Mostrar mensagens com a etiqueta Acordo Ortográfico. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Acordo Ortográfico. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Desacordos e Cultura

Boas!
Esta é apenas uma daquelas entradas que faço ocasionalmente para veicular informação sobre eventos e cultura, essencialmente promovida pela Embaixada do Japão, mas não só. Exemplo de algo que nada tem a ver com o Japão mas antes com a cultura Portuguesa, é esta peça sobre a qual vos aviso no banner abaixo. Para quem viver em Lisboa, é de aproveitar. Produto nacional. É preciso apoiar e estimular a cultura, já que o governo só a desgoverna como tudo o resto.
De seguida, abordemos então o último boletim informativo da Embaixada do Japão. Ao invés de me mandarem um email com as informações, mandaram-me apenas o link para o pdf informativo do site oficial da Embaixada. Normalmente, o que eu faço em qualquer dos casos é copiar as novidades, corrigir o Português Acordo Ortográfico de 1990 (AO90) para o Português Europeu e deixar-vos a informação aqui na página. Desta volta contudo, vou deixar-vos uma imagem e o link em questão. Porquê? Bem, precisamente por causa duma das batalhas culturais nas quais estou inserido, a guerra contra o AO90.
Na imagem acima, vêem um print screen da minha caixa de correio. Se olharem com olhos de ver, percebem, como eu percebi, que não vem escrito segundo o AO90, que a Embaixada Japonesa tem já vindo a usar. Isso percebe-se pelo simples facto de Fevereiro não começar com “f”, mas sim com “F”. O “Sector” em “Sector Cultural” nunca perder o “c”, embora os anúncios de eventos e actividades já viessem segundo o AO90 e as datas também. Pelo menos, nos últimos emails:
Mas não neste. Agradado mas desconfiado, cliquei no link e avancei para o pdf. Peço-vos que façam o mesmo, vai abrir numa outra janela:


Ora, vendo o primeiro anúncio do pdf, nota-se distintamente uma “expectativa” com “c”, mas também um “refletido” sem “c”. Tal poderia dever-se ao autor do texto ter aprendido português brasileiro, mas ainda assim a construção frásica é mais próxima do português europeu. Isto leva-me a crer que o problema aqui é que as pessoas já não sabem a quantas andam a nível ortográfico. Este Desacordo Ortográfico não unificou a ortografia portuguesa, tornou-a sem regra e caótica. Quando um jornal se dá ao luxo de criar a sua própria versão do Acordo Ortográfico (acordado por mais ninguém que pelo jornal, e ainda assim tão válido quanto o AO90) como fez o Correio da Manhã, vale tudo.
Voltando ao pdf, no segundo anúncio, temos novamente os meses com iniciais maiúsculas, que é contrário ao AO90, mas no terceiro parágrafo já temos Janeiro com inicial minúscula. No quarto parágrafo, temos Fevereiro com maiúsculas. Avançando para o anúncio “Estás a Mangar comigo?”, temos uma “actividade” com “c” e os meses com maiúsculas. Depois no anúncio da Conferência sobre o desenvolvimento do Brasil, já aparece Fevereiro com inicial minúscula e “Diretor”. Nos dois anúncios seguintes, temos os meses com iniciais maiúsculas e no anúncio que se segue a esses dois voltamos às iniciais minúsculas nos meses. Que canseira, que (des)regra!!
O que eu espero, desejo, é que a Embaixada do Japão tenha visto a luz, com a recente recusa do Brasil quanto ao AO90, e pare de tentar implementá-lo. Esta hesitação agrada-me. É um recuo por parte duma entidade política, ao mesmo tempo que cada vez mais vozes se erguem contra o AO90 nos três continentes intervenientes deste acordo. No mínimo dos mínimos, essa mesmo entidade dá a entender que é sabido que embora o governo português pareça resoluto na imposição do dito (des)acordo, que ainda há em Portugal (já nem falo no resto da Lusofonia) pelo menos duas ortografias correntes.
Ainda recentemente numa audição parlamentar sobre o AO90 (vidé vídeo acima, onde são apresentados também argumentos mais que suficientes dos pontos de vista formal, técnico e prático contra este AO90), ouve-se uma deputada dizer que já lhe foi dada a indicação de que cerca de 63% dos portugueses não querem o AO90. Como é isto compatível com o Ministro dos Negócios Estrangeiros de um governo de maioria absoluta, que como tal pretende-se ser o reflexo da maioria dos portugueses, venha depois dizer que não há divergências quanto ao Acordo Ortográfico e que ele entrará em vigor em 2015??? Estão a Mangar Comigo???? (private joke para quem leu o boletim da Embaixada do Japão lá em cima)



Isto é patético, mesquinho e abertamente anti-democrático! Uma piada de mau gosto e sem graça, é o que é o AO90!

Eu por mim contentava-me com um referendo nacional e caso o meu lado perca, eu aceito a voz da maioria. Venha ele! Buga lá! Também já ouvi o argumento de que nenhum Acordo Ortográfico alguma vez foi discutido com o povo. E isso é lá razão para que este não o seja? Dantes também havia escravos. Dantes as mulheres não votavam. A ideia é aprimorar e aumentar a democracia e não asfixiá-la.
Há ainda um outro argumento, fraco na melhor das hipóteses, em defesa do acordo ortográfico, que eu li esta semana. Disse (não cito, parafraseio) então um apologista do AO90 cujo nome agora me falha: “O acordo ortográfico tem incongruências? E depois? A ortografia anterior também as tem. Há sempre hipótese de melhoria.” Até é verdade, o problema é que para melhorarmos, para evoluirmos, nada melhor que o método científico, o rigor lógico, e acima de tudo só mudarmos se for para melhor. O problema é que o AO90 apenas torna a ortografia portuguesa mais ambígua, as novas regras não têm base científica mas antes noções ultrapassadas como a “pronúncia culta” (isto sim, do tempo do senhor do Encarnado que tinha medo dos Vermelhos) e são feitas por capricho, como vos pode confirmar o testemunho do vídeo acima, etc… Não admira que Portugal esteja com uma perspectiva de futuro tão negra, quando se predispõe a aceitar que a sua cultura, ciência, educação e governo sejam ditadas por homens (e mulheres), e aqui parafraseio Tolkien (e/ou José Hermano Saraiva), "menores"!
Mais uma vez apelo junto de vós, senhores e senhoras, amigos e amigas, irmãos e irmãs, camaradas, conterrâneos e pessoal D’além Mar, ergam as vossas vozes e as vossas canetas e/ou teclados contra esta farsa, que ameaça a verdadeira riqueza, encontrada na sua diversidade, da língua Portuguesa. Há 18 ortografias da língua inglesa na Internet. Podia, devia, haver 8 da língua Portuguesa, mas só havia 2 e agora querem que só haja 1 e que tenha esta forma anedótica? Isto é progresso ou suicídio cultural?
Assinem a Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990 (links abaixo)










E se quiserem também subscrever à carta enviada ao ministro da Educação, link abaixo, onde podem ler e subscrever a dita carta:
https://docs.google.com/spreadsheet/viewform?formkey=dG13TnlWRk10UXd0cDJvZTViS0picWc6MQ&fb_source=message#gid=0 


Obrigado por me lerem e voltamos a encontrar-nos em breve!
Sayonara, people! ;)

P.S.: Ah e mais uma vez… bão ao Teatro, carago! É a ciiiinnnccco (5) aéreos! Olh’ó Teatro fresquinho!



quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Novidades

Ah pois é, as aulas já recomeçaram e este N.I.N.J.A. conseguiu arranjar emprego finalmente. O que provavelmente me impede de continuar a usar para mim mesmo o título mencionado na frase anterior. Menos mal. Portanto estou a trabalhar e a estudar, o que me deixa muito menos tempo aqui para o blog. Não me faltam tópicos e espero ainda este mês, que rapidamente se aproxima do seu fim, fazer uma outra entrada dedicada a energia e o futuro do Japão. Se não conseguir escrevê-la até ao fim deste mês, surgirá no próximo.
Por agora, vou apenas deixar-vos com as novidades da Embaixada do Japão:

Realização do ‘Japanese Language Proficiency Test’
O ‘Japanese Language Proficiency Test’, promovido pela “Japan Foundation” e “Japan Educational Exchanges and Services”, será realizado no dia 2 de Dezembro, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O prazo de inscrição para o exame é de 17 de Setembro até 9 de Outubro. Para qualquer esclarecimento adicional, contactar:
< Comité do ‘Japanese Language Proficiency Test’ - jlpt.portugal@gmail.com
< Sector Cultural da Embaixada do Japão – Tel: 21 3110560 / cultural@embjapao.pt

“Um espaço Japonesqe”
Na Biblioteca Municipal Almeida Garrett no Porto (Rua de D. Manuel Ⅱ, Porto), organizar-se-á de 4 a 29 de Setembro, a exposição “Um Espaço Japonesqe”, organizada por Yuko Sodebayashi, residente japonesa no Porto. O evento compreende a exposição de vários objectos relacionados com o Japão, com o tema de “gravar”, “pintar”, “cozer” e “tecer”.
Mais informação : 229 721 408, 938 376 024


"Haiku – 35 poemas a Lisboa"
A Câmara Municipal de Lisboa, através do Departamento de Acção Cultural com a colaboração da Embaixada do Japão em Lisboa, convidam à participação numa iniciativa literária intitulada "Haiku – 35 poemas a Lisboa".
Das obras, com o tema da Cidade de Lisboa, serão posteriormente seleccionados 35 poemas. O convite é extensivo aos portugueses que têm interesse na cultura japonesa e à comunidade japonesa para participar no concurso podendo os participantes elaborar, neste caso, o haiku em japonês e ou português. No caso de ser escrito numa das línguas será feita a tradução na outra língua. Será feita uma sessão de poesia com todos os Haikus participantes (em data e local a determinar, em Novembro) e a elaboração de um pequeno livro com os 35 poemas seleccionados.
Os poemas poderão ser enviados para ernesto.matos@cm-lisboa.pt ou para a Embaixada do Japão
bunka2@net.novis.pt até 30 de Setembro.
Mais informação : ernesto.matos@cm-lisboa.pt , bunka3@net.novis.pt


Recepção de obras para o “17th Kanagawa Biennial World Children’s Art Exhibition”
Estarão abertas as inscrições, nos prazos em baixo indicados, para a recepção de obras para o “17th Kanagawa Biennial World Children’s Art Exhibition”, organizado pela Prefeitura de Kanagawa, Japan Overseas Cooperative Asssociation e Kinko-Biso Co., Ltd. A exposição está agendada para os meses de Julho a Agosto de 2013. Outras informações:
< Qualificações para participação : Crianças entre 4 a 15 anos de idade
< Prazo da apresentação de obras : 1 de Setembro ~ 30 de Novembro de 2012
< Envio de trabalhos para: Secretariat, The 17th Kanagawa Biennial World Children’s Art Exhibition,
Japan Overseas Cooperative Association c/o Kanagawa Plaza for Global Citizenship 1-2-1 Kosugaya,
sakae-ku Yokohama 247-0007 JAPAN < Mais informação: Email: k-biennial@earthplaza.jp

IBERANIME no Porto
Realizar-se-á de 13 a 14 de Outubro no Multiusos de Gondomar (Av. Multiusos, 4420-015 Gondomar, Porto) no Porto, o IBERANIME, evento direccionado a fãs e curiosos da Cultura Pop Japonesa. Nesta edição do IBERANIME, várias actividades estão programadas desde Workshops, videojogos, demonstrações, concertos e concursos de anime e manga.
Mais informação : info@iberanime.com, Telf.21 426 97 10 // URL: http://www.iberanime.com/pt/

Para terminar, e como já é aviso habitual, tudo o que está a Itálico foi copiado directamente do mais recente boletim informativo da Embaixada do Japão, sendo que me dei à liberdade de corrigir as palavras em Acordo Ortográfico de 1990, uma vez que discordo categoricamente da sua utilização, sendo que não acredito na sua validade e/ou valor. Aliás, lendo com atenção os textos no boletim da Embaixada que me foi enviado este mês, vê-se por exemplo que umas vezes os meses aparecem com inicial maiúscula e outras vezes com inicial minúscula. Além de que continuam a ter um Sector Cultural e não um "Setor" (deve ter a ver com setas) Cultural! Nem sabem a quantas andam, sintoma habitual de quem padece desse mal do Acordês. O site da Embaixada aparenta continuar sem o AO:
E vós, já fostes assinar a ILC contra o AO90?? Não deixeis para amanhã o que podeis fazer hoje:
http://ilcao.cedilha.net/

Numa última nota, a todos os que puderem e se interessam pelo destino do Estado Social de Portugal, vão à manifestação marcada para este sábado. Esqueçam divisões partidárias e sociais, lutem pelos vossos/nossos direitos.


Sayonara!

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Uchinaguchi e Mirandês, em "O Argumento dos Números"

No passado dia 30 de Junho, em Londres, foi celebrado o Dia de Okinawa. É verdade, a terra ancestral do Mr Miyagi, personagem de uma série de filmes muito determinante na minha infância e formação enquanto pessoa. Para o Mr Miyagi, a guerra é uma estupidez pura e simplesmente, o Karate serve apenas para defesa, mas, se nos forçam a lutar, que seja para ganhar. Estas noções acompanharam-me muito antes de começar a praticar o Karate a sério. Pequeno desvio pela Avenida da Memória abaixo… Voltando ao tópico, saindo da ficção e reentrando na realidade, eu soube desta celebração via Facebook:



Soube também através do The Japan Times online, doutro facto interessante que me levou a escrever esta entrada. Esta entrada em grande parte é a tradução, com alguma liberdade poética, de um artigo do jornal supracitado. Como tal, toda essa tradução liberal será deixada a itálico. O restante é meu.

O artigo, escrito por Ayako Mie, fala-nos sobre o professor Byron Fija, de 42 anos. Ele é parte caucasiano norte-americano por parte do pai e japonês por parte da mãe. Esta última informação é pertinente pois é uma das razões pelas quais os japoneses muitas vezes pensam que ele é um estrangeiro. A outra razão pela qual isso acontece é o facto de ele falar o Okinawa hogen (o dialecto de Okinawa), chamado Uchinaguchi.
Os japoneses estranham que ele fale este dialecto, mesmo os seus conterrâneos de Okinawa, que deveriam entender o que ele está a dizer quando fala Uchinaguchi. Recentemente, num programa de televisão que festejava o aniversário dos 40 anos do retorno do governo de Okinawa ao Império do Japão, ele foi precisamente questionado sobre o porquê de ele falar um dialecto. A sua resposta foi assertiva: “Eu não falo num dialecto japonês, eu falo Uchinaguchi que é uma língua independente.”
Fija de facto ensina o Uchinaguchi, a língua falada na região meridional da ilha principal de Okinawa. Esta língua é, em geral, imperceptível à maioria dos japoneses. Mas apesar dessa fácil distinção, até os habitantes de Okinawa vêem o Uchinaguchi como um mero dialecto, subordinado ao Japonês. De facto, 11 dos 46 convidados do tal programa de televisão disseram esperar que esta língua ficasse extinta nas próximas décadas. Fija afirmou não compreender como os próprios japoneses de Okinawa negam a legitimidade do Uchinaguchi. Por outro lado, o professor admitiu que a sua campanha para promover esta língua é um tanto ou quanto pessoal, pois a descriminação desta língua faz parte da crise de identidade com que ele teve de lidar quando era criança, uma criança nascida fora de um casamento. Numa outra época, o professor seria sem dúvida desprezado como um dos Burakumin. Parece que a civilização japonesa já fez alguns progressos face à descriminação social.
Mas o anúncio de estes serem os últimos dias desta língua impulsionaram alguns japoneses de Okinawa, incluindo o sr Fija, a desenvolverem esforços no sentido de promoverem e protegerem o Uchinaguchi, que eles acham estar não só no coração da cultura única de Okinawa mas também da sua própria identidade.
Culturalmente, desde 1972, Okinawa tem-se forçado a si mesma a absorver a cultura dominante japonesa e nesses esforços desprezaram mesmo a sua própria língua, vista por muitos como inferior. O resultado deste traço cultural é que apenas um número reduzido de pessoas falam fluentemente esta língua, sobretudo os velhos de Okinawa.
Dando uma indicação clara de que o Uchinaguchi é uma língua e não um mero dialecto, a UNESCO indicou-a em 2009 como uma das 6 línguas em vias de extinção faladas em Okinawa e nas ilhas vizinhas de Amami. Contudo, o governo central japonês e a prefeitura de Okinawa ainda não tomaram medidas nenhumas para proteger esta língua ou sequer admitiram oficialmente que o Uchinaguchi é uma língua de pleno direito.
A concentração de instalações militares norte-americanas na prefeitura de Okinawa, quando comparada com outras regiões do Japão, é percebida pelas pessoas de Okinawa como uma descriminação, uma na qual o resto do Japão tem quase nenhum interesse. Contudo, a eliminação do Uchinaguchi deveria ser considera parte importante dessa descriminação, mas a verdade é que, por razões históricas, as pessoas de Okinawa não a entendem como tal. Outrora, Okinawa era o reino independente de Ryukyu, que governou as ilhas do sudeste, entre Kyushu e o Taiwan, entre os séculos XV e XIX, enriquecendo através do comércio com a China e o Sudeste Asiático. Mas em 1879, o Japão anexou essa nação e impôs políticas de assimilação cultural às populações locais, obrigando por exemplo a que apenas fosse permitido falar Japonês em público. Durante décadas, as pessoas de Okinawa foram descriminadas e ridicularizadas pelo resto do Japão por falarem uma língua considerada bárbara. De facto, nas escolas, os estudantes que falassem Uchinaguchi eram forçados a usar cartazes, que lhes pendiam do pescoço, que assinalassem a língua que falavam, sofrendo então todas as formas de humilhação social. Em 1945, morreu 30% da população local na Batalha de Okinawa, muitos dos quais falavam Uchinaguchi e foram mortos pelas tropas imperiais japonesas que os via como espiões do inimigo. Durante o tempo em que Okinawa esteve sob jugo Americano, após a Segunda Grande Guerra, e mesmo depois quando reverteu ao controlo do Japão, os habitantes de Okinawa que viviam fora da Prefeitura e que foram educados nas escolas da sua região mantiveram o Uchinaguchi vivo. Mas quando essas pessoas saíam da sua terra e iam para as metrópoles, como Osaka e Tokyo, em busca duma vida melhor, eram ridicularizados pelas suas raízes e pela língua que falavam, o que levou a que eles abandonassem a sua própria língua e a desprezassem a cultura de Okinawa, tratando-a como se fosse algo de segunda categoria.
Mas essa visão negativa não é vista nos habitantes de Okinawa nascidos após 1972.
Nos anos mais recentes, graças à projecção mediática de estrelas nascidas em Okinawa, a cultura de Okinawa começa a ser tida em consideração. Entre as estrelas que para tal contribuíram, encontram-se Namie Amuro (um cantor pop que se evidenciou nos anos noventa) e a popular jogadora de golf Ai Miyazato (que atingiu o topo do ranking mundial do golf feminino em 2010).
Ao mesmo tempo, a definição de Uchinaguchi entre as camadas jovens de Okinawa mudou significativamente. Muitos deles falam Uchina-Yamatoguchi, uma nova forma de expressão que mistura termos em Uchinaguchi com contextos japoneses. Uma sondagem de 2011, levada a cabo pelo jornal Ryukyu Shimpo (sedeado em Naha), concluiu que cerca de 90% da população de Okinawa entre os 20 e os 30 não conseguia falar ou perceber o Uchinaguchi tradicional.
Esta realidade lança sombras ameaçadoras sobre o futuro da dança e do teatro tradicionais de Okinawa, para os quais o Uchinaguchi é fundamental. De acordo com uma sondagem também de 2011, efectuada pelo professor Masahide Ishihara da Universidade de Ryukyu,  apenas 5% das 605 pessoas ligadas à cultura de Okinawa sondadas, com idades abaixo dos 30 anos, falavam fluentemente Uchinaguchi. Para Susumu Taira, um actor, produtor e guionista de Okinawa, com 78 anos, este declínio significa que a cultura de Okinawa está lentamente a tornar-se indistinguível da cultura de outras zonas do Japão. Segundo Taira, a vertente de teatro tradicional de Okinawa chamado Kumiodori, não tem um guião. São dadas deixas verbais aos actores, que depois têm a liberdade total para improvisar desde que consigam manter fluida a acção e a história. A não ser que os actores sejam fluentes em Uchinaguchi, não conseguem comunicar bem o sentimento desejado e toda a peça parecerá algo que pretensiosa. “Eu digo aos meus actores, que se as falas são ditas em Uchinaguchi sem haver uma entrega e abertura à língua, o seu desempenho vai ter o mesmo tipo de sensação e qualidade que teria se fosse desempenhado por actores naturais de Tóquio.”, disse Taira, nomeado em 1999 pela Prefeitura de Okinawa como Protector de Propriedades Culturais Intangíveis, o teatro e música de Ryukyu.
Contudo, tamanha singularidade não é bem recebida quando a audiência não entende a língua que está a ser falada em palco. De facto, para as peças de Kumiodori serem apreciadas pelas audiências, são acompanhadas de legendagem. O Kumiodori foi designado, em 2011, como Herança Cultural Intangível da Humanidade pela organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura.
Taira confessou ter ficado chateado quando oficiais da Prefeitura lhe pediram que traduzisse algumas frases de Uchinaguchi para Japonês, com o objectivo de aumentar a popularidade da peça. “As artes performativas devem ser inteligíveis para todos sem mudar a tradição”, afirmou Taira. Sentindo-se ameaçado pela situação, Taira começou a ensinar Uchinaguchi na faculdade comunitária de Okinawa. O curso atraiu tanto habitantes locais como pessoas que vieram de fora da Prefeitura, nutrindo interesse pela cultura de Okinawa.
“Há certas palavras que são únicas em Uchinaguchi. Apercebi-me disso quando frequentei o curso.”, disse Keiko Shimoji, de 35 anos e residente em Okinawa.
Contudo, os esforços tanto dos locais que falam a língua e doutros que foram aprendê-la podem não ser suficientes para assegurar a sobrevivência da língua, pois é facto que os que a falam e ensinam estão a envelhecer. Para preservar a língua e elevar o seu status entre a população local, há aqueles que defendem de que esta deveria ter ensino obrigatório nas escolas. Dão como exemplo o caso bem sucedido do Havai, onde a língua nativa foi introduzida no ensino numa tentativa de a salvar, ao mesmo tempo que o estado declarou como língua oficial o Havaiano. Como um primeiro passo no intuito de adicionar ao currículo escolar o Uchinaguchi, a Prefeitura de Okinawa criou uma comissão em 2007 para gerar uma publicação que ajudasse ao ensino da língua nas escolas públicas. Mas nos últimos 5 anos, a complexidade e natureza diversa do Uchinaguchi têm impedido os estudiosos de decidir exactamente como codificar a língua e compilar o manual em questão. É que mesmo dentro da própria língua, existem vários dialectos falados na região sul de Okinawa. Tais diferenças existem para todas as 6 línguas diferentes – incluindo as formas faladas Amami-Oshima, Yaeyama, Miyako e outras ilhas do sudeste – declaradas com em perigo pela UNESCO. É por isto que peritos afirmam que mesmo linguistas e oficiais do governo não podem determinar qual dos dialectos codificar e tornar o standard.

À parte: para mim é simples a resolução deste problema. Codificam-se as 6 formas da língua, ensinando-se cada uma na região onde são ainda faladas. Trabalhoso, mas decerto fazível.

“Quando decidirmos que Uchinaguchi codificar, tornar-se-á mais fácil compilar um manual de ensino.”, disse Shinsho Miyara, professor jubilado da Universidade de Ryukyu, que faz parte do painel da Prefeitura designado para criar o manual.
Alguns peritos também realçam que as políticas de assimilação também dificultaram a estandardização da língua. “Como a intenção sob a administração colonial japonesa foi de que toda a gente assimilasse e aprendesse o Japonês, não houve qualquer iniciativa governamental para a estandardização do Uchinaguchi numa língua de pleno direito”, disse Ryan Yokota, doutorando de História na Universidade de Chicago e especialista em matérias pós-guerra em Okinawa.
Apesar dos seus esforços, os oficiais da Prefeitura de Okinawa dizem que o ensino obrigatório do Uchinaguchi nas escolas locais provavelmente não vai acontecer, uma vez que o governo central japonês nem a reconhece como uma língua separada.
Já o professor Fija, diz que é tempo das pessoas de Okinawa abraçarem a mais fundamental fonte da sua identidade. “Enquanto continuarmos a rotular o Uchinaguchi como um dialecto ou uma língua de segunda classe, vamos estar a tratar-nos a nós mesmos como cidadãos de segunda.”, afirmou Fija.

Ora, nós em Portugal temos um caso semelhante, felizmente menos complicado. Falo é claro da segunda língua oficial de Portugal, o Mirandês. “Em 2008 foi estabelecida uma convenção ortográfica, patrocinada pela Câmara Municipal de Miranda do Douro e levada a cabo por um grupo de entendidos linguistas, com vista estabelecer regras claras para escrever, ler e ensinar o mirandês bem como estabelecer uma escrita o mais unitária possível e consagrar o mirandês como língua minoritária de Portugal.”, in Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/L%C3%ADngua_mirandesa). Provavelmente menos pessoas falam o mirandês que o Uchinaguchi, mas como faz parte da nossa herança cultural decidimos, para meu gáudio e orgulho, salvaguardá-lo. Eis algumas das medidas de defesa e perpetuação da língua mirandesa:
“O mirandês é ameaçado actualmente pelo desenvolvimento, a vida moderna, a televisão, e as pressões do português e do castelhano. Em sua defesa, foram tomadas as medidas:
  • ensino em mirandês, como opção, nas escolas do ensino básico do concelho de Miranda do Douro, desde 1986/1987, por autorização ministerial de 9 de Setembro de 1985.
  • publicação de livros sobre e em mirandês, pela Câmara Municipal de Miranda do Douro.
  • realização anual de um festival da canção e de um concurso literário, pela Câmara Municipal.
  • uso do mirandês em festas e celebrações da cidade e, ocasionalmente, nos meios de comunicação social.
  • publicação de dois volumes da série de banda desenhada Asterix.
  • tradução de todas as placas toponímicas da cidade de Miranda do Douro, efectuada em 2006 pela Câmara Municipal
  • estudo por centros de investigação portugueses como o centro de linguística da Universidade de Lisboa com o projecto "Atlas Linguístico de Portugal", e a Universidade de Coimbra, com o "Inquérito Linguístico Bolêo".
  • criação de uma Wikipédia em Mirandês, a Biquipédia.
  • disponibilização de sítios em Mirandês, entre eles hi5, Photoblog e WordPress em Mirandês.”




Portanto o que aqui interessa não é a quantidade de pessoas que fala uma língua, ou que a escreve, mas sim a sua riqueza cultural, a salvaguarda do pluralismo cultural, tão importante para a evolução de um povo como o pluralismo genético é para a evolução de uma espécie. Nunca me esqueço de uma frase dita por Lawrence das Arábias a Indiana Jones, no primeiro episódio da série televisiva desta última personagem que relatava as suas aventuras em criança e em adolescente. “Henry, onde quer que vás, sejam quais forem os países que visites, aprende a língua. É a chave que abre tudo.” Foi esta frase que me levou a querer aprender inglês, sendo que quando cheguei ao ciclo, embora não o lesse nem o escrevesse, já tinha considerável fluência oral no inglês americano. Nós temos um espírito, uma alma, quanto mais não seja até morrermos (para lá desse momento, não se sabe o que acontece). Essa alma é a composição de todas as sensações que vivemos, memórias que retemos e saberes que aprendemos. Sendo assim, a alma de um povo será a composição das suas tradições e História, das quais a Língua é, ou para povos sortudos as Línguas são, fulcral(ais).

Já agora, impõe-se uma questão. Se nós procuramos por todos os meios salvar línguas que poucos falam, que peso tem o argumento dos números para justificar o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AO’90)?
A resposta tem de ser rápida e decisiva. É um argumento inválido. O facto é que o Português Europeu nunca esteve ameaçado ou em vias de extinção como os alarmistas defensores do AO’90 quiseram que acreditássemos. Desde a fundação deste país até aos dias de hoje, fomos sempre poucos em números, sendo que provavelmente nunca houve tantos portugueses como há hoje em dia. Como é sequer concebível levar o argumento dos números a sério? A verdade é que o injustificável não pode ser justificado por argumentos válidos, então há que inventar argumentos por mais absurdos que sejam. Já falei a grande extensão dos erros técnicos e incongruências do (des)Acordo Ortográfico no post Desacordo Ortográfico e Democracia:
Neste falei também de que é um acordo anti-democrático pois foi feito contra a vontade dos povos (até o Miguel Sousa Tavares dá testemunho disso melhor que o meu pois ele foi ao Brasil, falou com brasileiros e diz que ainda não encontrou um que quisesse o AO) que afecta, ou no mínimo se lhes consultar a opinião. Por outro lado, numa democracia, escutam-se as minorias e desde que estas não coloquem em risco o bem da maioria, procura-se salvaguardar os seus direitos. O problema é que o AO’90 é uma imposição de uma minoria restrita sob mais de 4 povos diferentes, com o pretexto de salvar uma língua que nunca esteve em risco, através duma evolução forçada e contra-natura que ameaça ela sim o pluralismo e riqueza do Português nas suas variadas formas.
E os nossos políticos defendem esse acordo sem sequer o entenderem:

É que nem os defensores do AO’90 o entendem ou conhecem:
Fazem lembrar aqueles zelotas cristãos que defendem de forma acérrima a sua religião mas nunca leram a Bíblia que é só o pilar central de toda a crença deles. Mas pronto, quem acredita não requer provas ou argumentos lógicos. ["The US Religious Knowledge Survey, released Tuesday from the Pew Forum on Religion & Public Life, found atheists and agnostics know more basic facts about the Bible than either Protestants or Catholics.", fonte: http://www.csmonitor.com/USA/Society/2010/0928/In-US-atheists-know-religion-better-than-believers.-Is-that-bad Só para dar peso ao argumento.] Será então o acordês uma neo-crença dogmática? God, let us hope not!

Mas ainda vamos muito bem a tempo de desfazer esta insanidade cultural pretensiosa, hipócrita e disfarçada de sabedoria, através da Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico de 1990 (ILCcontraAO’90).
Para lerem a ILCcontraAO’90, vão a: http://ilcao.cedilha.net/
Podem encontrar o formulário para a assinarem em:
Para preencherem necessitarão do vosso número de eleitor que, estando em posse do vosso BI ou Cartão do Cidadão, podem saber através de:
ou através de uma SMS para o 3838 com o texto:

REespaçoN.ºId.CivilespaçoDatadeNascimento(AAAAMMDD)

Exemplo: RE 1234567 19751014

Eu já reuni 4 assinaturas (só comecei a semana passada eheh), incluindo a minha, e espero reunir mais umas quantas para depois enviar por correio para a morada:

Apartado 53
2776-901 Carcavelos

Há ainda uma série de sítios espalhados pelo país onde poderão preencher o formulário, assiná-lo e entregar sem mais gastos. Podem saber onde o poderão fazer através do seguinte link:

Cidadãos, as vossas canetas são precisas para salvaguardar a alma do nosso povo. Evolução sim, mas uma evolução natural quando muito auxiliada com rigor técnico, nunca aos caprichos de uns quantos que se têm em demasiada alta conta e que têm o desplante de dar o único parecer técnico positivo ao documento que eles próprios compuseram.

Alex, signing off 4 the momment!

P.P.S.: Só para completar... mesmo que o argumento dos números relativamente ao AO'90 tivesse qualquer mérito, o Destino (esse que domina até os Deuses, segundo os poetas neoclássicos) entregou-nos a forma perfeita de espalhar o Português Europeu pelo Mundo. Ora atentem às seguintes notícias de há uns meses:


Não há povo mais numeroso que o Chinês, é só metê-los a falar/escrever Português Europeu e 'tá feito, meus amigos! :D Isso sim, seria uma jogada à Dom Afonso Henriques, o cavaleiro-rei que entendeu em pleno século XII que a religião era apenas a política da época! ;)
Contudo, eu fico satisfeito se os 10,5 milhões deste pedacinho de terra, esta aldeia de irredutíveis lusitanos, não fiquem privados da sua herança cultural. Nem mesmo de 4% desta.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Festa Japonesa em Belém e Desacordo Técnico em crescendo


Olá, pessoal!
Bem sei que o blog tem estado MUERTO (esta escolha de palavra não é ao acaso :) este mês, mas ainda vai ressuscitar antes do fim! Tremam, meus compatriotas terrenos, tremam!
Entretanto, aproveito para relembrar o vindouro evento da Festa do Japão em Lisboa. Se querem ir para fora cá dentro, se gostam de se deixar imergir em culturas diferentes da nossa, aproveitem a oportunidade no dia 2 de Junho de 2012. Eis os pormenores, fresquinhos e directamente da Embaixada do Japão:

Face ao enorme êxito da Festa do Japão em Lisboa em 2011, a Embaixada do Japão, a Câmara Municipal de Lisboa, a EGEAC e a Associação de Amizade Portugal-Japão, com o apoio da JapanNet e da 'Japan Foundation', organizam este ano a 2ª edição deste evento, no âmbito das Festas da Cidade de Lisboa.
Pretende-se celebrar a amizade e a cultura entre o Japão e Portugal, no espaço existente do Jardim do Japão em Belém, aproveitando a sua excelente localização para dar a conhecer mais a cultura japonesa em Portugal.
Os visitantes poderão usufruir das várias expressões da cultura japonesa, quer tradicional quer pop,  através de concertos de música japonesa (tambores e 'shamisen'), demonstrações de Ikebana, Shodo (caligrafia), artes marciais, poesia Haiku, Origami, Furoshiki (técnica de embrulho), brinquedos japoneses, como vestir Yukata (o kimono de Verão), Cosplay (expressão da cultura pop), concursos, exposições de Bonsai, tendas de gastronomia japonesa (para venda de sushi, carê udon, takoyaki, dorayaki - doce de soja, sakê, cerveja japonesa etc.), representação de empresas japonesas, entre outras. VER PROGRAMA
A edição deste ano contará igualmente com a gentil participação de Fernando Tordo, Filipa Pais e Carlos Mendes, na apresentação de 'Memorial', com o tema 'Biombo de Namban'."


Só acrescentar numa outra nota a boa nova duma pequena mas, espero eu, significativa vitória para todos aqueles que como eu partilham do sentimento anti-Acordo Ortográfico. A Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico votou esta semana em assembleia geral de alunos declarar-se publicamente contra o Acordo Ortográfico, contra a sua implementação no IST (para começar ehehhe) e anunciou o intento em procurar levar este sentimento a outras associações de estudantes de forma a gerar uma frente unida contra este (des)acordo por parte dos estudantes actuais, líderes do amanhã! Momentos destes levam-me a ter orgulho em dizer que sim, estudo no Instituto Superior Técnico, uma universidade de engenharia onde os alunos se preocupam com a cultura do seu país, independentemente de estarmos em crise económico/social ou de não estudarem letras eles próprios. Mas se soubesse o comum dos mortais que a Matemática a sério é mais letras que números, ninguém diria que não estudamos Letras! Além disso, não há nada pior que um texto técnico atabalhoado e mal escrito... eles já são complicados o suficiente estando bem escritos e numa ortografia tanto menos ambígua quanto possível.
Também muito me agradou quando descobri termos no IST um grupo de estudantes que dá pelo nome de Desacordo Técnico, que foi o primeiro pólo do IST publica e activamente contra este acordo (a página deste grupo é fácil de encontrar no facebook):
Assim sendo, continuemos a resistir, de canetas e teclados empunhados quais espadas e vitória a vitória, a guerra será vencida por nós!
Não se esqueçam de assinar a "ILC contra o AO90". São necessárias 35 mil assinaturas. É uma iniciativa de cidadãos e não uma mera petição. Tem de se assinar em papel, sendo que todas as informações sobre para onde enviar e o formulário a assinar, se podem encontrar no blog desta Iniciativa ( http://ilcao.cedilha.net/ ). Ainda ando a recolher algumas assinaturas junto dos meus amigos e familiares para enviar juntamente com a minha! Vamos lá!

Até à próxima… que espero que seja em breve!
Signing off

P.S.: O parágrafo que acompanha o cartaz da Festa do Japão e está a itálico, é citação directa do boletim informativo da Embaixada do Japão.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Desacordo Ortográfico e Democracia





Este post parecerá aqui fora de sítio, uma vez que este blog nunca pretendeu ser um fórum político, nem nada que se lhe parecesse. Mas para tempos excepcionais impõem-se medidas excepcionais, e disso decorre o seguinte. Até porque, no primeiro post que fiz, a que chamei Prólogo, expliquei que parte do nome deste blog servia para declarar que este está ao serviço de um povo, tanto quanto pode estar. Procuro apenas manter-me fiel a essa convicção primária. Este post será longo, mesmo quando comparado com os meus posts habituais que já são de si longos, por isso deixo um índice dos seus conteúdos no início:

- Desacordo Ortográfico Descodificado;
- Lobbies e o risco para a Democracia;


DESACORDO ORTOGRÁFICO DESCODIFICADO

Quem me conhece sabe que sou absolutamente CONTRA o chamado Acordo Ortográfico. Alguns desses sabem alguns dos argumentos nos quais baseio a minha posição. Hoje aqui registo todos eles, pecando apenas por não o ter feito há mais tempo.

1) Começo pela simples razão de que não faz sentido nenhum um qualquer acordo deste género sem que houvesse um consenso entre todos os países da CPLP. Tal não acontece, como eu recentemente soube, porque pelo menos Moçambique e Angola não assinaram. Se o objectivo é ter um Português único, tal não é atingido por este português que só afasta mais os países, criando blocos políticos (os a favor do AO e os contra o AO).
2) O facto de, na génese deste acordo, não terem sido consultados peritos qualificados, como filólogos ou linguistas creditados e experientes (de todos os países envolvidos), como seria de esperar numa criação conceptual oriunda do século XX, século no qual o saber técnico-científico nos levou (enquanto espécie) à Lua, a conhecer melhor épocas do mundo em que não existiam homens, e nos permitiu ganhar mais ou menos 30 anos em esperança média de vida. Mas insistimos em criar coisas e colocá-las em prática sem ouvirmos quem realmente estudou o problema em questão. (Porque é que tal acontece? Responderei mais abaixo) Já agora, a esmagadora maioria dos pareceres científicos que se pronunciaram sobre este assunto são contra este acordo, dos restantes, 2 pareceres foram favoráveis (e isto não quer dizer que apoiem a 100%) e o resto remeteu-se a um silêncio cobarde ou simplesmente não foram consultados.
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Cultura/Interior.aspx?content_id=967360
3) O Inglês, assim como o Francês e o Castelhano (vulgo Espanhol), são línguas que como o Português, vieram (maioritariamente) do Latim e, pela expansão que portugueses começaram no século XV, são hoje faladas e escritas em vários países e continentes diferentes. Eles nunca fizeram acordos ortográficos que suprimissem ramos da árvore genealógica da sua língua em prole de unificar a escrita da mesma. Assim sendo, essas línguas, como até agora acontecia com a nossa, enriquecem-se a várias frentes. São as diferenças evolutivas produzidas pelas diferentes culturas que falam uma mesma língua que permitem que essa língua cresça e se torne cada vez mais bela e completa. Um acordo ortográfico cessa esse tipo de evolução, castrando-o politicamente. Faz-me lembrar a Novilíngua, do livro de ficção científica 1984, de George Orwell, livro do qual surgiu o conceito do Big Brother. Nessa civilização futuresca, que ainda não chegou a existir, os órgãos de repressão inventaram a Novilíngua, que era a máxima simplificação da língua (exemplo, na novilíngua não há “mau”, há apenas vários graus de “bom”: menos bom, bom, muito bom! Também não há “excelente”, ou “formidável”, apenas muitos graus de bom…). Esta super simplificação servia apenas para fazer com que as pessoas sentissem cada vez menos ao lerem. Com menos adjectivos torna-se uma língua mais enfadonha e menos capaz de traduzir emoções e sentimentos, sendo que essa tradução é o objectivo máximo do escritor. Claro que a presente situação não é nem de perto nem de longe tão má, mas quando chegarem à segunda parte deste post verão que pode ser um passo nesse sentido. A cultura nunca pode ser feita por decreto político em democracia… afinal isso era o que fazia o Estado Novo.
4) A pretensão dos que são a favor deste acordo dizerem que é uma evolução e que as línguas precisam de evoluir. Eu acho que nos (mais ou menos) 500 anos entre o achar do Brasil e agora, a língua portuguesa não parou de evoluir e contudo ainda nunca houve acordo ortográfico para potenciar tal evolução. Pista essa talvez de que a evolução de uma língua não precisa e quiçá nem beneficie dum acordo ortográfico. Sabemos hoje que a Evolução animal beneficia muito da biodiversidade. Será um passo tão grande pensarmos o mesmo para a evolução de qualquer língua? Não será melhor termos 5 versões duma língua, que como um todo são essa língua, do que termos uma só que não olha às várias e distintas culturas que a falam? Eu acho que fará mais sentido uma diversidade evolutiva dentro de uma língua, que uma mera homogeneização da mesma. É claro que os que estão a favor do AO dizem “Ah, mas a única mudança é ortográfica, todos continuamos a falar da mesma forma que sempre falámos!”. Essa defesa chateia-me solenemente de tão falsa que é, porque eu sempre disse EgiPto, desde criança, porque quem lá vive são EgíPcios. Mas hoje em dia deixo de poder ter um P(para alguns mudo, mas não para mim) no Egipto quando escrevo. Ou seja não escrevo o que falo. E tanto quanto percebo olhando para outras línguas, olhando para a História do Homem, a parte escrita do todo que é a Língua deve espelhar os sons dessa língua quando falada, senão não tem sentido. Como disse uma personagem de António Banderas no “The 13th Warrior”:
- Draw sounds? Yes, I can draw sounds… and I can speak them back!
Mas agora com este acordo ortográfico eu já não posso desenhar os sons que digo. Até porque a maioria letrada de nós sabe que os p’s e c’s, que foram agora ostracizados coitadinhos!, em Portugal tinham o distinto papel de abrir a vogal. É normal que os brasileiros deles abdicassem porque eles tendem a fechar as vogais. Logo, tanto de um lado como do outro do Atlântico, por muitos defeitos que a Língua tivesse (e tinha bastantes), nós escrevíamos como falávamos (ou o mais próximo disso) e todos sempre nos entendemos e nos demos bem. Logo não houve evolução, mas usaram esse termo para pessoas que pouco sabem sobre Evolução de um ponto de vista científico (que é a maioria), se amedrontasse de os contrariar. (Quem são eles? Já explico.)
5) Todos os erros que a escrita da nossa língua tinha, como palavras que não estavam claramente acentuadas, como palavras homógrafas que dificultam a leitura, este AO, que se diz campeão da simplificação (e já sabemos o que o Orwell pensa sobre a simplificação), não resolveu. De facto, criou outros, mais do mesmo, como o: “para” e “pára”, que segundo a nova “regra” são indistintos. Mais uma vez, não houve evolução, nada se ganhou em termos práticos. Já no exemplo que os protectores deste malfadado acordo (político de base) tanto gostam de usar para justificar a decorrente actual mudança, o antigo Ph que foi substituído pelo F, houve efectivamente uma melhoria, sendo que havia uma letra que fazia o trabalho de duas. Houve, em termos práticos, uma simplificação que não criava mais erros internos na língua nem castrava certas pronúncias locais das palavras. Contudo, até esse caso teve um senão, que foi o de nos afastar de outras línguas latinas assim como dessa ancestral raiz. É que não devemos cair no erro de confundir evolução com modernices ou novidades. Só por algo ser novo, não quer dizer que seja melhor que o velho, nem que traga nada de suficientemente positivo, que faça merecer a pena uma substituição. Dou três exemplos: os ecrãs plasma que acabaram por ceder face aos LCD’s, os mini-disk que nunca conquistaram terreno ao vulgar CD, ou esta nova vaga de 3D (sim nova, já se tenta fazer 3D desde os irmãos Lumiére) que até tem a sua piada, mas considerando a perda de 30% de cor, o obrigar a usar óculos, e as enxaquecas que dão no fim, é apenas mais uma modernice que será rejeitada porque simplesmente coisas pontiagudas a sair do ecrã não compensam tanto malefício.
6) No ponto anterior, escrevi regra entre aspas, porque este acordo de tão político e tão pouco cultural ou científico que é, procurando agradar a gregos e não hostilizar troianos, é mais excepções que regras. Reparem a inteligência (ou falta dela) política em criar um acordo que procura homogeneizar a escrita portuguesa, mas continua a ter esporte e desporto, fato e facto, etc... mas teve de destruir o Egipto, por exemplo. E venham-me dizer que não é totalmente arbitrário… Um à parte, e voltando aqui à vaca fria da suposta evolução, se olharmos para a língua inglesa, especialmente o ramo norte-americano, percebemos logo onde os brasileiros vão buscar as suas mais recentes palavras... esporte é uma corruptela directa da palavra sport. "Tchimie" (não sei qual a grafia brasileira correcta) é uma corruptela directa da palavra inglesa team. E contudo muitos clamam e reclamam que o português brasileiro é o mais evoluído, as mesmas pessoas que usam o fim do Ph na língua portuguesa como um dos pilares justificativos para essa alegada evolução trazida pelo seu adorado AO, e contudo esquecem-se ou preferem não ver, que o tão evoluído português brasileiro bebe de uma língua que ainda escreve photography! Não é um argumento, apenas uma piada cartoonesca!
7) Mas este, com o número da sorte por trás, é o argumento que mais me faz detestar este Acordo Ortográfico. Esqueçamos as falsas presunções evolutivas, a falta de coerência ou contributo científico na sua concepção, o que mais me irrita é o facto de ser feito sem a vontade da maioria do povo lusófono. O povo brasileiro não o desejou, a maioria do povo português não é a favor, e numa época em que pensamos ter liberdade de escrita, que nos querem convencer que o poder está nas ruas, tudo isto se fez sem considerar aquilo que é supremo na democracia: a vontade das maiorias. E porque é que foi feito? Porque interessava a uma pequena mas altamente organizada minoria de bolsos fundos e com os contactos certos nos governos de então. A estas minorias de fórum político-económico chama-se lobbies. O lobby em questão foi o das editoras brasileiras. Este é um lobby muito poderoso, organizado ao estilo norte-americano e este último argumento é a ponte perfeita para mudarmos de capítulo:


LOBBIES E A DEMOCRACIA EM RISCO

Nos Estados Unidos da América (EUA), a Meca dos Lobbies políticos, há hoje em dia um consenso geral entre a maioria do povo de que uma lei de Controlo de Armas era benéfica para o país. Contudo, o poderoso lobby das armas, ou melhor da indústria das armas, uma das maiores indústrias norte-americanas, detém vasto e enraizado poder no senado americano, conseguindo assim manter a actual situação de desregularização das armas, podendo o comum norte-americano ter uma RPG ou uma M16 debaixo da sua cama, ou mesmo bunkers cheios delas, ou ir à caça com armas feitas para guerra como metralhadoras mais pesadas, ou matar o vizinho case este decida entrar na área do seu jardim sem ser convidado. Os lobbies são a coisa mais claramente anti-democrática que existe, pois existem meramente para fazer governos, independentemente das suas ideias políticas, manterem o status quo elevado das respectivas indústrias que defendem e pelas quais são financiadas. Os lobbies trabalham nos bastidores do poder e a sua principal arma, ainda que cuidadosamente usada para não ser passível de ser provada em tribunal, é a corrupção.
Estas organizações começaram nos EUA, mas era de esperar que mais cedo ou mais tarde se espalhassem para outros países ditos livres (mas que por a acção velada destes grupos têm uma liberdade muito estreita). Ora, é algo natural que o Brasil seja dos primeiros contagiados, uma vez que seguem cada vez mais o modelo dos EUA, uma vez que são também uma federação de estados, de emergente poder capitalista. Nada tem a ver com o povo brasileiro em si, pois tal como o povo norte-americano, são meras vítimas da acção organizada e velada dos lobbies.
Eu aprendi a falar inglês a ver filmes norte-americanos vezes sem conta em criança. Quando cheguei ao ciclo (5º ano de escolaridade em Portugal) a minha primeira professora de inglês, contam-me os meus pais, não acreditava que eu não tivesse andado de antemão num instituto pois “sabe demasiado inglês para não ter andado lá”. A verdade é que não andei. A verdade é que aprendi a falar a língua porque era calão demais para ter de estar a ler legendas que, por uma leve dislexia de que sofro derivado ao facto de pela educação me terem transformado de esquerdino em destro, raramente à época conseguia ler a frase toda antes que ela desaparecesse do ecrã. Caso para dizer, a preguiça também gera coisas boas. Mas como efeito secundário, primariamente através de filmes e séries, e depois de telejornais e programas mais variados com o advento da Tv-cabo, cresci dentro da cultura norte-americana, quase tanto como da portuguesa. E uma coisa que aprendi, como cidadão interessado por política que sou, foi a detectar lobbies. Eis como se faz. Regra de ouro, não há coincidências. Vejamos então os acontecimentos mais recentes do AO:

- Graça Moura, aproveitando a sua nomeação para director do CCB, fez rolar a primeira pedra da ressurreição do movimento popular (isto é, do povo), removendo do CCB qualquer ferramenta ou resquício da nova ortografia portuguesa luso-brasileira (uma vez que não nos devemos esquecer que há países da CPLP que não assinaram o AO);
http://www.publico.pt/Cultura/graca-moura-da-ordem-aos-servicos-do-ccb-para-nao-aplicarem-o-acordo-ortografico-1532066
- o supramencionado movimento popular nada organizado, mas de diversas frentes, começa a dar vários cabeçalhos a jornais, como petições e abaixo-assinados com centenas de milhares de assinaturas, como universidades de letras que não tinham opinião formada sobre o AO, um jurista que tem em tribunal um processo em que acusa o AO de ser anti-constitucional, etc;
http://www.publico.pt/Cultura/movimento-de-oposicao-ao-acordo-ortografico-cresce-em-varias-frentes-1533714
- um jornal angolano manifestou-se contra o AO, dizendo que futuras relações entre Portugal e esse país podias estar em risco derivado à conivência dos governos portugueses e brasileiros neste ataque à língua mãe no seu todo;
http://www.publico.pt/Cultura/jornal-de-angola-rejeita-acordo-ortografico--1533026
- um cidadão português, único subscritor de uma petição com número mais que suficiente de assinaturas, conseguiu finalmente audiência com comissão parlamentar e/ou governamental afim de defender a realização dum referendo ao Acordo Ortográfico;
http://www.publico.pt/Cultura/um-cidadao-exige-o-referendo-1533716
- mais recentemente, silêncio...

... até há uns dias atrás. “The Empire Strikes Back” A TVI, até então o último canal aberto de TV em Portugal que ainda não tinha deixado a ortografia lusitana, sem nada dizer directamente, perguntou ao professor Marcelo Rebelo de Sousa (e na TVI o que o Marcelo diz, Deus prefaz no Céu e na Terra) se achava que se devia fazer um referendo ao acordo ortográfico e o prof M diz que, embora todos reconheçamos que o AO foi mal concebido e feito à revelia democrática do grosso dos povos cujos governos o assinaram, não devemos fazer o referendo porque estamos em crise e porque o governo anterior comprometeu Portugal ao AO. Ora bem, isto é próprio de uma pessoa que ou está demente ou está comprado por certos interesses. Quem no seu perfeito juízo diz que uma coisa está mal feita, cheia de erros e é anti-democrática, mas porque os anteriores (já não actuais) gestores políticos nos impuseram isso, devemos todos fazer valer esse compromisso por mais ruinoso que seja? Apenas alguém que tem algo a ganhar com isso ou está louco. E certo e sabido, Marcelo na Terra, Deus na TVI, os programas da TVI passaram de Directo a Direto da noite para o dia, em data de seu aniversário, justificados não numa nota editorial, mas pela sapiência imensa do Prof M, que “fala, fala, fala, mas não” faz ou diz nada em concreto que resolva qualquer dos problemas do nosso país. Disse ainda o ilustre falador que acha muito bem que se debata o assunto do AO, desde que nada se faça para o corrigir! Ainda bem que lhe pagam milhares, como acontece no caso das Rating Agencies que dizem que Portugal é lixo. Vocês acreditam nelas? Eu não. Nem nele.
Na quinta-feira passada, comprei o Público, que tem sido o resistente no meio de todos os jornais nacionais que perpetuaram ou logo se dispuseram a perpetuar este erro crasso na nossa língua. Li com assombro o editorial, que falava de novos grafismos no dia de aniversário. Li também, a contra gosto, alguns artigos que no final diziam “Este artigo vem escrito segundo as normas do Acordo Ortográfico por expresso desejo do autor”, parafraseando. Quase que adivinho (espero eu erradamente) que o Lobby já chegou ao Público e que a celebração desse aniversário em Março deste ano, será a rendição do Público, adoptando o malfadado acordo. Se tal acontecer, considerando o aproveitamento igual de um aniversário da entidade para mudar de política editorial tentando não perder face, e sendo que as entidades supracitadas têm distintos donos, é lógico reconhecer um padrão de acção único para terminar a resistência com os que por último resistiam à mudança. Isso revela-nos um lobby. Espero mesmo estar enganado e que a mudança de grafismo não traga uma mudança de grafia. Assim, pelo menos terei um jornal que me dê prazer a ler.
Mas a “prova” consumada é que, na assembleia da república portuguesa, onde raramente alguém se entende, os 5 partidos que devem representar a esmagadora maioria votante portuguesa, por milagre achou em uníssono que este Aborto Ortográfico era uma brilhante ideia, falhando em representar a maioria da sua sociedade, que dele discorda, bem como os pareceres técnicos que ignorou! E mais, os partidos ousaram fazê-lo, sendo esta uma questão cultural e não política, sem se preocuparem em saber a opinião do povo, o principal criador e agente evolutivo último da cultura nacional, pelo modo mais democrático: o referendo nacional. Eu, que nunca elegi nenhum governo e sempre votei desde que tenho idade para isso, esperei que pelo menos os mais afastados do centro que é o PS(D) (vulgo Centrão), como o PCP e o CDS, respectivamente auto-nomeados protectores máximos da democracia constitucional e da cultura tradicional portuguesa, se manifestassem contra, mas nem esses. Mais uma pista de que um lobby poderoso agiu. A vontade da maioria, reforçada pelo saber técnico, ignorada pelos representantes políticos dessa vontade alegadamente soberana.
Talvez nos casos destes últimos partidos que mencionei acima, o lobby tê-los-á amedrontado com a possibilidade de poderem ver os seus eleitorados a achá-los xenófobos se não assinassem, ou mesmo retrógrados se não dissessem sim à novidade. Sim, medo. Medo foi o maior motivador e a maior razão para o AO. O medo que nos quiseram impor de que como os brasileiros são mais que nós e escrevem mais na net, o nosso português ia ser um mero dialecto no futuro, pois somos meros 10 milhões. Ora bolas, quando é que agir pelo medo surtiu algum efeito bom? Não temos de temer a cultura brasileira, nem a sua ortografia, temos de abraçá-la como cultura de nós descendente e orgulharmo-nos pelos avanços que têm feito por eles. Não temê-los, abraçá-los como parte que são da nossa história e cultura, como nós da deles, independentemente das nossas agora distintas culturas. A diversidade é boa, ou a natureza não teria feito tantas espécies diferentes de tronco comum.
Mas, hey, o país entretanto mudou de governo. Mudou de governo partindo do pressuposto de que o governo anterior levou o país perigosamente perto duma bancarrota, portanto para maus caminhos. Queríamos um novo rumo e um governo que emendasse e corrigisse os erros feitos pelos que vieram antes. Porque não então, professor Marcelo, corrigir este erro, que como o senhor disse, todos sabemos dos seus principais defeitos? Ele respondeu. Disse o ilustre senhor que são meras 4% das palavras portuguesas afectadas e que ficaria mal para Portugal mais uma vez não cumprir o AO (sim, porque isto não é de agora, o lobby teve tempo para se organizar, pois já antes foi 2 vezes derrotado). Mas dito assim até podem pensar que ele até tem razão... afinal o que é 4%, né? É DEMASIADO e eu explico porquê! Quando nos tiram mais 4% do nosso salário líquido, não gostamos. É demasiado. Quando nos aumentam mais 4% nos impostos dos produtos que comemos, que vestimos, dos combustíveis e das energias, até andamos de lado! É demasiado. E não temos, acreditem, maior riqueza que é o nosso património cultural conjunto de toda a CPLP que é por este AO tornado 4% menor apenas para servir interesses económicos ao invés dos desejos da maioria democrática. E nós sempre fomos pequenos e sempre vingámos cá em Portugal. Não temos de ter medo de ser pequenos, desde que a nossa alma nacional continue grande! Outrora conquistámos o mundo, hoje temos dos melhores cientistas e engenheiros no mundo, artistas então estão rapidamente a conquistar o seu lugar nos holofotes internacionais. O nosso problema não é sermos poucos, mas sim termos agentes políticos, comentadores políticos e um grosso dos média, que em bom português, só podem ser adjectivados de merdosos e “sem tomates”, ou cojones como diriam, por supuesto, nuestros hermanos. Se somos bons em algo, é em cultura e ciência, não em política. Não se limitem então a encolher os ombros aos 4%, ou no mínimo dos mínimos, exijam o referendo e que ganhe a maioria. Pois esses 4% de palavras afectadas, são apenas um símbolo, um aviso para dias futuros, de que a democracia, de que a ideia de que o futuro é escolhido por maiorias nos povos, é facilmente manobrável nos seus bastidores por agentes sem rosto ou nome, mas de bolsos fundos e contactos certeiramente posicionados em todas as bancadas políticas. O AO não só é uma afronta à língua portuguesa e ao seu futuro, mas também um ataque à democracia em si! Além de que, já por duas vezes a nossa nação assinou o dito acordo e não cumpriu... o mundo não desabou por causa disso. Não deixámos de ser amigos com o Brasil. Nenhum mal virá de dizermos NÃO uma vez mais, professor Marcelo. A História, ainda mais a História Recente, assim o comprova.
Esta é uma verdadeira batalha pela alma não só deste país, mas também pela alma do Brasil. A única maneira de os ajudarmos a eles, é ajudando-nos a nós e fazer a democracia valer mais que o cifrão! E quando eu digo alma, falo da cultura que se faz (ou fazia) nas ruas pelo povo (sem decreto político por trás), assim como o mero acto democrático no qual hoje (supostamente) baseamos o nosso modo de vida, ao qual chamamos liberdade. Eu não me importo de perder votações, meus amigos, é aquilo a que mais habituado estou, pois sempre votei e nunca elegi nenhum governo. Mas não abdico do meu direito de voto. E no dia em que nós o fizermos, porque “são apenas 4%” (já agora, olhem para os vossos teclados. Já repararam que o 4, de 4%, está exactamente na mesma tecla que o $, símbolo mais conhecido para dinheiro?:), a democracia está finalmente e insidiosamente transformada numa ilusão de liberdade, num mecanismo de controlo à la Matrix, para um punhado de poderosos dominarem as massas.
Acordem, Samurais lusófonos actuais, a vossa cultura precisa das vossas canetas, as espadas desta nova era! Somos os únicos de permeio entre os verdadeiros “ninjas” de hoje e o seu pérfido objectivo! Esses “ninjas”, mercenários altamente especializados que agem furtivamente para fazer valer o desejo de quem mais alto lhes paga, têm apenas como verdadeiros oponentes os N.I.N.J.A.’s (No Incomes, No Jobs or Accepts) como eu, talvez como vocês, mas não se não lutarmos. Vão vocês continuar a ser peões num jogo de xadrez de grandes lordes, ou ovelhas a serem conduzidas pelos pastores, ou vão finalmente lutar por um mundo melhor?
A nossa única vantagem é sermos mais, mas é preciso que não sejam só uns poucos a falar abertamente. Juntem-se a nós, que não estamos organizados, mas sim desconexos, que não lutamos escondidos mas em campo aberto, que não procuramos moldar a opinião pública mas sim apelar a que esta se mova em seu próprio proveito! Nós que lutamos pelos 4%, pelos coitados mudos dos p’s e c’s que abrem vogais, pelo trema ¨ que existia no Brasil até ao AO, e os acentos circunflexos, o vulgo chapéuzinho chinês, que existia em ambas as margens do Atlântico e agora fica em vias de extinção. E através de tudo isso, pela democracia.
Não se importam que a batalha possa já estar perdida, o samurai (aquele que serve algo maior que a si mesmo) luta por honra e porque no seu âmago sabe que o deve fazer. Para um samurai do século XVIII era a vida que estava sempre no fio da espada, nós arriscamos apenas a possibilidade de viver em verdadeira liberdade democrática na ponta da nossa caneta ou dedos. Coisa pouca? Não se a perdermos novamente. De qualquer forma, é preciso mais coragem para agir, do que para simplesmente encolher os ombros e deixar-se levar pela maré dominante. Se temos de perder, que percamos a lutar e não a encolhermo-nos! No filme, “The Last Samurai”, o último samurai diz “A via dos samurai já não é necessária” para o mundo moderno, e o Tom Cruise responde com perguntas:
- Necessary? What could be more necessary?
Despeço-me por ora, com um Bem Haja, dirigido a todos os que lerem isto, quer concordem comigo quer não, gozando-me dos H’s mudos que ainda não se lembraram de nos tirar, antes que venha o próximo AO e os descrimine também, pois coitadinhos são mudos e não podem falar por si mesmos!
bem Hajam,

Alexandre Fanha, confesso e actual N.I.N.J.A. integrante da geração À Rasca, assinante nº 127853 da petição cujo link vos deixo abaixo, signing off 4 now...

http://www.ipetitions.com/petition/manifestolinguaportuguesa/?utm_medium=email&utm_source=system&utm_campaign=Send%2Bto%2BFriend




Versão PDF deste post para quem quiser imprimir (cumprimentos do blog X-Number de um amigo meu):
http://www.x-number.com/blog/wp-content/uploads/2012/02/Desacordo-Ortográfico-e-Democracia.pdf