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quinta-feira, 6 de junho de 2013

Celebrações e Educativas Palhaçadas Ortográficas


Senhoras e senhores, irmãos e irmãs, amigos, camaradas, chegámos ao mês que traz o Verão!
Para deprimir ainda mais um país já em d(r?)epressão, sabe-se agora que este será o verão mais frio dos últimos 200 anos. Caso para muitos levantarem a questão, mas afinal onde está o Aquecimento Global? Aos que fizeram essa pergunta sem ser em retórica irónica, sugiro que tomeis o primeiro avião ou barco para o Pólo Norte e perguntais a um urso polar, se ele ainda não se tiver afogado por o gelo descongelar mais depressa todos os anos.
Mas animemo-nos porque este mês é mês de festa. Em Lisboa temos os Santos Populares a animar a malta e este ateu adora esses santos! :D Coloco aqui scans das páginas da Maxim deste mês sobre os santos (Maxim, não me leves a mal, mas até é uma boa publicidade para vós, um quid pro quo), fazendo-lhe um pequeno reparo ao qual o meu pai é que me chamou à atenção. O santo padroeiro de Lisboa é São Vicente e não Santo António. Mas como diria o meu pai "Valha-nos Santo Ambrósio, que é o padroeiro dos ignorantes!" ahahah


Por outro lado, existem as festas e celebrações relativas ao festejo dos 470 anos de relações entre Portugal e Japão.
A Embaixada do Japão indicou-me então dois eventos por email, pedindo-me que os veiculasse, mas também uma colega minha que agora estuda no ISCTE me avisou de outro. Quanto a esse último anúncio, fui forçado a corrigir o acordês de que vinha infectado o texto do email. No caso dos anúncios da Embaixada, já estão curados desse mal até nas imagens!! :D Oh para mim todo contente! Pequenas vitórias, baby steps, win by attrition/vencer por desgaste... a essência da guerra de guerrilha também se pode aplicar na guerra cultural!

- Via Embaixada do Japão:

1) "A Embaixada do Japão tem o prazer de divulgar a vinda do grupo ‘Kiwi & the Papaya Mangoes’ a Portugal, entre os próximos dias 13 a 16 de Junho, com concertos no Porto - na Casa da Música, em Lisboa - na Festa do Japão em Lisboa e nas Festas da Cidade de Lisboa e em Abrantes - nas festas da cidade. Concerto a não perder!!

Agradecemos a respectiva divulgação e contamos com a sua presença."

2) “Inserido na programação das comemorações dos 470 anos de Amizade Japão Portugal, a Embaixada do Japão tem o prazer de divulgar o Workshop e Demonstração de Música e Dança Folclórica Japonesa com o Grupo de tambores “Raku” e Grupo de Folclore Japonês “Arauma Chiyo”, ambos provenientes da Ritsumeikan Asia Pacific University – APU em Oita ( ilha do Kyushu – sul do Japão).



O workshop terá lugar no dia 14 de Junho das 18h30 às 20h00 no auditório do Museu do Oriente, com entrada livre sujeita a levantamento de bilhete no limite da lotação da sala. Os interessados poderão levantar os bilhetes na recepção do Museu do Oriente disponíveis no dia do evento.



Mais informações consultar:



A Embaixada do Japão apresenta os seus melhores cumprimentos, espera contar com a sua presença e agradece a divulgação que possa ser feita.”


- Via Cat(a minha colega):

«Caros Alunos/Professores/Colegas,

”No próximo dia 12 de Junho, vamos dar as boas-vindas ao grupo de dançarinos e músicos da nossa universidade parceira Ritsumeikan Asia Pacific University do Japão. Este grupo vai aCtuar durante as marchas populares e também fizemos um convite para fazerem um espeCtáculo para a nossa comunidade.

Por isso vimos por este meio convidar-vos para a Festa do Japão no ISCTE-IUL no dia 12 de Junho (quarta-feira) às 14 horas  no Grande Auditório do ISCTE-IUL (Edifício II, piso I). Esta é uma oportunidade única para conhecer a arte nipónica e ouvir tambores japoneses.


Organização:
IEPM – International Exchange Programmes in Management (
ISCTE Business School)
TUNA ISCTE

Embaixada do Japão em Lisboa »


E com isto termino a parte festiva deste post, mas a cultura continua.
Vamos começar pelo Acordo Ortográfico de 1990 (AO90). Não vou fazer mais um post enorme sobre isso (não este mês, pelo menos) embora haja muito a comentar, como um juiz ter exigido a entidades oficiais que não o aplicassem, visto não estarem sob a alçada directa do governo e como tal a resolução da Assembleia da República não os vincula a tal, só para dar um exemplo. Contudo, vou postar aqui este vídeo do Miguel Sousa Tavares (conhecido na net como MST), aquando do seu contributo opinativo e como testemunha contra o AO90 no âmbito da Conferência “Onde Pára e Para onde vai a Língua Portuguesa?”:
Oh, e lá está ele a implicar com o Cavaco, pá! Oh Miguel, assim já é perseguição! Quanto ao assunto do palhaço, veja-se que bonita é a nossa democracia, em cujos governantes se fartam de dizer mal dos déspotas da Coreia do Norte, mas por cá também não se pode ofender o Pequeníssimo Líder. Tristeza. Lá que ele o processasse como uma pessoa normal tem o direito de fazer se se sente alvejada, tudo muito bem. É um direito que assiste a todo o cidadão, mesmo àquele que tem temporariamente o título de Presidente da República. Agora colocar um processo ao Miguel alegando um artigo da constituição que remete para ofensas ao cargo de Presidente da República? O Miguel Sousa Tavares não procurou ofender o cargo, apenas explicitar de uma forma colorida que a pessoa que actualmente o ocupa... enfim, pá!
A mim sempre me ensinaram que quem quer respeito, dá-se ao respeito. É preciso lembrar que estamos a falar do homem que diz não entender o AO90, que diz que não o vai utilizar porque já é velho, mas que o promulga na mesma? É necessário recordar que este foi o homem que diz que está a sentir a crise como todos os portugueses, pois 10 mil euros de ordenados não lhe cobrem já as despesas? É por ventura imperativo ir buscar a memória de que aquele que pagou aos agricultores portugueses para nada fazerem e deu cabo da frota pesqueira portuguesa a solda da então CEE, agora nos venha dizer que a saída da crise está no mar e na agricultura? (raios, não me recordo do nome dessa via política… era qualquer coisa ismo… bem, há-de ocorrer-me!) Ou o seu envolvimento nada investigado no caso BPN? (carregar para ver vídeo ilucidativo) Ou talvez baste dizer que é o presidente mais desrespeitado seguramente desde que temos presidentes neste país, com petições a pedirem a sua demissão (eu assinei-a). E palhaço sou eu? Não, porque eu não votei nele duas vezes para PR, depois de saber a porcaria que ele fez enquanto Primeiro Ministro. Mas, Miguel, excedeste-te sim senhor, e eu e essa classe já tão ignorada pela sociedade que tu maltrataste aguardamos o teu pedido de desculpas.

Falando em palhaçadas, abordemos a actualidade, onde quem está na baila não é o PR, mas sim o Ministro da Educação. Sabem o que é que este pilar do conhecimento académico tem a dizer sobre as dificuldades da língua portuguesa?
Pois é. O que vale é que o senhor está a obrigar todos os putos em Portugal a aprender o Acordo Ortográfico que não resolve nenhum desses problemas e ainda deixa a língua tão ambígua que os alunos são só perguntas e os professores só podem dar a única resposta que nenhum professor deve dar: “Porque é assim.” Sem crer, o ilustre ministro da deseducação generalizada bate em cheio na cabeça do prego, crucificando o AO90 ao ridículo da sua incapacidade prática para atingir seja qual for (dos já de si pseudo) objectivos que lhe serviram de pretexto para o Sócrates o canonizar (down, boy!, este não é um versículo satânico).
E ainda me tem este biltre a coragem de dizer que os professores é que estão errados ao fazerem greve nos seus intocáveis e preciosos exames pois não estão a pensar nos alunos ao marcarem greve para essas sagradas datas? Como se nunca tivessem sido adiados exames antes. Como se os exames não fossem o fim do ano lectivo e as regras novas que se quer renegociar (ou que os professores querem renegociar) não fossem para ser statu quo já no início do próximo ano lectivo. Como se não fosse impossível fazer greve estando-se de FÉRIAS! Ainda se vem fingir protector das criancinhas? Já se esqueceu do que gritava e pregava quando estava na UDP, né? Pois… o poder e o dinheiro dão com cada amnésia!
No jugo dele, temos turmas enormes, professores cada vez menos, com menos feriados e agora querem eles mais horas de trabalho, pelo mesmo ordenado. Isto é que vai dar produtividade e melhorar a qualidade do ensino, ó ó! E claro, só falta o Passos vir dizer outra vez que os políticos é que são mal pagos!
Isto nem é só hipocrisia, é pura lavagem cerebral para colocar Zé Povinho contra Manel Povinho, a fim de se eliminar qualquer oposição ao Culto da Austeridade. Se há coisa que me irrita é quando as pessoas dizem “malandros dos grevistas, com o país na falência e em vez de trabalharem mais, fazem greve, que só dá prejuízo!”. Irrita-me porque percebe-se logo que quem isto argumenta nada sabe sobre o que um economista quer dizer quando diz que os portugueses não produzem. Pensem lá um bocadinho. Os ‘tugas são uns mandriões em geral, né? Mas a Alemanha, onde são todos super eficientes e trabalhadores, veio logo contratar ‘tugas para as empresas deles. E olha, eles lá não só produzem como são apontados como os melhores dos melhores. Estranho, né? Será da falta de Sol, lá? Não, é porque os produtos que a Alemanha cria e vende são mais valiosos ou estão mais valorizados que os dos Portugueses. E muito porquê? Graças ao Cavaquismo (eu bem vos disse que me haveria de lembrar) também, mas não só. Nós já trabalhávamos mais que eles no tempo do Sócrates, ou no mínimo, tanto quanto eles em horas. O valor que é atribuído a esse trabalho é que é menor. Não é mais um dia de trabalho por ano ou menos que vão cobrir essa diferença. Tanto que não que ainda não tivemos dos génios que defendem isso nenhuma vitória verdadeira conquistada pela aplicação das suas políticas.
Depois há aquela dos “Sacanas dos gajos dos transportes só pensam neles. Um gajo a querer ir trabalhar e lá eles a fazerem greve! Egoístas”, é isso! São egoístas eles por pensarem neles, mas não quem diz esta barbaridade só se interessando da sua situação pessoal! Eu também já me lixei com greves da CP, do Metro Lisboa, nunca me ouviram nem ouvirão a dizer isto.
Agora vêm com “os professores têm o dever disto e daquilo e ai as criancinhas!”, mas muitas dessas criancinhas poderão um dia vir a ser professores e se estes agora não batem o pé, quando chegar à vez deles nada mais serão que escravos do regime. Esquecem-se essas vozes tão moralistas, que quando alguém faz greve perde ele próprio um dia de salário. Esquecem-se que se uma greve nada perturbar o normal decorrer da vida da sociedade então não tem braço para forçar o estado/o patrão a negociar. Em vez de desprezarem a luta dos outros pelas suas benesses, que tal forjarem os vossos próprios sindicatos para também reivindicarem as vossas ao invés de se contentarem com estarem sempre a perder? Muita gente lisonja a Social Democracia Nórdica. Muita dessa mesma gente diz que os problemas da nossa sociedade são causados ou aprofundados pela existência de tantos sindicados. “Nunca, senão o patrão foge de vez para a China e ficamos desempregados!”, afinal parece que o patrão adora viver no (pseudo)comunismo.
Mas comparem as percentagens: por cá temos cerca de 30 % de trabalhadores sindicalizados, em média nesses países nórdicos em cujo estado social é mantido e quase não há desemprego, há cerca de 60% de trabalhadores sindicalizados? Só para vos dar que pensar, espero.
Assinem a ILC (com os 3 links abaixo e os CTT), porque como diz o Medina Carreira (pelos 16min50seg) “Isso é tudo óbvio, mas o que é óbvio em Portugal não anda”, e digo eu temos de continuar a empurrar:


Bem haja a todos os que resistem e vivem, coitados dos que se contentam com a mera sobrevivência, e que se fodam os que fomentam a luta entre os dois primeiros para para seu ganho pessoal levarem a deles avante! Enfim, para rematar só relembrar abaixo com o mAO90ismo!!
Alex, signing off... ;)

Actualização: (13 de Junho de 2013, 01h57min TMG) as páginas "scanadas" da Maxim Portugal sobre os Santos Populares em Lisboa.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Uchinaguchi e Mirandês, em "O Argumento dos Números"

No passado dia 30 de Junho, em Londres, foi celebrado o Dia de Okinawa. É verdade, a terra ancestral do Mr Miyagi, personagem de uma série de filmes muito determinante na minha infância e formação enquanto pessoa. Para o Mr Miyagi, a guerra é uma estupidez pura e simplesmente, o Karate serve apenas para defesa, mas, se nos forçam a lutar, que seja para ganhar. Estas noções acompanharam-me muito antes de começar a praticar o Karate a sério. Pequeno desvio pela Avenida da Memória abaixo… Voltando ao tópico, saindo da ficção e reentrando na realidade, eu soube desta celebração via Facebook:



Soube também através do The Japan Times online, doutro facto interessante que me levou a escrever esta entrada. Esta entrada em grande parte é a tradução, com alguma liberdade poética, de um artigo do jornal supracitado. Como tal, toda essa tradução liberal será deixada a itálico. O restante é meu.

O artigo, escrito por Ayako Mie, fala-nos sobre o professor Byron Fija, de 42 anos. Ele é parte caucasiano norte-americano por parte do pai e japonês por parte da mãe. Esta última informação é pertinente pois é uma das razões pelas quais os japoneses muitas vezes pensam que ele é um estrangeiro. A outra razão pela qual isso acontece é o facto de ele falar o Okinawa hogen (o dialecto de Okinawa), chamado Uchinaguchi.
Os japoneses estranham que ele fale este dialecto, mesmo os seus conterrâneos de Okinawa, que deveriam entender o que ele está a dizer quando fala Uchinaguchi. Recentemente, num programa de televisão que festejava o aniversário dos 40 anos do retorno do governo de Okinawa ao Império do Japão, ele foi precisamente questionado sobre o porquê de ele falar um dialecto. A sua resposta foi assertiva: “Eu não falo num dialecto japonês, eu falo Uchinaguchi que é uma língua independente.”
Fija de facto ensina o Uchinaguchi, a língua falada na região meridional da ilha principal de Okinawa. Esta língua é, em geral, imperceptível à maioria dos japoneses. Mas apesar dessa fácil distinção, até os habitantes de Okinawa vêem o Uchinaguchi como um mero dialecto, subordinado ao Japonês. De facto, 11 dos 46 convidados do tal programa de televisão disseram esperar que esta língua ficasse extinta nas próximas décadas. Fija afirmou não compreender como os próprios japoneses de Okinawa negam a legitimidade do Uchinaguchi. Por outro lado, o professor admitiu que a sua campanha para promover esta língua é um tanto ou quanto pessoal, pois a descriminação desta língua faz parte da crise de identidade com que ele teve de lidar quando era criança, uma criança nascida fora de um casamento. Numa outra época, o professor seria sem dúvida desprezado como um dos Burakumin. Parece que a civilização japonesa já fez alguns progressos face à descriminação social.
Mas o anúncio de estes serem os últimos dias desta língua impulsionaram alguns japoneses de Okinawa, incluindo o sr Fija, a desenvolverem esforços no sentido de promoverem e protegerem o Uchinaguchi, que eles acham estar não só no coração da cultura única de Okinawa mas também da sua própria identidade.
Culturalmente, desde 1972, Okinawa tem-se forçado a si mesma a absorver a cultura dominante japonesa e nesses esforços desprezaram mesmo a sua própria língua, vista por muitos como inferior. O resultado deste traço cultural é que apenas um número reduzido de pessoas falam fluentemente esta língua, sobretudo os velhos de Okinawa.
Dando uma indicação clara de que o Uchinaguchi é uma língua e não um mero dialecto, a UNESCO indicou-a em 2009 como uma das 6 línguas em vias de extinção faladas em Okinawa e nas ilhas vizinhas de Amami. Contudo, o governo central japonês e a prefeitura de Okinawa ainda não tomaram medidas nenhumas para proteger esta língua ou sequer admitiram oficialmente que o Uchinaguchi é uma língua de pleno direito.
A concentração de instalações militares norte-americanas na prefeitura de Okinawa, quando comparada com outras regiões do Japão, é percebida pelas pessoas de Okinawa como uma descriminação, uma na qual o resto do Japão tem quase nenhum interesse. Contudo, a eliminação do Uchinaguchi deveria ser considera parte importante dessa descriminação, mas a verdade é que, por razões históricas, as pessoas de Okinawa não a entendem como tal. Outrora, Okinawa era o reino independente de Ryukyu, que governou as ilhas do sudeste, entre Kyushu e o Taiwan, entre os séculos XV e XIX, enriquecendo através do comércio com a China e o Sudeste Asiático. Mas em 1879, o Japão anexou essa nação e impôs políticas de assimilação cultural às populações locais, obrigando por exemplo a que apenas fosse permitido falar Japonês em público. Durante décadas, as pessoas de Okinawa foram descriminadas e ridicularizadas pelo resto do Japão por falarem uma língua considerada bárbara. De facto, nas escolas, os estudantes que falassem Uchinaguchi eram forçados a usar cartazes, que lhes pendiam do pescoço, que assinalassem a língua que falavam, sofrendo então todas as formas de humilhação social. Em 1945, morreu 30% da população local na Batalha de Okinawa, muitos dos quais falavam Uchinaguchi e foram mortos pelas tropas imperiais japonesas que os via como espiões do inimigo. Durante o tempo em que Okinawa esteve sob jugo Americano, após a Segunda Grande Guerra, e mesmo depois quando reverteu ao controlo do Japão, os habitantes de Okinawa que viviam fora da Prefeitura e que foram educados nas escolas da sua região mantiveram o Uchinaguchi vivo. Mas quando essas pessoas saíam da sua terra e iam para as metrópoles, como Osaka e Tokyo, em busca duma vida melhor, eram ridicularizados pelas suas raízes e pela língua que falavam, o que levou a que eles abandonassem a sua própria língua e a desprezassem a cultura de Okinawa, tratando-a como se fosse algo de segunda categoria.
Mas essa visão negativa não é vista nos habitantes de Okinawa nascidos após 1972.
Nos anos mais recentes, graças à projecção mediática de estrelas nascidas em Okinawa, a cultura de Okinawa começa a ser tida em consideração. Entre as estrelas que para tal contribuíram, encontram-se Namie Amuro (um cantor pop que se evidenciou nos anos noventa) e a popular jogadora de golf Ai Miyazato (que atingiu o topo do ranking mundial do golf feminino em 2010).
Ao mesmo tempo, a definição de Uchinaguchi entre as camadas jovens de Okinawa mudou significativamente. Muitos deles falam Uchina-Yamatoguchi, uma nova forma de expressão que mistura termos em Uchinaguchi com contextos japoneses. Uma sondagem de 2011, levada a cabo pelo jornal Ryukyu Shimpo (sedeado em Naha), concluiu que cerca de 90% da população de Okinawa entre os 20 e os 30 não conseguia falar ou perceber o Uchinaguchi tradicional.
Esta realidade lança sombras ameaçadoras sobre o futuro da dança e do teatro tradicionais de Okinawa, para os quais o Uchinaguchi é fundamental. De acordo com uma sondagem também de 2011, efectuada pelo professor Masahide Ishihara da Universidade de Ryukyu,  apenas 5% das 605 pessoas ligadas à cultura de Okinawa sondadas, com idades abaixo dos 30 anos, falavam fluentemente Uchinaguchi. Para Susumu Taira, um actor, produtor e guionista de Okinawa, com 78 anos, este declínio significa que a cultura de Okinawa está lentamente a tornar-se indistinguível da cultura de outras zonas do Japão. Segundo Taira, a vertente de teatro tradicional de Okinawa chamado Kumiodori, não tem um guião. São dadas deixas verbais aos actores, que depois têm a liberdade total para improvisar desde que consigam manter fluida a acção e a história. A não ser que os actores sejam fluentes em Uchinaguchi, não conseguem comunicar bem o sentimento desejado e toda a peça parecerá algo que pretensiosa. “Eu digo aos meus actores, que se as falas são ditas em Uchinaguchi sem haver uma entrega e abertura à língua, o seu desempenho vai ter o mesmo tipo de sensação e qualidade que teria se fosse desempenhado por actores naturais de Tóquio.”, disse Taira, nomeado em 1999 pela Prefeitura de Okinawa como Protector de Propriedades Culturais Intangíveis, o teatro e música de Ryukyu.
Contudo, tamanha singularidade não é bem recebida quando a audiência não entende a língua que está a ser falada em palco. De facto, para as peças de Kumiodori serem apreciadas pelas audiências, são acompanhadas de legendagem. O Kumiodori foi designado, em 2011, como Herança Cultural Intangível da Humanidade pela organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.
Taira confessou ter ficado chateado quando oficiais da Prefeitura lhe pediram que traduzisse algumas frases de Uchinaguchi para Japonês, com o objectivo de aumentar a popularidade da peça. “As artes performativas devem ser inteligíveis para todos sem mudar a tradição”, afirmou Taira. Sentindo-se ameaçado pela situação, Taira começou a ensinar Uchinaguchi na faculdade comunitária de Okinawa. O curso atraiu tanto habitantes locais como pessoas que vieram de fora da Prefeitura, nutrindo interesse pela cultura de Okinawa.
“Há certas palavras que são únicas em Uchinaguchi. Apercebi-me disso quando frequentei o curso.”, disse Keiko Shimoji, de 35 anos e residente em Okinawa.
Contudo, os esforços tanto dos locais que falam a língua e doutros que foram aprendê-la podem não ser suficientes para assegurar a sobrevivência da língua, pois é facto que os que a falam e ensinam estão a envelhecer. Para preservar a língua e elevar o seu status entre a população local, há aqueles que defendem de que esta deveria ter ensino obrigatório nas escolas. Dão como exemplo o caso bem sucedido do Havai, onde a língua nativa foi introduzida no ensino numa tentativa de a salvar, ao mesmo tempo que o estado declarou como língua oficial o Havaiano. Como um primeiro passo no intuito de adicionar ao currículo escolar o Uchinaguchi, a Prefeitura de Okinawa criou uma comissão em 2007 para gerar uma publicação que ajudasse ao ensino da língua nas escolas públicas. Mas nos últimos 5 anos, a complexidade e natureza diversa do Uchinaguchi têm impedido os estudiosos de decidir exactamente como codificar a língua e compilar o manual em questão. É que mesmo dentro da própria língua, existem vários dialectos falados na região sul de Okinawa. Tais diferenças existem para todas as 6 línguas diferentes – incluindo as formas faladas Amami-Oshima, Yaeyama, Miyako e outras ilhas do sudeste – declaradas com em perigo pela UNESCO. É por isto que peritos afirmam que mesmo linguistas e oficiais do governo não podem determinar qual dos dialectos codificar e tornar o standard.

À parte: para mim é simples a resolução deste problema. Codificam-se as 6 formas da língua, ensinando-se cada uma na região onde são ainda faladas. Trabalhoso, mas decerto fazível.

“Quando decidirmos que Uchinaguchi codificar, tornar-se-á mais fácil compilar um manual de ensino.”, disse Shinsho Miyara, professor jubilado da Universidade de Ryukyu, que faz parte do painel da Prefeitura designado para criar o manual.
Alguns peritos também realçam que as políticas de assimilação também dificultaram a estandardização da língua. “Como a intenção sob a administração colonial japonesa foi de que toda a gente assimilasse e aprendesse o Japonês, não houve qualquer iniciativa governamental para a estandardização do Uchinaguchi numa língua de pleno direito”, disse Ryan Yokota, doutorando de História na Universidade de Chicago e especialista em matérias pós-guerra em Okinawa.
Apesar dos seus esforços, os oficiais da Prefeitura de Okinawa dizem que o ensino obrigatório do Uchinaguchi nas escolas locais provavelmente não vai acontecer, uma vez que o governo central japonês nem a reconhece como uma língua separada.
Já o professor Fija, diz que é tempo das pessoas de Okinawa abraçarem a mais fundamental fonte da sua identidade. “Enquanto continuarmos a rotular o Uchinaguchi como um dialecto ou uma língua de segunda classe, vamos estar a tratar-nos a nós mesmos como cidadãos de segunda.”, afirmou Fija.

Ora, nós em Portugal temos um caso semelhante, felizmente menos complicado. Falo é claro da segunda língua oficial de Portugal, o Mirandês. “Em 2008 foi estabelecida uma convenção ortográfica, patrocinada pela Câmara Municipal de Miranda do Douro e levada a cabo por um grupo de entendidos linguistas, com vista estabelecer regras claras para escrever, ler e ensinar o mirandês bem como estabelecer uma escrita o mais unitária possível e consagrar o mirandês como língua minoritária de Portugal.”, in Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_mirandesa). Provavelmente menos pessoas falam o mirandês que o Uchinaguchi, mas como faz parte da nossa herança cultural decidimos, para meu gáudio e orgulho, salvaguardá-lo. Eis algumas das medidas de defesa e perpetuação da língua mirandesa:
“O mirandês é ameaçado actualmente pelo desenvolvimento, a vida moderna, a televisão, e as pressões do português e do castelhano. Em sua defesa, foram tomadas as medidas:
  • ensino em mirandês, como opção, nas escolas do ensino básico do concelho de Miranda do Douro, desde 1986/1987, por autorização ministerial de 9 de Setembro de 1985.
  • publicação de livros sobre e em mirandês, pela Câmara Municipal de Miranda do Douro.
  • realização anual de um festival da canção e de um concurso literário, pela Câmara Municipal.
  • uso do mirandês em festas e celebrações da cidade e, ocasionalmente, nos meios de comunicação social.
  • publicação de dois volumes da série de banda desenhada Asterix.
  • tradução de todas as placas toponímicas da cidade de Miranda do Douro, efectuada em 2006 pela Câmara Municipal
  • estudo por centros de investigação portugueses como o centro de linguística da Universidade de Lisboa com o projecto "Atlas Linguístico de Portugal", e a Universidade de Coimbra, com o "Inquérito Linguístico Bolêo".
  • criação de uma Wikipédia em Mirandês, a Biquipédia.
  • disponibilização de sítios em Mirandês, entre eles hi5, Photoblog e WordPress em Mirandês.”




Portanto o que aqui interessa não é a quantidade de pessoas que fala uma língua, ou que a escreve, mas sim a sua riqueza cultural, a salvaguarda do pluralismo cultural, tão importante para a evolução de um povo como o pluralismo genético é para a evolução de uma espécie. Nunca me esqueço de uma frase dita por Lawrence das Arábias a Indiana Jones, no primeiro episódio da série televisiva desta última personagem que relatava as suas aventuras em criança e em adolescente. “Henry, onde quer que vás, sejam quais forem os países que visites, aprende a língua. É a chave que abre tudo.” Foi esta frase que me levou a querer aprender inglês, sendo que quando cheguei ao ciclo, embora não o lesse nem o escrevesse, já tinha considerável fluência oral no inglês americano. Nós temos um espírito, uma alma, quanto mais não seja até morrermos (para lá desse momento, não se sabe o que acontece). Essa alma é a composição de todas as sensações que vivemos, memórias que retemos e saberes que aprendemos. Sendo assim, a alma de um povo será a composição das suas tradições e História, das quais a Língua é, ou para povos sortudos as Línguas são, fulcral(ais).

Já agora, impõe-se uma questão. Se nós procuramos por todos os meios salvar línguas que poucos falam, que peso tem o argumento dos números para justificar o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO’90)?
A resposta tem de ser rápida e decisiva. É um argumento inválido. O facto é que o Português Europeu nunca esteve ameaçado ou em vias de extinção como os alarmistas defensores do AO’90 quiseram que acreditássemos. Desde a fundação deste país até aos dias de hoje, fomos sempre poucos em números, sendo que provavelmente nunca houve tantos portugueses como há hoje em dia. Como é sequer concebível levar o argumento dos números a sério? A verdade é que o injustificável não pode ser justificado por argumentos válidos, então há que inventar argumentos por mais absurdos que sejam. Já falei a grande extensão dos erros técnicos e incongruências do (des)Acordo Ortográfico no post Desacordo Ortográfico e Democracia:
Neste falei também de que é um acordo anti-democrático pois foi feito contra a vontade dos povos (até o Miguel Sousa Tavares dá testemunho disso melhor que o meu pois ele foi ao Brasil, falou com brasileiros e diz que ainda não encontrou um que quisesse o AO) que afecta, ou no mínimo se lhes consultar a opinião. Por outro lado, numa democracia, escutam-se as minorias e desde que estas não coloquem em risco o bem da maioria, procura-se salvaguardar os seus direitos. O problema é que o AO’90 é uma imposição de uma minoria restrita sob mais de 4 povos diferentes, com o pretexto de salvar uma língua que nunca esteve em risco, através duma evolução forçada e contra-natura que ameaça ela sim o pluralismo e riqueza do Português nas suas variadas formas.
E os nossos políticos defendem esse acordo sem sequer o entenderem:

É que nem os defensores do AO’90 o entendem ou conhecem:
Fazem lembrar aqueles zelotas cristãos que defendem de forma acérrima a sua religião mas nunca leram a Bíblia que é só o pilar central de toda a crença deles. Mas pronto, quem acredita não requer provas ou argumentos lógicos. ["The US Religious Knowledge Survey, released Tuesday from the Pew Forum on Religion & Public Life, found atheists and agnostics know more basic facts about the Bible than either Protestants or Catholics.", fonte: http://www.csmonitor.com/USA/Society/2010/0928/In-US-atheists-know-religion-better-than-believers.-Is-that-bad Só para dar peso ao argumento.] Será então o acordês uma neo-crença dogmática? God, let us hope not!

Mas ainda vamos muito bem a tempo de desfazer esta insanidade cultural pretensiosa, hipócrita e disfarçada de sabedoria, através da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990 (ILCcontraAO’90).
Para lerem a ILCcontraAO’90, vão a: http://ilcao.cedilha.net/
Podem encontrar o formulário para a assinarem em:
Para preencherem necessitarão do vosso número de eleitor que, estando em posse do vosso BI ou Cartão do Cidadão, podem saber através de:
ou através de uma SMS para o 3838 com o texto:

REespaçoN.ºId.CivilespaçoDatadeNascimento(AAAAMMDD)

Exemplo: RE 1234567 19751014

Eu já reuni 4 assinaturas (só comecei a semana passada eheh), incluindo a minha, e espero reunir mais umas quantas para depois enviar por correio para a morada:

Apartado 53
2776-901 Carcavelos

Há ainda uma série de sítios espalhados pelo país onde poderão preencher o formulário, assiná-lo e entregar sem mais gastos. Podem saber onde o poderão fazer através do seguinte link:

Cidadãos, as vossas canetas são precisas para salvaguardar a alma do nosso povo. Evolução sim, mas uma evolução natural quando muito auxiliada com rigor técnico, nunca aos caprichos de uns quantos que se têm em demasiada alta conta e que têm o desplante de dar o único parecer técnico positivo ao documento que eles próprios compuseram.

Alex, signing off 4 the momment!

P.P.S.: Só para completar... mesmo que o argumento dos números relativamente ao AO'90 tivesse qualquer mérito, o Destino (esse que domina até os Deuses, segundo os poetas neoclássicos) entregou-nos a forma perfeita de espalhar o Português Europeu pelo Mundo. Ora atentem às seguintes notícias de há uns meses:


Não há povo mais numeroso que o Chinês, é só metê-los a falar/escrever Português Europeu e 'tá feito, meus amigos! :D Isso sim, seria uma jogada à Dom Afonso Henriques, o cavaleiro-rei que entendeu em pleno século XII que a religião era apenas a política da época! ;)
Contudo, eu fico satisfeito se os 10,5 milhões deste pedacinho de terra, esta aldeia de irredutíveis lusitanos, não fiquem privados da sua herança cultural. Nem mesmo de 4% desta.