quarta-feira, 26 de maio de 2010

Burakumin

A tradução literal da palavra que dá título a este post é "pessoas dos bairros pequenos". Contudo, a sua conotoção é muito mais profunda e discriminatória que tal tradução poderia levar a crer. Os Burakumin são uma das minorias sociais do Japão, cujo estigma social já advém da época do Japão feudal. São sobretudo descendentes de pessoas que tinham trabalhos considerados sujos ou impuros e que eram no passado chamados eta (massas porcas). Esses trabalhos incluem tudo o que fosse relacionado com a morte, como coveiros, talhantes, executores e por aí adiante. Este estigma ligado a estas profissões está intimamente ligado com a visão de Kegare( conspurcação) do Shinto. O Shinto diz que a divindade vem através da pureza e a falta de divindade surge da falta de pureza, e vai mais longe, dizendo que as impurezas se podem agarrar às pessoas ou às coisas tornando-as más. É dito que o estar continuamente a matar animais ou fazer qualquer maldade que vá contra o statu quo moral da sociedade torna a pessoa mais impura e que tais pessoas devem ser colocadas de parte pela própria sociedade afim de não a contagiar com a sua impureza.


Não se sabe ao certo quando começaram a surgir estas comunidades ostracizadas, sendo que algumas teorias dizem que pessoas que tivessem ocupações tida como impuras eram ostracizadas, enquanto outras teorias ditam que as pessoas ostracizadas eram forçadas a ter como ganha pão as profissões que ninguém queria. É também dito que, durante as guerras internas da Era Muromachi, certas populações foram forçosamente realojadas e colocadas a trabalhar em postos de baixa condição, como os serviços sanitários públicos. No período Edo, quando o sistema de castas sociais foi implementado, os eta foram colocados no nível mais baixo da sociedade, um nível externo às 4 castas oficiais. Mas como nas outras castas, os eta eram submetidos a leis que estavam de acordo com a herança dos seus antepassados directos. Viviam sobretudo em bairros segregados e as pessoas das castas superiores, desde o comerciante até ao samurai, procuravam distanciar-se deles. Os Burakumin eram também compostos por um outro subgrupo, os hinin(literalmente: não-humanos). A definição deste grupo varia com as épocas, mas essencialmente seriam ex-presidiários, errantes que assumiam postos de guardas de cidade, limpadores de rua, ou jograis de rua.


Mas esta discriminação e a segregação subsequente eram usados como ferramentas de controlo pelo governo da época. Por exemplo, os burakumin tinham normalmente os seus próprios templos designados e não podiam entrar noutros locais religiosos. E enquanto aos japoneses budistas das 4 castas eram, muitas vezes, dados nomes póstumos, aos burakumin eram dado nomes que incluiam kanji(caracteres japoneses) que querem dizer besta, humilde, ignóbil, servente e outras expressões depreciativas. Estas pessoas, nos tempos feudais, não tinham de pagar impostos, pois os impostos eram pagos em dádivas de arroz, que os burakumin eram proibidos de ter. Devido a isto, alguns ostracizados eram chamados kawaramono (pessoas do rio de leito seco), pois viviam ao pé de rios que não suportavam a cultura do arroz. O mais interessante é que, por terem o monopólio na sua área comercial, alguns burakumin chegaram a fazer grandes fortunas e, através de casamento, ou de direitos especiais concedidos por templos ou pela corte imperial, chegaram à casta dos samurai.


Com o fim da Era Feudal, o imperador Meiji emitiu um édito, chamado Kaihôrei (o édito da emancipação) que dava direitos iguais aos eta. Contudo, as mentalidades são de mudança lenta e o próprio povo continuou a descriminar esta minoria. A continuação do ostracismo e o piorar das condições de vida, levaram a que as áreas ocupadas pelos ostracizados se tornassem em bairros de lata. No início do século XX, o movimento de direitos sociais dos burakumin foi criado e pode dividir-se em duas vertentes ou ramos. O movimento da assimilação (dowa) que se centra na melhoria das condições de vida destas pessoas, e os "niveladores", que confrontam alegados discriminadores. No período Pós-2ª Guerra Mundial, a discriminação continuou desta feita com a impossibilidade de obter certos serviços nas áreas dos buraku. Continuam a ter problemas de analfebetismo, pobreza, más condições de habitação e por aí adiante. Entretanto, cerca de 60% dos membros da Yakuza (mafia japonesa), são originários de buraku! É normal na História do Mundo, os ostracizados virarem foras-da-lei! Para aqueles que gostam de Dr House, há um episódio que revi há pouco tempo em que o House explica porque se decidiu tornar médico. Quando era novo, o seu pai, militar de carreira, estava colocado no Japão. Quando o House teve de levar um amigo dele ao hospital, porque caiu numa das suas brincadeiras, cruzou-se com um empregado de limpeza que por todos era ignorado e desprezado. Mais tarde, House viu médicos a falarem com ele, pois não conseguiam perceber o que um dos seus doentes tinha. Esse empregado de limpeza era um burakumin, mas também era médico. Não podia exercer a sua profissão devido ao estigma social, mas quando precisavam das suas capacidades acima da média tinham de se "rebaixar" a falar com ele, "porque ele estava sempre certo" como diz o House. Foi assim que o Dr House se tornou no médico que quer estar sempre certo, porque assim mesmo que não gostem dele, precisam dele e não o podem pôr de lado!


A minha interpretação do código do Samurai - Capítulo 3

Diz-nos o código que o bushido tem 2 tipos de leis, sendo que cada um dos tipos está dividido em 2 secções.

Os dois tipos de leis são as ordinárias e as extraordinárias.

Uma das secções das leis ordinárias trata o cavalheirismo: manda o samurai tratar da sua higiene pessoal com assiduidade, ordenando que devem lavar mãos e pés, tomar banho de manhã e à noite, cuidar do cabelo todos os dias e manter a parte superior da testa bem rapada. Devem observar a etiqueta de cada situação, vestindo as vestes adequadas para a ocasião, assim como se fazer sempre acompanhar das duas espadas à cintura e dum leque, no cinto. Sendo o samurai o anfitrião, deve ser cortês com os convidados, de acordo com a sua categoria, evitando conversa desnecessárias. A etiqueta e os modos devem estar presentes mesmo ao partilhar uma refeição ou tomar chá. Nos tempos livres, em que está fora de serviço, o samurai não pode ficar ocioso, devendo sim procurar a cultura e o saber histórico, através da leitura e da escrita, de forma a cultivar o seu espírito. Em tudo o que faz na sua vida, o samurai deve comportar-se segundo a disciplina e maneiras próprias de um samurai.

A outra secção das leis ordinárias trata a arte marcial: esta secção refere as várias artes de guerra que fazem parte da arte militar e diz que o samurai deve treiná-las todas com afinco e entusiasmo afim de alcançar a mestria em cada uma delas.

O código diz então que, aos olhos da maioria das pessoas, desde que as leis ordinárias sejam respeitadas e cumpridas será o suficiente para se ser um bom guerreiro. Contudo, o samurai é um guerreiro que deve ser mais que simplesmente "bom". Ele serve exactamente para agir em situações extraordinárias e de emergência. Nessas alturas, o samurai deve abandonar os trajes cerimoniais e vestir armadura e envergar armas, em defesa do seu senhor. São diversos os métodos de organização de uma campanha militar e esses métodos são de conhecimento essencial. Tal como estes métodos de preparação de campanha, é essencial também ao samurai saber orientar o seu exército em batalha, frente ao inimigo. Um samurai de baixa ordem pode contentar-se em cumprir a lei ordinária, mas para ascender a posições de primeira, o samurai é obrigado a ter profundo conhecimento da lei extraordinária!

Basicamente, o que o código indica é a diferença entre um líder e um seguidor. Mesmo nos dias de hoje, os líderes são aqueles que procuram conhecimentos mais profundos afim de agir e dar rumo à sociedade, enquanto que a maioria tem apenas um conhecimento básico das normas gerais da sociedade afim de viver a sua vida dentro da lei vigente. O ideal é um país de samurais de 1ª... de pensadores livres, conscientes do seu dever cívico, mas também dos seus direitos. Enquanto a maioria de nós se contentar em saber apenas o mínimo necessário, a crise social e económica que se abate sobre o nosso país e mundo, embora possa ser remendada ou ocultada, nunca deixará de existir, e qual um cancro em falsa remissão, ressurgirá para nos destruir. Acordem, leiam e pesquisem. Pensem por vocês mesmos, e aprendam a ler as entrelinhas do que é dito nos jornais e telejornais. Sejam samurais dos século XXI.

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