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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Jardim e Festa do Japão - uma crítica que se espera construtiva



Meus amigos, mea culpa! Já pareço o governo, que promete e não cumpre. Tinha-vos dito que esperava ter ontem escrito mais um post, chego-vos apenas hoje, já virado o mês. Mas há que salientar uma crassa e notória diferença entre a minha conduta e a do governo: eu tardo mas cumpro, eles (com)prometem(-se/-nos) e nem cedo nem tarde cumprem. Mas não vos trago hoje politiquices, muito embora vos trá-las-ei dentro em breve, não só banhadas de críticas, mas também recheadas de ideias que se não são inovadoras, são pelos menos exemplificativas de caminhos alternativos a esta nociva união nacional que se avizinha, baseada num consenso forçado pelo medo e numa ilusão de paz social feita apenas de retórica política, um verdadeiro e nada admirável estado novo que a concretizar-se para lá das palavras, ter-me-á como inimigo constante.
O que me traz contudo aqui hoje é cultura que vivi e que quero convosco partilhar.

Finalmente consegui ir a uma edição da Festa do Japão, em Belém. Este é o relatório do pedacinho que lá passei.
Já estava para lá ir desde a primeira edição, que, se não me falha a memória tinha ainda mais para ver que esta teve, pois não vi lá autómatos japoneses, por exemplo. Mas actividades não lhe faltou, como demonstra o link abaixo:
Também nunca tinha ido ao Jardim do Japão em Belém. Fica muito próximo do Padrão dos Descobrimentos e do Museu da Arte Popular, já para não falar de termos o Tejo com toda a sua beleza natural dum lado e o CCB, com a sua majestosa arquitectura, do outro. O jardim em si um espaço airoso e verdejante, e tive a sorte de o visitar pela primeira vez (aquela que nunca se esquece) num solarengo mas não demasiado quente dia de fins de Primavera lusitana. Ainda assim, esperava mais Japão naquele jardim. Algo mais assim:
Esperava jardins de areia e pedra, que não vi; esperava uma lagoa artificial rodeada de pedras com uma pontezinha a atravessar ao estilo nipónico, que não marcou presença; e, porque não?, uma daquelas fontes com um fio de água que corre a encher uma cana que periodicamente, quase uma clepsidra nipónica, se esvazia sozinha por meio tão-somente da gravidade; umas quantas de cerejeiras trariam uma muito em falta sombra e complementariam a imagem; já agora, que estamos com a mão na massa, uns Budas, um portal japonês, e talvez uma estátua de um dragão a invocar uma lenda japonesa, a de Izumi Kotaro por exemplo, e uma outra para o dragão de S. Jorge, fazendo-se assim uma ligação a Lisboa. Ambas as estátuas deviam estar orientadas, de forma a que a de motivo japonês estar a oriente da com motivo ocidental, e cada uma acompanhada duma placa com um resumo da lenda, em português e em japonês.
Tentei encontrar a lenda de Izumi Kotaro online, para a colocar aqui de permeio, em forma resumida, mas confesso o meu falhanço. Enfim, eis mais uma super-imagem (in memoriam dos super-ministérios já extintos do governo), que aconselho-vos a fazerem download para o vosso pc, afim de com o zoom, verem bem os pormenores, que contém em pormenor detalhado algumas da ideias que menciono acima:
Eu sou assim, um tanto ou quanto exigente. Eu sei, eu sei, estamos em crise… mas fica talvez a ideia para ser concretizada num futuro mais risonho. Dito isto, as colinas e vales que o compõem, em dimensões de Portugal dos Pequeninos, são perfeitos para um piquenique familiar ou de amigos, para namoricos à beira rio (cuja presença na Festa se fez sentir) e, last but never least, para as brincadeiras de crianças, daquelas que nem exigem brinquedos, como jogar à apanhada, brincar aos cowboys e índios, ou às escondidas… mas saberão os miúdos da era do smartphone e Facebook ainda brincar assim? Já começo a parecer os meus pais, quando falavam da minha geração do PC e das Sega Saturns. Lembro-me de ir uma vez a uma visita de estudo a Lisboa, na primária, não me recordo do ano, provavelmente mais uma ida ao Jardim Zoológico, e ver no caminho, de dentro do autocarro, o prédio majestoso, todo ele janelas de vidro que dizia simplesmente em enormes letras azuis e brancas: SEGA. Nessa altura, ainda a Sega fazia consolas, agora só faz jogos para as consolas dos outros e pc’s. Menciono-o não sem nostalgia, mas também por ser uma empresa japonesa. Mas digresso, nesta batalha diária entre o adulto emergente e a criança nostálgica que alimenta os meus sonhos.

Portanto, o Jardim ficou aquém das minhas expectativas, muito embora esteja um espaço bem cuidado, que peque apenas por falta de mais sombra. Mas e a festa em si?
Ora bem, a festa era composta de quiosques ou bancas com vários workshops que, segundo fui mais tarde informado por uma amiga (Obrigado, Tita), se fizéssemos todo o circuito de workshops com um cartãozinho que seria carimbado em cada bancada, receberíamos depois uma t-shirt do evento. Por não saber que assim era e também porque não dispunha de muito tempo, uma vez que estava na recta final duma fase de exames, não fiz o circuito. Espero que essa ideia se mantenha para o ano. Havia também um palco principal onde, durante o tempo que eu lá estive, se faziam demonstrações de artes marciais, estando representados várias escolas e estilos, armados e desarmados e mistos, de origem nipónica. Não podia faltar a zona comercial, onde se poderia diferenciar a zona de Comes & Bebes, onde a fila alastrava e se tornava cada vez maior (o que no meu tempo limitado me impediu de qualquer ideia de provar alguma das iguarias), qual um poderoso e serpenteante dragão oriental, e uma zona de bancas de merchandising, manga e produtos de ervanária japoneses. Havia também um quiosque de venda de cerejas do Fundão (imagem acima). Tinham excelente aspecto, e de bom grado teria dado os 2 euros pelo cartucho, não fosse mais uma vez a fila crescente combinada com falta de tempo. O povo Português a demonstrar que é efectivamente um excelente garfo, pois se haviam filas era para a comida! As cerejas estavam lá muito bem, pois têm um lugar de destaque na cultura japonesa, na vinda da Primavera, algo que já antes mereceu a minha atenção no post Haru:
Mas o que é uma festa sem convivas? E, felizmente, não faltava gente no evento, folgo em dizer. O dia estava convidativo e o pessoal não faltou. Velhos, novos, homens e mulheres, pessoas de todas as cores e formatos possíveis, mesmo como eu gosto. E haviam os que sobressaíam de entre a multidão: os praticantes de artes marciais, com os seus guis de treino; algumas mulheres japonesas com kimonos tradicionais, que estavam nas bancas de workshops e/ou que preambulavam pelo jardim; e os praticantes de cosplay, que se vestiam não só de personagens de manga, mas também de outras personagens menos identificáveis, numa mescla entre o espírito ibérico de Carnaval e o espírito nipónico do Cosplay, como a super-imagem acima (fotos minhas) e o vídeo abaixo (que não é meu, mas sim do canal de youtube da Ana Santos) testemunham:
Diria uma grande maioria, não tenho disso dúvidas, que a festa tinha então tudo o que era expectável. Eu nunca pertenci a uma maioria, excepto aquela para a qual nasci e sobre a qual não tive escolha por razões óbvias, a dos caucasianos, e portanto, fiel a mim próprio, pertenço à minoria que esperava mais deste evento. Queria workshops de Karakuri (autómatos japoneses), quiçá a possibilidade de comprar um na forma de kit para montar em casa (uma ideia para os senhores do merchandising), por exemplo?
Para alguém que adora “meter as mãos à obra” e “dar o corpo ao manifesto”, seria óptimo workshops das próprias artes marciais, onde quem quisesse pudesse ir aprender 3 ou 4 golpes duma ou de outra arte, mesmo dar uns trambolhões, o que para pessoas com formação prévia num ou vários estilos é sempre uma mais valia. Não exigiria muito, apenas alguns tatamis e a disponibilidade de 1 ou 2 senseis e/ou senpais, por parte a organização, e roupa de treino para os que quisessem participar dessa forma. Para quem pratica, há uma incomensurável diferença entre ver e fazer, acreditem.
Uma arte marcial que podia bem dar-se a conhecer desta forma era a do tiro com arco japonês. Foi feita, nesta última edição da Festa do Japão, uma demonstração de uma kata de tiro com arco no palco principal. Não se pode exemplificar o disparo de uma seta, por razões óbvias, mas para simular a tensão de disparar um arco, os artistas marciais fizeram a Kata a mãos nuas e depois com uma borracha na mão. Mas podia-se fazer esse disparo e disponibilizar essa experiência aos frequentadores da Festa, preparando-se uma espécie de carreira de tiro, para esse efeito, tendo especial atenção à segurança da actividade. Eu lembro-me de ter 10/11 anos e ir a uma Feira de Caça e Pesca onde disparei um arco. Foi a minha primeira experiência nessa arte. Na altura, nem força tinha para puxar a corda e fazer pontaria ao mesmo tempo, pelo que o resultado não foi nada bom: duas setas a falharem o alvo, acertando nos fardos de palha, e a terceira a cair no papel do alvo, mas fora da circunferência maior. Mesmo com o falhanço, e com a ilusão que "à quarta é que teria sido", a experiência em si não deixou de ser deliciosa. Entretanto, já experimentei novamente, em 2010, no Alto Alentejo, onde fiz 3 dias de turismo rural e actividades radicais com o meu melhor amigo, e sou consideravelmente melhor agora. Ora, a Kata do arco, pelo menos a que foi demonstrada, é simples e ninguém espera ficar logo mestre. Podiam disponibilizar-se para a ensinar, de mão livre e com borracha. Será, garanto, uma experiência que se leva para casa no coração e na memória sensorial, em particular se depois nos for permitido executá-la com arco em mãos, culminando numa única (para evitar filas) tentativa de disparo real. Não seria possível aos mais novos, por imposição das próprias medidas do arco nipónico (mais alto que o Arco Longo ocidental), mas os adolescentes e os adultos sem dúvida que não diriam não à experiência. Até se pode dessa forma, granjear mais alunos para o dojo (fica mais uma ideia). Até se podia também ter lá um arco ocidental, para se poder também experimentar e comparar as experiências. Nem que se pagasse um X pela experiência.
Seria também desejável ver muito mais japoneses. Por incrível que pareça, numa festa do Japão, contavam-se os japoneses pelos dedos das mãos. Seria engraçado haver maior interacção entre os dois povos, no decorrer da própria festa. Pelas fotografias, poderão notar que as artes marciais foram demonstradas por portugueses, por exemplo. E nem um mestre japonês. Nós temos mestres excelentes, eu conheço alguns pessoalmente. Mas também conheci mestres japoneses de Karate e há uma diferença que vai muito para além da língua falada, da técnica, ou das diferenças físicas. Senti que faltou essa interacção cultural. Espero que para o ano possa desfrutar da festa em pleno, sem estar forçado por razões pessoais a olhar para o relógio, mas gostaria que se pudessem realizar estas pequenas alterações, para a festa se tornar toda ela mais interactiva. Por exemplo, aproveitarem a visita de crianças ou jovens japoneses traduzidos a conhecer Lisboa por iniciativa de ambos os governos, acompanhados de interpretes ou que falem eles inglês, para que houvesse mais intercâmbio com portugueses.
E para mero gáudio de visionamento, porreiro, porreiro seria vermos umas armaduras de Samurai (uma que fosse), para além das exposições de bonsais e caligrafia e demonstrações de artes marciais:
Deixo aqui este apelo, na esperança de que, tal como o esforço contra a aplicação do AO90 nos boletins da Embaixada parece ter sido ouvido (sendo que tenho plena consciência que não terei sido o único a pressionar nesse sentido), seja escutado e se possível sirva de crítica construtiva que resulte num aprofundamento do muito bom trabalho que já foi, tem vindo a ser, e é continuamente desenvolvido.
Verdade seja dita, que eu teria desfrutado muito mais se tivesse ido com mais tempo e paz de espírito, mas contínuo a advogar uma maior experiência prática para a festa. Imagino que a malta do cosplay ou os praticantes de artes marciais que fizeram as demonstrações não se queixem disso, com boas razões. Mas para o comum visitante, falta, na minha opinião, essa componente. A festa a mim soube-me um pouco como o Sushi: o Sushi que se come no Ocidente está a um mundo de diferença do verdadeiro Sushi Japonês. O que eu gostaria de ver era o encurtar dessa diferença.

É verdade, alguém viu a bengala do Maestro Vitorino de Almeida?
Estranhamente, na imagem deste jornal, que saquei da página de facebook do Nuno Markl, nem sequer se vê bem a bengala, por isso mesmo que a queiram procurar, chapéu! Mas pede-se a quem a encontrar que a devolva ao seu dono, quiçá via facebook do Markl, visto que a notícia também não ajuda nesse departamento, pois todos nós (ou quase todos) sabemos o que é o valor sentimental duma herança familiar. Pede-se apenas um pouco de simples (mas tão rara) solidariedade humana.
Parece que terá ficado num táxi (ler artigo na imagem acima). Lembram-se da teoria do Nuno Markl sobre a ligação entre o Táxi e o Michael Jackson?
De que cor eram os táxis nos anos '70 e '80? Pretos (esquecendo a capota verde). E o Michael?
De que cor eram os táxis na década de '90 e '00? Brancos. E o Michael?
Ah pois é!! ehehe
Flashbacks de quando eu via o Curto Circuito, onde o Markl soltava destas pérolas entre críticas de cinema.

Sayonara, tamodachi! ;)

P.P.S.: Encontrei este vídeo na busca de vídeos sobre a Festa do Japão e não resisti em adicioná-lo a esta entrada. Para quando uma representação em peso, uma comitiva portuguesa, para ir lá vender loiça das Caldas???? Até parece que não precisamos de exportar! :D
Festival da Fertalidade em Kawasaki:

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Levanta a Manga e salva 3 vidas



Olá, pessoal.
Parece que hoje é o dia mundial do Dador de Sangue. Eu sou dador de sangue, mas não estou a festejar o dia. E porquê? Porque o governo português, que destruiu um sistema de recolha de sangue quasi perfeito com um mero mover duma burra e burocrática caneta, ainda não teve a honestidade e/ou a maturidade suficientes para assumirem e reverterem o seu erro.
Um governo que é eleito para resolver uma crise, nunca deveria começar o seu mandato destruindo um sistema que está a funcionar em pleno e que tinha custo quase nulo (no que diz respeito à contribuição dos dadores nesse sistema) para a máquina estatal. Como é que o governo o fez? Retirando a isenção dos dadores de sangue às taxas moderadoras no Serviço Nacional de Saúde (SNS). Essa medida fez revoltar muitos dos dadores de sangue, na sua grande maioria classe média, classe esse que dois anos volvidos deste governo é virtualmente inexistente neste país. De facto, muitos dos constituintes dessa classe foram forçados a emigrar pelo adensar das condições económicas negativas que este governo alegadamente viria resolver.
Ora, depois de muito barulho ser feito, o governo, sempre lavando a mão de todos os pecados culpabilizando a Troika, insistiu em retirar as isenções, deixando apenas as dos centros de saúde para os dadores. Tal é indicado claramente no site do IPS:
“A legislação em vigor prevê, no artigo 4.º, a isenção do pagamento de taxas moderadoras para os Dadores Benévolos de Sangue, nas prestações em cuidados de saúde primários (Centros de Saúde).”
Meus senhores, o sangue que eu dou serve para transfusões de emergência ou para permitir fazer em segurança operações. Os centros de saúde não oferecem nenhum destes serviços. Ou seja, se eu me vir em apuros e precisar duma operação ou for esfaqueado num assalto e precisar de sangue, terei de pagá-lo mesmo sendo parte dos que fazem com que esse sangue esteja disponível. Não faz sentido. Porquê? Bem:
- o dador de sangue é tipicamente uma pessoa saudável, logo não vai usar e abusar dessa isenção, e é desejável ao SNS mantê-lo em boa forma física para continuar a ter fonte de sangue saudável que tanto necessita para a sua actividade;
- o facto do dador de sangue ter uma isenção, não quer dizer que esteja constantemente no hospital, a tirar a vez a outro nas filas de espera ou a entupir o SNS. Tipicamente são pessoas com consciência social acima da média na sua sociedade e não vão usufruir de algo apenas porque lhes é de borla;
- muitos dadores de sangue deslocam-se até aos hospitais ou outros centros de recolha pelos seus próprios meios (como eu e o meu pai sempre fizemos, ele há muitos mais anos que eu), de 3 em 3 meses (ou 4 em 4, no caso feminino), para fazer a dádiva sem nunca sequer pensar em exigir os gastos de deslocação ao estado;
- a isenção dos dadores é individual e não se estende a familiares ou amigos, como as cunhas dos políticos, id est, só quem contribui tem a isenção;
- uma outra regra, extremamente importante, é que nem todos os dadores têm acesso à isenção. Apenas os dadores assíduos, que dão pelo menos duas vezes por ano (recordo que no caso masculino consegue-se dar 4 vezes e feminino 3 vezes no máximo, por ano, devido aos ciclos de reposição sanguíneos), é que acediam à isenção. Isto porquê? Porque é necessário manter os níveis de sangue no Banco de Sangue. Se uma pessoa der uma vez em 3 anos, porque foi ao parque e estava lá uma carrinha a fazer uma acção de recolha, não deixa de ser dadora, mas não é assídua o suficiente para merecer a isenção.
- a isenção e as regras para a ela aceder existiam exactamente para estimular os dadores de sangue, não só a darem (porque isso ou se tem essa boa fé e consciência ou não se tem), mas sim a darem sistemática e assiduamente até lhes ser impossível por idade ou doença.
É claro que há uma tentativa de que a doação de sangue seja 100% conseguida por dadores voluntários. Mas o que é que se define como doação 100% voluntária? Segundo a definição do Conselho Europeu (clique aqui para ir para a fonte desta citação): “A doação voluntária e não paga de sangue deve significar a doação de sangue ou dos constituintes do sangue por uma pessoa de sua livre e espontânea vontade, sem receber pagamento em dinheiro ou em géneros em troca que possa ser considerado um substituto monetário. Isto inclui também tempo de trabalho que inclua o tempo de doação e deslocação para a doação. Pequenas ofertas, gratuitidades, comes & bebes, devolução de custos directos ou custos de viagem para a doação SÃO COMPATÍVEIS com a doação não paga e voluntária.” Ou seja, nós em Portugal nunca pedimos custos de viagem ou custos directos e muitos de nós perdiam horas de trabalho, que embora pudessem ser justificadas perante o patrão, não eram remuneradas, e nunca soube de estas serem exigidas ou pagas. O cidadão doador sempre assumiu estes pequenos prejuízos em prole de um Estado Social. Logo estávamos mais que dentro da definição da União Europeia como doação voluntária e não paga de sangue. Não só isso, como éramos um exemplo a seguir.
O que é certo é que com estas medidas, tais como elas eram antes do advento deste actual governo, o SNS em Portugal tinha os seus stocks de sangue tão elevados que se dava ao luxo de exportar sangue. Poucos países têm esse luxo, essa auto-suficiência. O Japão, por exemplo, não a tem e é a 3ª economia do planeta. Parece que na Ásia torna-se muito difícil explicar a uma pessoa o que é dar só por dar. Talvez metendo umas medidas parecidas com as nossas, que não enriquecem ninguém monetariamente como no sistema americano, mas que dão um estímulo na forma duma isenção facilite essa compreensão. Os japoneses têm tentado outras formas de atrair mais dadores, como sempre e com grande inteligência utilizando a sua cultura, tornando os locais de recolha em autênticas bibliotecas de manga (a típica banda desenhada japonesa). Para saberem mais, leiam esta notícia do Jornal da Rede Globo. Dou-vos um cheirinho citando o artigo directamente:
"Enquanto aguarda a doação, Roberto escolhe na máquina automática uma bebida, entre dezenas de opções de graça, como café preparado na hora e aproveita para ler um mangá. Quando o aparelho de chamada toca, é hora da doação.
Para passar o tempo durante a doação, a tecnologia ajuda. Todas as cadeiras têm um aparelho de TV comandado por um equipamento sensível ao toque. O doador pode escolher um vídeo e ouvir o som por meio de autofalantes. A doação dura dez minutos, mas - com a diversão - parece ser bem mais rápida. Roberto já está acostumado.
Tóquio já tem cinco bancos de sangue temáticos. Um deles foi inspirado num bar futurista, a decoração brinca com o símbolo da Cruz Vermelha nas paredes e nos bancos."
A menina à esquerda chama-se Nakagawa Shoko e foi a primeira vez que deu sangue. Reparem no livro de Manga ao colo dela.
Por alguma razão estúpida, o blogger não me permite colocar aqui um video do youtube como já fiz milhares de vezes!!! Diz que não o encontra. Acontece de tempos a tempos. Assim sendo, deixo apenas o link para uma "reportagem" de uns camaradas brasileiros que vivem no Japão e demonstram como funciona a recolha de sangue por lá:


E nós, que nunca precisámos de tais medidas adicionais nem tais gastos, desde 2011, que pusemos a nossa auto-suficiência sanguínea em risco. Os vampiros tomaram posse, com as suas ideias neo-liberais [quem nem capitalistas são porque veja-se o caso também nada brilhante dos EUA (o auge do capitalismo na Terra) onde se paga cada dádiva de sangue aos dadores em dinheiro enquanto que a nós até isenções se negam], mas sim autênticos esclavagistas que acham que o Estado quer-se não social mas sim sanguessuga e parasita. Um Estado que lhes serve de rampa de lançamento de carreiras em gestão de topo nas empresas fomentadoras de corrupção, que existe para lhes granjear luvas e subornos na ordem de milhões e negociatas que nos têm deixado todos na penúria, para depois nos acusarem de vivermos acima das nossa possibilidades, enquanto dizem que eles próprios são mal pagos. ‘Tadinhos! Estes actuais governantes e outros de cor (política) diferente mas de índole igual, que andaram (e andam!) anos e anos a literalmente deitar fora plasma proveniente dessa mesma recolha de sangue abundante que se fazia em Portugal, para depois importarem medicamentos feitos a partir de plasma do estrangeiro. E estes actuais, resolveram essa exergia? Não. E ainda anularam a medida que assegurava o contínuo fluir de sangue do povo para o seu (leia-se “do povo”) Estado Social. Parabéns, meus senhores, em serem uma cambada de pseudo tecnocratas destrutivos e para inglês ver. Ah, já me esquecia de mencionar que, também nesta parte dos desperdícios, este governo actual ainda teve de gastar dinheiro em campanhas publicitárias para conseguir manter os níveis de sangue no mínimo que permita coisas simples como, sei lá?, fazer uma operação cirúrgica. E isto quando dar uma isenção quase sempre, não lhes custa puto. Acho que todos concordamos que uma austeridade nos era inevitável, mas esta austeridade cega e fanática que nada resolve e causa problemas onde eles não existiam não nos serve.
Gostava de realçar também que o Estado Social não implica altruísmo. Aliás, eu acho que o altruísmo é outro conto de fadas, muito (ab)usado por políticos para promoverem a sua imagem. Recordam-se do tipo a ir dar sangue de fatinho na scooter? Ah, sim!, o ministro da Solidariedade Social... esse título só por si evoca na minha mente os ministérios do Big Brother de Orwell. O ministério do Amor, que promovia o ódio, o ministério da Paz, que promovia a guerra, etc... Interessante notar que a Scooter já lá vai, substituída por um carro com motorista. Nós damos sangue porque sim sabe-nos bem ajudar os outros, sentimo-nos bem connosco próprios (logo essa sensação já remove o altruísmo, caso no qual faríamos algo sem obtermos nada em troca, nem uma good vibe sobre nós próprios), mas também porque entendemos a necessidade de haver sangue disponível caso nos aconteça algo a nós ou àqueles que amamos. A cooperação solidária é uma consequência da nossa evolução, do nosso desejo de aumentarmos as nossas probabilidades de sobrevivência e de melhorarmos as condições desta última. Logo, se alguém decidir começar a dar sangue exclusivamente para ter a isenção, desde que à partida esteja saudável, por mim está no seu direito e é tão bem-vindo como o dador que a dispensa e mesmo assim sangra por todos nós pelo menos duas vezes por ano. Hoje, que nos aumentam continuamente a carga fiscal com a desculpa de uma dívida contraída por bancos e corruptos e também para "manter o Estado Social", é importante relembrar que o Estado Social e a sua manutenção não implica Escravatura Moderna. Para isso, mais vale termos só o privado e sermos tão bem tratados como somos relativamente a energias, medicamentos, etc, pelo Big Business. Um Estado Social não pode ser desculpa para mais PPP's desastrosas e empresas de trabalho temporário possuídas por membros da assembleia e seu staff. Isso sim, nós não podemos obviamente suportar.
Como já devem saber, perdi o meu emprego precário e voltei a ser N.I.N.J.A., o que me dá, segundo este Admirável Estado Novo, acesso imediato à isenção completa do SNS por falta de rendimentos. O mesmo acontece quando se tem um ordenado num escalão em que não se pague IRS. A ironia desagradável da situação é que onde dantes tinha a isenção porque contribuía a mais que o cidadão comum, agora dão-me a isenção por caridadezinha. É esta inversão de valores que temos de alterar se queremos que o país não reverta ao terceiro mundo. E sim, já estamos no segundo mundo!
Como tal, permaneço dador de medula sempre (e nunca recebi nenhuma isenção ou regalia a mais por isso [nem esperava obtê-la], nem um dador de sangue é de forma alguma obrigado a ser também dador de medula para ter qualquer isenção. De facto tive de ser eu a pedir para me registar, porque nunca me perguntaram se queria ser. Nem tinham de perguntar, pois a ideia é ser voluntário.) e continuo a doar sangue, mas enquanto não for reparado este erro técnico e de valores, dou sangue apenas uma vez por ano (relembro as regras que acima expliquei para se atingir a isenção e acrescento que raros foram os anos em que só dei 2 vezes) em protesto. Só não deixo de dar completamente, porque ao contrário dos nossos governantes eu ainda tenho consciência social, por mim e pelos outros, não deixando que a política que a mim não me enche o papo (antes pelo contrário) me faça perder de vista o que é importante. Escolho dar em Julho e Agosto, porque por experiência sei que são os meses que as pessoas dão menos.
Em Janeiro deste ano de 2013, terá havido um debate sobre a reinstituição da isenção total aos dadores de sangue. Foi categoricamente rejeitada pela maioria da direita:


É dito na notícia acima que teve votos favoráveis de toda a Esquerda na assembleia, por isso a minha esperança nesta luta é quando voltarmos a ter o PS (PSeudo esquerda) no governo (tipo, próximas legislativas, ya?!, como dizem os alfacinhas jove's) este problema seja resolvido.
Amanhã vou à Festa do Japão em Belém. Querem vir?

Sayonara, tomodachi! ;)

P.P.S.: Se chegaram aqui e não perceberam o quão importante é dar sangue e seja preciso eu o realçar, então é porque falhei. Um bom fim de semana!