juros) oriunda
de uma renegociação da dívida. E claro da captação de investimento privado.
4ª - António Costa pediu ao PS um
mandato para poder dialogar à sua Esquerda sobre a renegociação da dívida. Já
falei disto, é algo não só natural mas (e reparem como posso usar os argumentos
da Direita) NECESSÁRIO de fazer se queremos pagar a dívida e, dessa forma,
recuperar algum do nosso nível de vida e soberania nacional. As empresas fazem
renegociação das suas dívidas com toda a naturalidade quando chegam a situações
bem menos más que aquelas em que o nosso país está. Não é um bicho de 7
cabeças. E podemos e devemos fazê-lo indo ao encontro da Troika, bem
acompanhados dos nossos pares Irlandeses e Gregos, quiçá até Espanhóis e
Franceses. Pode e deve começar uma mudança na Europa, que começa a mostrar
perigosos sinais de se encaminhar cegamente para a auto-destruição. Podemos
inverter esse rumo, mas só em grupo. Aprendamos com a Grécia, não podemos ir
sozinhos enfrentar os credores;
5ª - e quanto ao Tratado
Orçamental, o Hollande (um socialista europeu) já o congelou (como o PaF por cá
fez a carreiras e pensões), por isso nós, não tendo necessariamente de o rasgar (mais uma vez espaço de manobra que BE e CDU dão ao PS), podemos
simplesmente dizer que não vamos cumpri-lo durante 4 anos para nos reerguermos
e podermos realmente ter condições de o cumprir, SE ASSIM DECIDIRMOS NO FUTURO.
Estão então reunidas as condições
dum governo maioritário de Esquerda, com o PS à sua cabeça, coligado com BE e
CDU, com uma maioria absoluta estável como o Cavaco quer/exige (embora não fosse esta
que ele quisesse). Não só estão reunidas essas condições como é do interesse do
PS e do seu actual líder, por questões óbvias de sobrevivência política, que
tal governo se venha a fazer. Até João Soares, que na altura das Primárias era
pelo Seguro(e percebe-se que os Seguristas são no PS actual a ala direita),
afirmou que Costa tem de se coligar à Esquerda. Até Cavaco, implicitamente
disse a Costa que coligar-se à Esquerda é a sua única saída, quando disse que
esperava “que os partidos” (leia-se o PS) “ coloquem à frente dos seus
interesses” (leia-se sobreviver politicamente) “os interesses de Portugal”.
Acontece que, na sua habitual cegueira sectária, Cavaco Silva se esqueceu que
prometeu ainda antes da campanha eleitoral que só empossaria um governo de
MAIORIA ABSOLUTA (que a Esquerda pode e deve fazer). Ao mesmo tempo, os
Portugueses ouviram Cavaco e deram essa maioria absoluta à União da Esquerda.
Qual é então a dúvida, senhor
Costa? Tem a bola nos pés, quer marcar golo ou auto-golo?
Eu gostava que as redes sociais se incendiassem por esta outra via, democraticamente legitimada, fazendo notar-se o seu apoio a um governo de Esquerda, só para o caso dos votos não serem suficientes. Manifs perante a fachada da sede do Partido Socialista no Rato, em Lisboa, também seriam boa ideia. Vá lá, anonymous portugueses, apartidários, indignados, independentes, simpatizantes do PS, da CDU e do BE, saltem do sofá. Está na hora duma viragem verdadeira.
‘Bora lá resolver esta embrulhada e fazer valer o Prólogo da
Constituição da República Portuguesa: toca a desengavetar o Socialismo e
faça-se cumprir Abril, porra!
Esta é a primeira campanha em que revelo o meu voto a quem queira saber,
quando normalmente só o revelo aos mais próximos amigos. Senti-me
compelido a fazê-lo, porque os Media não estão a informar as pessoas,
nem a ser isentos sobre o que informam.
O texto abaixo é da minha autoria e enviei-o na quarta-feira (porventura tarde demais) ao Público para ver se mo publicavam, se por nada mais por contrastar com as posições lá colocadas durante a semana pelos seus muitos colunistas. Não fui publicado até hoje, não sei se por escolha editorial ou por ser tardia a hora, mas só refiro o envio para o Público para explicar porque só agora publiquei aqui. Aguardei uma resposta que não veio.
Caso o Público me tivesse publicado, provavelmente o texto seria acompanhado do meu nome e foto. O objectivo é dar a cara. Chamo-me Alexandre Fanha e deixo-vos o link para o meu facebook:
«Eu venho por este meio dirigir-me
aos que, nesta fase, realmente importam: os indecisos, os indignados, os
anonymous portugueses, os possíveis abstencionistas que quero convencer a votar.
Não me importa se são de Esquerda, Direita, ou Centro, ou sem ideologia. Se
estão na dúvida e ainda não estão cristalizados no vosso pensamento, isto é
para vocês.
Não sou nem nunca fui militante
de nenhum partido, gosto que os partidos se esforcem para me convencer. Mas
afirmo sem problemas que me considero um apartidário de Esquerda, que sou ateu,
que não ligo a sondagens e que leio jornais nacionais e estrangeiros.
O que quero partilhar convosco
não é meramente a minha intenção de voto (explicitada no título deste artigo de
opinião), mas antes como cheguei a essa intenção de voto, qual o raciocínio por
detrás dela.
Este divide-se em duas partes:
1) Por Exclusão de Partes
2) Avaliação do Projecto Político
da CDU
1) Por Exclusão de Partes
Dos partidos sem assento
parlamentar, só houve um que captou a minha atenção e foi o LIVRE, mas depois
de alguns contactos directos, de ter acompanhado informaticamente as suas
primárias e de ver a sua proposta de programa político, achei esse partido uma
versão diluída do Bloco de Esquerda, mas com ainda menos possibilidade de conseguir
um forte resultado eleitoral. O Marinho e Pinto diz-se e contradiz-se a si
mesmo, o seu partido é ele mesmo, é um tipo que só quer tacho enquanto afirma
isso de todos os outros, e tem como lema no site do seu partido “Acredita no
que me ouviste dizer, mas nunca acredites no que outros dizem que eu disse”. Dá
jeito a qualquer político mentiroso. O PURP e o PAN são partidos demasiado
específicos e que colocam à frente dos interesses gerais da nação, interesses
de pequenos grupos ou causas, respectivamente, os reformados e os animais. O
Agir etc etc perdeu-me com a proposta, que veiculou em tempo de antena, de
criar um mecanismo que mandasse abaixo qualquer governo que não cumprisse o que
prometera nas eleições. Precisaria de conseguir, para implementar um tal
mecanismo, uma maioria qualificada (maior que a absoluta) para poder alterar a
Constituição, começando dessa forma e logo de início a prometer o que nunca
poderá cumprir e entrando em contradição consigo mesmo. Para o PNR nem olhei
porque a única coisa que tenho em comum com esse partido é ser contra o Acordo Ortográfico
de 1990 (AO90), mas quase de certeza por razões diferentes. De igual forma, não
ligo aos Monárquicos pois sou republicano, ao mesmo tempo que têm o mesmo
problema prático do Agir, visto que a actual constituição não permite um outro
regime que não o republicano. O MPT granjeia-me alguma simpatia por ser contra
o AO90, mas perde-me por se ter deixado ludibriar pelo auto-contraditório
Marinho e Pinto nas Europeias.
O PS é um partido politicamente
falido, como se pode ver no que resta da Internacional Socialista. Os
socialistas europeus condenaram-se à extinção quando aceitaram trabalhar dentro
das normas do Tratado Orçamental que, como realçou Marcelo Rebelo de Sousa no
passado domingo citando um artigo norte-americano, foi criado segundo
pressupostos de Centro Direita, manietando assim quaisquer respostas económicas
de centro-esquerda na Europa e viciando a democracia ao Centro, obrigando-o a uma
não-escolha entre políticas de Direita e políticas de Direita. O PS é um
partido cujo actual programa eleitoral assenta num estudo económico que usa
como premissas previsões macro económicas da União Europeia (UE) que não
poderiam contar com a presente crise da Wolkswagen e que não contam com a
implosão da economia chinesa que muitos economistas já vêem no horizonte. Esse
programa do PS contempla também um cenário em que o Euro implode, mas escolhe
ignorar esse cenário, pura e simplesmente, ao invés de preparar um plano B para
essa eventualidade, deixando-se (e ao País se for eleito) exposto a um putativo
mas plausível problema. O PS foi recentemente noticiado como estando altamente
endividado e com dificuldades em financiar-se, logo vive na dependência dos
grupos económicos. É um partido dividido internamente e que um seu militante,
Henrique Neto, descreveu em 2012 como tendo uma série de grupos internos que
agem como lojas maçónicas, lutando entre si pelo poder interno. António Costa é
um auto proclamado ateu e presidente da Câmara de Lisboa que, quando a cidade
sofre uma inundação derivado a chuvas, diz que a única solução possível está
com São Pedro, quando quer Nova Iorque, quer Tóquio têm conhecidos mecanismos
de protecção civil para impedir estas ocorrências. Vale mais desperdiçar
milhares com a Fundação Mário Soares ou a processar barbearias que não permitem
entrada a mulheres (como imensos ginásios não permitem a homens). Quer queira
quer não, o PS é um dos co-autores do Estado a que isto chegou, pois foi
alternando a formação de Governo com o PSD, com quem tem entendimentos a nível
do Plano de Privatizações e da relação com a União Europeia. É igualmente
co-responsável pelas PPP’s e os SWAP’s que geraram um conjunto de empresas que
vivem em “Capitalismo sem Riscos” (cito Medina Carreira), em que o Estado
aceita cobrir os seus prejuízos. Esta conjunção de factores faz com que perca o
meu voto, pois não acho este partido, nem o seu actual projecto, nem o seu
historial governativo, ou actual líder inspiradores de confiança.
O PaF, é preciso realçar, que é a
coligação actual do Governo, PSD-CDS. A mesma cujo o governo não conseguiu, nem
indo para além da Troika, nem quebrando as promessas eleitorais de 2011, nem
atravessando as linhas vermelhas auto-proclamadas, nem após imensos orçamentos
rectificativos muitos dos quais factualmente em desrespeito à actual e vigente
Constituição da República Portuguesa, atingir uma única das metas do Memorando
da Troika, apesar de, por serem o bom (leia-se lambe-botas) aluno do Schauble,
a Troika lhes dar sempre nota positiva. A dívida nacional aumentou; o défice,
que é sempre um valor contabilístico, não está controlado e tem sido camuflado
com receitas extraordinárias, como a da venda dos CTT (uma das poucas empresas
do Estado que dava lucro); a balança comercial continua negativa, apesar do
esforço de reorganização para exportações do tecido empresarial português; não
só não resolveram o problema que herdaram do BPN, como fizeram uma outra
nacionalização ruínosa de prejuízos bancários no BES, ainda que “transvestida”
de Banco Novo. Historicamente, estas forças são co-responsáveis de PPP’s, e
SWAP’s, tendo criado novas PPP’s, embora também “transvestidas” de concessões,
como no Metro de Lisboa, propagando o tal “Capitalismo sem Riscos” pago pelos
impostos dos Portugueses. Resumindo, o governo PaF falhou, criando um empobrecimento
e retrocesso civilizacional em Portugal, com níveis do PIB a regressarem a
2001, mais emigração que na altura da Guerra Colonial, salários baixos, caça às
bruxas no sector público, e uma taxa de Desemprego que milagrosamente desce sem
que suba a taxa de Emprego. E já agora, a tal Saída “Limpa” (leia-se ausência
de um plano cautelar) só aconteceu, não por mérito ou vontade do governo, mas
porque não se conseguiu reunir um consenso nos países da União para que se
fizessem planos cautelares. Não só não resolveram problemas, como os adensaram.
À sua cabeça têm, em grande (Tecno)forma, um homem conhecido por não pagar a
Segurança Social enquanto instiga outros a pagarem os impostos e não serem
piegas. Pedro Passos Coelho é o homem que mente, “por lapso”, sobre pagamentos
da dívida em plena campanha eleitoral, tendo um historial recente de não
cumprir as suas promessas eleitorais, mas antes fazer o contrário do que
prometera. Mas qual Hidra, o PaF tem (pelo menos) duas cabeças, sendo a outra
mais hábil em saber quando deve emergir e submergir, qual submarino, nos
debates respondendo apenas às perguntas que lhe dá jeito (mas nem a essas com
toda a verdade), enquanto alonga as respostas para não deixar os outros falarem
e para queimar tempo e não ter de responder às perguntas. Paulo Portas, se nada
mais, é o homem de enorme responsabilidade (denote-se aqui um desdenhoso
sarcasmo) que, por birra, irrevogavelmente queimou a Portugal 4 mil milhões de
euros para que lhe dessem um título mais pomposo! É também o homem que afirma
abertamente que não se sente obrigado a governar segundo a Constituição
vigente, porque esta fala de Socialismo no prólogo!! É ainda o homem que afirma
que o estado não sabe gerir (como se Zeinal Bava ou Ricardo Salgado não fossem
gestores do sector Privado e mesmo assim responsáveis por afundarem duas das
maiores empresas portuguesas), mas que participa num governo que nacionalizou a
REN e o que restava da EDP para o Estado (Comunista) Chinês!! Ou seja, Paulo
Portas admite que os Comunistas são melhores gestores da coisa pública que ele!
O programa conjunto desta força política é tão vago, tão desonesto, e tão vazio
de conteúdo como o projecto de reforma do Estado que o actual vice-primeiro
ministro esboçou outrora. Por todas estas razões, e por não ser masoquista nem
idiota, não voto no PaF.
Distinguir o Bloco de Esquerda da
CDU, não sendo militante de nenhum, pode ser complicado, mas não tão complicado
como distinguir o PS do PSD-CDS. Muito simplesmente, o Bloco é a favor do
Acordo Ortográfico de 1990, eu sou contra e o PCP é o único partido a ter colocado a votos uma iniciativa de desvinculação do Estado Português a esse malfadado (des)acordo. O BE achou que era importante, para o
Feminismo em Portugal na segunda década do século XXI, discutir os malefícios do
Piropo, indiciando uma estranha (no BE) tendência proibicionista no sentido do
discurso politicamente correcto e em detrimento da Liberdade de Expressão, mas
não vi o BE fazer manifestações tão veementes pela igualdade salarial e pelos
direitos de maternidade das mulheres trabalhadoras. Mas mais que tudo isso, falta
implementação e estrutura ao Bloco: não tem força nos sindicatos, não tem
implementação autárquica. Por tudo isto, voto na CDU (PCP-PEV) e não no Bloco.
2) Avaliação do Projecto Político
da CDU
Mas, felizmente, não é só por
falta de escolha que voto CDU, embora fosse razão suficiente. O projecto de
política nacional e europeia da CDU, programa conjunto de PCP, PEV e ID, não
sendo perfeito (como nada é) nem capaz de representar TOTALMENTE a minha visão pessoal
e as minhas ideias (como nenhum partido pode fazer pois representam colectivamente
e não individualmente), tem a mais valia de ser o único que percebe o problema
duplo, que na verdade é um só, que impede Portugal de se solucionar e ver uma
luz ao fundo do túnel: o colete de forças do Euro imposto pelo Tratado
Orçamental e uma dívida insustentável e impagável.
O Euro é acima de tudo uma moeda
forte demais para a nossa economia, especialmente depois de esta ter perdido a
frota pesqueira e mercante, bem como grande parte da sua indústria na altura em
que o Cavaco foi primeiro-ministro. É pelo Euro que, não os Portugueses, mas a
nossa Economia Nacional tem vivido acima das suas possibilidades. Basta
recordarem-se que, assim que adoptámos o Euro, tudo o que custava 100 escudos,
passou a custar 1 euro, que equivalia a 200 escudos no câmbio à época. Ou seja,
o custo de vida duplicou automaticamente com a adesão ao Euro, mas os salários
e pensões não duplicaram. Realço ainda que os partidos que hoje defendem o
Euro, já não o fazem apelando aos benefícios deste último, mas amedrontando com a
“calamidade” que seria dele sair.
Mas isso à parte, o Euro é um
projecto de sucesso historicamente muito improvável. Das várias tentativas que
já houve para que um conjunto de estados tivesse uma moeda única, comum a todos, apenas
uma funcionou. Chama-se Dólar (norte-americano). Essa funcionou porque tem uma
estrutura por debaixo: os estados têm uma Língua em comum, tem uma Constituição
em comum, e têm um governo federal em comum. A UE nunca terá uma língua em
comum, mas nem sequer se deu ao trabalho de criar o governo federal (nem há
essa vontade política entre os estados membros), e muito menos de criar uma
constituição colectiva. Para além disso, o Euro está hoje em perigo pela
fragilidade dos países que adoptam a Moeda. Não só o perigo de insolvência que
assombra, apesar do quadro que o PaF nos pinta, tanto Portugal como a Grécia,
como as repercussões da questão Wolkswagen, da guerra económica com a Rússia
por causa da Ucrânia, e da futura crise chinesa, trarão para a maior economia
da União, a Alemanha. Mas há mais! Os movimentos separatistas existentes na
Espanha e na Bélgica (já nem vou ao Reino Unido porque aí reina a Libra),
somados ao crescendo de intenção de voto em partidos xenófobos que vai
provavelmente continuar com a chegada contínua de mais migrantes, somam-se aos
stresses sócio-económicos que criam tensão na manutenção da zona Euro. Com tudo
isto em mente, qualquer governante que se preze deve querer criar um plano de
contingência para a possibilidade inexplorada de ter de sair do Euro, mesmo que
isso aconteça por vontades alheias ou pela inevitabilidade dos acontecimentos.
Um bom governante deve “esperar o melhor, mas preparar-se para o pior”. Quando
a CDU propõe preparar a saída do Euro, está a fazer isso, e é o único partido
que o diz querer fazer. Mas, como afirmou já não sei se o Jerónimo, se o deputado Miguel Tiago do PCP, “o euro não é um
dogma para nós”. Logo, tendo esse plano de saída em mente, a CDU pode nem necessitar executá-lo, mas antes usá-lo como moeda de troca na renegociação da dívida. Mas com a vantagem, de estar disposta a executar o plano. Seja como for, a CDU
comprometeu-se a respeitar a vontade dos portugueses, tal como tem feito nos
últimos 40 anos de Democracia, pelo menos.
A segunda parte do problema
nacional, e que é fundamental porque nos põe em risco a qualidade de vida que
ainda temos, colocando em causa a manutenção do Estado Social, é a questão da
dívida. Quando uma empresa, nos dias de hoje, se vê a braços com uma dívida à
qual já não consegue fazer face, não tem alternativa senão ir ter com os seus
credores e renegociá-la para a conseguir pagar. Uma renegociação de dívida pode
vir de diversas formas, como uma diminuição nos juros e um aumento dos prazos
de pagamento, por exemplo. Não tem de implicar o hair cut, ou seja o
perdão de parte da dívida. Tanto o PS, como os PaF (PSD-CDS), sabem disto, mas
recusam-se a discutir a questão, até mesmo depois do FMI ter dito que no caso
da Grécia se tinha de fazer uma renegociação da dívida. Quando a Irlanda disse
que queria renegociar a dívida, o governo PaF disse o contrário, ao invés de
fazer coro com a Irlanda! Mais, tanto PS com PSD-CDS afirmaram que o PCP e o
Bloco, por quererem renegociar a dívida, são uns caloteiros que não querem que
o país pague o que deve. É falso. Não pagar a dívida é o que o PS e o PSD-CDS
fazem, indo trocar dívida de curto prazo por dívida de médio-longo prazo,
chamando a isso financiar o país, enquanto não paga a dívida, apenas os juros
da mesma, que mesmo assim vão acumulando e fazendo aumentar a dívida lenta e perigosamente. Os que
não querem pagar são precisamente os que não querem renegociar a dívida, porque
tal como ela está, em que pagamos só de juros 9 mil milhões por ano, não a
conseguimos pagar.
Mas para renegociar a dívida,
temos de ter peso negocial. Esse peso negocial vem da disponibilidade para
sairmos do Euro. Notem que os economistas já dizem que a crise da Wolkswagen
terá um custo semelhante ao de um Grexit. Isto, por muito que a UE diga que se
blindou quanto à saída de um país da zona Euro, indica que uma tal saída teria
consequências económicas graves para a zona Euro e como tal é de evitar. A
única razão pela qual a Comissão Europeia não temeu a saída da Grécia, foi
porque sabia que o Tsypras estava a fazer bluff, porque o povo grego não queria
essa saída. O Tsypras tentou usar o posicionamento geopolítico, piscando o olho
ao Putin, para ver se o Obama convencia a União a renegociar a dívida grega.
Mas a Comissão Europeia não foi nisso, até porque sabia que os gregos não
apoiariam Tsypras nisso, nem na saída do Euro. Lá está, sem essa disponibilidade de saída, estamos condenados a viver nas regras asfixiantes do tratado orçamental.
O erro do Tsypras foi não estar
preparado para que lhe comprassem o Bluff. Um plano Português de saída do Euro,
somado à noção de que temos recursos que a Grécia não tem (como as nossas
consideráveis reservas de ouro ou a nossa imensa riqueza costeira[a Grécia já nem esta última tem, visto que o Mediterrâneo está todo envenenado]), adicionados
a uma frente unida de países que desejam renegociar as suas respectivas dívidas
soberanas (Portugal, Irlanda, Grécia e possivelmente a Espanha se os ventos por
lá mudarem) sentados em bloco à mesa com a Troika, é a única esperança que
temos de resolver os problemas nacionais actuais, ao mesmo tempo que nos
preparamos para a plausível e provável implosão do Euro, “não vá o diabo tecê-las”, como
diz o povo.
Quanto ao resto. Bem, agora que
já pouco ou nada resta para privatizar ou concessionar e o Estado está sem
outros meios de se financiar que não o aumento de impostos, ou as
nacionalizações deixam de ser tabu, ou a carga fiscal sobre o trabalho vai
aumentar (por muito que o PaF e o PS vos digam que não, visto que não estão
dispostos a ir taxar antes as grandes fortunas e os lucros empresariais). No
programa "Olhos nos Olhos", o próprio Medina Carreira, que pode ser muita coisa
mas não é um "perigoso" comunista, após analisar a fundo a EDP, concluiu que mais
valia (aos consumidores) voltar a nacionalizar a empresa. Se a Privatização não é tabu, a
Nacionalização também não o pode ser.
Mas, mais uma vez, só há um
partido, não só disposto como também, capaz de fazer essas nacionalizações. O
PCP é auto-sustentado em 90% por meios próprios, sendo o mais famoso destes últimos a
Festa do Avante. Os restantes 10% vêm do Estado, derivados dos votos que
recebem (como todos os partidos), e a parte do salário (e isto é único em
Portugal) de cada um dos seus deputados que só ganham o que ganhavam antes de
assumirem funções na Assembleia, doando o restante ao PCP. Por ser
auto-sustentável, não está dependente dos bancos e pode efectivamente
controlá-los, se legitimado pelo povo democraticamente. Como esclareceu o Jerónimo, nem precisa de ser com
nacionalizações, poderá ser com forte regulamentação. Notem que no Japão, a 3ª
economia do Mundo e com governo de direita liberal, o Estado obriga os bancos a
financiarem as empresas para manter a economia a funcionar. Não têm crescido
muito, mas gaita!!, são a 3ª economia do mundo apesar de levarem constantemente
com tsunamis. O actual presidente japonês, aquando da capitulação da Grécia,
afirmou que a lição que se devia de aprender é que é preciso investir na
economia e não aumentar a austeridade. Para dar outro exemplo, a Islândia,
depois de uma breve revolução feita por 90% da população, de haverem novas
eleições e de reescrita a sua constituição, voltou a regulamentar a banca. Têm
o desemprego nos 5%, renegociaram a dívida e já pagaram ao FMI, e também
julgaram e condenaram os culpados pela sua crise nacional.
Porque é que o governo PaF vendeu
as golden shares da EDP, ou os CTT, ou a REN, quando (soube recentemente nas
notícias) o Estado Alemão detém 30% das acções da Wolkswagen como fonte de
financiamento? E o estado Norueguês que detém 70% dos lucros petrolíferos da
nação deles? Foi a Troika que os obrigou? Não, foi ideológico porque os PaF acham
que é melhor entregar à gestão privada, aos Zeinal Bavas e aos Chineses! O
Paulinho das Feiras não se farta de o afirmar em campanha. Mas isto é gestão
danosa, pois deixa o estado português com uma dívida massiva para pagar e sem
fontes de rendimentos que não os contribuintes, que ou emigram ou não têm
emprego, ou recebem salários cada vez menores.
Para obter diversificação de
fontes de rendimento e ter instrumentos para alavancar a economia, resolvendo o
desemprego, que mais que a crise demográfica (podemos sempre importar mais
chineses, mais africanos e sírios para a solucionar, como a Alemanha fez recentemente) põe em
risco a segurança social e as reformas, é imperativo controlar e/ou recuperar
sectores estratégicos nacionais. Esse controlo faz parte do plano da CDU, ao mesmo tempo
que aposta na industrialização, nas pescas (a que nem PS nem PaF ligam,
agarrados que estão pelos interesses estrangeiros) e na agricultura.
Em termos de impostos, a CDU
propõe subir para os 25% (valor onde já esteve) o IRC, aliviando o IVA da
restauração e o IRS, para benefício do sector turístico, das famílias e das micro e pequenas empresas (aquelas que criam o seu próprio emprego!!). É isto
extremista?!
Quando surgiu a questão dos Direitos de Autor Vs Downloads
não-pagos, o PS e o PaF fizeram a lei actual que castiga os consumidores que
comprem qualquer tipo de suporte de dados (dvd, pen drives, discos rígidos,
etc), independentemente de serem de facto piratas ou não, através duma taxa
adicional que aumenta o preço e que reverte para os autores. O PCP contra-propôs
taxar-se antes os lucros de quem verdadeiramente lucra com os downloads ditos
ilegais, pois são os seus facilitadores e mediadores, as Operadoras de
Telecomunicações. O Centrão optou por taxar consumidores, a CDU propôs taxar-se
antes o lucro das empresas. Esta é a diferença ideológica de onde se vai buscar
o dinheiro. Tanto a Direita e Centro como a Esquerda querem fazer
Redistribuição de Capitais, só que o Centrão + CDS fá-lo no sentido do povo para as
empresas, e a CDU quer fazer das empresas para o povo. E notem que, em
Capitalismo, são os consumidores quem criam postos de trabalho, não os ricos.
Pode-se ter o melhor produto e todo o capital do mundo, se ninguém comprar o
produto, por mais dinheiro que lá enterrem, a empresa vai à falência. Mais que
isso, não há nenhum patrão no mundo que empregue pessoas a não ser que a isso o
mercado, pelo aumento da procura (mais consumidores a quererem o produto), lho imponha. Não são os ricos que criam
empregos, somos nós, os consumidores. Esqueçam a Deco, votem CDU, cujas
soluções não são (embora os problemas do país possam ser) nem velhas nem
desajustadas da realidade em que vivemos.
Em termos de Cultura, a CDU
propõe um orçamento de 1% do Orçamento de Estado no primeiro ano de
legislatura, evoluindo até ao 1% do PIB no quarto ano de Legislatura. E já
propôs e mantém a proposta, para uma renegociação nas bases ou desvinculação do
Acordo Ortográfico de 1990, mais uma alhada, mais um experimentalismo
irresponsável e irreflectido em que o Centrão meteu o país. É isto brusco e
repentino?
Não liguem às falaciosas e já por
demais desmontadas sondagens com que tentam moldar sub-repticiamente, não
falando e argumentando directamente como eu, a vossa decisão. Não se deixem
enganar com discursos desesperados e em pânico de apelo a votos (in)úteis,
lembrem-se antes que em Portugal não elegemos governos, elegemos deputados para
nos representarem. A CDU foi instrumental na devolução do 13º mês, para dar
mais um exemplo de como essa força zela pelos v/nossos interesses, não contra a
Lei, mas antes através da Constituição vigente. A CDU não falhou com os seus compromissos de campanha.
Não temam instabilidades. A
Catarina Martins do Bloco estipulou 3 condições para governar ao lado do PS. O
PCP só tem uma: toca a sacar o Socialismo de onde o Mário Soares o engavetou e
a fazer jus ao nome do Partido Socialista. Não temam atitudes sectárias de um
partido que ajudou a eleger Soares (PS), Sampaio (PS) e Eanes (independente de Direita) à presidência da República,
e que fez e faz acordos autárquicos com o PSD (antes no Porto, agora em
Loures). O bloqueio à Esquerda não é causado pela CDU, mas tem sido mantido pela incapacidade dos Socialistas de implementarem medidas socialistas.
E acima de tudo, descansem,
“senhoras e senhores, irmãs e irmãos, amigos, camaradas” (citando Christopher
Hitchens), votar no PCP não é votar em perigosos experimentalismos como a
aplicação de um modelo económico defeituoso e que, já se comprovou
factualmente, errado como fez Vítor Gaspar, nem dar azos a irresponsáveis como o
danoso e irrevogavelmente birrento Portas. É antes um voto conservador, no
melhor dos sentidos desta última palavra, pois é dar força a quem quer travar
um PREC (leia-se Processo RAPINADOR em Curso) de Direita, conservando e
reforçando o nosso Estado Social (SNS, Segurança Social, Educação Pública,
Forças Armadas e de Segurança), ao mesmo tempo que recupera lenta e
diplomaticamente a soberania nacional e renova a nossa posição e dignidade como
Estado, não só na União Europeia, mas no mundo. Se querem de facto renovar a
política em Portugal, retornando aos valores da Revolução de Abril e até aos valores de origem
que a União Europeia afirma ter (solidariedade, direitos humanos, democracia),
votem CDU.
Nada temam, se sobreviveram ao malogrado sonho (para mim, pesadelo)
do Sá Carneiro (uma maioria, um governo e um presidente laranjas), tornado real
neste governo PSD-CDS com a presidência mumificada do Cavaco Silva, não serão
os Comunistas Portugueses que darão cabo de vocês. Mas são eles que vos podem tirar do buraco.
Só se consegue mudar os
resultados, fazendo algo de diferente.
Dêem uma hipótese à CDU, dêem-lhes força negocial, dêem-lhes o vosso voto.»
Há uns meses, um tipo chamado Ivo
Miguel Barroso, vendo que eu andava a sondar os partidos políticos relativamente
à posição destes em relação ao Acordo Ortográfico de 1990 (AO90), que tão
levianamente é chamado de Novo Acordo Ortográfico (embora seja produto do
século passado), abordou-me para que eu escrevesse um artigo com essa pesquisa,
que ele me ajudaria a fazer publicar no Público.
Depois de debate online,
reuniu-se um grupo de trabalho de 4 pessoas, para realizar essa tarefa, sendo
que eu iria escrever o artigo, que depois seria editado pelos restantes.
Acordou-se que o artigo deveria ser curto, estritamente informativo e factual,
e acompanhado de uma tabela para leitura mais fácil. O objectivo era duplo:
fazer as pessoas pensarem a sua escolha de voto considerando o AO90, mas também
pressionar os políticos em tempo de pré-campanha eleitoral a adoptarem uma
posição anti-AO90. O artigo que acabou por sair, sob o título “As Posições dos
Partidos Políticos sobre o Acordo Ortográfico” (I) e (2), respectivamente, nas
edições dos dias 29 e 30 de Julho do Público, por autoria de apenas duas das
quatro pessoas originalmente no grupo de trabalho, nada tinha a ver com o
rascunho que eu escrevi, embora ainda tenha lá resquícios de uma ou outra frase
minha. Estou à vontade para afirmar o que afirmo, visto que tenho todas as mensagens e emails trocados no âmbito desse trabalho. Até as citações de deputados dos vários grupos parlamentares que não foram usadas na versão final do artigo, não percebo bem porquê.
Eu optei por não querer estar
relacionado com a versão final desse artigo por várias razões. Primeiro, era
enorme e enfadonho, e consequentemente teria poucos leitores, mesmo entre os
que já se interessam pela questão. Segundo, porque dava enorme destaque aos partidos
do Centro (PS, CDS, PSD), os causadores da aprovação e implementação do
malfadado acordo, relegando para uma segunda parte (que ninguém iria ler!!) o
BE, o PEV, e o PCP, que foram assim agrupados com os demais partidos sem
assento parlamentar. Ora esta disposição, parece querer antes convencer o
eleitorado que não vale a pena fazer nada, porque a maioria na Assembleia da
República (AR) é a favor e pronto. Mas pior que isso, e eu à altura nem reparei
porque não tive pachorra para ler tudo quando me enviaram a primeira parte
ainda antes de impressa, Ivo Miguel Barroso não só não pressiona os partidos do
Centro, como hostiliza, pela descaracterização da sua proposta, a posição do
único partido com assento parlamentar que já propôs a desvinculação do Estado
Português do AO90, o PCP.
O deputado Miguel Tiago do PCP
acusou o golpe e ripostou clarificando, no artigo do Público e na sua página de
Facebook, a posição do PCP (como demonstra a imagem acima), cuja proposta de
desvinculação pode ser consultada no site da Assembleia da República:
Ao afirmar “Todavia, este
Projecto de Resolução do PCP apresenta, em vários pontos, uma fundamentação
desadequada.”, com toda a prepotência de quem se acha uma autoridade suprema
visto que não se dá ao trabalho de fundamentar a sua afirmação, Ivo Miguel
Barroso só pode mesmo querer hostilizar o PCP. Porquê, não sei! O que ele devia
ter feito era, se ia fazer um artigo de opinião e não meramente informativo
como ele me disse que desejava originalmente, elogiar a conduta do PCP neste
caso concreto (visto que é a única posição na AR favorável à causa anti-AO90) e até tentar
capitalizar o apoio dessa máquina partidária de nível nacional para conseguir
mais rapidamente assinaturas para a Iniciativa de Referendo Nacional sobre a
Desvinculação do AO90 ou para organizar acções de rua, onde o movimento Anti-Acordo
Ortográfico tem infelizmente pouca expressão.
Um movimento com o qual não me
identifico é o dos Anti-Touradas, mas tenho de admitir que, lenta mas
seguramente, eles vão obtendo resultados. E porquê? Porque chateiam
incessantemente os políticos e fazem acções de rua, conseguindo converter isso
no apoio político do PS e do BE. Mas não rejeitaram ou hostilizaram esses
partidos depois de granjeado o seu apoio.
O movimento anti-Acordo
Ortográfico perde-se em disputas pessoais internas entre egos enormes, quezílias
partidárias interferem com a execução duma acção conjunta contra o acordo
ortográfico (o que não faz sentido sendo que a sua oposição está espalhada por
todo o espectro político, embora assim não pareça na AR), e tem pouca
organização, algo que não falta na acção concertada e cirúrgica do lobby pró
acordo ortográfico, junto do Centrão.
Mas porque há-de interessar esta
questão ao comum dos cidadãos portugueses?
Resumindo, o Acordo Ortográfico é
um caso-estudo de tudo o que está mal na política em Portugal.
Primeiro, revela o défice
democrático que existe em matéria de acordos internacionais. Tudo foi decidido
e executado alternada e concertadamente por PS e PSD, não com o apoio da
maioria dos portugueses, que não foram nem vistos nem achados, mas apesar da
oposição de uma maioria dos portugueses. Essa oposição varia entre os 60% e os
80%, fazendo-se ouvir sempre que algum site ou blog pergunta quem é a favor do
AO90 (ver imagem dessa pesquisa abaixo. Sugiro que façam download da imagem e façam zoom, até lá têm links para as pesquisas mencionadas). Até o Sporting Clube de Portugal deu a
escolha aos seus sócios, cuja maioria optou por não adoptar o AO90. Pena a
minha que o meu Benfica não tenha feito o mesmo.
Depois, mostra como os políticos
do Centrão só ligam às opiniões técnicas ou científicas que lhes convêm, e não
aos factos em si. Ainda antes deste acordo ortográfico ser metido em prática,
com as desastrosas consequências que conhecemos e podemos ver em vários canais
de televisão e outros media, o governo Socrático (que aprovou a
Resolução de Conselho de Ministros [RCM] que vincula o estado português ao
AO90) encomendou pareceres técnicos a várias instituições creditadas. Em 14
pareceres, 13 deram nota negativa ao AO90, e o único que deu nota positiva era
da autoria de um dos criadores do AO90. O Governo Sócrates decidiu ignorar os
pareceres que encomendou. O governo PaF, PSD-CDS, quando entrou em funções
optou por continuar a implementação do AO90, igualmente ignorando esses
pareceres, sendo que a esse mesmo governo PaF bastou um único parecer para
proibir, em 2014, uma manifestação apeada da CGTP na ponte 25 de Abril, onde
todos os anos se correm maratonas.
Foi esse mesmo governo que neste
corrido verão pré-eleitoral de 2015 surgiu com uma campanha para reutilização
de manuais escolares, mas não se lembrou disso quando em 2012, ao implementar o
AO90, impôs às famílias portuguesas gastos forçados em novos manuais escolares
(para gáudio e lucro de algumas editoras), ao mesmo tempo que baixava os
rendimentos e aumentavam a carga fiscal a essas famílias. Mais que isso,
resolveu fazer uma reforma ortográfica, sem previamente estudar os custos de
implementação dessa mesma reforma para o Estado (criação de correctores
ortográficos como o Lince, formação para professores, alteração de conteúdos de
sites públicos, etc…), ao mesmo tempo que fazia cortes na Saúde, na Educação e
na Cultura, a que chamou gorduras de estado. A Lusa questionou a Porto Editorae a Leya, reportando sobre isso a 9 de Maio deste ano (link aqui), sobre se tinham
conseguido novas exportações de livros portugueses graças ao AO90. A Porto
Editora disse que não, a Leya respondeu à político, reafirmando que é a favor
do AO90 mas não respondendo em concreto à pergunta. Ou seja, o Acordo
Ortográfico não abriu o enigmático “potencial económico da Língua Portuguesa”
de que tanto fala o actual Presidente da República. A Lusa perguntou ainda se o
estado tinha dado ajudas de custo para a implementação às Editoras. A Porto
Editora negou ter recebido tal ajuda, a Leya não respondeu. Ainda hoje ninguém
sabe ao certo quanto nos custou mais (para não falar na embrulhada da reforma Judicial, lembram-se?) esta malfada reforma.
Por último, e isto interessará a
todos os que dêem importância a que vivamos num estado de Leis democrático, o
Acordo Ortográfico de 1990 só é sustido pela Resolução de Conselho de Ministros do governo Sócrates n.º 8/2011, de 25/1, que não é
uma lei e como tal não revoga a lei que legaliza a Ortografia de 1945, a mesma que
o Público e eu usamos, que é portanto a que está em vigor. Mais ainda, o Acordo
Ortográfico, segundo o vice-presidente do Supremo Tribunal de Justiça é
inconstitucional, derivado à forma absurda de como foi aprovado
internacionalmente. Mas quer o sr “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas”
Cavaco Silva fazer o seu trabalho e defender a Constituição? Claro que não.
Parafraseando o mesmo senhor, ele “jamais façaria” tal coisa. O que ele gosta é
de produtos “láteos”! E este é o homem a quem deram um honoris causa de
Língua Portuguesa… é o país em que vivemos! (tenho de descobrir qual foi a universidade para que, um dia que tenha filhos, não os deixar ir para lá!!)
Talvez se desse atenção a tais
questões e actuasse sobre elas como é o seu mandato e segundo o juramento que prestou, ao invés de procurar controlar resultados
eleitorais numa atitude continuamente sectária, o actual Presidente da República Cavaco Silva (que afirma que não cede a quaisquer pressões [pelos vistos nem as eleitorais] e antes das eleições já sabe o que vai fazer em termos de governo futuro... haverá maior confissão de se ser anti-democrático??) não
precisasse de recorrer a certas leis que exigem respeito a símbolos nacionais
para que o respeitem. Quando o outro senhor que foi multado por ousar dizer ao
seu Presidente (que de facto trabalha para ele e para todos nós, ou devia assim
fazer) que fosse trabalhar, se calhar era a estas coisas que se referia!!
Sendo que o AO90 falhou em cumprir qualquer um dos vários objectivos que justificariam eventualmente a sua
existência, que nos foi imposto, que ainda em cima tivemos ou teremos de pagar e nem sabemos o valor na factura,
que nos criou crispações nas relações com Moçambique e Angola, não tendo
melhorado as relações com o Brasil, não acham importante essa consideração na
altura de lançar o voto? Vão votar nos que dão mais importância aos interesses
de algumas Editoras que aos interesses dos cidadãos ou vão castigá-los democraticamente, votando
nos partidos que são contra o Acordo Ortográfico?
O maior destes últimos, e o
único que já agiu contra o AO90 na Assembleia da República, é o PCP, que concorre coligado na CDU. É a quem vou dar o meu voto, por esta e outras razões.
Pensem nisso, ao lançarem o voto no próximo Domingo, dia 4 de Outubro de 2015!
P.P.S.: Tentei que me publicassem isto no Público, mas não obtive resposta por parte desse jornal. Não sei se por escolha editorial, se por escolha ideológica, se por inconveniência temporal visto que só mandei na quarta-feira passada.
Não sou historiador, nem tão pouco tive ainda ocasião para ler as biografias não autorizadas dele ou muita da restante tinta que sobre ele correu. Que posso eu então adicionar? Apenas a minha perspectiva, baseada em tudo o que encontrei online (vídeos de youtube, artigos de jornais, o próprio site do centenário criado pelo Partido Comunista Português [PCP]) e que tenho analizado criticamente ao longo deste ano.
Álvaro Cunhal foi para uns a encarnação de um bicho papão, para outros o homem que os lideraria para "os amanhãs que cantam". P'lo meio, existem os que, independentemente do lado da barricada política em que se encontram, conseguem descortinar para lá de todo o ruído branco da imprensa, nacional e estrangeira, o enorme intelecto combinado com poderoso e estóico coração solidário que foi o camarada, como de resto fica testemunhado na tão abrangente obra que deixou ao Mundo.
O que eu, por exemplo, desconhecia até ir à exposição sobre a vida e a obra do líder histórico do PCP, era que ele tinha tido 3 irmãos, dois dos quais morreram muito novos. Como demonstra a imagem abaixo, o seu irmão mais velho, mesmo tendo morrido novo, também deixou rasgos de uma potente mente artística e de revolucionário, algo que deve ser intrínseco à família.
É que, na verdade, Cunhal sempre foi reservado quanto à sua família, factor decerto propício à imagem que os seus inimigos e adversários quiseram que a maioria dele tivesse: um estalinista desumano, frio, calculista, sedento de poder. Humildemente vos digo que, interpretando os documentários feitos sobre ele e sobre o PCP durante a sua liderança, com o devido desconto que se deve dar aos media e tendo também em conta o quão desfavorecido a nível de comunicação social o PCP estava nos anos '80 e '90, acho que o Álvaro foi um humanista, mais que ideológico, idealista e que queria efectivamente mudar o mundo para melhor. Digo isto, obviamente admitindo que não sabemos se o teria conseguido caso tivesse tido o apoio do povo pós revolução, pois até ele chegou a dizer que o caminho para o Comunismo é desconhecido, nenhum marxista o conhece, e que cada país é um caso diferente com soluções diferentes em si mesmo. Ou seja, ao contrário do que gostam de fazer crer, que o marxismo é uma receita, a cassete, e que já foi provada ineficaz, Cunhal afirma que assim não é. E nisso, como em muitos outros tópicos, concordamos. Voltando à questão da família e vida privada, numa entrevista que vi a Johnny Depp, este último contou que um dos conselhos que Marlon Brando lhe deu de forma mais veemente foi: "Nunca fales da tua família!". Eu acho que Cunhal seguia essa linha de pensamento, resguardando da sua exposição mediática os seus entes queridos. Isto é afirmado pelo próprio Cunhal no vídeo que "linko" abaixo uma vez que o blogspot há vídeo que não quer exibir e só permite "linkar". Damn the ghosts in the machine!!
Antes que comecem com as piadas, este vídeo já foi uma vez removido do youtube pois estava a ser instrumentalizado para gozar com o Carlos Cruz, com um título alusivo ao seu envolvimento no Processo Casa Pia. Ainda bem que eu na altura achei por bem sacar o vídeo para o meu arquivo pessoal. Dizia o título do vídeo na altura, que é um segmento duma entrevista na RTP, feita em 1992.
Incidindo nessa parte da sua vida, da qual até há bem pouco tempo tão pouco nos chegou, a jornalista Judite Sousa aceitou um convite do PCP para escrever um livro sobre Cunhal, para marcar também dessa forma o Centenário da figura histórica. Desse livro, surgiu a seguinte peça jornalística que seria insensato deixar de fora deste post:
Há muitas coisas a realçar deste documentário curto da TVI. Comece-se pela relação de grande intimidade com a irmã, com quem estava sempre que podia, com quem muito falava, e a quem fez muita falta durante os anos de prisão, onde ainda assim se podia ver, e os anos de exílio quando assumiu em pleno a direcção do PCP contra o Estado Novo. Acho interessante aqui colocar então este vídeo que é uma reflexão da sua irmã Eugénia sobre o que é o comunismo, ou de como ele deve ser para funcionar:
Depois, a relação com a sua filha. Também essa perturbada sem dúvida pela vida da clandestinidade que muito os separou, mas há ali um carinho genuíno naquela abraço fácil e impregnado da confiança que só o amor e a confiança filial e paternal conseguem produzir, sendo que se não existir a cumplicidade na relação então isso traduzir-se-ia inevitavelmente na linguagem corporal de ambos ou pelo menos de um. Além disso, o episódio que é falado acima na escola, em que a Ana Cunhal se defendeu de provocadores com um golpe de Karate... meus amigos, qualquer pai que dê uma educação destas à filha merece respeito como um bom pai. Preparou-a para uma vida num mundo perigoso e em convulsão como sabemos o nosso ser. Somando isso à amizade e cumplicidade que parecem ter mantido apesar das distâncias que muitas vezes os separaram, diria que ele foi um excelente pai. Além disso, o mundo melhor que ele queria criar seria em prol do futuro da filha e dos netos.
Juntando isso aos anos que ela viveu na URSS, e tendo uma ideia da qualidade do ensino por lá antes da queda do muro, a filha de Cunhal é uma mulher que eu adorava conhecer e travar conversa. É daquelas pessoas que deve ter imenso para contar e ensinar.
Acho aqui também pertinente fazer notar o quanto o pensamento político de Cunhal, em consonância com uma esquerda emancipadora e voltada para o futuro, se debruçava sobre as crianças (imagens acima), que hoje são o futuro amanhã, e os direitos da Mulher (imagem abaixo).
Quanto à reportagem de Judite Sousa, uma das coisas mais curiosas que nela encontro, para além do testemunho de Joshua Ruah (médico de Álvaro Cunhal), são as declarações de Miguel Sousa Tavares (MST). O Miguel é daquelas pessoas que mesmo quando não se concorda vale a pena ler e ouvir, particularmente pelo facto de que embora ele não esconda que é de Direita, não tem afiliação partidária. Embora sempre com aquela pose um tanto ou quanto arrogante e de dono da verdade, que eu presumo venha da educação dada pelo pai que afinal era um monárquico, parece-me ser sério no sentido de que não está a soldo de ninguém. Nas suas declarações, dizia eu, os pontos mais interessantes são o que diz sobre o desejo de poder de Cunhal e o que diz sobre o encontro que teve com Cunhal no Algarve. Diz-nos que a primeira pergunta que fez a Cunhal foi sobre se ele queria ter ficado com o poder depois do 25 de Abril, "e ele disse-me que não, mas eu acho que sim." é como conclui MST sobre isso. Ora bem, é óbvio que Cunhal queria o poder, todos os políticos o querem. A minha diferença de opinião com o MST é no tipo de poder. Cunhal não conspirou nos eventos que levaram em Novembro de '75 ao confronto entre forças militares. O próprio Ramalho Eanes que levou a cabo a operação militar que contrapôs essa revolta dos pára-quedistas, afirmou que a situação resolvera-se depressa porque os militares envolvidos não tinham ligações partidárias (fonte aqui, perto do final do Documentário da RTP - "Portugal 74-75" - O retrato do 25 de Abril). Depois porque Cunhal não era parvo. A razão que ele apresenta para querer adiar as eleições democráticas era de que, em grande parte do país, as pessoas eram coagidas pelo medo e pela fé a serem anti-comunistas. Prática que fora enraízada ainda no tempo da ditadura e que foi (ab)usada depois pelo Centrão para fazer política. Ou nunca ouviram dizer, a título de exemplo, "É pá, aquele Jerónimo de Sousa parece ser uma excelente pessoa, se calhar dava um bom presidente da República... mas é comunista, pá." Ou seja, Cunhal sabia que naquela altura os comunistas não tinham hipóteses numas eleições, e Soares também o sabia daí a democracia lhe ser tão apetecível. A questão é que Soares também queria o poder. Eu penso que Cunhal queria estender o PREC, para lhe dar uma hipótese de funcionar, de reorganizar o país, expulsando os banqueiros e afins (muito como fez recentemente a Islândia), reordenando o território, reforjando a agricultura e a industrialização. Roma não se fez em dois anos, sequer. E note-se que os governos de hoje se queixam sempre de 4 anos não chegarem para modificar para melhor o país, por isso como é que o povo e alguns analistas esperavam que o PREC resultasse em 2 e tão conturbados anos? Mas a Revolução teria de ter feito esse milagre para agradar às pessoas. Estranhamente, há segundo o Expresso (notícia aqui), 20% dos portugueses hoje que acreditam que a austeridade resolve a crise mas precisa de tempo. Interessante que para a austeridade, que nada cria, já tem de haver tempo para os adeptos da direita, mas para melhorar o aparelho produtivo não. Até porque, creio eu, Cunhal também tinha uma visão da democracia que vai nas linhas de Rosseau, que leva à conclusão que ela não existe em Capitalismo, e que aquelas eleições apressadas iriam apenas abrir as portas aos capitalistas:
Na minha opinião, o que Cunhal cria era consumar a Revolução e evitar que esta fosse abortada como veio a acontecer às mãos de um suposto revolucionário que é, ainda hoje, só ares. Já lá iremos.
Depois a um nível mais pessoal, Sousa Tavares fala-nos dum encontro fortuito no Algarve com Cunhal, ambos de férias, em que MST ajudou o líder comunista a escolher melões (pelos 39min), e expressa um arrependimento por não ter convidado o Álvaro para tomar um café. Ora, eu não desejaria ir tomar café com Hitler, Mussolini, Mao ou Estaline se pudesse. Não teria nada para lhes dizer. Eu acho que as pessoas com quem nós gostaríamos de travar conhecimento mais pessoal e "pick their brains" como dizem os americanos, são aquelas que nos fascinam e que de certa forma admiramos. É certo que também há fascínios mórbidos, mas o Miguel não me parece desses.
Esqueci-me acima de mencionar que MST também realça o enorme peso que Cunhal teve a nível do movimento comunista internacional, sendo muitíssimo respeitado pelos mais altos níveis da URSS. O jornalista afirma ainda que Cunhal "era uma pessoa que infundia muito respeito, intimidava!", aos 33min. Aqui temos uma confusão entre respeito e medo própria em acho do pensamento da direita, mas ainda assim creio que afirmada com admiração e não com malícia, visto que justifica a afirmação com o ele (Cunhal) "ser uma pessoa intelectualmente superior, de facto", além do seu passado de luta. E a essa tirada acrescentou ainda ao testemunho da personalidade carismática de Cunhal, um testemunho do fairplay que Álvaro tinha no debato político. O prazer pela discussão, que é notório também noutros marxistas eminentes como Hitchens (também já lá iremos), segundo MST era também apelativo a Cunhal.
Eu realço este testemunho precisamente por vir da Direita apartidária, de alguém que desconfia de Cunhal, que discorda dos seus ideais e visão de mundo, e ainda assim me parece admirá-lo. E aqui está uma prova, para mim, de que MST não é só arrogância.
Cunhal sempre fora enérgico, amante de desporto e de mulheres, de literatura e arte, com um sentido de humor patente nalgumas das suas declarações e posturas. Era um céptico, tanto que é dito num documentário de 2006 que "linko" abaixo, que ele não aceitou logo entrar para o PCP, quando o recrutador primeiro lhe falou. Foi estudar os vários sistemas políticos para tomar essa decisão. Tudo isso foi, na minha opinião, essencial para a suportar com paixão e (citando Odete Santos sobre comunistas em geral) "sangue na guelra" as vicissitudes envolvidas em todos os combates que travou, dentro e fora do partido e do movimento Comunistas.
A sua história em traços históricos e largos pode ser encontrada em pelo menos duas peças que estão completas no youtube e aqui coloco à vossa disposição, poupando-vos à sua busca virtual:
Álvaro Cunhal foi preso 3 vezes. A última terminou numa de duas das mais ousadas fugas prisionais do Estado Novo: a fuga de Peniche. Cinquenta anos depois, alguns dos participantes Cunhal e Camaradas, relatam como aconteceu: deixo aqui duas partes desse relato retirados duma reportagem da SIC:
Mas antes desta fuga, houve uma campanha nacional e internacional a exigir a libertação de Cunhal e dos presos políticos. Dessa campanha deixo a imagem abaixo, com artigos de jornais, panfletos e cartazes, que procuravam espalhar a palavra sobre Cunhal e sobre os horrores da prisão para o prisioneiro político:
Como é conhecido, também foi na prisão que Álvaro Cunhal acabou a sua licenciatura em direito, da qual ele disse, com humor e numa entrevista de rádio, não ter canudo devido a ter estado preso. A sua tese foi republicada mais recentemente quando se deu a discussão sobre o aborto, pois era esse o objecto do seu estudo. No júri estavam figuras proeminentes do Estado Novo, como o próprio Marcelo Caetano. Teve a nota de 16, mesmo naquele tempo dos "bons costumes católicos". Também foi ele que, sendo levado a tribunal, fez da sua auto-defesa um ataque ao Regime de Salazar, avisando-os que seriam eles um dia considerados criminosos e condenados e não ele. Quando questionado sobre o que o permitira aguentar as torturas constantes, ele replicou "Salvou-me o Trabalho".
A sua arte é deveras interessante. Eu esperava que ela incidisse no operário, nas fábricas, nos sindicatos, ou seja no Martelo, mas pelo contrário ela incide na Foice, nas paisagens bucólicas, nas gentes do campo, na resistência dos campestres. (NOTA: se clicarem nas imagens podem vê-las maiores e fazer download para poderem fazer zoom com no pc)
E não se esquece também dos misticismos do povo, que faziam fugir os cobardes, havendo sempre alguém que não se deixa assustar pelo papão e firma o pé:
Como o Canal Porto também teve a boa vontade de reportar, os agricultores, que por defeito profissional são gente do campo na sua vasta maioria, também não esqueceram Álvaro Cunhal, que sempre por eles lutou. Sentindo-se desprezados pelos governos desde a Revolução e pela própria União Europeia, os agricultores que irão brevemente enfrentar mais duas ameaças capitalistas, a privatização da água e as sementes patenteadas (contra as quais o ministério actual não parece ser contra), relembram a coragem do Álvaro e o seu contributo e interesse em através da Agricultura tornar Portugal mais produtivo e, como tal, mais autónomo. Reportagem do Canal Porto, sobre encontro de agricultores em Vila Real, no link abaixo:
Na prisão, produziu belas obras de arte no campo da pintura, mas também fez trabalhos de análise histórica, escreveu romances, traduziu Shakespeare, fez estudos sobre Darwin e sobre a "Questão Agrária", e ainda notas sobre o método e conteúdo para a elaboração do programa do PCP.
Depois da fuga, deu o salto e foi para o estrangeiro, onde assumiu definitivamente a liderança do PCP. Tornou-se também um vulto muito respeitado do movimento comunista internacional, algo que o Miguel Sousa Tavares já havia realçado na reportagem de Judite Sousa, mas que é aqui recordado por outras vozes neste vídeo mais curto:
Mais uma vez, torna-se forçoso e interessante comparar Cunhal a Soares, e depressa se nota que o respeito que Cunhal tinha dentro do movimento comunista tinha uma dimensão muito superior ao peso que Mário Soares alguma vez teve no campo do movimento socialista. Na entrevista com MST, Sousa Tavares diz que há muita gente que diz que não é Cunhal que é controlado pela União Soviética, mas que é ele que manda na USSR, o que Cunhal prontamente nega.
Mas é também dito por MST que Cunhal é tão respeitado como os mais altos líderes soviéticos dentro do movimento comunista. Já depois da Revolução dos Cravos, o Muro caiu e a União Soviética ruiu com ele, resultado directo da Perestroika contra a qual Cunhal era, prevendo o seu resultado. Daí veio o fim da sua amizade e relação com Breznev, documentado no vídeo acima, e recentemente reanalisada num livro chamado Cunhal, Breznev e o 25 de Abril. Ainda não li o livro, mas o autor não aplica o acordo ortográfico de 1990, o que na minha lista é já um ponto a seu favor.
Depois do 25 de Abril, o primeiro evento mais importante desse período da vida de Cunhal foi o debate com Soares, o debate do século passado em Portugal. Infelizmente esse debate não está na íntegra no youtube, mas apenas pedaços dele que de resto estão incluídos naquele documentário de 2006 que postei acima. Das afirmações feitas, é interessante analisar-se o que Soares diz e o que depois, tendo o poder, fez.
Por exemplo, Mário Soares afirma (pelos 3min15seg do vídeo), que Cunhal "teima em governar com uma minoria", é portanto interessante que hoje em dia, no Portugal que Soares em grande escala criou, ser precisamente isso o que acontece. Não tomem a minha palavra, tomem a palavra de Medina Carreira com a concordância de Paulo Morais, que neste debate (aqui linkado), pelos 4min30seg, diz precisamente que há uma minoria a governar a maioria mesmo dentro dos partidos do poder [PS(D)] e que essa minoria está a proteger uma teia de interesses a custos altíssimos para o erário público.
Ora, se isso não é a exploração do homem pelo homem, eu não sei o que será. No debate, Soares diz que quer fazer um país sem classes e sem explorações, mas quando abriu as portas aos banqueiros expulsos e expropriados que mandavam e mandam no país e não só lhes devolveu tudo como ainda os recompensou pela maçada, de onde veio o dinheiro senão das costas do povo? Mário Soares abriu não as portas a um socialismo democrático em Portugal, mas sim a um novo tipo de capitalismo, um "capitalismo sem risco", como diz no mesmo vídeo o Medina Carreira (conversa com Paulo Morais e Judite Sousa), pelos 40 min, referindo-se às PPP's, SWAPs, e todos essas negociatas e proteccionismo que o estado dá a privados fazendo literalmente a transferência de dinheiros do público para alguns privados. E não foram os banqueiros que nos hipotecaram a soberania ou o que dela restava depois do PS nos ter metido na então CEE agora UE (sem sequer referendar a questão perante o povo, realce-se. Para onde terá ido o alto sentido democrático de Soares nessa hora?), nesta última crise?
Para além disso, Soares tornou-se nisto:
Já para não falarmos nas acusações sobre diamantes que são meros boatos improvados, na erecção duma fundação sua homóloga que é ela própria só ares, etc..., Soares chega-nos agora todas as semanas com ataques a Cavaco Silva, mas ataques fracos e patéticos como o "Cavaco devia ser julgado", mas dizendo isto sem ter provas nenhumas a acrescentar ou testemunhos a dar sobre o porque é que ele deveria ser julgado. Considerando que ainda há quem acredite que Soares é de esquerda, isto danifica a causa da esquerda em Portugal. Mas entende-se, Soares vê o seu adversário já tombado reavivado na memória do povo como um grande homem, com um obra que grandiosa que fala por si mesma por vários meios, um verdadeira e completo revolucionário, e deseja ter a mesma fama. Procura agora apresentar-se como uma espécie de Gandalf da esquerda portuguesa, alguém que reúne os esforços desconexos e separados da Esquerda, para derrotar uma direita destrutiva, numa guerra pela alma do país. O problema é que Soares é e sempre foi só ares e a Ares nunca convenceu, apenas a uma maioria idiota do povo português a quem prometeu facilidades e condenou à escravatura económica.
Pelo contrário, Cunhal viveu e morreu com dignidade e mesmo nos seus anos de crepúsculo era dotado dum carisma (embora ele tenha declarado que não gostava nada dessa palavra), duma claridade de pensamento e discurso e de dever que marcam qualquer pessoa que não se deixe só levar pelos preconceitos ideológicos. A minha mãe uma vez contou-me que ouviu Júlia Pinheiro (que é confessa eleitora da direita), dizer num dos seus programas na SIC, só coisas boas de Cunhal, tendo sido ela a última jornalista a entrevistá-lo. Procurei em vão imagens desse programa, mas não as há online, conseguindo apenas um outro testemunho que corrobora o da minha mãe:
Medina Carreira também já disse noutras ocasiões que quem não mente em Portugal não ganha eleições, algo que abona a favor de Cunhal que nunca foi eleito. Mas também disse o economista no decorrer dum raciocínio que um dia o país chegará a uma situação em que o Povo já não acreditará em ninguém, e não haverá alguém capaz de tranquilizar o povo, quando há 30 anos havia o Spínola, o Costa Gomes, o Álvaro Cunhal (ver este vídeo aos 7min20seg), porque o povo já não confia em ninguém. Estranhamente não disse Sá Carneiro, que era dessa época também e da sua cor política. Ora também isto implicará que aos olhos do ex-ministro social democrata, Álvaro Cunhal podia ser muita coisa, mas era também sério e as pessoas, mesmo que não comungassem da sua ideologia, não duvidavam em geral da sua seriedade.
Já com 83 anos e a meses dos 84, Álvaro deu uma entrevista "concedida a Maria Valentina Paiva, da Rádio Bragançana, a 21 de Fevereiro de 1997", que vos "linko" abaixo. Nessa entrevista, nota-se um homem comum (no melhor dos sentidos), de bem com a vida e sem frustrações, que nos revela um pouco da sua vida privada, mas sempre com o cuidado receoso nas palavras para que não seja nem mal interpretado nem mal rotulado. Como diz o povo, "Gato escaldado..." E também uma pessoa que afirma que a sua escrita e pintura não são hobbies mas trabalho, que retira a dúvida levantada por alguns que dizem não saber se a verdade na ficção de Cunhal é inconsciente ou consciente (artigo relativamente bom do Expresso), porque nos verdadeiros tempos livres, no lazer, é mesmo para descansar, diz ele, e aí gosta é de praia e família. No final da entrevista, dirige também uma mensagem "aos muitos que nos ouvem", consciente sempre de estar a falar para as massas ou pelo menos assim o desejando, dizendo que nada mais gostaria que poder alargar aquela conversa de 3 pessoas a todos os que a ouvem. Tal como Miguel Sousa Tavares, também eu gostava sinceramente de ter ido beber um café com um homem que nesta entrevista afirma uma convicção que também eu tenho mas só agora soube que partilhávamos, que os velhos não só ensinam os novos como também com estes últimos aprendem, se tiverem uma conversa a sério e não "uma troca de monólogos".
Dois anos mais tarde, em 1999, Cunhal tem ainda esta palavra sobre o Futuro e o Caminho a Seguir, no Rivoli do Porto, já com um dos seus olhos debilitado pela doença, mas ainda com uma voz potente e um discurso coeso.
Em 2005, Cunhal morreu. Foi a terceira e última vez que estive a menos de 200 metros do corpo dele, pois estava em Lisboa, no meu segundo ano de universidade, e decidi que era importante presenciar o último momento histórico daquele grande homem. Tendo na altura já plena consciência política, nunca esperei ver aquilo, estando o PCP tão em baixo à época.
Um tão enorme desfile, um rio de caudal e comprimento tão largo feito de pessoas, as bandeiras vermelhas flamejantes no ar, erectas e orgulhosas, a contrastarem com a tristeza de muitos. Fez-me na altura e faz-me agora pensar num monólogo de Banderas, no final do filme "The Mask of Zorro", em que ele descreve ao filho no berço o funeral de herói que o avô, o Zorro original, teve:
"The people of the land gave him a hero's funeral, the largest anyone had
ever seen. They came from far and wide to say farewell to their brave
and noble champion." Traduzindo: O povo da terra deu-lhe o funeral de um herói, o maior que alguém alguma vez viu. Eles vieram de longe e perto para dizer adeus ao seu corajoso e nobre campeão.
E como sempre, Mário Soares não perdeu a oportunidade de se colar uma vez mais a Cunhal. Mais não fez que o que devia, até porque o rival propiciou-lhe a vitória numa das corridas à Presidência da República, algo que, como é dito, Soares nunca agradeceu. Esse acto de Cunhal não parece próprio de alguém que ambiciona o poder só por si, mas antes de alguém para quem o poder não passa de mera ferramenta para atingir o, esse sim importante, objectivo duma sociedade mais justa, produtiva e igual.
Álvaro Cunhal foi, segundo os seus desejos, cremado e as suas cinzas espalhadas pelo Cemitério do Alto de S. João (algo que muito custou à irmã e que eu presumo ele ter sido feito para impedir qualquer culto à sua personalidade). Não houve discursos então, também segundo os seus desejos, mas houve canções de coração pesado.
Como morreu em 2005, já não teve o prazer de saber que o aborto fora referendado e despenalizado pelo povo em 2007. Portanto, dado que se deu a revolução do 25 de Abril em 1974, algo que ele previu uns 26 anos antes segundo a peça sobre ele de 2006 que acima vou disponibilizei, e que a sua tese de licenciatura foi precisamente a defesa da despenalização do Aborto, aqueles que dizem que ele deveria ser um frustrado pois nada alcançou, simplesmente não o entendem além de ignorar os feitos singulares dele no campo das artes, da literatura, da análise histórica, etc... Ele não tinha a presunção de alcançar nada sozinho, mas sim trabalhar para acordar e mobilizar as massas para que se alcançassem esses objectivos colectivamente. São inegáveis as vitórias que assim obteve, apesar de toda a repressão e mais tarde reacção que teve de enfrentar toda a sua vida.
No programa "Os Grandes Portugueses", foi eleito Salazar como o maior português de todos os tempos, com Álvaro Cunhal em segundo lugar. Muitos leram isso como um voto de revolta do povo contra o governo de então e o rumo geral do país. Presumo que Salazar ganhou também porque a direita, temente de ter Cunhal eleito como o maior dos portugueses, se terá unido em torno de Salazar. Não há nenhum partido português fascista actualmente com expressão popular e ainda bem, mas como eles temem o PCP é uma coisa incrível! Ainda no domingo passado, Marcelo Rebelo de Sousa comentava uma sondagem publicada no Expresso e dizia, convicto, "o PCP está fortíssimo!". Quando se falou de percentagens, o PCP tinha 11% de intenção de voto para as legislativas. Isto para a Direita é um PCP fortíssimo demais para o goste dela (para mim, é um PCP ainda demasiado fraco para ser efectivo), mas isto só para realçar com um exemplo o quanto a Direita não quer dar espaço aos Comunistas. Ainda assim, valeu a pena ouvir aquelas palavras pelo Advogado de Cavaco Silva, precisamente no dia do centenário de Cunhal. Quem me dera que tivessem mais substância por trás. Mas eis as reacções à vitória de Salazar no programa:
Interessante ver que até na morte, há uma reacção generalizada nos votos contra o Álvaro Cunhal. É de notar também que os ingleses pelo menos, no programa equivalente britânico, tiveram juízo e nomearam Winston Churchill e não a Dama de Ferro, por exemplo. Curioso também notar que, segundo a wikipédia, Mário Soares ou mesmo Cavaco Silva ou Sá Carneiro, não estão em nenhumas das primeiras 10 posições. Mário Soares aparece em 12º, depois de Salgueiro Maia, e Sá Carneiro em 16º(com Pinto da Costa logo a seguir??). Não quero atirar achas para a fogueira mas o Cavaco ficou em 27º. Qualquer destes teriam sido possivelmente instrumentalizados pela direita para impedir Cunhal de ser o primeiro, o que dá tese a que o voto em Salazar foi de protesto face a PS(D).
Pegando noutro filme de Banderas, o "The 13th Warrior", a certa altura um líder constata que morrerá um homem pobre. Um rei promete-lhe um funeral digno de um rei, mas o líder guerreiro diz para quem estivesse na sala "Um homem poderia considerar-se rico se alguém desenhasse a história dos seus feitos." O personagem interpretado por Banderas, o único de entre os presentes que sabe escrever percebe que está a ser interpelado e diz "Um tal homem poder-se-ia considerar rico com certeza!", aceitando a comenda que lhe fora feita. O que não faltam por aí são livros sobre Álvaro Cunhal, sendo um dos mais conhecidos e badalados, a biografia não autorizada nem acompanhada escrita por Pacheco Pereira. Álvaro Cunhal nunca quis escrever as suas memórias.
Neste ano de 2013, ano em que Álvaro Cunhal faria 100 anos caso fosse vivo, o PCP honrou de várias formas a memória do seu líder histórico. Eu presenciei a exposição sobre a Obra e a Vida do Álvaro Cunhal, como testemunham muitas das fotos com que procurei colorir este texto. Mas houve também uma na faculdade de Letras de Lisboa, onde Cunhal cursou e no qual estimulou os movimentos estudantis. Várias palestras sobre a sua obra foram também lá apresentadas no decorrer no centenário. Recolhi os vários vídeos e aqui também os reúno através de links para vossa apreciação:
O Público recolheu também as impressões da malta mais jovem e como é que estes conhecem Álvaro Cunhal (link para o vídeo), isto penso que entre membros da JCP. E a esses testemunhos adiciono este (link aqui), que me parece particularmente incisivo, com discurso mais seguro e cuidado, e que fala do que é um comunista hoje.
O "Até amanhã, Camaradas" passou este ano de série a filme e estreou nos cinemas Portugueses. Eu, no passado dia 10 de Novembro, a título de um acenar respeitoso ao camarada Cunhal, escrevi e publiquei num outro bolgue onde participo, o 74rte, que trata única e exclusivamente de cinema, a crítica ao "Até amanhã, Camaradas" e também ao "Cinco dias, Cinco noites", outro filme inspirado pelos romances homónimos de Manuel Tiago, pseudónimo do Álvaro. Para o caso de as quererem ler, aí as têm.
O presidente alfacinha também deu ares de sua graça na inauguração e brindou os presentes com um discurso (vídeo "linkado" aqui:Avenida em Lisboa homenageia Álvaro Cunhal).
Contudo, longe de mim calar as vozes daqueles que criticam Álvaro Cunhal, pois nenhum homem é isento de defeitos, nem tão pouco julgo concordar com tudo o que Cunhal achava e fez. Dou portanto dois exemplos nacionais dessas críticas, que encontrei durante a execução deste texto, um que apenas achincalha sem acrescentar nada e outro um tanto ou quanto mais incisivo e profundo. E para terminar, darei também um exemplo internacional de crítica ao PCP.
Sobre este primeiro artigo, que de tão pouco diz e nada acrescenta, lê-se em menos de 1 minuto. Ataca Cunhal por conspirar para transformar Portugal numa "Bulgária ocidental" (lengalenga é a mesma de outros mas com expressões diferentes, como "fazer do Alentejo uma Cuba", ou "fazer de Portugal mais um satélite da Rússia", etc...) sem oferecer qualquer prova disso mesmo. Talvez ele acredite em Mário Soares pura e simplesmente, que tal afirmou também sem provas, mas não o vejo correr a escrever um texto a reforçar a ideia de Soares que Cavaco tem de ser julgado por crimes...huh... incertos com provas inexistentes ou testemunhas credíveis. Depois ataca Cunhal por promover o PREC e destruir a economia portuguesa!! Esta é estonteante, porque o problema da economia portuguesa é o mesmo desde, pelo menos, o século XIX:
Portanto, quem destrói a economia portuguesa é quem a hipoteca em vez de a tornar produtiva. E aqui sim, o Cavaco pode e deve ser acusado de ter criado as políticas para destruir a pesca e a agricultura em Portugal, algo que o PREC desejava melhorar. Mais uma vez 2 anos de alegado PREC, em que surgiram 6 governos, não é experiência válida para dizer se funcionaria ou não. O próprio Cunhal disse o que achava sobre isso e ao que vim a descobrir fez uma leitura na altura experimentando o acontecimento próxima da que eu faço pelo olhar crítico à nossa história:
Adiante. A última acusação é a de "O inimigo da Europa". Ora bem, concordo se estivermos a falar da Europa actual, a que sobre disfarce duma benéfica aliança, os países mais desenvolvidos se enchem dos países menos desenvolvidos. Ou de onde acham que vieram os dinheiros para que os nossos agricultores não produzissem? Ou de onde vieram as sanções no passado por produzirmos leite a mais? Ou quem nos anda a emprestar dinheiro a juro, querendo forçar uma agenda de federalismo europeu, a par dos EUA, quando nos EUA há uma transferência de dinheiro 10 vezes maior dos países de centro (isto é mais ricos) para os países periféricos do que a que existe na União Europeia? Se é dessa Europa que falamos, também eu estou contra ela. Se falamos da Europa enquanto povos e locais que a compõem, é simplesmente estúpido. Cunhal apenas achava que devíamos cooperar com os outros povos europeus, mas não enquanto bloco económico e militar. O que o torna muito menos imperialista e estalinista que este seu tipo de detractores, por muito de direita que digam ser. Ainda que, é minha opinião, que o espectro político não é uma recta mas um círculo, pois os extremos tocam-se. Logo se calhar eles são de uma direita extrema que toca mais no que se passa agora na China, alegado país comunista, que é portador de um capitalismo selvático e como tal está, enquanto estado, a prosperar num mundo capitalista e é o paraíso para o capitalista puro (mão de obra barata quasi-escrava, sindicatos proibidos por lei, ditadura estatal), que no Salazarismo. Os extremos tocam-se. Enfim, eu podia atirar os diamantes contra o Mário Soares, o filho dele ainda recentemente falou disso na televisão ao falar-se da crise com Angola, mas a verdade é que isso são rumores e boatos dos quais não há provas, por isso não é ataque válido. Fale-se sim do que as pessoas realmente afirmaram e depois no que realmente fizeram! E aí mostrem-me o ditador Álvaro Cunhal, sem ser meramente baseado em suspeitas anti-comunistas, com provas, com algo que ele tenha escrito nesse sentido, e eu render-me-ei às evidências se se comprovarem serem de fonte fidedigna. A comparação feita no título e no corpo desse artigo de opinião, entre Cunhal e um rei, é tão patética (desculpem a repetição, mas não há melhor palavra) que nem vale a pena comentar.
Ora, aqui temos outro artigo que visa criticar Cunhal, com receio, começo a achar, que durante o seu centenário, já o homem morto e queimado há 8 anos, o povo decida votar nele para Primeiro Ministro ou Presidente da República. Embora goze, este artigo não deixa de ser mais incisivo e provocador de pensamento, muito mais digno que o anterior. Como tal, é uma crítica que tem de ser levada mais a sério.
Começa por criticar Álvaro Cunhal por este ter escrito em 1939 um apoio ao pacto de não agressão germano-soviético, raciocinando que uma guerra entre as potências imperialistas era bom para a internacional comunista. Ora, em termos puramente de Arte da Guerra, se ele argumentou isso, estava correcto. É sempre positivo deixar que os inimigos se destruam uns aos outros. Quanto à 2ª Guerra Mundial(WWII, sigla inglesa), Trotsky, membro da Troika Original, ao lado de Lenine e Estaline, procurou avisar a internacional comunista sobre os perigos do Nacional Socialismo. Infelizmente, após a morte de Lenine, Estaline tomou poder e perseguiu até à morte Trotsky. A História podia ser hoje muito diferente, se Estaline não tivesse levado a sua avante. Mas ainda assim, foi a Rússia de Estaline que derrotou o Hitler. E o tempo que esse pacto de não agressão ganhou para Estaline se preparar para a guerra, pode ter sido decisivo. Seja como for, em 1939 ainda não se sabia o terror que a WWII viria a gerar e Cunhal era novo. Por muito estudioso e intelectual que fosse, estava a argumentar do campo teórico, da perspectiva dum raciocínio frio e calculista. Mas atenção, até Churchill chegou a apoiar Hitler por ele ser anti-comunista, antes de perceber o que ele era. Erros destes são cometidos na política internacional, onde o principal é perceber quem são os inimigos e os aliados, o que não é tarefa fácil.
Ataca o Cunhal por este ter criticado um relatório produzido nos dias de Krushev que dava conta dos crimes de Estaline. Sobre isso, sinceramente não me posso pronunciar porque não sei, nem é dito, em que termos foi criticado nem o quê. Mais uma vez, os argumentos são suportados por o que alguém disse que Cunhal fizera, neste caso citando Pacheco Pereira e Carlos Gaspar (politólogo). Em seguida, afirma que Cunhal é anti-democrático e explicita-o assim:
"Após o 25 de Abril, Cunhal continuou obcecado com a revolução russa,
sonhando repetir a experiência de Lenine. Deixou que as eleições para a
Assembleia Constituinte se realizassem em 1975, pensava que o PCP as
ganhasse mas ficou em terceiro lugar (com apenas 12%, a seguir ao PS e
PSD)."
"Deixou que as eleições (...) se realizassem?", muito poder roga este senhor a Álvaro Cunhal!!! Continua a citar quando dá jeito Pacheco Pereira, presume-se, para dar um ar substanciado àquilo que são apenas boatos, reafirmando a convicção de outros de que Cunhal tendo perdido eleições fomentou o 25 de Novembro de 1976 para criar "uma república comunista integrada por Lisboa, Setúbal, Évora e Beja,
com território contínuo, um Portugal do Sul, dividido do norte democrata." Tudo claro como água e contradito nos documentários que eu aqui coloquei sobre o PREC, feito pela RTP, dito por pessoas que não Cunhal ou os seus camaradas, e negado pelo próprio Cunhal quando questionado.
Por último, e esta foi a questão que realmente nunca antes tinha visto abordada, Álvaro Cunhal é acusado de homofobia:
"No campo dos costumes, há também que recordar aquilo em
que o PCP nunca tocará. Referimo-nos à a famosa frase de Álvaro Cunhal
sobre a questão da homossexualidade numa entrevista a Carlos Cruz na
década de 1980: "é uma coisa muito triste".
É certo que Cunhal era um homem de outra geração,
nascido no princípio do século, numa sociedade fechada e conservadora.
No entanto, como líder político, de uma vanguarda de esquerda, tinha a
obrigação nos anos 1980 de ter ultrapassado o preconceito em relação à homossexualidade.
Esta opinião de Cunhal tem, aliás, forte relevo
político. Estão por estudar a fundo as circunstâncias da expulsão de
Júlio Fogaça, que era homossexual, do PCP , onde se podem
ter misturado questões políticas com questões homofóbicas. Também está
por perceber a razão de o PCP lidar ainda hoje com visível incómodo com o
tema da homossexualidade, ao invés do que acontece com o Bloco de
Esquerda.", escreveu o opinador.
Ora, a expressão usada na entrevista com Carlos Cruz está fora de contexto e infelizmente, como acontece com o debate com Soares, a entrevista com MST, esta última entrevista também não está no youtube na íntegra, por isso não sei enquadrá-la e o comentador esforça-se por nessa posição manter os seus leitores. Quanto ao segundo parágrafo que citei, dizer que Cunhal tinha a obrigação de estar à frente do seu tempo, contrário à época em que cresceu e viveu, e ter ultrapassado qualquer preconceito em relação à homossexualidade, eu devo dizer não em defesa de Cunhal mas em meu detrimento que eu, que nasci em 1985, não fui sempre como sou hoje e já há alguns anos defensor da causa gay. Precisei antes de perceber que ser gay não é uma escolha ou um capricho, mas uma natureza. Que as marchas homossexuais não eram compostas apenas por bichas que se queriam mostrar e obter atenção. Mas percebi-o. Por outro lado, o meu avô (e quando soube disso já era eu a favor da causa homossexual), que tem 89 anos (é portanto da geração de Soares), ainda hoje não entende os gays. "O que é que isso dá para o país?" pergunta ele, sem conseguir dar sentido àquilo. E o meu avô noutras coisas é bem progressista, acha por exemplo que os padres deviam ser homens casados e pais de família, para que não enveredassem pelos caminhos do adultério e da pedofilia. Se calhar foram anos a mais com a Igreja e a Sociedade a censurarem comportamentos homossexuais e depois sair desse espaço mental seja complicado. Mas dei-me ao trabalho de ver até os comentários dos leitores, alguns deles interessantes mesmo vindo de pessoas que pelo que escrevem são totalmente opostas a Cunhal. Quanto às questão dos gays veja-se:
Aqui, o senhor Pasternak, cuja visão da história contrasta completamente com a minha interpretação pessoal, diz que mais tarde Cunhal pediu desculpas por ter instrumentalizado ou denegrido a homossexualidade. É claro que nem Pasternak diz de onde obteve esse "Parece que mais tarde...", nem tão pouco se coibiu de dotar tal acto de uma cínica estratégia política. Ora, fala-se isto dum homem que chocou precisamente por não querer deixar reformar o seu partido, como os restantes partidos comunistas europeus fizeram após a queda do Muro, possivelmente para detrimento político. Hoje, o PCP é o partido político com mais peso institucional na Europa, daí as afirmações do Marcelo, "os comunas estão fortíssimos", parafraseio. Mas à época essa indisponibilidade para mudar, tornou o PCP mais facilmente alvo das críticas do costumo, de que está desactualizado, de que é um relíquia, bla bla bla... Ou seja, o Durão Barroso que foi do MRPP, mudou-se para o PSD para chegar onde chegou. O Soares saiu do PC para fundar o seu partido, o PS, pois viu que através do Álvaro não chegava ao poder. Até o Sócrates começou na JSD. O tipo que permaneceu fiel a um ideal mal visto pela maioria dos portugueses e com uma péssima campanha de relações públicas, é que disse uma coisa só para parecer bem. Toda a lógica, sem dúvida!!! Digam-me em Portugal quantos políticos teriam a hombridade de reconhecer em público que erraram e ainda mais pedir desculpa por isso?? Se é que todo o episódio, desde a acusação ao pedido de desculpas, aconteceu mesmo, acho que só diz bem de um homem que percebe que errou e procurou fazer emendas.
Finalmente no terceiro parágrafo citado, é criticado o PCP e não Cunhal, mas é muito dito que é impossível dissociar o PCP de Cunhal. Ainda assim, seria uma crítica boa (foi à época), não tivesse recentemente o PCP, juntamente com PS e BE, votado a favor do projecto lei da Co-Adopção Homossexual no Parlamento. Eu por exemplo, sou bem mais picuinhas. Eu critico o PCP por não ter votado contra o Acordo Ortográfico em vez de meramente se ter abstido. Mas isso é uma crítica que poderá de futuro ser também minimizada se levarem uma proposta ao Parlamento para destituir um acordo com quem a maioria discorda. E aí o PCP estará contra o PS e o BE, mas ao lado dos 60% a 80% dos portugueses que são contra o AO90.
Como não podia deixar de ser, fala-se nos comentários do suposto desejo de Cunhal de transformar o país na Cuba Europeia e eis o que diz outro comentador à cerca disso:
Note-se que o New Dawn (como se intitula o leitor que deu a opinião acima) começa por dizer que Cunhal é obsoleto (id est, não é um comunista), mas ainda assim revela, tendo uma visão crítica da História, que não concorda com essas afirmações de que Cunhal alguma vez achasse que conseguiria fazer isso, quanto mais não fosse pelas condições internacionais instaladas à época.
Há ainda esta outra opinião que culpa o Cunhal pelo retorno em força do Capitalismo Selvagem, ainda que eu não consiga perceber bem se é sarcasmo, ironia, ou se acredita mesmo no que está a dizer.
Interessante que não deixou de referir um artigo em que foram denotados os avisos de Cunhal sobre os perigos do euro, da desindustrialização, do abate da frota pesqueira, da desertificação, e da especulação imobiliária e financeira. Ou seja, o homem previu as nossas crises actuais, embora a maioria não lhe tenha querido dar ouvidos. Cavaco Silva, que é economista pelo menos no papel, potenciou-as. Não tenho como não estar à esquerda. E um dia destes farei aqui um post detalhado a explicar como cheguei à esquerda e porque é que ainda lá estou e continuarei, ainda que a minha ideia de esquerda é apartidária. Não sou militante de partido nenhum e tenho assim liberdade de criticar até aqueles que mais próximos estão das minhas ideias, como fiz acima. Por enquanto, sou aquilo a que os comunistas chamam "um amigo do Partido". Se me começar a desagradar o Partido, com facilidade deixo de o ser. Mas nesse outro post, falarei também do PCP, do Marxismo enquanto teoria, dos vários ramos ou ideologias que dele derivaram, etc...
A última crítica a Cunhal, a que tem carácter internacional, surge pelas mãos de um outro marxista que eu admiro e sobre o qual fiz também já um post nesta rubrica (http://150anosportugaljapao.blogspot.com/2013/04/rapidographia-christopher-hitchens.html), também já falecido, também um intelectual, chamado Christopher Hitchens. Em 2004, quando nos visitou, ainda eu não sabia quem ele era, o Hitch disse o seguinte, falando do PREC:
"«Houve algo que me
afectou muito, talvez porque sou jornalista: o caso do República, em
1975, quando a extrema esquerda tomou conta do jornal e expulsou os
"socialistas moderados" do PS. Havia muita gente que dizia que não era
censura, eram só os trabalhadores a tomar conta do seu jornal. Mas para
mim foi o teste: aquela gente só estava interessada na liberdade de
imprensa se a pudesse controlar... Como as eleições livres, era
considerada por eles uma liberdade burguesa - e ver isso mudou a minha
maneira de pensar. Na altura era membro de uma organização trotskista, e
deixei-a. »Foi o seu momento
orwelliano? «Sou um grande admirador de Orwell e não posso arrogar-me a
sua capacidade de análise, a sua intuição. Mas de facto percebi aí
que a política do PCP, de Cunhal, de Vasco Gonçalves, era essencialmente
estalinista. Pensei: talvez seja verdade que Mário Soares é um
"socialista da NATO", e bem conservador, mas prefiro-o de longe aos
socialistas do Pacto de Varsóvia.»" Considerando que Hitchens, tal como Orwell, eram Trotskistas (aliás Hitchens achava que Orwell escrevera o Animal Farm para defender a ideia de que devia ter sido Trotsky a ficar no poder soviético e não Estaline), portanto faziam parte da esquerda anti-totalitária ou como o Hitch fraseava a resistência à esquerda a Estaline. Diga-se de passagem que Hitchens uns 10 anos antes de morrer se tornou apartidário, sem nunca renegar o marxismo, mas assumindo a morte do movimento socialista internacional. Eu acho que foi pena o Hitch e o Álvaro nunca terem falado. Talvez não o tivesse achado tão conservador como achou Soares, o "socialista da NATO". Não sei se os dois se entenderiam, desconfio que não, ah mas que debate podia ter sido! Eu por mim gosto de consultar as obras e opiniões dos dois, de forma crítica e aberta, e estou muito no início tanto num como noutro, porque afinal é na dialéctica em que se baseia o Marxismo e a dialéctica é nada mais que a "interpenetração de ideias ou posições diferentes e as consequências disso mesmo", parafraseio Hitchens. Para além disso, é interessante notar que o Le Monde (que apoiou Miterrand numas eleições, e o Hitch dizia ser da mesma família política que Miterrand foi dos poucos em toda a imprensa internacional, que culpou o PCP pelo caso República, quando era socialista) publicou a favor do PCP, dizendo que esse movimento de tomada de controlo do República não fora comunista, mas antes levado a cabo pelos trabalhadores do jornal. Diga-se de passagem que isso deu muito jeito ao Mário Soares & Co.
Seja como for, Cunhal está hoje ainda vivo, no sentido figurado, no PCP, na sua obra artística, literária e política, que aparentemente ainda fascinam as pessoas:
Está no top 5 dos livros não ficção da Wook, que por ironia é liderado por outro marxista (já) não militante chamado Ricardo Araújo Pereira.
Na secção de não ficção da FNAC, aparece em primeiro com o livro da Judite Sousa e depois mais abaixo novamente um outro livro sobre ele e a sua relação com Breznev que já mencionei acima.
Estes livros levaram os Indignados, ou pelo menos foi através dessa página no Facebook que eu obtive a imagem abaixo, a gozarem com a situação:
Mas brincadeiras à parte, termino esta minha longa mas, admito, puramente virtual e superficial dissertação sobre Cunhal, não menos completa ou abrangente contudo que muitos artigos de jornal, contra ou a favor, que outros escreveram durante este ano (e nalguns dos quais me apoiei até), deixando um sumário de como vejo o Álvaro.
Acho que é um homem incontornável da História Portuguesa, um guerrilheiro, um político, um intelectual, um humanista, que de certa forma foi um Orwell português (não querendo assim minimizar a singularidade e individualidade de ambas as figuras que comparo), não que tivessem uma visão de mundo completamente igual, mas antes por ambos serem marxistas e tirem tido o mérito de apontar e prever as crises das suas épocas e de combaterem o fascismo com alma e coração, dando não só a alma mas também o corpo ao manifesto. Enquanto uns, muitos, acham que ele teria sido um Estaline em ponto pequeno, se calhar um Fidel, eu desconfio que ele tinha tudo para ser o nosso Mandela.
Não se admirem de ver o Mandela sorridente entre os Comunistas, afinal foi a CIA que o denunciou ao Regime Sul Africano e foram comunistas sul-africanos que lhe deram guarida na clandestinidade. Tal como Malcom X e Martin Luther King, Mandela tinha fortes ligações marxistas. Álvaro Cunhal queria reunir os portugueses democratas em torno do ideal comunista, para fazer de Abril uma sociedade de socialismo democrático, como indica por exemplo o comentário abaixo onde se diz contra a perseguição religiosa de qualquer tipo, sendo ele próprio ateu assim com é o pensamento marxista:
Mas não pôde consumar a sua revolução porque a verdade é que o povo nunca abraçou a revolução. Esta foi feita apesar do povo e foi por isso que o 25 de Abril não mais conseguiu que dar-nos o direito de falar, ainda que os governantes que defendem os interesses do 1% não nos ouçam na mesma. O povo não fez o 25 de Abril, bateu-lhe palmas. O povo não queria o socialismo, provavelmente ainda hoje grande parte do povo nem sabe bem o que isso é e quão grande é a hipocrisia actual do nome do Partido Socialista, mas na altura do PREC bateu-lhe palmas. Tal como batia palmas ao Estado Novo antes, ainda que também não o quisessem. O nosso mal é que as revoluções, que nunca passaram de golpes de estado neste país, têm sempre sido feitas por uns poucos e depois perdem-se p'lo caminho dos muitos que não sabem bem o que querem fazer com a liberdade que alguém lhes dá e vão na melhor cantiga de bandido que ouçam.
Álvaro Cunhal, usando uma metáfora cinematográfica e parafraseando o discurso final do "The Dark Knight": "... era o herói que Portugal precisava, mas que o Povo Português recusou. Por isso o perseguiram. Mas ele aguentou. Porque ele não foi o nosso herói. Foi um acérrimo defensor. Um visionário aconselhador. Um Cavaleiro das Trevas." Ainda (ab)usando das deixas desse belo filme, ele foi alguém que viveu o tempo suficiente para se ver tornado aos olhos doutros num vilão. Mas ainda assim, ele foi também daqueles que, como o Poeta disse, "por obras valorosas se vão da lei da morte libertando".
Enquanto ele desejou que nós conseguíssemos realizar os nossos sonhos, eu deixo-vos com o sonho dele e despeço-me com um alegre e sincero "Até amanhã, camaradas"! ;)
P.P.S.: Esta entrada contém além das fotos minhas, imagens retiradas de artigos do Expresso e do Público, e ambos os jornais são supracitados e "linkados". O youtube foi também indispensável.